Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

Oba, mudanças!!!!

Este blog, desde que foi fundado em 2002, já se mudou algumas vezes. Primeiro ele foi http://discotecabasica.blogspot.com, depois http://www.discotecabasica.blogger.com.br e, depois de alguns contratempos, ele ganhou sua URL na qual está até hoje: www.discotecabasica.com. Mas nesse ínterim, eu resolvi não pagar mais o servidor antigo que eu usava - nada pessoal, só resolvi economizar quando vi que o desemprego estava batendo à minha porta (não está mais, já aviso). Mantive a URL, a qual pago anualmente, mas uso para hospedar o site o endereço http://dbasica.blogspot.com. Os leitores que conheceram o blog de um ano para cá (uma leitora nova chegou a me enviar um comentário, bem simpático por sinal, de parabéns pelo aniversário de um ano do blog em janeiro de 2007 - o que indica que, graças a deus, tem gente nova entrando pra ler) já se habituaram a entrar neste endereço e há quem nem saiba do pontocom.
Pois bem, graças ao convite feito pelo Alexandre Inagaki e pela autorização dada pelo Edney Souza - isso sem esquecer da ajudinha dado pelo Ian Black - estou de casa nova agora. Este blog mudou-se para o portal Interney Blogs e pode ser lido neste endereço: http://www.interney.net/blogs/dbasica. Lá já tem muita gente boa - o volume de blogs legais (fico feliz pelo meu estar no meio) já pode ser visto no portal do Interney.

ARQUIVOS DO DISCOTECA BÁSICA: Penso em pegar todos os textos publicados entre 2002 e 2005 e deixá-los num arquivo qualquer do Badongo, do Rapidshare ou algo assim. O blog antigo ainda poderá ser lido aqui no http://dbasica.blogspot.com, mas passando alguns dias do primeiro dia do ano (a segunda-feira que vem) vou direcionar o www.discotecabasica.com para o endereço novo. Provavelmente os arquivos de 2006 vão também ser copiados e hospedados em algum arquivo .zip ou .rar pra facilitar a leitura, ou sei lá o que. Fato é que quem quiser ler o Discoteca Básica agora que vá pro endereço novo, blz?

Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

Wood & Stock / Falcão


"WOOD & STOCK - SEXO, ORÉGANO E ROCK´N ROLL" - VÁRIOS (Deck)

A trilha de Wood & Stock - Sexo, orégano e rock´n roll (desenho de Otto Guerra baseado - opa - nas histórias em quadrinho de Angeli), segundo testemunhas, está longe de ser melhor que o filme - digo "segundo testemunhas" porque, por falta de tempo, nem eu mesmo pude ainda assistir. Mas diverte bastante, como tem acontecido com várias trilhas de filmes nacionais recentemente lançadas. E ainda serve como momento histórico bastante interessante. Quantas vezes na sua vida você pôde pegar o encarte de um CD lançado por uma gravadora de grande porte (no caso a Deck Disc) e ler lá: "fonograma cedido pela Baratos Afins?". Foi a veterana gravadora independente paulista que forneceu os fonogramas da banda alagoana Mopho. Até fonogramas publicados na revista-CD Outracoisa, de Lobão, aparecem, já que Arnaldo Baptista pinta no CD tocando sua versão para "Woody Woodpecker", um dos temas do Pica-Pau (aquela do "everybody thinks I'm crazy"...).

A história dos dois velhos hippies é muitíssimo bem contada em CD, com músicas de artistas antigos e novos. Júpiter Maçã é um dos mais ativos da trilha, servindo de música de fundo em vários momentos, com músicas de momentos diferentes de sua carreira. Tem várias de A Sétima Efervescência, como "The freaking Alice (Hippie Under groove)", quase uma lição sobre cogumelos psicodélicos, e "Querida Superhist x Mr. Frog", mas também tem a maravilhosa "A marchinha psicótica de Dr. Soup", herdeira direta da psicodelia de Ronnie Von e das marchinhas ingênuas de Abílio Manoel - isso sem falar no hino "Um lugar do caralho". Rita Lee, que faz a voz da Rê Bordosa - ressucitada especialmente para o filme, já que o quadrinista Angeli matou a personagem em 1987 - aparece com duas faixas de seu primeiro LP solo, Build up, a engraçada "Hulla-Hulla" e a gospel-irônica "Eu vou me salvar".

Entre as outras surpresas do CD, encontram-se os alagoanos do Mopho, elogiados pelo próprio Rogério Duprat durante uma entrevista - a balada triste "Quando você me disse adeus" emociona e encanta no meio de um disco que tem a descontração como mola mestra. "Ferro na boneca", do primeiro LP dos Novos Baianos, É ferro na boneca (1970) vem para mostrar que Moraes, Galvão, Baby & etc não faziam apenas samba-rock-choro - o som é pesado, com guitarras, gritos psicodélicos a la Tropicália, etc. "Um Oh! e um Ah!", de Tom Zé é o lado tropicalista brincalhão (mais até do que experimental) do CD. E boa parte desses fonogramas nem sequer teria ido parar aí se não fosse o crescente hábito dos fâs de pedras obscuras do rock nacional, de estar sempre trocando mp3 e baixando discos desconhecidos da internet. Pois é... Os "ladrões" de música têm muito a ensinar, até mesmo ás grandes gravadoras.

"WHAT PORRA IS THIS?" - FALCÃO (NC Music)

Você soube que o humorista e cantor cearense Falcão lançou disco novo? Não? Se não soube, nem esquente a cabeça. Quase ninguém que não faça parte do fâ-clube do cantor deve ter sabido mesmo - logo ele, que chegou a ter até anúncio de página inteira em jornais cariocas quando saiu o relançamento em CD, pela BMG, de seu primeiro disco solo, Bonito, lindo e joiado, lançado originalmente à própria custa (antes da BMG, a Continental chegou a bancar uma reedição, até com poucas cópias em CD).

Pois é. What porra is this, mesmo nome de um CD-ROM que o cearense chegou a lançar faz uns dez anos, é uma boa volta ao passado. Após alguns álbuns caidaços, o cantor (ou "cantor", como querem alguns) foi para o pequeno selo NC music e lançou um disco que tem uma característica fundamental para um CD lançado por um humorista: é engraçado. Engraçado, mas não de fazer ninguém rolar de rir: é irônico, como são aquelas boas piadas que você escuta e só ri meia hora depois. E, vá lá, tem um som bem legal, brega-rock bem gravado, com guitarras sacadas de Peter Frampton e Eric Clapton e até arranjos numa mescla de The Police e Lulu Santos fase "Último romântico" - em "Amanha será tomorow", um ajuntamento de frases escrotas. Já o rock´n roll "Fome zero-a-zero" é a melhor crítica que o governo Lula poderia ter recebido, valendo mais de mil discursos - "No Brasil nem tudo está perdido/muita coisa ainda há para se perder/(...) para sair o zero-a-zero contra a fome/encher o bucho é nosso melhor projeto".

Daí para diante, duas coisas são perceptíveis. A primeira: Falcão, assim como Caetano Veloso em , tentou fazer um disco de rock - com boas guitarras, gravação bacana, teclados bregas que não ferem o ouvido e letras cáusticas (confira "Doa a quem doar"). A segunda: o mensalão e a sacanagens de Brasília preenchem o disco todo e ganham sátiras engraçadíssimas (caso da havaiana "Ordem e progresso", dos versos: "se Satanás morasse em Brasília/seria com certeza aprendiz"). Mais: se nos primeiros discos ele era o cara que mais conseguia satirizar o comportamento besta de boa parte dos cânones emepebísticos, What porra is this? volta a isso com força total, em faixas como o reggae "Desculpe ter-lhe visto", "Alguma coisa acontece no meu bucho" (a letra é um discurso sobre fome que valeria a pena ser enviado num iPod para o Palácio do Planalto), "A sociedade não pode viver sem as pessoas" (só esse título já vale a música). Já "Doze perguntas que podem cair na prova" é o lado Tom Zé-satírico-brega de Falcão. E ainda há espaço para uma homenagem ao soulman nordestino Paulo Diniz, com a regravação de "Severina Cooper (It's not mole não)", sucesso seu dos anos 70.

Além de What Porra is This?, o fâ de Falcão pode se divertir também com a coletânea Maxximum, lançada pela Sony & BMG, trazendo 20 sucessos dos discos que o cantor deixou na multinacional - fase que vai do relançado Bonito... a Quanto pior, melhor, lançado numa fase em que ele chegou a ter um programa semanal na Rede Bandeirantes, Falcão na contramão. Tem de tudo lá: "Ai! minha mãe", "Isaltina", "A terra há de comer (Já que eu não comi)", "Black people car" (versão em inglês de mentira para "Fuscão preto"), "I'm not dog no" (idem para "Eu não sou cachorro não"), etc. Só não dá pra entender porque é que um conhecido site de vendas on-line resolveu oferecer esse CD em venda casada com o livro Jesus: o maior psicólogo que já existiu, de um sujeito chamado Mark Baker (!). Quanto a What porra is this?, não faço idéia de como você vai conseguir esse disco, já que nenhum site vende. Tente descobrir no site do cantor, www.sitedofalcao.com.br.

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

Pesquisando a MPB *


Quem se interessa pela história da música popular brasileira e mora em Niterói pode nem saber, mas aqui mesmo na cidade está sendo realizada uma das mais completas e ambiciosas pesquisas sobre MPB. Tal trabalho vem sendo feito pelo Instituto Memória Musical Brasileira, que cataloga todas as informações possíveis sobre discos brasileiros e também valoriza o resgate das capas dos álbuns - tão esquecidas nessa era pós-CD.

O IMMUB foi fundado, curiosiamente, por um alemão fâ de música brasileira, Andreas Pavel. O acervo do Instituto foi reunido pelo pesquisador Silvio Julio Ribeiro, que começou a pesquisar discos nacionais inicialmente para o site Cliquemusic. Hoje, no Instituto, somam-se ao acervo antigo várias novidades, como DVDs, livros sobre música e pesquisas sobre artistas que muitas vezes não aparecem nos grandes catálogos sobre a história da MPB (como os chamados artistas "bregas", populares, e a produção independente e regional do país).

- Nós conseguimos reunir informações sobre cerca de cem mil discos fabricados no Brasil, além de mais de 25 mil partituras originais da Banda do Corpo de Bombeiros do Estado do RJ. - diz o presidente do IMMUB, João Carlos Carino. - Temos desde o primeiro disco fabricado no Brasil, de 1902, com todas as informações sobre ele, até discos lançados ontem. É complicado catalogar tudo, porque afinal são lançados 200 discos por mês no Brasil, em média.

Tal acervo pode ser pesquisado no site do Instituto. Para consultar virtualmente o acervo, é só clicar em "pesquisa" e fazer buscas.

- Não há necessidade de um acervo físico. Pesquisando no site, você pode cruzar informações, descobrir quais discos foram lançados por determinado artista numa certa época, ou numa certa gravadora, etc. - diz Carino, afirmando que há idéias ainda mais amplas. - Não temos ainda condição de fazer isso, mas queremos digitalizar o acervo para que ele possa ser ouvido no site.

O Instituto já está fazendo mais projetos. A Petrobrás (que já patrocinava a pesquisa feita por Sílvio Júlio desde antes do IMMUB) vem dando apoio a alguns deles, como a elaboração de um CD-Rom só com informações sobre discos brasileiros, e também um ambicioso projeto sobre capas de discos.

- Vamos pegar todas as capas dos discos da nossa pesquisa e fotografá-las com uma definição boa. Muitas fotos que existem na internet não têm qualidade. Nossa idéia é ir na casa da pessoa que tem o disco, fotografar capa, contracapa, encarte etc. Isso tudo ficará disponível no site. - diz Carino, com os olhos voltados também para Niterói. - Temos um contato muito bom com a Secretaria de Cultura e temos vontade de fazer um projeto com os grandes compositores da cidade. Isso pode virar um DVD.

Sem banalidade Para dar visibilidade ao IMMUB, o jornalista carioca Tárik de Souza criou o site Jornal Musical, vinculado ao instituto.

- Nossa idéia é seguir nessa linha de pesquisa do Instituto. A gente acha que há uma dificuldade muito grande das pessoas em preservar a memória cultural. Aqui no Brasil é tudo muito fugaz, rápido. - diz Tárik, que edita o site. - Sinto falta inclusive de um espaço maior para a música popular nos jornais.

Justamente por isso, Tárik diz que um dos objetivos do Jornal Musical é evitar a cobertura banal, do dia-a-dia - algo importante, numa época em que boa parte do jornalismo cultural nas grandes mídias é pautado. Como exemplo da área na qual o Jornal atua, ele cita a série Samba 90. Iniciada ano passado, ela comemora o aniversário de 90 anos do gênero musical.

- O marco inicial foi a gravação de "Pelo telefone", por Donga. Ele gravou em 1916 e a música estourou em 1917. Para as matérias, pegamos depoimentos dos que estão vivos, fizemos uma retrospectiva dos que já morreram, coversamos com herdeiros etc. É história viva. - diz Tárik, lamentando não ter conseguido falar com a neta do sambista Sinhô. - Ela não se interessa em saber da herança musical dele, nem quer conversar com a imprensa. Mas pudemos falar com a filha do João da Bahiana, que tem até quadros pintados pelo pai.

No Jornal, o leitor pode encontrar, além das pautas históricas, várias resenhas e entrevistas com artistas. E há também o Disco em Debate, no qual um disco de música brasileira é discutido por vários jornalistas, podendo entrar ou não na "discoteca básica de música brasileira" do site.

- O público vota se o disco merece entrar na discoteca. Tentamos colocar algo que seja "quente". O primeiro disco dos Mutantes, por exemplo, foi votado na semana em que iria acontecer o show deles no Rio. - diz o editor executivo do Jornal, Marco Antonio Barbosa, revelando uma preferência dos leitores. - Discos mais voltados à música pop geralmente não entram, como aconteceu com o À procura da batida perfeita do Marcelo D2.

Foto: reprodução do site do IMMUB.

*publicado no Nitideal

Terça-feira, Janeiro 30, 2007

E se o Peru da Festa virasse Discoteca Básica da Bizz


Desafiado por um colaborador da Bizz, o jornalista paulista Leandro Saueia, que já colaborou com sites como o saudoso Ruídos, escreveu sua versão "Discoteca Básica" (a da Bizz, não esta aqui) para o clássico do Costinha, Peru da festa. Tudo o que há nesse texto, claro, é a mais deslavada mentira.


"O PERU DA FESTA" - COSTINHA (CID)

O fim dos anos 70 não foram fáceis para o humorista Costinha (nascido Lírio Mário da Costa em 1923). Relegado ao papel de coadjuvante em programas humorísticos de domingo a tarde tipo “Balança mas não cai” os dias de ouro de rei do cinema popularesco há muito haviam se passado (ainda que um ou outro papel antológico como o do caçador em Histórias que Nossas Babás não contavam dessem um pouco de brilho a uma carreira que caminhava para o ocaso).

Conta a lenda que enquanto fazia um show em uma boate carioca na segunda metade dos 70, Costinha sem querer bateu com o microfone em sua boca no meio de uma anedota e sem querer soltou um “puta que pariu”, que levou a platéia a ter orgiásticos ataques de risos. Mesmo temeroso com a censura - que ainda estava a toda - ele arriscou mais um "merda" aqui, um "filha da puta" acolá... e assim nasceu a figura definitiva do humorista que ficou para a posteridade.

Aos poucos Costinha foi ganhando uma aura cult, enquanto mais e mais pessoas viam suas apresentações. Quem assistiu diz que elas eram antológicas. Afinal, mais do que rir, o que se via era uma grande comunhão entre artista e platéia - que por alguns minutos podiam esquecer a rotina dura de desaparecidos políticos, Programas como os de Amaral Neto e as tradicionais Semana do Presidente no Sílvio Santos.

Era a hora de levar isso tudo para o vinil. Mas como? Sem os palavrões não haveria sentido tal empreitada. E foi aí que entrou em cena um dos grandes heróis não reconhecidos da nossa história: Pedro Joaquim dos Anjos, presidente da CID Discos. Essa lançava basicamente discos de boleros e enganava os incautos com discos que pareciam ser dos Beatles, mas que na verdade só tinham regravações feitas por brasileiros. Pedro resolveu peitar a censura e falou: “Costinha, vamos gravar essa merda e se alguém reclamar que se foda. Eu seguro o pato”. Costinha retrucou: “Já que vai segurar o pato aproveita e segura o meu peru”.

E desse jogo de palavras nascia o Peru da Festa.

Por ainda não terem à disposição equipamento e know how para gravar ao vivo, Pedro buscou inspiração em discos como Slade Alive, do Slade, e Nighthawks at the dinner, de Tom Waits, e resolveu simular uma apresentação ao vivo. Mais ou menos 30 pessoas adentraram os velhos estúdios da SOMA em julho de 1981 e assistiram a um festival de anedotas que iam da mais sutil ironia à mais pesada grosseria (um crítico na época comparou ao White album inclusive).

Quando foi lançado, o disco imediatamente estourou - muito por conta da capa que se tornou emblemática com o passar dos anos: Costinha nu a frente de uma mesa, com um peru e o título O Perú da Festa (até hoje não se sabe se o acento foi erro do tipógrafo, burrice mesmo ou uma homenagem á grafia de Peru – o país – em seu idioma de origem). Isso tudo em um vinil lacrado, e ainda tinha a frase RIGOROSAMENTE PROIBIDO PARA MENORES DE 21 ANOS, que só deixava a coisa ainda mais excitante.

Com vendas que hoje superam as 400 mil cópias, o Peru teve mais três seqüências, sendo a terceira igualmente brilhante com piadas como a da foda no circo, a do bigode do gato e a do tapete de onça. O legado também é imensurável: do Casseta & Planeta a trupe do Hermes e Renato, que injetou ácido – falo de humor e não de alucinógenos – à receita original, é quase impossível achar quem não tenha se influenciado.

O Peru da Festa salvou a carreira da CID e também a de Costinha, que voltou ao primeiro time do humor brasileiro. Ele encerrou sua carreira de forma muito digna em 1994, vítima de um câncer quando desfrutava de enorme sucesso na Escolinha do professor Raimundo. Do céu ele provavelmente deve estar orgulhoso de seu legado ainda que provavelmente preferisse falar para nós aqui embaixo, bem ao seu modo: “Ah pelo amor de Deus, para com isso VÃO TOMAR NO CU”.

DADOS – lançados originalmente em 81, 82 e 83. Relançamento em cd pela CID em 89 com problemas de masterização e pela Rhino CID em 2002 que deixa o ruído dos garfos tão nítidos que dão a impressão de que você está lá no restaurante. Diz-se que existem alguns minutos não lançados das sessões originais e que pelo menos duas ou três dessas piadas eram tão boas que fizeram os ossos de quem as ouviu sair pela bunda.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Relançamento: Mutantes


"TUDO FOI FEITO PELO SOL"/"MUTANTES AO VIVO" - MUTANTES (Som Livre, 1974 e 1976)

Se hoje já há quem ache essa volta dos Mutantes a coisa mais sem sentido do mundo (não é meu caso), imagine o que sobrou para o período em que o guitarrista Sérgio Dias se juntou a outros músicos, a partir de 1973, e deu a essa (s) formação (ões) o nome de Mutantes. Inicialmente com Antonio Pedro (futuro baixista da Blitz), Rui Motta (bateria) e Tulio Mourão (teclados), o grupo conseguiu contrato com a Som Livre e gravou Tudo foi feito pelo sol - que, ajudado por propagandas na Rede Globo , vendeu mais que todos os discos da banda até então.

Agora a Som Livre recoloca nas lojas - com capas originais e embalagem digipack - os dois ábuns dessa fase. Tudo foi feito... bem poderia não ter recebido o nome Mutantes - não tem nada a ver com nada feito pela banda, nem que seja levado em conta o progressivo e ainda inédito até aquela época O A E O Z, já que o clima é bem outro, menos messiânico. O tom sisudo das melodias afastou o baixista Liminha, que compôs quase todo o repertório com Sérgio. Ainda assim, pode ser considerado um dos discos mais criativos do rock progressivo nacional, dosando influências de Emerson, Lake & Palmer, Yes e música instrumental brasileira, em faixas como o hard rock "Deixe entrar um pouco de água no quintal", o prog-barroco "Pitágoras" (de Túlio) e em inovações como o final rock´n roll de "Eu só penso em te ajudar" e o baixo com pedaleira de "Cidadão da Terra". Para completar, a Som Livre liberou como bônus as faixas do EP Cavaleiros Negros, a melhor coisa que essa formação dos Mutantes deixou gravada lá nos anos 70.

Em Mutantes Ao Vivo, de 1976, a casa caiu. O disco era para ser um duplo ao vivo, mas a Som Livre não deixou - e liberou pouca verba. Sérgio e Rui, ao lado de novos músicos (Paul de Castro, baixista e originalmente um guitarrista, e Luciano Alves, nos teclados), quiseram gravar um show da banda no MAM e chamaram o produtor Pena Schmidt para dar uma editada no master. Mau negócio: em quase todas as músicas se percebe tesouradas, o que torna tudo muito constrangedor, ainda mais com a péssima gravação/mixagem. O repertório meio encaretado, sem as inovações do disco anterior, completam o circo. Vale como registro histórico.

Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

Notinhas

+ Tem mais Humaitá Pra Peixe no blog da Bizz.
+ A banda carioca grandprix lança parte de seu novo EP no MySpace, com release meu. Vejam .

Terça-feira, Janeiro 23, 2007

O livro do Rei

"ROBERTO CARLOS EM DETALHES" - PAULO CÉSAR DE ARAÚJO* (Planeta)

A essas alturas, Roberto Carlos em Detalhes já deve ter virado um best-seller tão grande quanto os próprios discos do Rei - pelo menos os dos bons tempos, já que os mais recentes, em sua maioria, vendem mais pela fama e pelo nome do Rei do que por qualquer coisa. Só pra você ver, o livro do jornalista e historiador Paulo César de Araújo é a melhor coisa com o nome de Roberto Carlos a aparecer nas lojas nos últimos tempos. E nem por isso deve servir para dar um refresco na carreira do Rei, que já ameaçou o autor de processo (mas não conseguiu nada, ao que parece) e provavelmente vai seguir fazendo as coisas da mesma forma.

Ainda que o livro tenha servido para mostrar qual é o verdadeiro papel de Roberto na MPB, ainda que Paulo César tenha conseguido fazer um livro sobre a história da música brasileira tomando Roberto como um grande fio condutor, ainda que ele tenha arregimentado um verdadeiro exército de grandes nomes para falar do Rei (tem até Dorival Caymmi!), o que importa para RC é seguir na mesma linha idiota e corporativa que rege quase 100% do ramo da música no Brasil. Aqui, com raras exceções, biografar artistas, só se for pra transformar o cara num deus-astronauta. Ninguém é inimigo de ninguém, ninguém comeu ninguém (mesmo A vida até parece uma festa, dos Titâs, não explica certas fofocas que rondavam a banda nos anos 80), ninguém prejudicou ninguém, etc. E como eu sigo a teoria de que pessoas famosas não têm direito à vida particular (quem quer ter privacidade que vá ser escriturário ou contador), só me resta considerar Roberto Carlos em detalhes um dos livros mais corajosos e ricamente apurados da história da música brasileira.

Agora que Roberto deve dar uma entrevista dizendo quais foram as partes do livro que fizeram com que ele se sentisse prejudicado (ele já falou disso, afinal? disseram que ele não gostou da parte que fala sobre Maria Rita) talvez dê pra entender alguma coisa - mas já que o Rei disse que sua vida é seu "patrimônio", dá pra entender muita coisa. Seja como for, Roberto Carlos em detalhes é um puta livro e merece respeito pela trabalheira que deu e pela fluência de sua leitura. É um caso raro de livro MUITO grande - em extensão e peso - que não cansa. A história do livro começa lá na infância de Paulo César - que já era fã de RC desde a infância, quando morava em Vitória da Conquista, na Bahia - e segue pela extensa pesquisa que ele fez, consultando jornais brasileiros e estrangeiros, correndo atrás de fotos raras e buscando declarações de raridade inestimável. Tim Maia aparece falando sobre como foi, digamos, passado para trás por Roberto na época de sua primeira banda; Ronaldo Bôscoli fala sobre como as manias de Roberto zicaram sua primeira e única parceria com ele, em 1980 ("Procura-se", música pouco conhecida do LP que tem "A guerra dos meninos"), etc.

Surgem aqui e ali declarações do próprio Roberto, pinçadas sabe-se lá de onde - Paulo Cesar diz que Roberto nunca lhe deu uma entrevista, mas na própria abertura do livro diz que ele andou frequentando algumas coletivas e que chegou a ir na casa do Rei, na aba do jornalista Lula Branco Martins. Aliás, as peripécieas de Paulo César atrás da equipe do Rei devem ter sido um dos detalhes (opa) que mais irritaram Roberto, que não mexe em seu próprio time faz séculos. Ainda que, em vários momentos, sua equipe sirva até mesmo para alimentar suas próprias manias de uma forma que talvez lhe seja bem mais prejudicial do que ele imagina - o livro chega a citar aquela fábula sobre o pedreiro que chegou para trabalhar de calça marrom na casa do Rei e foi barrado na porta pela equipe (como não deve haver muitos pedreiros morando na Urca, imagine o cara voltando pra Nova Iguaçu puto da vida).

Seja lá o que for que aconteça com Roberto Carlos em Detalhes, o que importa é que o livro já é tão histórico quanto os melhores discos do Rei. A decisão da editora de manter o livro em catálogo - foi um dos primeiros projetos negociados por eles, em boca de siri total - já mostra, para quem ainda não leu o livro (tá, o preço - 60 paus - não ajuda muito...) que o trabalho realizado é sério, bem sério. Roberto, que não é um cara lá muito chegado em leitura (talvez por isso ele nem tenha vindo à público para falar detalhadamente sobre o que deixou ele tão puto assim no livro), pode até nem fazer idéia disso, mas seu "patrimônio" está em muito boas mãos.

Aliás, só ficaram duas coisas sem explicação no livro:

1) Onde foram parar Bruno Pascoal e Gato, respectivamente ex-baixista e ex-guitarrista da primeira banda de RC? No livro diz o que aconteceu na época em que eles saíram da banda, mas onde estão eles hoje?

2) Porque é que Paulo César Araújo não convidou Raul de Souza para dar depoimento no livro? Raul, hoje morando na França (ele visou recentemente o Brasil e até concedeu uma longa e ótima entrevista para o site Gafieiras), foi membro do naipe de metais do Rei por um bom tempo. Para ele meter o pau em Roberto é um palito e para contar casos escabrosoas da época, é outro. A história de quando ele pulou em cima do Rei chamando-o de "crooner do RC7" e ameaçando arrancar sua perna mecânica - ele estava puto da vida com alguns pagamentos atrasados - é de chorar de rir (saiu numa entrevista dada à revista Vip, há alguns anos).

* um erro FDP de revisão deixou que o livro aparecesse aqui como sendo escrito pelo próprio RC. Foi mal.

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Mais Humaitá Pra Peixe

A segunda semana do Humaitá Pra Peixe tá aqui.

Killers / U2*


"SAM'S TOWN" - THE KILLERS (Island/Universal)

O segundo disco da banda norte-americana The Killers era aguardado. E como. Após Hot fuss, o alegre primeiro álbum, no qual a banda unia tudo o que conhecia de Duran Duran, New Order e The Cure (este, clara influência nos vocais de Brandon Flowers) e criava hits excelentes, muita gente poderia apostar num segundo álbum melhor ainda - e a banda até que colaborou para tais expectativas, dellarando que o segundo álbum seria "um dos melhores discos de rock dos últimos 20 anos". De Sam's Town, dá pra dizer que valeu a intenção de Brandon, Ronnie Vanucci (bateria), Dave Keuiining (guitarra) e Mark Stoermer (baixo).

Gravado parte num estúdio dentro de um cassino em Las Vegas, terra dos caras, parte em Londres, o disco novo vem num tom mais "pra baixo", distante das ótimas canções do disco anterior. Deixa entrever um certo apego a "conceitualismos", que pouco têm a ver com o que se espera de uma banda festeira como os Killers. O lance é que, de qualquer jeito, é um disco ousado. A faixa-título, que abre o CD, tem um tom épico e quase operístico em alguns momentos - embora tais detalhes se encaixem na argamassa dance-rock que a banda já criara em seu disco anterior, sem muitos problemas. Logo depois, vem um "interlúdio" de piano-e-voz que convida o ouvinte a embarcar na do disco: "Esperamos que você aproveite a estada/É bom ter você com a gente/Mesmo que seja só por um dia". O mesmo tom épico continua em "When you were young", bom hit, repleto de riffs com referências power-pop, mas bem inferior a eles mesmos há dois anos.

É nessa base que a banda talvez jogue algumas duchas de água fria em vários fãs, já que mesmo os hits mais dançantes do disco são caídos, se comparados aos de Hot Fuss. O grupo tem sido acusado por muita gente de tentar copiar o U2, coisa que nem é mentira: Brandon Flowers, que já soou idêntico a Robert Smith do Cure, dessa vez imita Bono Vox direitinho - seja em "Bling (Confession of a king)", cujos riffs e arranjo também são chupação direta do grupo irlandês, seja na pesada "For reasoins unknown", a cara do U2 dos primeiros anos. Vai soar até clichê repetir o que todo mundo já disse, mas é isso aí - e provavelmente as escolhas dos produtores Flood e Alan Moulder, conhecidos por seus trabalhos com os irlandeses, não vieram à toa. Nada disso torna Sam's Town um disco fraco, chato ou vazio. As músicas são boas, mas estão distantes do que se esperava da banda em trmos de qualidade. O problema é quando um segundo álbum dá saudade do primeiro disco, da expectativa que se criou em torno dele e da alegria dos hits iniciais. Ou quando a banda vem, num segundo disco, com um número maior de canções um tanto repetitivas (e tomara que eles não queiram fazer da breguinha "Read my mind" uma "Somebody told me" do segundo disco).

Como momentos que provavelmente muita gente vai curtir, vale citar a beleza da dançante "Bones", a balada pesada "Uncle Johnny" (que, dizem, foi feita por Flowers para seu tio, que pegava pesado demais em drogas). A imitação de Bono & cia fica só na música. Flowers continua o mesmo doidão de sempre, a ponto de fazer da faixa título do disco um inventário da putaria da sua terra natal. Ainda bem, porque se Sam's town fosse um disco "cabeça" seria frustrante demais. Mas falta organização ao disco, como se fossem dez faixas (na verdade doze, mas há ainda o tal "interlúdio" e um "encerramento" quase igual) costuradas na pressa - nenhuma delas rendendo "a" grande canção que a banda precisava. O resultado é que Sam's town é um disco que talvez fosse ouvido de outro jeito se estivessem os Killers lá pelo quarto ou quinto disco. Saído logo agora, parece que o peso do "segundo disco" fez mal a eles.

"ZOO TV - LIVE FROM SYDNEY" - U2 (Island/Universal - DVD)

Ao atravessar as três horas e alguns quebrados de duração do DVD U2 Zoo TV: Live from Sydney fica a impressão de que o comportamento coxinha da maioria das bandas de rock nacional jamais permitiria a existência de um U2 aqui no Brasil. Tanto o público brasileiro quanto as bandas de rock nacional lidam muito mal com a incoerência - coisa típica de um mercado no qual os "santos" e os "demônios" ainda estão bastante claros na cabeça de todo o mundo (e os "demos" dominam a mídia de uma forma tal que é dificílimo escapar deles). Na época da turnê Zoo TV, lá por 1993, Bono e seus amigos criaram uma nova forma de discursar, que soava contundente sem largar a incoerência de lado. No show capturado para este DVD - gravado no Estádio de Futebol de Sydney, na Austrália, em 27 de novembro de 1993 - sexo, Deus, religião, televisão, mídia de modo geral, coisas de pop star, rock´n roll, egolatria aparecem em doses mais ou menos iguais.

No período de Zoo TV a banda acabara de lançar seu álbum Zooropa e estava vivendo uma nova situação no meio roqueiro mundial. Da banda de temática quase gospel dos primeiros discos - que chegou a pensar em abandonar o rock por causa de suas raízes católicas - o U2 se transformara numa poderosa máquina de fazer dinheiro, e justo a partir de seu lançamento que parecia mais inusitado e anti-comercial, Achtung Baby, de 1991. Bono, enquanto pop star que se encontra com chefes de estado, cria planos para acabar com a fome nos países subdesenvolvidos e discursa com conhecimento de causa sobre os principais problemas do universo, começou a ser forjado naquele momento. Quanto a Zoo TV saiu do papel, com seu aparato de enolouquecer (nos extras, é possível acompanhar os números: foram usados 4 videowalls, 30 monitores de vídeo, 18 projetores, 19 membros de equipe de vídeo, 12 diretores, o palco tinha 76 metros de largura e 24 pés de altura, etc), a banda já desfrutava deste novo formato - e não por acaso, muita gente chamou a nova turnê de "Sgt.Pepper's das turnês de rock", sem exagero.

A turnê foi concebida como algo em que várias informações se cruzavam ao mesmo tempo - sempre balizadas por uma frase comum a várias entrevistas da banda, e que também aparece bastante no DVD: "veja mais TV!". O resultado soava como uma grande sátira-referência-homenagem à televisão e ao excesso de comunicação que já dobrava a esquina naquele momento, com montes de monitores ligados no palco, as frases que eram disparadas na cara do público sem que ele tivesse tempo de pensar no que via ("Tudo o que você sabe é errado" virou até camiseta), trechos de telejornais que eram exibidos ao vivo (soando como sátira aos canais de notícias 24 horas).

Bono abusava de seu poder de comunicação, montando personagens diferentes (como o roqueiro arrogante e ególatra The Fly, o irônico McPhisto, que sempre tentava falar com o então presidente dos EUA, Bush pai, de um telefone instalado no palco; e Mirrorball Man, um pastor que jogava dinheiro para a platéia). Era uma revisão antenada, irônica e bem mais caótica dos espetáculos grandiloquentes de rock dos anos 70 - coisa que havia ficado famosa com Alice Cooper e David Bowie na fase Ziggy Stardust, mas que aqui ganhava outros contornos, mais perigosos, diferentes. As contradições estavam evidentes: o U2 se assumia como parte daquilo tudo, algo que estava inserido no esquema de todo aquele excesso comunicacional - e declarava seu entusiasmo pela comunicação via satélite que trazia detalhes a cada minuto da Guerra do Golfo.

Zoo TV Live from Sydney já havia sido lançado em VHS, faz tempo. O lançamento em DVD traz o original intgralmente digitalizado, com opções de áudio como PCM stereo e Dolby Digital - pelo menos aqui em casa, o som não ficou lá essas maravilhas. Musicalmente, foi a fase mais prolífica e diferenciada do grupo, com direito a hits mais dançantes e irônicos que os do começo - caso de "Even better than the real thing", "Mysterious ways" (com participação de uma dançarina do ventre), "Stay (Faraway, so close!)", "Zoo station", etc. O repertório mistura várias músicas de Achtung Baby - que aparecem até com mais destaque - algumas do Zooropa e algumas poucas de discos anteriores. A soma de tudo isso dá vontade mesmo é de estar ali no meio do povo para experimentar aquilo tudo, passar por uma vivência que, antes de qualquer julgamento, deve ter sido a experiência mais impactante que o público de rock daquele período deve ter tido.

Além do show, o DVD traz alguns documentários mostrando os bastidores da turnê, além do interessante Trabantland, que fala sobre a idéia que a banda teve de usar velhos automóveis Trabant como iluminadores na turnê. Eles já haviam aparecido no encarte de Achtung e em alguns clipes - o Trabant era um carrinho feio pra burro, econômico e durável, que era o único meio de transporte possível dentro da Alemanha Oriental antes da queda do Muro de Berlim. E pela primeira vez, aparecem imagens do Video Confessional, uma salinha do lado de forma do estádio na qual as pessoas anunciavam seus segredos para o mundo - tem desde garotos fazendo rap até meninas anunciando que se tornaram lésbicas, uma espécie de pré-reality show bem particular. No fim das contas, um DVD obrigatório como retrato de época - sem falar na grande música que o U2 fazia na época, bem distante dos discos algo repetitivos de hoje em dia.
* publicado no International Magazine.

Terça-feira, Janeiro 16, 2007

Humaitá Pra Peixe

Tá saindo minha cobertura do Humaitá Pra Peixe no meu blog no portal da Bizz.
Como eu dei uma atrasada pra colocar os textos no ar, tive que colocar os três primeiros dias juntos. Os três outros dias sairão assim também, talvez na quinta. Mas os próximos vão sair normais.