"CÉU" - CÉU (Ambulante discos)
O disco de Céu acabou de rodar no CD-player e dois versos pulam na memória insistentemente: "Minha beleza não é efêmera/Como o que eu vejo em bancas por aí" ("Bobagem", dela própria) e "Não tenho jacuzzi/nem chuveiro a vapor/meu deus faça o favor/de retornar o recado" ("Ave Cruz", dela e de Alec Haiat).
A essência de novidade de
Céu, o disco, não pára por aí. Além de letras que dizem muito mais da realidade atual do que boa parte dos "discos de cantoras" lançados nos últimos tempos - e numa época em que a suprema novidade no setor MPB parece ser o tétrico encontro de Ana Carolina e Seu Jorge - a paulistana Céu consegue fazer uma mescla que alude a vários mundos. Ao samba paulista de Adoniran Barbosa (cuja "Trem das onze" é citada literalmente na melodia de "Malemolência"), às favelas cariocas (que ela nem deve ter conhecido quando esteve no Rio se apresentando no
Humaitá Pra Peixe) no som afro-sambístico de faixas como "Lenda" e "Roda", ao samba dos anos 70 na versão bem sacada de "O ronco da cuíca", de João Bosco e Aldir Blanc - cuja versão original era bem avançadinha para a época, costurando partido alto, samba africano e uma espécie de bateria "psicodélica" de escola de samba -, a universalidade dos sons eletrônicos e a modernidade das produções minuciosamente trabalhadas em casa (o disco foi feito entre 2002 e 2004). Tem até reggae, ritmo já devidamente colocado por Nei Lopes no roteiro dos sons universalmente negros, na versão de "Concrete jungle", de Bob Marley.
Bom, quem quiser saber mais de
Céu - o disco e a cantora - escrevi sobre o show dela no Rio para a revista
Bizz. A resenha, se tudo correr bem, deverá estar saindo na edição de fevereiro. Por enquanto, vale dizer que ela é uma das atuais "sensações" (odeio essa palavra) da música brasileira que não teriam sido descobertas se o disco dela não tivesse saído lá fora até mesmo antes da edição brasileira - lançada, por sinal, por um pequeno selo de São Paulo, o
Ambulante discos.
+ Como? Não sabe quem é Nei Lopes?
Aqui tem algumas informações e
aqui o blog dele. Assim que der, desenterro um texto que fiz sobre um disco dele, que saiu no Discoteca Básica.
"DISCOTECA BÁSICA TRATORE VOL.2 - NOVO ROCK BRASIL" - VÁRIOS (Tratore)
Bom nome o dessa coleção da Tratore, não? O volume 2 da série Discoteca Básica (como é que eu não pensei nisso antes?) traz 17 faixas "para quem quer saber o que está acontecendo na cena independente brasileira". Responsável pela distribuição de mais de 100 pequenos selos, a Tratore é figurinha fácil em qualquer banquinha de CDs independentes montadas em shows, festivais ou o que o valha. A escalação do CD mostra o que há de melhor e, vá lá, o que há de mais esquisito, no bom sentido, no rock nacional. A seleção é da jornalista Kátia Abreu (da revista eletrônica
B*Scene) e o preço do disquinho é - sem sacanagem nenhuma - seis reais. Àvenda em qualquer loja virutal ou na própria
Tratore.
LOS PIRATA: Já resenhados em algum dos arquivos perdidos do Discoteca Básica, os paulistas do Los Pirata fazem punk-surfístico com instrumentos curiosos (um misto de baixo e guitarra e uma bateria de brinquedo) e letras em espanhol de mentira. No disco aparece "Nada", faixa de abertura do CD do grupo.
ABIMONISTAS: Rock sessentista, sem o peso de um Cachorro Grande, mas com órgãos Hammond à frente e boas melodias. Aparecem com "Varas e cruzes".
B. NEGÃO: Precisa apresentar? Rap carioca com filosofia, política, bom humor e muita sabedoria nas letras, além de bons grooves em "Funk até o caroço".
WADO: Sem o "apelo radiofônico" de que fala o encarte do CD quando se refere a ele, Wado lembra mais a MPB experimental dos anos 70 e o rock underground paulista dos 80 na ótima "Tormenta".
NERVOSO: Tinha que estourar, nem que fosse daqui a dez anos. Um dos melhores storytellers do rock carioca, Nervoso aparece com um dos grandes hits natos do disco, "Já desmanchei minha relação". Pop ensolarado, com algumas psicodelices e letras que lembram uma espécie de Nelson Gonçalves rock.
JUMBO ELEKTRO: Definido como "tropicalista", o Jumbo Elektro une rock, sons eletrônicos (com cara new wave) e Miami-bass - algo que tem se tornado moda nos meios independentes - na malucaça "Freak cat".
CANASTRA: The Jam (a banda que inspirou o Ira! e mais uma carrada de novos grupos - impossível entender o surgimento de The Libertines e Kaiser Chiefs sem a existência deles) com baixo de pau e letras maravilhosas como as de "Diabo apaixonado". A banda que ganhou o festival Oi! Tem Peixe na Rede e, em breve, estará lançando disco pela Sony & BMG.
NUMISMATA: Samba-rock viajandão, de boa qualidade, em "Indulgente".
ARNALDO BAPTISTA: Nem é uma das melhores faixas de
Let it bed, seu disco mais recente, mas vale o registro. "Cacilda", esquecida por Arnaldo numa fita dos anos 80 e resgatada para o CD novo, é pop rock melancólico de boa cepa, mas sem a qualidade das faixas de
Lóki? (1974).
KARINE ALEXANDRINO: Dance-rock curioso e (vá lá) sensual, lembrando New Order graças às batidas eletrônicas e aos baixos palhetados e agudos na engraçadinha "Loca por ti".
MOMBOJÓ: Um dos melhores shows do rock independente atual (comprovador por este que vos fala em Natal, RN, ano passado, no festival do selo
DoSol) e um dos melhores discos de 2004, unindo rock, samba, psicodelia e sons que lembram de Mutantes a Tortoise, passando por Novos Baianos. Agora, a faixa escolhida podia ter sido melhorzinha - entrou a mais ou menos "Absorva".
CIDADÃO INSTIGADO: Imagina juntar rock, post-rock (aquele som esqusitinho do Mogwai, do Tortoise e de mais algumas outras bandas), som pesado, letras críticas, jovem guarda, sons nordestinos e música brega? Pois é, o Cidadão Instigado, do cearense Fernando Catatau, conseguiu - e mostrou a que veio em três CDs e num show ótimo dado aqui no Rio, há pouco tempo. "O verdadeiro conceito por trás do preconceito" é um ótimo exemplo disso.
HURTMOLD: Mais rock experimental - ao ponto de ser quase progressivo em algumas passagens, mas provavelmente a banda prefere a denominação post-rock. Aparecem com o instrumental "Música política para Maradona cantar".
TARA CODE: Uma audição do inferno, no melhor sentido que isso possa ter - com as atonalidades e os barulhinhos da experimental e eletrônica "O avesso da tristeza", um "trip hop acelerado e torto", segundo o encarte do CD. Pintam em breve por aqui.
ASTRONAUTAS: Soam como uma espécie de Ministry (lembra?) brasileiro, na barulhenta "Sentimentos".
MQN: A banda de Fabrício Nobre (um dos nomes por trás do selo Monstro Discos) faz uma espécie de stoner rock à brasileira, mas mandando bala em influências do Cult em "Heart of stone".
GALAXY: Uma espécie de Tutti-Frutti punk e mais sacana, comandado por Beto Lee (filho de você-sabe-quem), no som a la Guns N'Roses de "Um pouco de mim".