Quarta-feira, Julho 12, 2006

Ronei Jorge/Eskimo


"RONEI JORGE & OS LADRÕES DE BICICLETA" - RONEI JORGE & OS LADRÕES DE BICICLETA (Independente/Tratore)

Se o rock da Bahia hoje está mais conhecido por causa de Pitty, o grupo baiano Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta vem para mostrar os outros lados do estado brasileiro, que já deu grupos como Soma, Penélope e o apavoramento eletrônico do Tara_Code. E ainda por cima lembra que a Bahia deu dois grandes nomes do rock nacional dos anos 70, Novos Baianos e Raul Seixas. Não que Ronei e seus amigos - Edson Rosa (guitarra), Sergio Kopinski (baixo) e Mauricio Pedrão (bateria) - sejam idênticos a Seixas, Moraes, Galvão e cia. Dos citados, eles só mantém o desejo de ser brasileiro fazendo rock, e de ser roqueiro sem deixar de ser brasileiro - fora a criatividade nas misturas musicais, que unem samba, rock e vários gêneros com originalidade. Ou, só pra simplificar, e aproveitando para citar uma frase que já esteve num release da banda, “Ronei Jorge é um compositor pop de canções brasileiras”.

A história de Ronei e os Ladrões - que, claro tiraram sua alcunha do famoso filme de Vittorio de Sica, marco do neo-realismo - remonta a 2003, mas Ronei, sozinho, já vem brilhando como compositor faz tempo, mostrando talento em bandas como o Saci Tric. Algumas de suas músicas já foram relidas pela Penélope, banda baiana que mais se destacou nos anos 90, com direito a dois CDs pela Sony music - “O circo” foi uma delas, assim como “Naqueles dias”. As duas, por sinal, com temática feminina, algo comum na MPB dos anos 70 mas raro no rock nacional pós-80.

Quem conheceu A dois, estréia em EP de Ronei & seus Ladrões, pode estranhar algo em Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta, o independente primeiro CD (com distribuição da Tratore). O EP fora produzido por Gilberto Monte, da dupla Tara_Code - com quem Ronei havia se juntado após o fim da Saci Tric, com a idéia de compilar e arranjar todas as suas canções. O resultado soava mais barulhento, com um bem vindo som de demo, mas pesado, bem gravado. O CD foi produzido por Luís Brasil. Luís tem relações claras com a MPB: produziu Cássia Eller e Jussara Silveira, tocou com Caetano Veloso e com A Cor do Som (participou de Frutificar, primeiro disco da banda com vocais, compondo e tocando como convidado). O músico deixou o som da banda mais classudo, até mais emepebístico, no que diz respeito á produção e qualidade de gravação. Mas não alterou o melhor, que é a identidade da banda. Esta, já estava bem desenhada no EP: um encontro salutar entre guitarras e instrumentos de samba, batidas alegres, sonoridades que parecem roqueiras ou sombrias, mas depois se tornam brasileiríssimas - fora o poder das canções e letras de Ronei, que sobrepuja qualquer experimentação. O disco poderia ganhar a denominação de neo-tropicalismo - embora essa alcunha soe rasteira demais e coloque no som de Ronei um peso que é melhor deixar de lado, ainda mais em se tratando de um grupo com cara própria e proposta estética bem azeitada.

O samba rock distorcido de “Obediência” - com guitarras apitando e costurando uma das melodias mais gostosas dos últimos tempos - já serve como um bom cartão de visitas: é o sucesso pop que o mundo livre s/a daria tudo para ter feito, com direito a um refrão decorável e uma letra que já suinga no encarte (“bom mesmo é a menina que atravessa a rua/soberana/e que os carros param não por causa do sinal”). “Mulher gigante”, parceria com Edson Rosa - Ronei escreve sozinho todas as outras - ensina que há algo de punk por trás daquilo tudo, usando a mesma base marcial do Clash e do Gang Of Four. “Daikiri” pode soar familiar até para fãs de Los Hermanos - uma mistura de rock e samba abolerado, com um climinha de festa “chique” que lembra as doideiras dos cariocas em O bloco do eu sozinho. “Sete sete”, é, ora bolas, um reggae - mas é roqueira demais para ter esse rótulo pregado na testa. “O drama”, quem diria, serve até para se matar saudades dos sambas pesados de Gonzaguinha e Sérgio Sampaio - Ronei Jorge, por sinal, lembra muito o vocal do autor de “Eu quero botar meu bloco na rua”.

Tem mais surpresas em seguida: “Coragem” é um dos momentos mais tipicamente MPB do disco, com cara de anos 70 e participação de Jussara Silveira - aquela mesma que gravou músicas de Dorival Caymmi no belo Canções de Caymmi. O lado indie do grupo - que se alia com folga a uma geração que curte Los Hermanos e aprendeu, com eles, a ouvir MPB e a buscar novas surpresas em bandas de todo o país - fica representado pela lisergia de “O circo”, canção de Ronei que a Penélope já havia gravado. Rara beleza: a história da menina que vê o circo passando em frente à sua casa e resolve partir é poesia pura, contada sem mais delongas, numa linguagem que mais parece cinema. No fim, tem a bela “Lugar qualquer”, uma das faixas mais diferentes e comerciais do disco: arranjada pelo grupo com Luís Brasil, poderia tranqüilamente ter sido gravada por Cássia Eller em seu Acústico e tem harmonias que lembram o Clube da Esquina. Um ótimo encerramento para um disco que entra fácil fácil na lista dos melhores álbuns nacionais dos últimos tempos.

"ESKIMO EP" - ESKIMO (Independente)

Com a fase atual do Los Hermanos, há quem nem lembre que, no primeiro disco, o grupo carioca era um quinteto - com Patrick Laplan segurando as cordas graves. E Laplan não ficou sumido após deixar o grupo: tocou com o finado Rodox (do ex-Raimundos, Rodolfo Abrantes), tem feito exaustivas turnês ao lado de um monolito do rock brasileiro oitentista (o Biquíni Cavadão) e vinha prometendo um trabalho solo fazia tempo. A espera acabou com Eskimo, EP da sua banda, de mesmo nome - totalmente independente, com quatro faixas.

No EP, o Eskimo, oficialmente, é uma dupla: Patrick tocando praticamente tudo, acompanhado do vocalista Henrique Zumpiachiatti - que já passou por uma banda de nu-metal brasileiro, o Infierno. No release do Eskimo, os dois não forjam uma definição clara - "Música pra sacudir o esqueleto? Mudanças de clima bruscas? Tim Burton? Melancolia lo-fi? Pop? Música instrumental? Adrenalina e tensão harmônica? Um pouco de tudo", diz lá. "Aprecio feito vinho o conceito de trilha sonora de terror e de desenho animado", explica Patrick em um papo por e-mail, dando a entender muito do que vem por aí.

O baixista não esconde também a predileção pelas esquisitices do ex-Faith No More Mike Patton, que barbarizou, musicalmente falando, em "bandas podres" como Fantomas e Mr. Bungle. "Quando essas bandas entraram na minha vida, foi o ‘click’ que faltava. Não sei se por eu ouvir esse tipo de som há muito tempo, se tornou algo natural e harmônico pra mim. Não acho nada frenético e talvez por isso ache o formato ‘superpop’ um pouco entediante. E o paradoxo está aí, porque o Eskimo é muito pop comparado a esses projetos do Patton, muito mesmo".

Ele tem razão. Quem escutar Eskimo pode até, forçando um pouco a barra, achar as linhas vocais de "A curva", a primeira música, parecidas com a de "A descoberta", boa e ignorada faixa do primeiro CD dos Hermanos. Mas pára por aí a semelhança com os quatro rapazes - a faixa abre com cordas e segue numa linha punk e ágil, sem nada do hardcore melódico do começo dos LH. "O grande crime" abre épica, quase metálica e segue num skazinho - é a faixa que mais se aproxima das comparações com Mike Patton. "Homem ao mar" é rock-samba-jazz-bossa com esquisitices. "Canção para os amigos" soa nostálgica e sessentista, mas com um caráter experimental, dado por uma bateria quase percussiva, quase à frente da gravação. Há vários elementos misturados, como numa trilha sonora. "O importante é a música te trazer imagens na cabeça. Quando escuto ‘Elite’ do Deftones eu vejo um assassinato. Quando escuto ‘Temptation’ do Kudu, penso em pessoas se pegando num elevador futurista. Outras bandas que me passam bastante disso são o Squirrel Nut Zippers, Tool, o disco Alice do Tom Waits, No Doubt no Return of Saturn, e o finado Oingo Boingo", diz Patrick, fâ de Danny Elfman (do Boingo) e Henry Mancini.

Apesar das misturas, nada de assustador. "O conceito desse trabalho é se expressar, e um gosto abrangente de quem consome de Fiona Apple a Dillinger Escape Plan explica essa mistureba", explica Patrick, que une essa vontade de se expressar a um "sentimento de não ter sido compreendido e representado em outros projetos dos quais fiz parte". Esse desejo de ser entendido dá o dado pop, junto da predileção - da dupla - por coisas "nada cool" como Sade, Red Hot Chili Peppers, Sheryl Crow. "Nada mais natural (e infantil) que tentar falar tudo o que quero ao mesmo tempo. Mas estamos fazemos o possível para arredondar", diz. "Acho que se você quer passar uma idéia, tem que fazer com que as pessoas possam compreendê-la, sem sair do seu conceito".

Apesar de contar com apenas dois músicos oficiais nas sessões de estúdio, o músico rejeita a alcunha de "projeto", que poderia cair bem num caso desses. "É a minha banda!", esclarece. "A idéia é fazer um rodízio completo de músicos nos discos. Nos shows, não necessariamente". Além da dupla básica, o disco ainda traz participações de músicos como Eder Paolozzi (violino) e Dudu Miguens (da banda de Leoni, guitarra e violão). Patrick pensa em fazer shows com artistas como Miguens, Rafael "Ramarelo" Rocha (bateria, tocou no Brasov e está no coletivo Binário) e outros, somando mais cinco músicos. "Mas HOJE, eu digo que a banda será sempre eu e o Henrique. A não ser, claro, que o Michael Jackson queira entrar pra banda", ironiza Patrick, enfatizando que por trás do conceito, das trilhas sonoras e de várias outras idéias, se esconde um grupo pronto para conquistar fâs. "Não tenho medo de dizer que a música é pop, não acho uma palavra maldita. O Eskimo tem sua dose homeopática de maldade, além de representar o gosto pelo pop que a banda realmente tem". Vale conferir, bater um papo com os caras e pedir o CD no site www.eskimosounds.com.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home