Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

The Rasmus

"HIDE FROM THE SUN" - THE RASMUS (Universal)

O grupo finlandês The Rasmus (Lauri Ylönen, vocais; Pauli Rantaslmi, guitarra; Eero Heinonen, baixo; Aki Hakala, bateria) lança disco novo, Hide from the sun e vem, como andam dizendo várias resenhas por aí, "para provar que a Finlândia não vive só de heavy metal". O som do quarteto é um pop pesado e gostosinho que segue, às vezes uma tendência curiosa: não é uma boyband, igual às do boom de bandas de rapazes que teve seu levante lá pra 1998/1999 (revelando Westlife, N'Sync e os pais de todas, Backstreet Boys). Os rapazes compõem suas próprias músicas, tocam instrumentos e alcançam momentos pesados demais para merecerem tal alcunha. Mas em várias ocasiões, o Rasmus é como se fosse isso. Soa como se o grupo tivesse cavado uma conexão entre as boybands, o nu-metal e o rock farofa dos anos 80 - algo provado pela terceira faixa, o rockzinho "No fear", com cara de Bon Jovi, e pela segunda música, "Night after night (Out of the shadows)", faixa com batida dançante e riffs pesados.

Para quem acompanha o que rola nas paradas pop-rock do Brasil e conhece a banda a partir deste disco, o som do The Rasmus não é novidade nenhuma - o Maroon 5 já mostrou boa parte dessa sonoridade em Songs about jane e muita coisa do Matchbox Twenty bate ponto na sonoridade do Rasmus. A título de informação, vale dizer que o quarteto finlandês tem mais tempo de janela que as duas bandas. O grupo foi formado em 1994, quando os rapazes eram ainda adolescentes, e já grava desde 1996, quando saiu Pepp, o primeiro álbum, que lhes rendeu direto um disco de ouro. Seguindo de disco em disco - com uma baixa na formação, já que Janne Reiskannen, baterista do line-up original, deu lugar a Aki Hakala, em 2000 - o grupo conheceu o sucesso mundial apenas no quinto CD, Dead letters (2004). O disco trouxe o hit "In the shadows", executado inclusive no Brasil, e abriu as portas do mercado internacional aos meninos, com direito a turnês européias concorridíssimas e a prêmios da MTV e do Grammy Awards.

Em Hide from the sun, o grupo impõe peso a refrões pop e melodias bastante radiofônicas - faixas como "Lucifer's Angel", "Immortal" e "Last generation" poderiam estar até no repertório do Linkin Park, desde que rearranjadas. Do metal, por sinal, o grupo herdou também o gosto por tons sombrios - com direito a uma participação dos conterrâneos do Apocalyptica em "Dead promises" - além de letras introspectivas e, por vezes, desencantadas. Não é nada que vá revirar o mercado de cabeça para baixo (fica mais fácil imaginar que "tendências de mercado" possam ter feito o The Rasmus explodir, ainda que após anos e anos ralando atrás de uma chance fora de seu país de origem), mas é pop bem feito - coisa que bandas como The Calling, por exemplo, não fizeram com louvor - e tem boas melodias, como as da balada "Sail away" e a da nu-metalizada "Shot". Conheça os caras do Rasmus aqui: www.therasmus.com.

Cenas que eu não gostaria de ver

"Bono Vox na Bahia canta com Ivete Sangalo

Flávia Monteiro - O GloboGloboNews TV

SALVADOR - Bono Vox, líder da banda U2, fez a festa dos foliões nesta quinta-feira no coração do carnaval baiano, em Salvador. Ele e Ivete Sangalo cantaram juntos a música "Vertigo", que dá nome à turnê mundial do grupo irlandês. Depois, Bono ainda cantou outras músicas e se disse "muito brasileiro", para uma multidão extasiada.

Os integrantes do U2 e o produtor musical Quincy Jones estavam no Expresso 2222, o camarote do ministro Gilberto Gil no circuito Barra-Ondina, na orla de Salvador.

O trio elétrico Cerveja & Cia, de Ivete, passou bem em frente ao camarote por volta de 21h30m. A musa do axé viu o líder do U2 e cantou para ele. Animado, Bono pegou um microfone e, da sacada, acompanhou Ivete. Gil não se conteve, pegou outro microfone e também soltou a voz. O guitarrista do U2, The Edge, fotografava toda a performance rock-carnavalesca de Bono.
Depois, Bono improvisou uma versão própria de "No woman, no cry", de Bob Marley: "I remember carnival / In the beautiful city of Salvador" (Eu me lembro do carnaval / na bela cidade de Salvador), e arrematou, mais adiante: "A new Brazil is coming" (Um novo Brasil está chegando).

Bono cantou também, num ritmo mais carnavalesco "Everybody is a little irish / And I am a lot brazilian" (Todo mundo é um pouco irlandês / E eu sou muito brasileiro).

O U2 chegou ao Expresso 2222 cercado por forte esquema de segurança. A abertura oficial do camarote será nesta sexta-feira, mas Gil a antecipou para receber Bono e seus amigos. "

De cara, a única coisa que me vem na cabeça é a última vinda do U2 ao Brasil, quando o Bono sambou feito um Robocop no ensaio de uma escola qualquer lá.

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

Bandas independentes regravam anos 70

"27 bandas se uniram para regravar músicas dos anos 70.Esses covers foram incluídos na coletânea "Achados e Perdidos", da Válvula Discos.Participaram do tributo bandas como MQN (foto), Flaming Moe, Hang The Superstars, Carro Bombs, Mechanics, Mustang, BillyGoat, Carbura, Tomada e SonicVolt, entre outras. Entre os artistas regravados estão Secos e Molhados, Casa das Máquinas, Mountain, Buffalo, Módulo 1000 e Grand Funk.O download das músicas e do encarte de "Achados e Perdidos" é gratuito e pode ser feito através do seguinte endereço: www.valvuladiscos.com".

Vou ouvir esse troço e depois falo o que achei. Agora, de qualquer jeito, qualquer coisa que tenha o MQN no meio já deve valer a pena.

Carnaval Virtual

"Este site nasceu da idéia de estimular o carnaval de rua como ele é concebido no Rio de Janeiro: Blocos e Bandas criadas por grupos de amigos que formam um núcleo aberto à participação popular. Disponibilizando informação sobre estas iniciativas, nosso site — que também é aberto à participação de todos os internautas — procura estimular a adesão e permite aos foliões ausentes ou distantes participar virtualmente da festa."

Tá aí a definição do site Carnaval Virtual, que busca trazer para o folião carioca todas as informações sobre os blocos de rua do Rio de Janeiro. Tem tudo lá, desde letras e mp3 de sambas, até os horários de saída e lugares de concentração dos blocos da cidade - além de fotos, agenda de eventos do carnaval 2006, informações sobre a Sebastiana (Associação Independente dos Blocos da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade de São Sebastião, que tem até um ex-professor meu de Jornalismo na Estácio, o Jorge Sapia, como vice-presidente).

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

Opa!

Os fotógrafos credenciados para realizar as imagens dos shows do U2 e do Franz Ferdinand tiveram grandes dificuldades para trabalhar na noite de ontem.

A organização do evento desrespeitou completamente o esquema de trabalho previsto, impondo restrições e impossibilitando o retorno dos repórteres-fotográficos à sala de imprensa para transmitir as fotos, e não cumprindo o acordo pelo qual poderiam ser realizadas imagens de Bono a curta distância.

"A produção fez o mapa do palco, garantindo que Bono apareceria numa passarela. Todos os profissionais se prepararam para tirar fotos de lá, mas o acordo não foi cumprido. A visão que tivemos do cantor foi bastante prejudicada", disse o repórter-fotográfico da Folha Renato Stockler, 27.

"Quando chegamos para fazer as fotos do grupo Franz Ferdinand, nos disseram que quem voltasse para a sala de imprensa não poderia retornar para o show do U2 porque não daria tempo. Tive de pedir para trazerem meu laptop [de onde transmitiriam as fotos para o jornal]", disse o repórter-fotográfico da Folha Flávio Florido, 36. "O sinal de celular estava muito baixopara podermos transmitirmos as imagens de fora da sala."De acordo com Florido, cerca de 30 fotógrafos foram obrigados a ficar confinados em uma área próxima ao portão 18, depois de terem feito as imagens do show de abertura do Franz Ferdinand.

(fonte: Caroline Bittencourt - a partir de matéria da Folha de São Paulo)

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

Frente

Henrique Portugal, tecladista do Skank, acaba de lançar o site Frente (www.uol.com.br/frente). O site, que é dedicado a divulgar música independente e o trabalho de artistas gráficos (áreas de interesse do músico), conta também com programas de rádio (podcast), além de espaço para os artistas divulgarem sua participação em shows, exposições, mostras, festivais, etc. O endereço para os interessados mandarem material para o programa é: Alameda da Serra n° 500 - sala 702, Vale do Sereno, Nova Lima - MG - 34000-000. Mais informações pelo e-mail: programafrente@uol.com.br
Fonte: Divulgação.

Stones e U2

Para quem ainda não está de saco cheio, vai aí um clippingzinho do que tem rolado com as duas bandas aqui no Brasil, após o show de sábado e antes do show de hoje - além de algumas resenhas bacanas.
+ "É um grande sonho estar aqui", diz Bono durante visita a Lula .
+ Um show inesquecível, em tom de despedida.
+ Rolling Stones traz a felicidade para de 1,2 milhão de brasileiros.
+ A marcha dos pinguins.

A quem interessar possa: nem me animei de sair de Niterói, sábado. E nem corri atrás de nada de "imprensa" porque sabia que ia me dar uma puta preguiça de ir me enfiar naquela muvuca. Mas, da televisão, achei meio desanimadinho... ou não foi? Pelo menos faltaram várias músicas que eu queria escutar - a não ser que a Globo tenha cortado várias delas. Agora, vamos ver o U2 (igualmente, pela telinha).

Teresa Cristina

O texto abaixo saiu no International Magazine há alguns meses e também já foi republicado aqui no Discoteca Básica. Como tem coisas aí que nunca vi em lugar nenhum, resolvi recolocar.

"O MUNDO É MEU LUGAR" - TERESA CRISTINA & GRUPO SEMENTE (DeckDisc)

Mesmo com dois discos lançados - um deles duplo, dedicado à obra de Paulinho da Viola - a sambista carioca Teresa Cristina ainda pertencia a uma espécie de underground do gênero. Seus shows em lugares como o Carioca da Gema e o Semente já ficaram famosos e se tornaram bastiões da revitalização da Lapa, célebre bairro boêmio do Rio. Ainda assim, o samba de Teresa (e do grupo Semente, que sempre a acompanhou) ganhou uma edição de luxo: o ótimo CD (ou DVD) O mundo é meu lugar, gravado ao vivo no Teatro Municipal de Niterói em 12 de maio de 2005. No DVD, além do show quase na íntegra, o fâ também pode curtir o documentário Dona da casa me dá licença, com Teresa falando um pouco de sua trajetória.

Num papo por telefone, Teresa diz saber que se trata de um lançamento atípico - afinal, trata-se de uma cantora que ainda está em curva ascendente. Mas não esconde o entusiasmo. "Para um artista normal de gravadora grande, é comum ter lançamentos em CD e DVD. Só que minha história é diferente", explica. "A Deck é uma gravadora independente, meu trabalho foi crescendo na noite, foi revelado pela Lapa. O DVD facilita o contato com meu trabalho, porque tem muita gente que ouve falar da Lapa, do samba que acontece nas noites de lá, mas não tem como freqüentar".

Teresa vem, desde os anos 90, integrando um movimento que dá nova cara ao samba carioca, colocando repertórios antigos nas mãos de músicos jovens. Em 1999 passou a apresentar-se no bar Semente, na Lapa, acompanhada de um grupo que incluía os músicos Bernardo Dantas (violão), Pedro Miranda (pandeiro e voz), Ricardo Cotrim (surdo) e João Callado (cavaquinho) - hoje, no lugar de Ricardo, o grupo inclui o percussionista Trambique. Era um pessoal tão integrado ao "cenário" do local que passou a ser chamado de "grupo do Semente" - para o nome atual, foi só um pulo. As concorridas rodas de samba que Teresa e seu grupo comandavam na Lapa criaram um público fiel. "Temos uma relação bem próxima com o público. As pessoas têm observado nossa trajetória", diz Teresa, que chamou vários freqüentadores da Lapa para a gravação do CD. "Distribuí convites para pessoas que nem sabia o nome, mas que eram freqüentes. Foi uma maneira que encontramos de retribuir o carinho deles. Tem gente que vai ver o show toda semana, gente que leva outras pessoas".

O mundo é meu lugar
inclui pérolas de Paulinho da Viola ("Coração leviano"), outros clássicos do samba ("O mar serenou", de Candeia, "Pra que discutir com madame", de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida) e músicas da própria Teresa - grande revelação como compositora, em belíssimas faixas, como "Acalanto", "A borboleta e o passarinho" e "Candeeiro". Teresa também divide canções com o portelense Argemiro do Patrocínio (já falecido, assinou com ela "A vida me fez assim") e Zé Renato (a nova "Para cobrir a solidão") e ensina que MPB e samba andam de mãos dadas, em versões de "Meu guri" (Chico Buarque) e "Com a perna no mundo" (Gonzaguinha). "Queria ser localizada como uma cantora de música popular brasileira, mas as pessoas geralmente fazem questão de separar samba e MPB", lamenta Teresa. "É complicado, porque as rádios de MPB não tocam samba. E as rádios que tocam samba, não tocam o que eu faço porque acham muito sofisticado".

O papo "influências musicais" faz com que ela revele uma faceta pouco conhecida sua. "Eu escutava muita música estrangeira nos anos 70: Donna Summer, Barry White, disco music. Em Olaria tinha muito baile". E não era só isso: "No anos 80, eu virei roqueira, adorava heavy metal: Van Halen, Iron Maiden, Whitesnake. Também ouvia A Cor do Som, uma banda que me deixou bastante feliz. O som daquela época era muito variado e rico, até na música pop você via coisas de música brasileira". Paralelamente a isso, Teresa foi criada ouvindo samba, por intermédio do pai, mas só foi tomar contato mesmo com o gênero a partir de 1986. "Ouvi muito Jovelina Pérola Negra, Almir Guineto, Zeca Pagodinho, que davam muitos shows no subúrbio. E muita MPB: Chico, Gal, Bethânia, Simone, Nana Caymmi".

Além do Semente, Teresa chamou um galera amiga para ajudar no show: Paulão 7 Cordas (direção musical e violão de 7), Esguleba (percussão), Rui Alvim (clarinete), Paulinho do Pandeiro (percussão) e os coristas Alfredo Del Penho e Cristina Buarque. Quem está acostumado com o esquema livre das rodas de samba pode estranhar o DVD - no show, inclusive, Teresa teve que "se adequar", repetindo músicas, introduções e até a apresentação dos músicos. "Acho válido fazer isso, desde que o público seja informado de que vai ser um show diferente, de que algumas músicas vão ser repetidas. Já fui a gravações de shows em que aconteciam coisas como: 'ah, vocês (público) estão muito desanimados, vamos fazer de novo...'. Isso é chato. Mas na gravação, tinha gente até pedindo para repetir músicas", diverte-se.

Para o futuro, Teresa avisa que vem investindo muito no lado de compositora, e buscando novos parceiros. "Queria compor com a Zélia Duncan, mas ainda não aconteceu. Gosto muito da maneira como ela encara a vida artística. Tem o Pedro Luís, que admito muito, e também queria fazer algo com ele", diz a sambista. Saiba mais da vida de Teresa e do Semente no site http://www.teresacristinaesemente.com.br.

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

Rolling Stones?

Numa boa, alguém aí ainda aguenta ouvir falar em show dos Stones no Rio?

Quem agüentar, poderá curtir um belo clipping nos sites do Terra, que estão acompanhando quase minuto a minuto tudo que sai a respeito. Lendo tudo, chego a ter a impressão de que, se fossem documentados, até os peidos de Mick Jagger iriam parar lá, tal a riqueza de detalhes. Além disso, deve ter alguma coisa também no site O Fuxico. Resta ver o que mais esses caras vão aprontar por aqui, além do que já saiu.

Phono 73

"PHONO 73 - O CANTO DE UM POVO" - VÁRIOS (Mercury/Universal)

Lançado como um festival compacto da antiga gravadora Philips (hoje Universal), o Phono 73 peitava todas as regras ao apostar na mistura ampla, total e irrestrita, incomum para a época. Durante sua realização, em maio de 1973, passou pelo palco do Anhembi (SP) todo o elenco da gravadora, repleto de estrelas - havia desde a nata da MPB (Caetano, Chico, Gil) até os "populares" e "roqueiros" do selo paralelo Polydor (Mutantes, Rita Lee, Ronnie Von, Odair José).

Vários números do festival haviam sido publicados em 3 LPs na época, e reeditados em 3 CDs em 1997. Agora, os discos retornam às lojas condensados em dois CDs - com eles vem junto um DVD trazendo uma montagem de imagens do festival, feita na época. Durante o evento, falou-se na hipótese do Phono ser editado e exibido em cinemas, mas, devido a problemas de orçamento, isso nunca aconteceu.

Phono 73 - O canto de um povo poderia ter sido apenas um lançamento institucional, mas ganhou forte sentido político e estético. O dueto de Caetano Veloso e Odair José na pérola kitsch "Eu vou tirar você deste lugar" foi marcado por vaias da platéia, provocações de Caetano (que reclamou: "não existe nada mais Z do que a classe A") e vocais gaguejados de Odair. Já a censurada apresentação de "Cálice", de Gilberto Gil e Chico Buarque, virou lenda, desvelada agora graças às imagens. Proibidos de cantar a música, Gil e Chico, num momento de exemplar molecagem, resolveram cantá-la reduzindo sua letra a balbucios e a um ríspido "Cálice!" (cale-se, sacou?) berrado por Chico. Vendo as imagens, é possível acompanhar quase tudo: o som sendo cortado pela censura, Gil rindo nervoso, Chico com cara de "sabia que isso ia dar merda..." e inserindo um "arroz à grega" na letra da música (referência ao hábito adotado pelos jornais da época, que publicavam receitas no lugar de matérias censuradas).

Mesmo com falhas que não puderam ser consertadas - o áudio e o vídeo não casam em vários momentos e várias músicas estão pela metade - o DVD serve como registro histórico. Além de "Cálice", tem a celebração de Gil, Caetano e Jorge Ben na versão lisérgica de "Filhos de Gandhi"; o encontro cordial entre Wilson Simonal e Jair Rodrigues; Caetano impondo uma versão quilométrica de "A volta da Asa Branca", de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, à platéia que acabara de vaiá-lo com Odair; os movimentos pélvicos de Sérgio Sampaio em "Eu quero é botar meu bloco na rua". Raul Seixas transforma seu hard-soul "Loteria da babilônia" num happening, no qual lança a "semente de uma nova idade" enquanto pinta o símbolo da Sociedade Alternativa no peito. E em "Baioque", um raro rock de seu repertório, Chico solta um "censura filha da puta!", não captado pelos microfones.

Já o CD tem desde o lançamento de "Oração de Mãe Menininha" (com Gal e Bethânia) até o enterro da fase lisérgica de Ronnie Von, com a suingada "Vai depressa", passando pelos novatos Jards Macalé e Fagner. Só não tem Mutantes: doidaralhaços, Arnaldo, Sérgio, Liminha e Dinho sabotaram o próprio show. E não estranhe a escuridão de vários momentos do DVD: na segunda noite do evento, a iluminação feita pelo ator-faz-tudo Ziembinsky estourou feito pipoca.

* publicado há alguns meses na Bizz.

Blogs e sites

+ Rodrigo Rodrigues, apresentador do Vitrine, da TV Cultura, divulga seu site: www.rodrigorodrigues.com.br (com blog, fotos, entrevistas, etc).
+ Itamar Montalvão, gaitista (de blues) e amigo do Discoteca Básica, mandou o link do blog http://imont.blogspot.com, sobre música, cinema, etc.
+ Quer ler tiras do Calvin na net? Vai no blog Depósito do Calvin. Sim, o saudoso personagem de Bill Waterson tem um cantinho próprio na net.

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006

Arnaldo e Sérgio Baptista tocam juntos após 33 anos

por Thomas Pappon - site BBC Brasil

Uma exposição dedicada à Tropicália em Londres vai reunir pela primeira vez em 33 anos no mesmo palco os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista, do grupo Mutantes.

O anúncio foi feito nesta quarta-feira pelo centro cultural Barbican, que está promovendo a mostra sobre a Tropicália.

O grupo vai tocar no dia 22 de maio com a formação que seguiu em frente depois da saída da cantora Rita Lee, em 1972: os irmãos Baptista, o baixista Liminha e o baterista Dinho.

Arnaldo deixaria o grupo no ano seguinte, seguido de Liminha e Dinho, e os Mutantes se desmanchariam de vez em 1978.

'Entusiasmados'

O grupo foi fundado em 1966 por Rita Lee e os irmãos Baptista. Liminha e Dinho entraram como membros fixos nos Mutantes a partir do terceiro álbum, A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado, de 1970.
Rita, que foi namorada de Arnaldo, saiu depois do quinto álbum, Os Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets, de 1972.

Bryn Ormrod, responsável pela parte de música do festival Tropicália: A Revolution in Brazilian Culture, contou à BBC que "eles tentaram convencer a Rita a participar do show, mas ela não quis".

Segundo Ormrod, o repertório ainda está sendo montado. "A idéia é que eles dêem uma boa idéia do som que faziam naquela época, no final dos anos 60, início dos 70".

"Certamente eles vão ter convidados especiais participando do show. Há vários músicos britânicos que estão loucos para participar do evento".

Ormrod disse que procurou Serginho para apresentar a idéia de uma possível reunião do grupo e que todos eles "se mostraram entusiamados".

O festival começa oficialmente nesta quarta-feira, com uma exposição dedicada ao Tropicalismo, e termina no dia 22, com o show dos Mutantes - que vai ser aberto pela Nação Zumbi.

Gal com Lanny e Tutty

Outra atração vai ser o show de Gal Costa, no dia 28 de abril. Vai ser a primeira vez em 30 anos que ela se apresenta com dois músicos que tiveram grande destaque nos seus primeiros álbuns: o guitarrista Lanny Gordin e o baterista Tutty Moreno.

Outro destaque vai ser o projeto Tropicália Remixed, em que músicos brasileiros de grupos como Nação Zumbi e Orquestra Imperial vão se juntar a músicos britânicos dos Super Furry Animals e The Bees, para reproduzir, no palco, todas as canções do álbum coletivo Tropicália, lançado em 1968.

O diretor musical do projeto vai ser Sean O'Hagan, líder dos High Lhamas. Ele viaja ao Brasil nas próximas semanas para se reunir com Rogério Duprat, autor dos arranjos e orquestrações do álbum.

A exposição que começa nesta quarta-feira destaca obras de Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape e Antonio Dias.

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

Tatu

"DANGEROUS AND MOVING" - t.A.T.u. (Universal)

A dupla russa t.A.T.u. se enrola direto para explicar se, afinal de contas, são lésbicas ou não - Lena Katina, a ruiva, diz que "não pretendemos ser lésbicas nem nunca dissemos que somos", mas afirma em seguida que Julia Volkova, a morena, "acabou de ter um bebê e tem uma namorada". Pela história pregressa da dupla, de beijos trocados em lugares públicos, em clipes, etc, as duas mais se assemelham àquelas lésbicas de araque - tipo aquelas menininhas de 15 anos que dão selinhos em fotos publicadas em fotolog, mas na hora h mudam de idéia. Nesse aspecto, nada de muito transgressor - a não ser para quem costuma referir-se a si próprio como "bi curious" no Orkut, ou algo assim.

Em termos de som, a dupla até que manda bem em Dangerous and moving, o novo disco, lançado dois anos depois da estréia em 200 km/h in the wrong lane. O som de Lena e Julia é uma espécie de pop dance que é a cara da nova "era" da música, com riffs que por vezes remetem ao Nightwish e ao Linkin Park, melodias que podem soar como decalques tanto de Bjork quanto de New Order, etc. Uma mistura curiosa, armada com competência - o "armada" é no bom e no mau sentido, já que Dangerous está cheio de produtores, aparecendo em faixas diferentes (entre eles, Martin Kierszenbaum, Robert Orton e Trevor Horn, este, o mesmo que ajudou a forjar a cara oitentista do Yes em 90125 - os três já haviam aparecido nos créditos do disco anterior), o que já deixaria qualquer crítico caçador de "legitimidade musical" de orelha em pé. Para ajudar a aumentar ainda mais o hype, tem mais gente famosa ajudando a dupla, já que Sting aparece tocando baixo em "Friend or foe", uma das faixas mais influenciadas pelo já citado New Order (grande referência em climas, melodias, riffs de teclados, batidas, etc), que por sinal tem composição dividida entre Martin Kierszenbaum e... Dave Stewart, dos Eurythmics).

A participação que promete chamar mais atenção em Dangerous and moving é Richard Carpenter, metade da dupla pop setentista Carpenters. Richard aparece fazendo arranjos de cordas na bela "Gomenasai" - a faixa soa como uma espécie de "carpenterzinho" no disco, em meio a tantas faixas dançantes, e é de fato uma das melhores do álbum, talvez ao lado de "Craving", balada com toque "exótico" dado por riffs de flauta e por linhas vocais de tom quase progressivo, indianista.

Em todo o disco, chama a atenção o fato de que t.A.T.u. é pop, mas é um pop melancólico, por vezes triste - caso de "We shout", com seus vocais doces perdidos em meio a riffs de teclados. Marcando um diferencial, tem ainda "Loves me not", espécie de rock´n roll com armadura dance - algo que, por sinal era a especialidade do Eurythmics, do já citado Dave Stewart. Em poucos momentos, a dupla - e seus produtores - dão escorregões sérios, como acontece no caso da faixa-título, aberta com um riff clichezão de sintetizador (quase tão clichê quanto começar o CD com uma introdução de 50 segundos retirada da mesma faixa) e na mais-ou-menos "Perfect enemy", outra faixa neworderizada, composta por nada menos que nove pessoas - entre elas as próprias Lena e Julia.

Além das faixas normais do disco, Dangerous and moving ainda tem duas músicas cantadas em russo, "Obezyanka nol" e a bônus "Vsya moya lubov" - a primeira, com toques metálicos garantidos pela guitarra, pelo arranjo de cordas "épico" e pela condução techno + peso; a segunda, uma dance levinha que, por MUITO pouco, não lembra The Calling, graças ao violãozinho da abertura. Conheça a dupla no site oficial www.tatugirls.com.

Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

Na televisão

Chegou e-mail de Rodrigo Lariú avisando da série 100% BRASIL, que estréia hoje às 19h na TVE BRASIL. A série traz 18 programas sobre projetos, idéias e ações de vanguarda criadas por brasileiros nas mais diversas áreas. Ele dirigiu algumas matérias que vão estar nos programas 6 (segunda 20/02), 7 (21/02), 9 (23/02), 10 (24/02), 11 (25/02), 12 (domingo, 22h30, 26/02), 15 (01/03). O programa passará diariamente na TVE às 19h (domingo 22h30).

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006

Cidadão Instigado














"CIDADÃO INSTIGADO E O MÉTODO TÚFO DE EXPERIÊNCIAS" - CIDADÃO INSTIGADO (Slag)

Cidadão instigado e o método Tufo de experiências é um disco que... nem adianta, o trocadilho vem sozinho: é um dos discos mais instigantes de 2005. O projeto do compositor e cantor cearense Fernando Catatau - cujo currículo inclui trabalhos com Los Hermanos, Zeca Baleiro e Nação Zumbi - serve para expandir a mente do ouvinte e dar trabalho à crítica: é complicado de definir, mas desce tranqüilamente nos ouvidos de qualquer pessoa que procure uma música pop rica em elementos.

Sim, porque o Cidadão Instigado é repleto de referências, sem deixar de ser pop - é punk, é brega (em especial), é psicodélico, é "roqueiro" mas também é radicalmente brasileiro, no sentido de que Mundo Livre S/A e Nação Zumbi também o são, sem perder o contato com a música do mundo. Catatau, cantando, soa como um discípulo de Roberto Carlos e Odair José, mas unindo a eles um lado mais escondido da Tropicália (de Tom Zé e Jards Macalé, passando pela fase lisérgica de Ronnie Von, redescoberta a partir do começo dos anos 2000). O disco insinua que, por trás do conceito misturado do pop-rock nordestino dos anos 90, residia uma interface brega - de Roberto, de Odair, de Reginaldo Rossi, de Evaldo Braga, etc. Catatau prova que há conexões entre uma coisa e outra, acrescentando boas doses de doideira, no bom sentido - de letras declamadas, de timbres de sintetizador moog, de fartas percussões, de melodias climáticas, etc.

O disco abre com um bolerinho brega ("Te encontra logo"), com cara de jovem guarda garantida pelo órgão, tocado por Daniel Ganja Man - ex-colaborador do Planet Hemp. "Os urubus só pensam em te comer" é experimentação cruzada de rock e música eletrônica, feita para a trilha sonora do curta-metragem de mesmo nome, da cineasta Vanessa Teixera de Oliveira (e premiado no 5º Festival Nacional de Cinema e Vídeo Universitário da UFRJ, em 2001). Em várias músicas, a percussão dá mais peso aos tons eletrônicos, com uso de instrumentos como surdo e zabumba. "O pobre dos dentes de ouro" é uma rumba (ou calipso, quem sabe) com letra curiosa ("imagine o pobre dos dentes de ouro/quer sim, quer sim, quer sim/um pouco de dente de ouro Michelin"), que ganha depois uma batidinha mais tecnopop.

Tanto as letras quanto as músicas abusam de uma estética e de um conceito que pouco se via desde os tempos da Tropicália - o contraste entre pobrezas e riquezas, entre ritmos étnicos e roqueirices ou eletronices, etc. E isso fica bem claro no samba-rock melancólico "Silêncio na multidão", que alude a Los Hermanos e Mombojó: uma poesia declamada em meio a uma melodia que lhe serve de trilha sonora, narrando o estranhamento que uma grande metrópole como São Paulo pode causar a quem vem de longe e a adota ("interessante, né?/todos os dias em vários lugares/milhares de pessoas se cruzam mas não se falam/pois não se conhecem e nem ao menos se importam com isso").

O disco segue em meio a experimentações interessantes e letras curiosas, como se Catatau fosse o outro lado da moeda de Getúlio Côrtes (hitmaker da jovem guarda): uma espécie de contador de histórias bizarras, cheias de estranhamento. "Calma!", quase uma vinheta em meio a faixas de sete minutos, mostra o lado guitarrista do músico, com um riff pedrada imerso em teclados psicodélicos. "O pinto de peitos!" é até pop demais para os padrões do CD, com refrão memorizável e construção melódica lembrando o melhor da jovem guarda. "Apenas um incômodo" é um reggae lo-fi cuja letra parece dar voz a tudo aquilo que os cantores retratados por Paulo César de Araújo no livro Eu não sou cachorro não sempre quiseram dizer à inteligentizia nacional ("Fale para mim: porquê eu lhe incomodo tanto?/... Será que a minha voz fanha polui a tua sonoridade sobre-humana/ou será simplesmente porque eu me aceito assim/e até gosto de mim?/... Só tenho um sonho que já é meu/e duas palavras para lhe dizer neste instante: me aguente!"). Uma música que estaria pronta para ser gravada pela dupla Sérgio Sampaio & Raul Seixas, caso os dois ainda estivessem por aqui.

O método Tufo de experiências é mais um disco de surpresas do que apenas um disco de música. Mostra que música boa pode também ter conceito, sem deixar de ser pop, e mexe com signos que fazem parte de um Brasil que o brasileiro não conhece, repleto de conexões que muitos não enxergam - como os links entre jovem guarda e experimentações de estúdio. Vale citar também a bela capa em digipack e o encarte repleto de ilustrações que lembram um cordel pop, com o curioso desenho de um Roberto Carlos-Odair José triste, empunhando seu violão. Conheça o trabalho de Catatau no site da gravadora Slag, que editou o disco (www.slagrecords.com).

+ publicado no International Magazine.
+ foto tirada do site do Humaitá Pra Peixe

Domingo, Fevereiro 12, 2006

Orlandivo e suas chaves*

"SAMBAFLEX" - ORLANDIVO (Deckdisc)

Estranho, mas samba e carnaval chegam a se desentender em alguns momentos. Da mesma forma que Ilton, dono da roda de samba mais balada daqui de Niterói (o Candongueiro), recentemente afirmou "não gostar muito" de samba-enredo - criticando os atuais sambas das escolas por estarem muito comerciais - o samba de raiz perde muito neste período, porque a maioria das pessoas está mais interessada nas farras das quadras, nos ensaios. E nem poderia ser de outro jeito, já que a época é delas, das escolas. Além disso, carnaval e samba foram mudando muito com o passar dos tempos - a ponto da palavra "micareta" (originada do francês, pra quem não sabe, e que designa "carnaval fora de época" - já se falava de micareta na época em que Trio Elétrico era só Dodô & Osmar, inclusive) ser associada imediatamente a grupos como Babado Novo e Rapazolla, que de samba não têm nem a intenção.

Se samba e carnaval têm seus desentedimentos, imagina misturar samba com rock? Sim, Bebeto conseguiu fazer isso nos anos 70, inspiradíssimo por Jorge Ben (que, vindo do samba, fez discos de teor altamente roqueiro, como o folk A tábua de esmeraldas, de 1974 e o pesado África-Brasil, de 1976). Ambos conseguiram sucesso - muitas vezes, com nichos de públicos bem mais antenados do que os radicais roqueiros e os nacionalistas sambistas. Só que, antes desses dois, havia mais gente. Tinha Ed Lincoln, criador de uma mistura de samba e balanço, unindo tamborins, pandeiros e violão à música pop da época - o som de bailes de artistas como Glenn Miller - e autor de um disco de nome altamente sugestivo: O órgão espetacular de Ed Lincoln. A Ed, que hoje tem 74 anos, deve-se, em especial, o fato de ter sido um dos criadores do mercado fonográfico independente do Brasil - nos anos 60 lançou o selo Savoya Discos.

E havia também Orlandivo, crooner da orquestra de Lincoln - que se notabilizou por suas composições suingadas, baseadas em ritmos que estavam na crista da onda nos anos 50 e 60 (como o tal boogie-woogie, que ele imortalizou na sua gravação de "Boogie woogie na favela", de Denis Brean), cruzando samba, jazz, ritmos nordestinos e o começo do rock. Quem espremer os caquinhos de cérebro, vai se lembrar de pelo menos dois sucessos de Orlandivo: a infantil "Bolinha de sabão" ("sentado na calçada/de canudo e canequinha/tuplec, tuplin/eu vi o garotinho/tuplec, tuplin/fazendo uma bolinha/tuplec, tuplin/bolinha de sabão) e a sacana "Vô batê pa tu", gravada por Chico Anysio - que interpretava o líder do grupo satírico Baiano & Os Novos Caetanos - nos anos 70 (lembra? "Vô batê pa tu batê patu/Pa tu batê/Pra amanhã rapá não me dizer/que eu não bati pa tu/pa tu poder bater").

Após alguns anos sumido (sumido nada, o cara comandava shows em reveillóns, dava apresentações em lugares bacanas, como o Rio Scenarium, e tinha grupos até para shows em festas juninas - sua carreira discográfica é que andava parada desde 1976), Orlandivo volta com um disco essencial, Sambaflex. Produzido pelo violonista e cavaquinista Henrique Cazes, que já comandara projetos de choro na gravadora, o disco mostra a que veio já na capa, que traz uma chave com o nome de Orlandivo - o cantor se notabilizou por marcar o ritmo de suas músicas usando um molho de chaves, audível em várias faixas do CD novo, como "Chavinha". Enquanto andava só dando shows, o cantor tivera seus discos relançados na Europa e, por intermédio da "pirataria do bem" (o pessoal que passa discos esgotados para CD-R e vende na Rua Pedro Lessa, no Centro do Rio), foi redescoberto por uma nova geração de músicos e fâs de música, tanto no Brasil quanto lá fora.

Sambaflex traz o som de Orlandivo modernizado na medida certa. Tem umas batidinhas eletrônicas sim, e até uma batida de funk na regravação de "Boogie woogie na favela", música de caráter crítico e histórico indiscutível (a letra: "chegou o samba, minha gente, lá da terra do Tio Sam com novidade.../O boogie-woogie, boogie-woogie, boogie-woogie/a nova dança que balança, mas não cansa/a nova dança que faz parte da política de boa vizinhança" - sobre isso leia Tio Sam chega ao Brasil, livrinho bem esclarecedor do historiador Gerson Moura). "Vô bate pa tu" tem samples da voz de Chico Anysio e o DJ Marcelinho da Lua dando um toque especial, sem deixar Orlandivo mais por fora que umbigo de vedete - como se dizia lá pelos anos 50. Mas tem também o balanço de "Sambaflex" e "Eu vendo um samba", novos clássicos daquilo que Orlandivo chama de sambalanço, além de músicas que pedem uma coreografia, como a fofa "O ganso", a maravilhosa "Paralelo" e o samba-quase-funk "Zum zum zum".

O cantor também insere malandragem e dá vida a dois clássicos de Dorival Caymmi que João Gilberto chegou a gravar, "Doralice" e "Rosa morena" - aliás, as conexões do sambalanço com a bossa nova não são poucas, já que, de certa forma, o som de Orlandivo, em vários momentos, mostra-se como uma bossa nova feita para dançar. E repleta de bom humor - vale afirmar: além de compor para Chico Anysio, Orlandivo também fez trabalhos com João Donato (para quem não conhece: é uma espécie de João Gilberto mais suingado e bem humorado, autor de discos clássicos como Quem é quem e A bad Donato) e dividiu músicas com ninguém menos que o futuro humorista Paulo Silvino. Resumindo: Sambaflex é "o" disco que todo mundo precisava ouvir no carnaval. Aliás, vai aí a definição do nome do disco, segundo o encarte: "termo criado pelo percussionista Beto Cazes para definir um tipo de samba onde se misturam várias batidas". Genial.

Foto: Washington Possato/Divulgação
* publicado na minha coluna do Nitideal.

Sábado, Fevereiro 11, 2006

Show*



Nando Reis e os Infernais - Circo Voador, RJ 3/2/2006

Em entrevista recente, Lulu Santos foi perguntado sobre o que achava do pop brasileiro atual. Entre outras citações, o rei do pop brazuca sentenciou: "Nando Reis vai muito bem!". Se Nando jamais perdoará Lulu por ter, certa vez, comparado seu baixo a um cavaquinho (fato relevado por Arthur Dapieve em seu livro BRock), o cantor de "Como uma Onda" já reconhece no autor de letras elípticas como "O Segundo Sol" um membro ativo do nosso universo pop – ou, nas próprias palavras de Lulu, "essa gente que se estabelece fazendo uma música que serve". Serve? Como assim? Não parecem ser quilômetros de distância o que separa Nando de DJ Marlboro, Latino ou do Jota Quest?

A verdade é que o pop tem suas gradações – e a tal distância nem é tão grande assim, visto que Nando e o Jota Quest já se cruzaram por causa de "Do Seu Lado", canção sua que os mineiros gravaram. E outra verdade: Lulu apenas assinou embaixo de algo que o público do ex-Titã já sabia. Quem foi ao show de Nando no Circo pôde comprovar isso: a fila na porta que fazia voltas embaixo dos Arcos da Lapa, as músicas que eram saudadas com urros... mas em especial os hits que vão se sucedendo e sendo, alguns deles, apenas mencionados pelo cantor – que deixa refrões e estrofes inteiras para as vozes da platéia. Em minutos, qualquer um se dá conta de que não sabia que conhecia e gostava de tantas canções de Nando. A sensação é a mesma de se escutar uma coletânea do Kid Abelha. Ou do próprio Lulu. Ou do Skank, por sinal brothers do cantor.

Justamente pela quantidade de hits e de indispensáveis lados-B, o show de Nando é extenso. Há espaço para toda s as fases de sua carreira: músicas gravadas pelo Skank ("Resposta"), pelo Cidade Negra ("Aonde Você Mora"), por Cássia Eller ("ECT", "Relicário", "O Segundo Sol", "No Recreio") e, claro, pelos Titãs ("Os Cegos do Castelo", "Sua Impossível Chance", "Marvin" – esta, momento de catarse total no show). Em "O Mundo é Bão, Sebastião", de sua ex-banda, Nando troca "somos os outros Titãs" por "somos os Infernais" – para quem não sabe, a canção ficava de fora dos primeiros shows definitivamente solo do cantor por causa do verso.

Algo que talvez funcione como sinal: alguns dos momentos que mais provocaram reações na platéia vieram de Para Quando O Arco Íris Encontrar O Pote De Ouro, da quase-coletânea Infernal e do hit único do álbum 12 de Janeiro, "Me Diga". As músicas novas apresentadas no show – entre elas, as boas "Com Ela" e "Sim" – soam pesadas, repletas de bons riffs de violão (Nando toca o instrumento com uma rara pegada rock, herdada diretamente de Jimmy Page e Neil Young), distante do som meio frouxo de A Letra A.

Mas poucas coisas deixaram o público tão excitado quanto a "ida pra galera" do bis, com as tradicionais versões de "My Pledge of Love" (Joe Jeffrey Group), "Fogo e Paixão" (de Wando – não, Nando não cantou sua parceria com ele), "Whisky a Go-go" (Roupa Nova) e o encerramento definitivo com "Do Seu Lado", a tal canção para o Jota Quest. Fora a homenagem a Cássia Eller, com "All Star" – com direito aos olhos molhados de alguns fãs e ao pedido de Nando: "Vamos cantar bem alto para ela também poder escutar!".

Como acontecia na época áurea dos Titãs, o grande lance de seu ex-baixista, enquanto artesão pop-rock, é saber fazer o que as pessoas da platéia gostam de cantar. A grande diferença do músico para o ex-octeto – ainda mais se entendermos por época áurea o período de Cabeça Dinossauro - é que, atualmente, a responsabilidade de Nando é a de tornar a união rock + MPB + voz-e-violão criativa; e menos pentelha e conservadora. Numa época em que o tétrico encontro de Ana Carolina e Seu Jorge vende horrores, Chico Buarque suja sua reputação gravando com Zezé DJ Camargo e Jorge Vercilo ainda consegue ser visto e ouvido como "MPB", isso é ouro puro. Pode acreditar.

* publicado em Rock Press.

No mundo dos blogs

Rodney Brocanelli reuniu sua produção feita para o site da revista Laboratorio Pop no blog No Mundo dos blogs. Para quem não sabe, ele tem uma coluna sobre blogs lá, e já abordou o tema "blogs de musica" várias vezes - eu já fui um dos entrevistados.

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

Guilherme Arantes


Quem acompanha o Discoteca Básica faz tempo, sabe que Guilherme Arantes, aqui neste site, já foi chamado de "rei do pop" pra cima. Agora que ele está completando 30 anos de carreira e fala-se na gravação de um disco novo, ele escreveu um texto - que mandou para o blog do Mauro Ferreira, no Jornal O Dia - no qual fala como é estranho ser, ao mesmo tempo, pop e "maldito". O link original está aqui e o texto segue aí embaixo:

"Arantes reflete sobre a idéia de sucesso: 'Hoje sou exatamente o que sonhei ser'
(Coluna "Estúdio" - Mauro Ferreira - Jornal "O Dia" - RJ, 10/02/2006)

Motivado por recente artigo do colunista sobre os (des)caminhos de sua carreira fonográfica, no ano em que ele completa três décadas de obra solo pioneira no pop nacional e que prepara disco de inéditas em Salvador (BA), Guilherme Arantes mandou para o blog de Estúdio um texto em que reflete sobre questões relativas ao conceito de sucesso, à indústria do disco, à mídia, à música e ao jogo de poder que envolve tudo isso. O texto questiona o conceito de injustiça atribuído à trajetória de Arantes pelo colunista e merece ser lido por conta da riqueza de idéias expostas pelo compositor.Lá vai:

"O significado da palavra 'limbo' tem muitas variantes. Pode ser a ausência de lembrança que sucede fase de superexposição, pode ser o castigo que o sistema reserva para quem teve o espaço tão cobiçado, mas também pode ser "o silêncio que precede o esporro" ..., o que não configura obrigação nenhuma de voltas triunfais, de resgate, tudo isso pode ser um grande engano.Viver é melhor que sonhar, como diz o mestre Belchior, e a vida é infinitamente maior do que o êxito, o mercado, o senso comum e a opinião que as pessoas possam ter a respeito da gente... A verdade é que só pode "sumir" quem um dia "apareceu" ... e nisso fico tranqüilo, pois a minha "missão de aparecer" foi sobejamente cumprida nos anos da mocidade (e aí, sim, havia "obrigação" em conseguir brilhar) nas priscas e longínquas eras da beleza física... E como me fartei desse brilho!!! E acho que foi um brilho bonito, porque estranho.

O brilho pelo brilho não é nada, só vale pelo estranhamento que possa ter deixado. A indústria cultural, como qualquer outra, privilegia claramente o mito da juventude - empresas estabelecem até idade-limite para contratações no mercado, o que é uma injustiça enorme com a mão de obra madura e experiente. Mas isso é uma outra discussão - os mitos da juventude, do esplendor e decadência, da finitude da vida, ascensões e quedas, glória e ocaso, fazem parte da dialética mais rasteira e miserável que a humanidade construiu para, ela sim, perenizar-se no limbo. O mundo está no limbo. O mundo se esqueceu de si mesmo.

Eu não me esqueci jamais da música que eu amo, dos colegas que adoro, da belíssima história da música popular do Brasil, muito menos de mim, e nada tenho do que reclamar. Aliás, o estado de reclamação é o pior caminho para qualquer pessoa, especialmente o artista. Assim, o adjetivo "injustiçado" eu queria ver desde já banido de qualquer conversa a meu respeito. Quem? Logo eu?É uma pecha cruel e aprisionante, assim como é o título de "maldito" aposto aos nomes de Mautner, Macalé, Walter Franco, Melodia, Itamar, Arrigo, a lista é longa .... Mas como o sistema é insidioso, delimita um nicho para cada pessoa ficar ali, quietinha, santificada e adorada em seu silencio petrificado. E hoje em dia, qual é o significado da palavra "sucesso"? Francamente... é só olhar a TV aberta ...

O fato é que o Brasil também se esqueceu de si mesmo. É hoje um espectro do que foi, um fracasso, uma decadência deprimente, que vive do passado e no passado, mas também não adianta ficar reclamando. Como parte desse passado, tenho (e sou gratíssimo) tantas execuções em rádios do segmento "adulto-contemporâneo" quanto os meus maiores ídolos, e me sinto em muitíssimo boa companhia nesse "esquecimento", junto com o que há de melhor de nossa música. É tanta gente, e de tal qualidade, que nem sei se mereço tamanha companhia.Não vou aqui citar nomes de quem está realmente "esquecido", porque teria muita gente dos escalões principais, até mesmo gente que está "aparecendo" a toda hora, tentando de tudo pra aparecer, mas que está mortinha-da-silva e que se esqueceu de deitar. Só para exemplificar, sem medo de interpretações controversas e represálias, cito alguns internacionais que fazem parte da "nossa turma" : Elton John, Phil Collins, James Taylor, Peter Gabriel, Stevie Winwood, Christopher Cross, Al Stewart, Suzanne Vega, Tears for Fears, Everything But the Girl, Tracy Chapman, Cindy Lauper, Mark Knopfler... São só alguns que lembro agora, que amo, e que tocam muito, ali, juntinho com a gente...As aparências enganam, o sistema é um engodo, e a indústria cultural é uma farsa - e já foi desmascarada incontáveis vezes. A indústria do sucesso adora mesmo é quando o artista morre. Esse é o artista perfeito. Ou quando deliberadamente desaparece. Não fica em público expondo seu "apodrecimento físico e moral", não fica tentando voltar à baila, enchendo o saco da mídia, vira santo e ergue um mito, pronto. Mas não é assim que funciona. Teimamos em viver, porque (digo de novo) a vida é infinitamente maior do que tudo isso.Quanto a um novo CD "comemorativo" dos 30 anos de carreira, com participações estelares, podem deixar isso pra lá... Foi uma idéia natimorta. Não vou angariar nenhum "tributo a Guilherme Arantes", usando meu prestígio para somar nomes de peso, criando artificialmente ganchos de marketing para me tornar mais palatável, seria ridículo. E digo mais : há álguns meses me propuseram fazer um CD de intérprete, com regravações de grandes sucessos de outros artistas, um "projeto especial", que recusei peremptoriamente, o tal "cover do cover" que está tão na moda. Digo claro: estou e estarei sempre fora. Chega de "projetos". O Brasil virou a pátria dos "projetos", já perceberam?O brasileiro hoje é um sujeito que está sempre precisando "sentar pra fazer um projeto", é toda uma nação que roda bolsinha com um "projeto na mão", memoriais descritivos e planilhas de viabilidade. Nada sai do papel, morre tudo na praia. No meu caso, isso seria na verdade "fazer um projeto para sentar "...

Se hoje estou fora do mercado, sem gravadora, é porque sempre tive personalidade demais, ninguém jamais me curvou a gravar o que eu não queria, de um jeito que eu não quisesse, minha profissão é de compositor, eventualmente e circunstancialmente um hitmaker. Sim, gravei coisas (uns meros 5 %) para as quais hoje eu torço o nariz, mas foram erros meus. 95 % do que gravei, eu adoro. Ah, como é bom estar nesta situação... Principalmente as mais desconhecidas, os chamados "Lado B" que dariam pra fazer uma caixa com 15 CDs, que eu chamaria orgulhosamente de "Os 100 Maiores Insucessos de Guilherme Arantes".

Dos "20 Maiores Sucessos", eu já estou de saco cheio, embora muitas dessas músicas eu ainda goste muito e cante nos shows, porque o que eu vendo é a minha vida, sentimentos, e é uma delícia compartilhar isso. Cansei é do senso comum. Pra mim, ele não vale nada. Se, mesmo sem mídia alguma, faço uma média de 15 shows por mês (quem faz?) é porque só tem um jeito do público curtir minha música: ao vivo . E eu agradeço muito isso, pois vivo do que sonhei viver: da música, e nada mais. Minha profissão é de músico, não de celebridade. Sucesso, qualquer coisa faz.Sucesso é esquema, é kit modernidade - personal trainer, web-designer, fashion-designer, assessoria de imprensa, assessoria de marketing e outros apêndices que fogem de minha função no mundo. Estou pouco me lixando para a modernidade, para o ser moderno, seja lá o que isso significa. Certo está João Gilberto em suas esquisitices. E como é adorável, moderno, atemporal. É apenas um homem e um violão. Esse é o Mestre, sem nenhum kit modernidade.Vem aí um disco novo, sim, mas vai ser "apenas" um disco de carreira, com músicas novas. Em qualquer circunstância, digo do fundo da minha experiência que vale infinitamente mais um trabalho novo do que qualquer "jogada pra levantar", mais do que qualquer "projeto" espúrio de canibalização, de reprocessamento ou releitura.O mercado está covarde. Resta a nós gerarmos o milagre - mas não foi sempre assim? Se fosse pra abaixar as calças, em 1976, há 30 anos, eu teria gravado em inglês, pois era isso que o "mercado" exigia. Somos teimosos. Somos tinhosos e perigosos. Estamos vivos, e podemos fazer um estrago que ninguém imagina.Quero estar junto com os artistas desconhecidos, em começo de carreira sim, (re)começando sempre da estaca zero sem o menor problema. Em outubro de 1980 eu estava acabadinho e esquecidinho, sem gravadora, como manda o figurino do mercado, quando recebi em minha casa na Vila Mariana uma surpreendente ligação da Elis, pedindo uma música, ela havia se encantado com um disco meu (fracassadíssimo),
Coração Paulista. Pois me lembro bem hoje, eu estava a 3 meses (!!!) de me tornar o número 1 dos FMs, "glória" essa que duraria 12 longos anos ... quem é que diria, àquelas alturas, que isso estava pra acontecer?

Durante aqueles 12 anos, jamais me enganei com o sucesso. Saía todos os dias dos ginásios lotados com 8.000 pessoas (pagantes, só pra me ver) e ia caminhar pela madrugada, no silêncio das ruas desertas, para ouvir os meus próprios passos marcando o tempo real no chão da realidade. Ainda bem que antes dessa carreira tresloucada e enganosa eu havia feito Arquitetura na USP, já era cabeça-feita, o pensamento andava longe, bem longe de toda aquela confusão das "paradas", do assédio...Hoje, sou exatamente o que sonhei ser. Envelhecer, pra mim, é um objetivo, e eu juro pelo que há de mais sagrado que eu vou conseguir, e já estou conseguindo. Deus me livre de ficar eternamente jovem, e prefiro mil vezes ser bem esquecido do que mal lembrado. Sei que hoje o "mercado" é completamente previsível, as cartas estão muito mais marcadas. Mas estou muito mais com as surpresas, com as periferias. Enquanto houver sonhos vitoriosos, e não programados nas mesas de reuniões da ABPD, de artistas de verdade como Racionais MC's, O Rappa, Chico Science... O sonho existe e o que eu gosto mesmo é do novo. O resto, a poeira do tempo vai soterrar, sem o menor problema."

Calma, porra!

Eu não tive dinheiro pra pagar o domínio semana passada, por isso o Discoteca Básica ficou fora do ar dois dias.

Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

Mais texto reciclado*

"SUPER EXTRA GRAVITY" - CARDIGANS (Stockholm/Universal)


Para os Cardigans superarem First band on the moon, tido e havido por muita gente como seu melhor disco, vai ser complicado - Gran turismo, apesar de se iniciar bem nas rádios com a boa "My favorite game", logo se revelou um disco repleto de faixas fracas, com três ou quatro hit singles em potencial, e Long gone before daylight, CD anterior, já não era tão bom.

Super extra gravity, o disco novo, é... bem... O novo álbum foi feito após sucessivos planejamentos novos na agenda da banda, já que três dos Cardigans, Peter Svensson (guitarra), Bengt Lagerberg (bateria) e Lasse Johansen (teclados, guitarra) se tornaram pais no meio da excursão passada - alternaram-se períodos dentro e fora do estúdio, que duravam vários dias, enquanto a banda organizava suas vidas pessoais e seu trabalho. Como resultado final saiu um disco meio fragmentado, que repete algumas coisas do estilo antigo da banda, como a união completa de pop com algumas esquisitices - representadas pela qualidade de gravação meio anos 60/70, por um timbrinho de guitarra aqui e outro ali, etc. Mas, de modo geral, sem tanta força como deveria ter.

O fato é que a banda continua acertando a mão em seus hit singles. "I need some fine wine and you, you need to be nicer" já ganharia qualquer concurso mundial de nomes engraçados ou curiosos de música, ou sei lá o quê. Mas o fato é que a faixa tem o mesmo poder de grude de "Lovefool" e outras da banda: um rock animado, sustentado por cowbell e por um riff burro e feliz. No resto do CD novo, percebe-se os Cardigans como uma banda que se tornou mais desanimadinha (a cara do novo álbum é a música subseqüente a "I need some fine wine...", "Don't blame your daughter", uma baladinha lembrando o lado ruim de Sheryl Crow), com tendências a segurar tudo do álbum em três, quatro músicas legais , e manter climas bem parecidos no resto do disco, sem muitas surpresas - ao contrário de discos anteriores, em que as surpresas eram constantes, nem que fossem personalizadas por covers bem sacadas (caso de "Iron man", do Black Sabbath, registrada em First band on the moon). O que dá força ao disco são algumas canções legaizinhas - como as baladas "Holy love", "Good morning Joan" e a meio anos 50 "Overload", além do rock "Godspell" - e a voz apaixonante da vocalista Nina Persson, além de letras curiosas como a de "And then you kissed me II" a do próprio primeiro hit single.

Em Super extra gravity, os Cardigans (que, esqueci de dizer, completam a formação com Magnus Sveninsson no baixo) mostram um som bacana, interessante, mas que ainda poderia render muito mais. Faz falta a inventividade dos primeiros discos do grupo.

* publicado em International Magazine.

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

Texto reciclado*

"LIVE IN CUBA (DVD)" - AUDIOSLAVE (Epic/Universal)

O Audioslave, você sabe, é uma junção do Rage Against The Machine - sem o vocalista Zack de La Rocha - com o ex-vocalista do Soundgarden, Chris Cornell. O RATM, você também sabe, era daquelas bandas que tinham discurso engajado (na verdade, um monte de diatribes meio pentelhas que até hoje fazem a festa de bandas cover, caso do hit quase único no Brasil "Killing in the name") e subiam no palco mostrando a bandeira do revolucionário cubano, Che Guevara. Pois bem, o Audioslave, mesmo tendo um disco mil vezes mais amenizado, conseguiu o que nem sua banda-matriz havia conseguido: tornou-se, no dia 6 de maio de 2005, a primeira banda norte-americana a se apresentar em Cuba - justamente na Praça do Anti-Imperialismo, em Havana. O resultado está no DVD Live In Cuba, recentemente lançado.

A tal praça, que já abrigou vários protestos contra os Estados Unidos, deu espaço à apresentação gratuita da banda - que, pelo que deu para ver no documentário "Out of exile", que acompanha o DVD (e não ganhou legendas nem dublagem, o que obriga o comprador do DVD a se matricular num curso de inglês urgente), parou a cidade e deu grandes experiências para os músicos Chris, Tom Morello (guitarra), Brad Wilk (bateria) e Tim Commerford (baixo). Os quatro passearam por Havana, visitaram lugares como o Teatro Karl Marx, a estátua de John Lennon (sim, existe uma estátua de John Lennon em Havana, com direito a óculos removíveis, pois os anteriores já eram roubados a todo momento pelos fâs), etc - além de assistirem à apresentação de uma dupla de baixo acústico + piano local, fazendo um som meio Maria Rita, meio Ivan Lins.

Em termos de show, o DVD do Audioslave soa, como não poderia deixar de ser, como uma grande coletânea. Colocados numa pilha só, os sucessos dos dois únicos CDs da banda mostram o Audioslave como uma evolução do Rage Against The Machine. Não é nenhum trabalho de gênio, até por ser praticamente uma banda-de-uma-música-só - vários hits são adaptações do riff de abertura de "Cochise", que, por sinal, já era um combinado de vários hits da primeira fase do Led Zeppelin. Mas tem grande valor por ser uma das raras bandas da atualidade que não se rendeu a modismos. Tanto que soa estranho que dois sucessos do Rage Against The Machine, funcionando à base de rap, sejam lembrados a certa altura do show ("Bulls on parade" e "Sleep now in the fire"). O própro Soundgarden é relembrado, com a versão de "Outshined" - maravilhosa com a guitarra de Tom Morello, que continua fazendo os mesmos ruídos e efeitos da época do RATM (tão intensos que a banda costumava grafar em seus discos a frase "Não usamos sintetizadores").

O repertóro inclui várias ótimas faixas do excelente Out of exile e os melhores momentos de Audioslave (2002), o primeiro disco. "Be yourself", uma marcha-rock meio U2, aparece duas vezes - a primeira, na abertura do DVD, soando como uma espécie de hino à chegada da banda num país que, em tese, se libertou do jugo dos EUA; a segunda, durante o show. "Cochise", maior hit do grupo e uma de suas melhores músicas, é guardada estrategicamente para fechar a apresentação, com a banda envolta em luzes vermelhas. "Your time has come", faixa de abertura do CD novo, é um dos momentos mais poderosos do grupo, hard rock como não se faz mais, com energia cruzada de anos 70 e 90. "The worm" é mais uma riffarama lembrando Led Zeppelin, com um vocalista que atinge o meio termo certinho entre Robert Plant e Roger Daltrey (ou um Plant com testosterona, como já disseram há tempos). É show honesto, com direito a desafinações e a Chris Cornell cansando a voz em algumas músicas.

Como não podia deixar de ser no caso de um show histórico, rola alguma interação entre público e banda. Tom Morello lê uma carta de agradecimento enviada por um fâ que consegue subir ao palco ("e eschte éh todo o eschpanhol que eo sei!", brinca o guitarrista) e Chris agradece à faixa "Hello Seattle", que lê do palco.

+ Falando em covers de "Killing in the name", o lance persiste. Estive outro dia, bem no comecinho do ano, num super-festival de rock em São Gonçalo que tinha um palco só para bandas cover e outro para heavy metal (além de mais dois palcos, um para indie rock - no qual se apresentaram o Noitibó e o Benflos e bandas como Lasciva Lula e The Feitos marcaram e desistiram - e outro para punk, emo, hardcore e adjacências). Entre o palco metálico e o de covers, escutei "Killing in the name" quase dez vezes.

* publicado em International Magazine.

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006

"CÉU" - CÉU (Ambulante discos)

O disco de Céu acabou de rodar no CD-player e dois versos pulam na memória insistentemente: "Minha beleza não é efêmera/Como o que eu vejo em bancas por aí" ("Bobagem", dela própria) e "Não tenho jacuzzi/nem chuveiro a vapor/meu deus faça o favor/de retornar o recado" ("Ave Cruz", dela e de Alec Haiat).

A essência de novidade de Céu, o disco, não pára por aí. Além de letras que dizem muito mais da realidade atual do que boa parte dos "discos de cantoras" lançados nos últimos tempos - e numa época em que a suprema novidade no setor MPB parece ser o tétrico encontro de Ana Carolina e Seu Jorge - a paulistana Céu consegue fazer uma mescla que alude a vários mundos. Ao samba paulista de Adoniran Barbosa (cuja "Trem das onze" é citada literalmente na melodia de "Malemolência"), às favelas cariocas (que ela nem deve ter conhecido quando esteve no Rio se apresentando no Humaitá Pra Peixe) no som afro-sambístico de faixas como "Lenda" e "Roda", ao samba dos anos 70 na versão bem sacada de "O ronco da cuíca", de João Bosco e Aldir Blanc - cuja versão original era bem avançadinha para a época, costurando partido alto, samba africano e uma espécie de bateria "psicodélica" de escola de samba -, a universalidade dos sons eletrônicos e a modernidade das produções minuciosamente trabalhadas em casa (o disco foi feito entre 2002 e 2004). Tem até reggae, ritmo já devidamente colocado por Nei Lopes no roteiro dos sons universalmente negros, na versão de "Concrete jungle", de Bob Marley.

Bom, quem quiser saber mais de Céu - o disco e a cantora - escrevi sobre o show dela no Rio para a revista Bizz. A resenha, se tudo correr bem, deverá estar saindo na edição de fevereiro. Por enquanto, vale dizer que ela é uma das atuais "sensações" (odeio essa palavra) da música brasileira que não teriam sido descobertas se o disco dela não tivesse saído lá fora até mesmo antes da edição brasileira - lançada, por sinal, por um pequeno selo de São Paulo, o Ambulante discos.

+ Como? Não sabe quem é Nei Lopes? Aqui tem algumas informações e aqui o blog dele. Assim que der, desenterro um texto que fiz sobre um disco dele, que saiu no Discoteca Básica.

"DISCOTECA BÁSICA TRATORE VOL.2 - NOVO ROCK BRASIL" - VÁRIOS (Tratore)

Bom nome o dessa coleção da Tratore, não? O volume 2 da série Discoteca Básica (como é que eu não pensei nisso antes?) traz 17 faixas "para quem quer saber o que está acontecendo na cena independente brasileira". Responsável pela distribuição de mais de 100 pequenos selos, a Tratore é figurinha fácil em qualquer banquinha de CDs independentes montadas em shows, festivais ou o que o valha. A escalação do CD mostra o que há de melhor e, vá lá, o que há de mais esquisito, no bom sentido, no rock nacional. A seleção é da jornalista Kátia Abreu (da revista eletrônica B*Scene) e o preço do disquinho é - sem sacanagem nenhuma - seis reais. Àvenda em qualquer loja virutal ou na própria Tratore.

LOS PIRATA: Já resenhados em algum dos arquivos perdidos do Discoteca Básica, os paulistas do Los Pirata fazem punk-surfístico com instrumentos curiosos (um misto de baixo e guitarra e uma bateria de brinquedo) e letras em espanhol de mentira. No disco aparece "Nada", faixa de abertura do CD do grupo.
ABIMONISTAS: Rock sessentista, sem o peso de um Cachorro Grande, mas com órgãos Hammond à frente e boas melodias. Aparecem com "Varas e cruzes".
B. NEGÃO: Precisa apresentar? Rap carioca com filosofia, política, bom humor e muita sabedoria nas letras, além de bons grooves em "Funk até o caroço".
WADO: Sem o "apelo radiofônico" de que fala o encarte do CD quando se refere a ele, Wado lembra mais a MPB experimental dos anos 70 e o rock underground paulista dos 80 na ótima "Tormenta".
NERVOSO: Tinha que estourar, nem que fosse daqui a dez anos. Um dos melhores storytellers do rock carioca, Nervoso aparece com um dos grandes hits natos do disco, "Já desmanchei minha relação". Pop ensolarado, com algumas psicodelices e letras que lembram uma espécie de Nelson Gonçalves rock.
JUMBO ELEKTRO: Definido como "tropicalista", o Jumbo Elektro une rock, sons eletrônicos (com cara new wave) e Miami-bass - algo que tem se tornado moda nos meios independentes - na malucaça "Freak cat".
CANASTRA: The Jam (a banda que inspirou o Ira! e mais uma carrada de novos grupos - impossível entender o surgimento de The Libertines e Kaiser Chiefs sem a existência deles) com baixo de pau e letras maravilhosas como as de "Diabo apaixonado". A banda que ganhou o festival Oi! Tem Peixe na Rede e, em breve, estará lançando disco pela Sony & BMG.
NUMISMATA: Samba-rock viajandão, de boa qualidade, em "Indulgente".
ARNALDO BAPTISTA: Nem é uma das melhores faixas de Let it bed, seu disco mais recente, mas vale o registro. "Cacilda", esquecida por Arnaldo numa fita dos anos 80 e resgatada para o CD novo, é pop rock melancólico de boa cepa, mas sem a qualidade das faixas de Lóki? (1974).
KARINE ALEXANDRINO: Dance-rock curioso e (vá lá) sensual, lembrando New Order graças às batidas eletrônicas e aos baixos palhetados e agudos na engraçadinha "Loca por ti".
MOMBOJÓ: Um dos melhores shows do rock independente atual (comprovador por este que vos fala em Natal, RN, ano passado, no festival do selo DoSol) e um dos melhores discos de 2004, unindo rock, samba, psicodelia e sons que lembram de Mutantes a Tortoise, passando por Novos Baianos. Agora, a faixa escolhida podia ter sido melhorzinha - entrou a mais ou menos "Absorva".
CIDADÃO INSTIGADO: Imagina juntar rock, post-rock (aquele som esqusitinho do Mogwai, do Tortoise e de mais algumas outras bandas), som pesado, letras críticas, jovem guarda, sons nordestinos e música brega? Pois é, o Cidadão Instigado, do cearense Fernando Catatau, conseguiu - e mostrou a que veio em três CDs e num show ótimo dado aqui no Rio, há pouco tempo. "O verdadeiro conceito por trás do preconceito" é um ótimo exemplo disso.
HURTMOLD: Mais rock experimental - ao ponto de ser quase progressivo em algumas passagens, mas provavelmente a banda prefere a denominação post-rock. Aparecem com o instrumental "Música política para Maradona cantar".
TARA CODE: Uma audição do inferno, no melhor sentido que isso possa ter - com as atonalidades e os barulhinhos da experimental e eletrônica "O avesso da tristeza", um "trip hop acelerado e torto", segundo o encarte do CD. Pintam em breve por aqui.
ASTRONAUTAS: Soam como uma espécie de Ministry (lembra?) brasileiro, na barulhenta "Sentimentos".
MQN: A banda de Fabrício Nobre (um dos nomes por trás do selo Monstro Discos) faz uma espécie de stoner rock à brasileira, mas mandando bala em influências do Cult em "Heart of stone".
GALAXY: Uma espécie de Tutti-Frutti punk e mais sacana, comandado por Beto Lee (filho de você-sabe-quem), no som a la Guns N'Roses de "Um pouco de mim".

Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006

A reconstrução da Bizz

"A volta da revista Bizz talvez seja um dos acontecimentos mais festejados do ano de 2005. O título da Abril é talvez um dos que mais despertam paixões, até pelo fato de abordar um tema apaixonante: a música. Além disso, a publicação faz parte da memória afetiva de uma geração. Talvez tenha sido o primeiro contato de vários leitores ainda adolescentes nos anos 80 com o jornalismo. Mais do que agradar a saudosistas de plantão, seu retorno faz parte de um projeto meticuloso de reconstrução de uma marca. Sua história é acidentada desde que começou a ser publicada em 1985. Já passou por duas editoras além da própria Abril, a Azul e a Símbolo, e teve várias mudanças de rumo até deixar de circular em 2001.

Algumas etapas marcaram essa volta. Num primeiro momento, ela se deu em edições monotemáticas abordando vários aspectos da história do rock, além de DVDs especiais dedicados a bandas como o U2, por exemplo. Em setembro, a Bizz retomou seu caráter mensal. O passo seguinte imediato é, além da revista, desdobrar a marca em mais projetos especiais – como em associações de conteúdo com grandes marcas ou no lançamento do caderno regional (o primeiro deve ser publicado no Rio Grande do Sul)."

Materinha bem bacana sobre a volta da Bizz - com direito a citação do nome deste que vos fala - no site Observatório da Imprensa (link aqui). O autor da matéria é o Rodney Brocanelli, que colabora com a Laboratório Pop e faz o blog Informação Privilegiada. Ele andou fazendo várias entrevistas com jornalistas musicais, entre 2003 e 2004. Coloco os links aqui, assim que achar.

Sim, a volta de uma plataforma para atualizar este blog (sem brincadeira, eu atualizava ele todo na mão, usando o - credo! - Front Page) me deixou animado para postar apenas umas 90451345 vezes por dia.

P.S: Tem uma resenha de um CD-coletânea do Clube da Esquina (lançado pela Dubas) e uma materinha pequena com os Golden Boys que eu fiz, que estão nessa Bizz nova.

Só o amor constrói

"ENTREVISTA
'Deus disse: 'Crescei-vos e multiplicai-vos'. Pirateiem meus discos!", clama Hermeto Paschoal.

Hermeto Pascoal é homem de muita fé em Deus. Mas se esse senhor de Lagoa da Canoa, Alagoas, tivesse uma religião, essa seria a Música. E na hierarquia burocrática da Igreja da Música Universal, Hermeto Pascoal seria seu pastor maior.

O nome mais respeitado e livre da música instrumental brasileira chega aos sessenta e nove anos bisavô e de namorada. A “patroa” gaúcha Aline Morena, 26 anos, dona de divina voz, é quem divide o novo culto musical com Hermeto: “Chimarrão com Rapadura” será lançado na semana que vem em CD e DVD. Tudo independente."

O link da entrevista, feita por um cara chamado Carlos Gustavo Yoda para o site Agência Carta Maior, tá aqui. Entre os melhores momentos do papo, aparecem recados para Gilberto Gil ("Tem que se incentivar, dentro do governo, uma equipe de comunicação para acompanhar os artistas brasileiros que estão fazendo trabalhos lá fora. Assim como acontece com os esportes. Precisamos de jornalistas especializados e financiados pelo governo para trazer isso de volta") e uma cagada na cabeça de ninguém menos que Tom Zé ("Ele não é músico. Ele tinha é de morrer logo").