Digital Dubs
A matéria abaixo, sobre o coletivo de DJs e MCs Digital Dubs, saiu no International Magazine. Mas depois do texto vem a íntegra do papo que bati com Nelson Meirelles, um dos cabeças do coletivo - e que rende momentos interessantes. Para quem não sabe, Nelson é um dos responsáveis pela formatação do reggae brasileiro como o conhecemos hoje - esteve por trás do lançamento do Cidade Negra e era tecladista do Rappa na primeira formação, antes de Marcelo Lobato entrar para o grupo. E hoje ele é uma das pessoas que mais lutam, no Brasil, por renovações no gênero. Leia!!!
"BRASIL RIDDIMS VOLUME UM: REGGAE DA RAIZ ATÉ AS FOLHAS" - DIGITAL DUBS (Muzamba)
Se você costuma freqüentar bailes funk e um dia se deparar com uma batidão diferente, mais lisérgico, com influências de dub e reggae, num Castelão da vida, não estranhe. Pode ser o Digital Dubs, projeto capitaneado pelos cariocas MPC, Nelson Meirelles e Cristiano Dubmaster, e que vem a ser a primeira equipe de som do Rio especializada em dub, reggae e dancehall. Os caras apresentam bailes concorridos em lugares como a Casa da Matriz - pico indie carioca - e mandam bala em versões de reggae, grooves eletrônicos e tudo o mais que dê pra dançar e viajar na pista. Agora, não chame (ou melhor: evite chamar) o som do Digital Dubs de funk. Ou dub. O som dos caras é "reggae do raiz às folhas", conforme eles próprios dizem, mas segue um esquema bem mais inovador - ainda mais em se tratanto de um gênero repleto de fâs radicais e/ou desinformados como o reggae - e diferente: o dos riddims. Tanto que o primeiro disco dos caras se chama simplesmente Brasil Riddims volume um: Reggae da raiz até as folhas.
Para quem não faz a mínima idéia do que sejam riddims, eles têm sido uma prática bastante comum no reggae, pelo menos fora do Brasil: bases instrumentais repetidas - com influências de dancehall, ragga e até, no caso do Digital Dubs, com toques de samba e demais ritmos brasileiros - que podem ser aproveitadas por diferentes MCs, que inclum letra e melodia. O processo inclui todos do DD nas pickups, mais o auxílio de Dubmaster no toasting. Só que tanto o disco quanto o show de estréia incluíram convidados muito especiais: Mr. Catra, B Negão, Biguli, Jimmy Luv (ex- Funk Fuckers), Ras Bernardo (ex-Cidade Negra, etc), numa lista que vai do funk ao rap, passando pelo reggae.
"Esse conceito de riddim é novidade aqui no Brasil, mas não nos lugares onde a cultura reggae está estabelecida há mais tempo", diz Nelson Meirelles, cujo currículo inclui trabalhos com Cidade Negra e O Rappa (do qual foi integrante e aglutinador no primeiro CD). "Quem está inserido nesse universo já está acostumado a ver as mesmas bases sendo reutilizadas diversas vezes. Um grande estímulo pra nós ao lançarmos esse disco é justamente de apresentar ao público daqui esse conceito que sempre fez parte da história do reggae". História sim senhor: o Digital Dubs tem o maior jeitão de soundsystem, aquelas equipes de som que mandavam novos grooves na Jamaica dos anos 60 - só que traduz essa linguagem para tempos em que as pessoas só estão acostumadas a ver "batidão", "groove" e "impacto sonoro" (com direito a um baixão marcando o ritmo) nos bailes funk. "Com o tempo, vão sacar que a gente mexe, a partir do reggae, com elementos comuns à black music em geral: samba, funk, rap, etc".
Brasil Riddims oferece uma verdadeira viagem pela atual cultura black, trazendo, em módulos divididos por riddims, papos sobre negritude ("Diáspora", com Biguli), favelização ("No morro não tem play", com Ras Bernardo), sacanagem ("Se liga nelas", com o divertido Mr Catra, e "Vários rolé", com Funnk Mc), etc. Entre os riddims, há passagens mais ligadas ao dub e ao reggae, como o Diáspora Riddim (que se estende pelas duas primeiras faixas, de Biguli e Ras Bernardo) e o Cidade Alta Riddm, que inclui reggae relaxados como "Mandando vê" (com Jero Banio) e "Pretinho Babylon" (com M7). Mas o que brilha mesmo no disco é o Curimba Riddim, o lado mais sacana e experimental do Digital, unindo funk, umbanda e samba - com direito a B. Negão emocionando na versão de "Sorriso aberto", sucesso na voz de Jovelina Pérola Negra.
Após ouvir o disco, pergunta-se: será que os riddims vão pegar no Brasil? Quem conhece o universo reggaeiro, sabe que se trata de um mercado conservador - alimentado por grupelhos idênticos e "tributos" salafrários. Nelson, no entanto, promete ousadias mil. "Um dos nossos desafios é sacudir essa tribo de reggae-de-beira-de-praia, iô-iô-de-raiz, esse reggaezinho-rutz preguiçoso e desinformado. Queremos um choque de informação já! Essa galera não tem muita noção da história do reggae como um todo, da qual Bob Marley obviamente foi um grande ícone, mas que há muito mais - bota muito nisso!! - dessa história que ainda não foi contada por aqui", diz Nelson, que não perdoa o reggae feito sem informação.
O Digital Dubs não economiza artilharia: o projeto inclui um estúdio (o Muzambinho) e um selo (o Muzamba), pelo qual já estão agendados novos projetos, até no exterior. Do front do Digital Dubs, Nelson avisa virão mais surpresas. "Tudo o que a gente vier a fazer será sempre na direção de expandir o entendimento do que o reggae significa musical e culturalmente". Conheça em www.esquemageral.com.br/digitaldubs.
E ABAIXO VAI A ÍNTEGRA PARA A ALEGRIA DA GALERA!!!
O Digital Dubs trabalha com um "novo conceito" que seriam os riddims. Só que, pra quem está desavisado, o som pode lembrar muito o funk carioca ou até mesmo o dub. Queria saber se você está preparado para ver o trabalho do Digital Dubs ser chamado de "dub" ou até "funk" por aí. Esse conceito de riddim, na real, é novidade aqui no Brasil mas não nos lugares onde a cultura reggae está estabelecida há mais tempo. Quem está inserido mais a fundo nesse universo já está acostumado a ver as mesmas bases sendo reutilizadas diversas vezes. Um grande estímulo pra nós ao lançarmos esse disco é justamente de apresentar ao público daqui esse conceito que sempre fez parte da história do reggae.
Como trabalhamos com 13 cantores, era natural que o CD tivesse essa grande "biodiversidade", cada um deles trazendo seu feeling e sua influência. Isso foi intencional da nossa parte, "reggae da raiz até às folhas", como o próprio sub-título avisa. Com relação a possíveis "ruídos" nesse entendimento, acho isso normal no início. Se um ouvinte "genérico" (não um aficcionado por reggae ou funk) ouvir apenas as músicas feitas em cima do Curimba Riddim, ele poderá achar que está ouvindo algo próximo do funk. Mas se ele ouvir as faixas com o Diáspora Riddim, aí talvez ele ache que é um reggae-roots...
Acho que com o decorrer do tempo, com as pessoas entendendo melhor do que se trata o Digitaldubs, neguinho vai sacar que a partir do reggae nós vamos estar sempre mexendo com elementos comuns à black music em geral, seja funk, rap, samba, etc...
A maioria dos fâs de reggae têm aquele apego ao reggae "de raiz", quando não é totalmente desinformado sobre as diferenças entre o reggae e a música pop com influências de reggae. Você acha que os riddims podem pegar por aqui, mesmo que o reggae ainda tenha, de certa forma, um público bem conservador? Olha, cara, um dos grandes desafios do Digitaldubs é de dar uma sacudida nessa tribo de reggae-de-beira-de-praia, iô-iô-de-raiz, esse regguezinho-rutz preguiçoso e desinformado... Queremos um choque de informação já!! Essa galera não tem muita noção da história do reggae como um todo, da qual Bob Marley obviamente foi um grande ícone, mas que há muito mais (bota muito nisso!!) dessa história que ainda não foi contada por aqui. O assim chamado "reggae-roots" aqui é uma coisa mal definida, muitas vezes sinônimo de música de segunda qualidade, letras indigentes, arranjos repetitivos, fruto de uma concepção equivocada e, volto a frisar, desinformada. Tudo o que o Digitaldubs vier a fazer (hoje são os riddims, amanhã pode ser um disco só com dubs ou parceria com outros artistas, o que for...) será sempre na direção de expandir o entendimento do que o reggae significa musical e culturalmente.
Você esteve por trás do trabalho de bandas como O Rappa e Cidade Negra, que começaram a levantar a bandeira do reggae numa época em que o gênero não tinha por aqui a mesma popularização dos dias atuais. Você curte o trabalho dessas bandas hoje? Como vê o atual sucesso delas? Olha, antes desses grupos já havia gente desfraldando a bandeira do reggae por aí como o Gil, Melodia e, é sempre bom lembrar, o Paralamas. Tinha também o povo off-Rio/SP como Luís Wagner e Edson Gomes, mas realmente o Cidade Negra foi a primeira banda 100% reggae em cadeia nacional. O Rappa nunca foi um grupo totalmente reggae, mas elementos desse estilo (arranjos, timbres, mixagens) pintavam ao longo do trabalho.
Ambas as bandas tiveram suas figuras-chaves trocadas. Como não querer que as saídas de Ras Bernardo e Marcelo Yuka não gerassem um impacto grande nesses grupos? Não dá para considerar que são as mesmas bandas, ainda com os mesmos objetivos do início da carreira. Hoje em dia o trabalho do Cidade Negra é mais um pop com pitadas reggae do que o contrário, o que pra mim é uma pena, já que há músicos com grande talento lá dentro. O Rappa virou um dos grandes nomes da música brasileira, amado por toda uma geração. Ambos viraram grifes de inquestionável sucesso, e fico feliz por ter feito parte das duas histórias e de ver meus amigos numa boa. Agora, artisticamente, ando meio distanciado tanto de um quanto de outro - sou Digitaldubs até o caroço!! :-))
Como foi arregimentar todo aquele pessoal que cantou no disco? Vocês pretendem levar todo aquele povo para o palco em outras oportunidades? Foi um processo mais ou menos simples porque foi feito ao longo de dois anos. De vez em quando alguém aparecia lá no Muzambinho, nosso estúdio, e acabava escolhendo uma ou outra base para colocar alguma letra. Tinha também o pessoal mais "de casa", sempre por perto e mais disponível para experimentações. Até aí tudo bem, duro mesmo é reunir todos numa mesma apresentação!! Primeiro porque nem sempre a produção está apta a arcar com um grupo de quase vinte pessoas (13 cantores + 3 DJ's + percussão + roadie + ...) viajando. Segundo porque fica difícil conciliar a agenda de todo mundo, principalmente Ras Bernardo, B Negão e Mr. Catra.
Por outro lado, o Digitaldubs é bem flexível na hora de se apresentar, podemos ser de quatro à dezesseis pessoas num palco (ou boate ou clube ou sound system de rua...). Então acredito que vamos trabalhar muito ao longo desse ano, independentemente do número de cantores que estejam ao nosso lado.
Queria que você falasse um pouco das atividades do selo e do estúdio. O que tem sido feito, quais são os projetos, etc. Muzambinho é o nosso estúdio e Muzamba o selo. Atualmente estamos bastante focados na promoção e divulgação do Brasil Riddims #1, mas a produção musical nunca para. Várias versões estrangeiras para alguns desses riddims estão sendo mixadas agora e estarão disponíveis para o público provavelmente via internet. Há também o disco do Ras Bernardo, gravado há algum tempo, que está recebendo um tratamento especial para finalmente ser lançado no mercado. Quem sabe até pelo nosso selo, ainda vamos ver isso.
Além disso temos outras conexões no exterior que em breve renderão frutos saborosos... Por enquanto o que temos lançado lá fora é o nosso compacto prensado na Jamaica, com a grande cantora inglesa de reggae Sylvia Tella dando sua versão para o Diáspora Riddim. Esse mercado de vinil (7, 10 ou 12 polegadas) é muito importante no circuito internacional de sound systems e o Digitaldubs também vai procurar seu lugar ao sol nesse mercado. Quem viver, verá!!
"BRASIL RIDDIMS VOLUME UM: REGGAE DA RAIZ ATÉ AS FOLHAS" - DIGITAL DUBS (Muzamba)Se você costuma freqüentar bailes funk e um dia se deparar com uma batidão diferente, mais lisérgico, com influências de dub e reggae, num Castelão da vida, não estranhe. Pode ser o Digital Dubs, projeto capitaneado pelos cariocas MPC, Nelson Meirelles e Cristiano Dubmaster, e que vem a ser a primeira equipe de som do Rio especializada em dub, reggae e dancehall. Os caras apresentam bailes concorridos em lugares como a Casa da Matriz - pico indie carioca - e mandam bala em versões de reggae, grooves eletrônicos e tudo o mais que dê pra dançar e viajar na pista. Agora, não chame (ou melhor: evite chamar) o som do Digital Dubs de funk. Ou dub. O som dos caras é "reggae do raiz às folhas", conforme eles próprios dizem, mas segue um esquema bem mais inovador - ainda mais em se tratanto de um gênero repleto de fâs radicais e/ou desinformados como o reggae - e diferente: o dos riddims. Tanto que o primeiro disco dos caras se chama simplesmente Brasil Riddims volume um: Reggae da raiz até as folhas.
Para quem não faz a mínima idéia do que sejam riddims, eles têm sido uma prática bastante comum no reggae, pelo menos fora do Brasil: bases instrumentais repetidas - com influências de dancehall, ragga e até, no caso do Digital Dubs, com toques de samba e demais ritmos brasileiros - que podem ser aproveitadas por diferentes MCs, que inclum letra e melodia. O processo inclui todos do DD nas pickups, mais o auxílio de Dubmaster no toasting. Só que tanto o disco quanto o show de estréia incluíram convidados muito especiais: Mr. Catra, B Negão, Biguli, Jimmy Luv (ex- Funk Fuckers), Ras Bernardo (ex-Cidade Negra, etc), numa lista que vai do funk ao rap, passando pelo reggae.
"Esse conceito de riddim é novidade aqui no Brasil, mas não nos lugares onde a cultura reggae está estabelecida há mais tempo", diz Nelson Meirelles, cujo currículo inclui trabalhos com Cidade Negra e O Rappa (do qual foi integrante e aglutinador no primeiro CD). "Quem está inserido nesse universo já está acostumado a ver as mesmas bases sendo reutilizadas diversas vezes. Um grande estímulo pra nós ao lançarmos esse disco é justamente de apresentar ao público daqui esse conceito que sempre fez parte da história do reggae". História sim senhor: o Digital Dubs tem o maior jeitão de soundsystem, aquelas equipes de som que mandavam novos grooves na Jamaica dos anos 60 - só que traduz essa linguagem para tempos em que as pessoas só estão acostumadas a ver "batidão", "groove" e "impacto sonoro" (com direito a um baixão marcando o ritmo) nos bailes funk. "Com o tempo, vão sacar que a gente mexe, a partir do reggae, com elementos comuns à black music em geral: samba, funk, rap, etc".
Brasil Riddims oferece uma verdadeira viagem pela atual cultura black, trazendo, em módulos divididos por riddims, papos sobre negritude ("Diáspora", com Biguli), favelização ("No morro não tem play", com Ras Bernardo), sacanagem ("Se liga nelas", com o divertido Mr Catra, e "Vários rolé", com Funnk Mc), etc. Entre os riddims, há passagens mais ligadas ao dub e ao reggae, como o Diáspora Riddim (que se estende pelas duas primeiras faixas, de Biguli e Ras Bernardo) e o Cidade Alta Riddm, que inclui reggae relaxados como "Mandando vê" (com Jero Banio) e "Pretinho Babylon" (com M7). Mas o que brilha mesmo no disco é o Curimba Riddim, o lado mais sacana e experimental do Digital, unindo funk, umbanda e samba - com direito a B. Negão emocionando na versão de "Sorriso aberto", sucesso na voz de Jovelina Pérola Negra.
Após ouvir o disco, pergunta-se: será que os riddims vão pegar no Brasil? Quem conhece o universo reggaeiro, sabe que se trata de um mercado conservador - alimentado por grupelhos idênticos e "tributos" salafrários. Nelson, no entanto, promete ousadias mil. "Um dos nossos desafios é sacudir essa tribo de reggae-de-beira-de-praia, iô-iô-de-raiz, esse reggaezinho-rutz preguiçoso e desinformado. Queremos um choque de informação já! Essa galera não tem muita noção da história do reggae como um todo, da qual Bob Marley obviamente foi um grande ícone, mas que há muito mais - bota muito nisso!! - dessa história que ainda não foi contada por aqui", diz Nelson, que não perdoa o reggae feito sem informação.
O Digital Dubs não economiza artilharia: o projeto inclui um estúdio (o Muzambinho) e um selo (o Muzamba), pelo qual já estão agendados novos projetos, até no exterior. Do front do Digital Dubs, Nelson avisa virão mais surpresas. "Tudo o que a gente vier a fazer será sempre na direção de expandir o entendimento do que o reggae significa musical e culturalmente". Conheça em www.esquemageral.com.br/digitaldubs.
E ABAIXO VAI A ÍNTEGRA PARA A ALEGRIA DA GALERA!!!O Digital Dubs trabalha com um "novo conceito" que seriam os riddims. Só que, pra quem está desavisado, o som pode lembrar muito o funk carioca ou até mesmo o dub. Queria saber se você está preparado para ver o trabalho do Digital Dubs ser chamado de "dub" ou até "funk" por aí. Esse conceito de riddim, na real, é novidade aqui no Brasil mas não nos lugares onde a cultura reggae está estabelecida há mais tempo. Quem está inserido mais a fundo nesse universo já está acostumado a ver as mesmas bases sendo reutilizadas diversas vezes. Um grande estímulo pra nós ao lançarmos esse disco é justamente de apresentar ao público daqui esse conceito que sempre fez parte da história do reggae.
Como trabalhamos com 13 cantores, era natural que o CD tivesse essa grande "biodiversidade", cada um deles trazendo seu feeling e sua influência. Isso foi intencional da nossa parte, "reggae da raiz até às folhas", como o próprio sub-título avisa. Com relação a possíveis "ruídos" nesse entendimento, acho isso normal no início. Se um ouvinte "genérico" (não um aficcionado por reggae ou funk) ouvir apenas as músicas feitas em cima do Curimba Riddim, ele poderá achar que está ouvindo algo próximo do funk. Mas se ele ouvir as faixas com o Diáspora Riddim, aí talvez ele ache que é um reggae-roots...
Acho que com o decorrer do tempo, com as pessoas entendendo melhor do que se trata o Digitaldubs, neguinho vai sacar que a partir do reggae nós vamos estar sempre mexendo com elementos comuns à black music em geral, seja funk, rap, samba, etc...
A maioria dos fâs de reggae têm aquele apego ao reggae "de raiz", quando não é totalmente desinformado sobre as diferenças entre o reggae e a música pop com influências de reggae. Você acha que os riddims podem pegar por aqui, mesmo que o reggae ainda tenha, de certa forma, um público bem conservador? Olha, cara, um dos grandes desafios do Digitaldubs é de dar uma sacudida nessa tribo de reggae-de-beira-de-praia, iô-iô-de-raiz, esse regguezinho-rutz preguiçoso e desinformado... Queremos um choque de informação já!! Essa galera não tem muita noção da história do reggae como um todo, da qual Bob Marley obviamente foi um grande ícone, mas que há muito mais (bota muito nisso!!) dessa história que ainda não foi contada por aqui. O assim chamado "reggae-roots" aqui é uma coisa mal definida, muitas vezes sinônimo de música de segunda qualidade, letras indigentes, arranjos repetitivos, fruto de uma concepção equivocada e, volto a frisar, desinformada. Tudo o que o Digitaldubs vier a fazer (hoje são os riddims, amanhã pode ser um disco só com dubs ou parceria com outros artistas, o que for...) será sempre na direção de expandir o entendimento do que o reggae significa musical e culturalmente.
Você esteve por trás do trabalho de bandas como O Rappa e Cidade Negra, que começaram a levantar a bandeira do reggae numa época em que o gênero não tinha por aqui a mesma popularização dos dias atuais. Você curte o trabalho dessas bandas hoje? Como vê o atual sucesso delas? Olha, antes desses grupos já havia gente desfraldando a bandeira do reggae por aí como o Gil, Melodia e, é sempre bom lembrar, o Paralamas. Tinha também o povo off-Rio/SP como Luís Wagner e Edson Gomes, mas realmente o Cidade Negra foi a primeira banda 100% reggae em cadeia nacional. O Rappa nunca foi um grupo totalmente reggae, mas elementos desse estilo (arranjos, timbres, mixagens) pintavam ao longo do trabalho.
Ambas as bandas tiveram suas figuras-chaves trocadas. Como não querer que as saídas de Ras Bernardo e Marcelo Yuka não gerassem um impacto grande nesses grupos? Não dá para considerar que são as mesmas bandas, ainda com os mesmos objetivos do início da carreira. Hoje em dia o trabalho do Cidade Negra é mais um pop com pitadas reggae do que o contrário, o que pra mim é uma pena, já que há músicos com grande talento lá dentro. O Rappa virou um dos grandes nomes da música brasileira, amado por toda uma geração. Ambos viraram grifes de inquestionável sucesso, e fico feliz por ter feito parte das duas histórias e de ver meus amigos numa boa. Agora, artisticamente, ando meio distanciado tanto de um quanto de outro - sou Digitaldubs até o caroço!! :-))
Como foi arregimentar todo aquele pessoal que cantou no disco? Vocês pretendem levar todo aquele povo para o palco em outras oportunidades? Foi um processo mais ou menos simples porque foi feito ao longo de dois anos. De vez em quando alguém aparecia lá no Muzambinho, nosso estúdio, e acabava escolhendo uma ou outra base para colocar alguma letra. Tinha também o pessoal mais "de casa", sempre por perto e mais disponível para experimentações. Até aí tudo bem, duro mesmo é reunir todos numa mesma apresentação!! Primeiro porque nem sempre a produção está apta a arcar com um grupo de quase vinte pessoas (13 cantores + 3 DJ's + percussão + roadie + ...) viajando. Segundo porque fica difícil conciliar a agenda de todo mundo, principalmente Ras Bernardo, B Negão e Mr. Catra.
Por outro lado, o Digitaldubs é bem flexível na hora de se apresentar, podemos ser de quatro à dezesseis pessoas num palco (ou boate ou clube ou sound system de rua...). Então acredito que vamos trabalhar muito ao longo desse ano, independentemente do número de cantores que estejam ao nosso lado.
Queria que você falasse um pouco das atividades do selo e do estúdio. O que tem sido feito, quais são os projetos, etc. Muzambinho é o nosso estúdio e Muzamba o selo. Atualmente estamos bastante focados na promoção e divulgação do Brasil Riddims #1, mas a produção musical nunca para. Várias versões estrangeiras para alguns desses riddims estão sendo mixadas agora e estarão disponíveis para o público provavelmente via internet. Há também o disco do Ras Bernardo, gravado há algum tempo, que está recebendo um tratamento especial para finalmente ser lançado no mercado. Quem sabe até pelo nosso selo, ainda vamos ver isso.
Além disso temos outras conexões no exterior que em breve renderão frutos saborosos... Por enquanto o que temos lançado lá fora é o nosso compacto prensado na Jamaica, com a grande cantora inglesa de reggae Sylvia Tella dando sua versão para o Diáspora Riddim. Esse mercado de vinil (7, 10 ou 12 polegadas) é muito importante no circuito internacional de sound systems e o Digitaldubs também vai procurar seu lugar ao sol nesse mercado. Quem viver, verá!!

3 Comments:
Lá vem o Meirelles, descendo o morro nas mãos do Peçanha... Quem sabe, sabe! doc
Nao tem nada pra baixar ai nao? valeu
nelson tecladista do rapa????
baixista vc quis dizer né?
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