Sexta-feira, Março 31, 2006

Desencavando matérias: Rio Fanzine (essa tá nas bancas hoje)

S.O.S. para o pai do Garage
Ricardo Schott • Especial para o RF

Asituação é complicada e o underground do Rio tem que fazer alguma coisa. Fábio Costa, fundador da casa de shows Garage Art Cult — que lançou montes de bandas nos anos 90 — passa por sérios problemas de saúde, além de atravessar uma braba crise financeira. Fábio foi diagnosticado diabético após deixar a casa, em 2001. A doença ocasionou uma bola de neve de enfermidades: ele amputou parte de um dos pés e tem, atualmente, apenas 40% da visão, na vista direita.

— Os médicos dizem que posso ficar totalmente cego em até seis meses — diz ele.

Sem condições de trabalhar, Fábio vive da ajuda de antigos amigos, entre eles, algumas crias do Garage, como B Negão, Marcelo D2, Los Hermanos e o baixista Zé Felipe, do Zumbi do Mato. Uma situação lamentável para uma figura ímpar do cenário alternativo carioca — pela casa passaram mais de 800 bandas, muitas delas estreantes. Os primeiros shows do Planet Hemp ocorreram lá, e D2 chegou a morar no Garage após separar-se da primeira esposa.

— O rock dos anos 90 e do fim dos 80 deve muito ao Garage — relembra B Negão.

O Garage ainda existe. O nome foi mantido graças ao dono do equipamento de som da casa. Fábio deixou o Garage após problemas com ex-sócios, que não estão mais lá:

— Muita gente fala que eu poderia ter ganho dinheiro, mas meu negócio era marcar shows.

Alguns músicos cariocas já se uniram: Zé Felipe chegou a marcar shows no Florença Rock Bar, na Vila da Penha, com renda revertida para Fábio. André Paumgartten, vocalista da banda Arkham, também planeja um show beneficente. E B Negão manda na lata:

— As pessoas têm que entender que a coisa é séria. O Fábio precisa de ajuda mesmo, e agora. Quem puder, tem a obrigação de se mexer.

Terça-feira, Março 28, 2006

Skulk:Partition[Root] lança novo single na internet

A banda paulista SkulkPartitionRoot disponibiliza nos principais sites de mp3, Trama Virtual, My Space e Fiberonline, o novo single “Locomotion Machines”. A faixa é uma prévia do álbum “Plugged”, a ser lançado nas próximas semanas.
O Skulk surgiu em 1999 com apenas um integrante, Dalton Kole, responsável pelos vocais e programações. Depois entraram Fernando Paraguassú (guitarra), Milton Toller (bateria) e Elver Carnavali (guitarra), um fã hipnotizado pelo som da banda que logo foi cooptado. Com uma sonoridade ao mesmo tempo pesada e dançante, com influências da música eletrônica dos anos 80 e 90, do technopop, e do rock industrial, o Skulk conquistou um público fiel no estado de São Paulo.
Baixem.

Segunda-feira, Março 27, 2006

Desencavando matérias: Ruído 2006


RUÍDO
Teatro Odisséia, Rio de Janeiro
Dias 10, 11 e 12 de março/ 2006

SEXTA (10/3) - Em sua versão 2006, o Ruído trouxe, além das atrações musicais, algumas novidades. A primeira delas foi a divisão entre dois palcos, interessante do ponto de vista prático - enquanto duas bandas tocavam, o palco principal era montado com calma, evitando problemas - mas complicada para o público, que teve de assistir aos dois primeiros shows de cada noite num calor dos diabos e (em alguns casos) um som mais ou menos. Sorte que a banda de abertura era o Charme Chulo, do Paraná. O som dos caras é punk + brit-pop da roça, com viola caipira, letras roceiras ("O Que É Que Foi, Piá?" é um achado) e referências a Smiths e Violent Femmes. Em seguida, veio o Dead Rocks, de São Paulo. O trio liderado pelo guitarrista e sósia de Marcelo Nova, Johnny Crash, faz surf-punk instrumental, com muita categoria. O público, que gritava "toca rock´n roll!" (ai...), ganhou resposta à altura, com covers roqueiras - e irreconhecíveis - de duas músicas de Cartola, "Preciso me Encontrar" e "Basta de Clamares Inocência".

Acompanhado por naipe de metais, o Canastra abriu o palco principal mostrando que faz um dos melhores shows do rock carioca atual. Aliás, o grupo tem também um dos públicos mais participativos e fiéis do meio. Se a Sony-BMG, que os contratou, souber levar, o som punk + dixieland + rock anos 50 do grupo - herdeiro de bandas como Ultraje A Rigor, João Penca e Brasov - estoura rapidinho. Canções como "Diabo Apaixonado" e "Meu Capuccino" estão preparadas para isso. Houve também muita gente interessada na toscaria do Jumbo Elektro (foto), banda eletro-rock de São Paulo. Cumprimentando a platéia com sonoros "freak to meet you", os caras subiram ao palco fantasiados - um de general, outro de gueixa etc -, fizeram vocoder ao vivo, causaram risos. Para muitos, lembrou o show do Cansei De Ser Sexy na edição passada do Ruído, o que não chega a ser exatamente um bom cartão de visitas. Mas agradou a várias pessoas. Resta ouvir o disco e saber se o som se sustenta além do visual.

Depois do Canastra e do Jumbo, o público diminuiu consideravelmente, e tanto o Zefirina Bomba (foto), da Paraíba, quanto o Irmãos Rocha!, do Rio Grande do Sul, penaram. No caso da primeira banda, um desperdício: impondo respeito graças a uma sonoridade meio punk, meio experimental - o vocalista Ilsom empunhava um misto de violão e guitarra, com som distorcido - o grupo seguiu mandando bala e concluiu o show com uma versão tosca de "Interestellar Overdrive", do Pink Floyd, acrescida de um rap berrado por cima do instrumental. Quase no fim, o tal violão-guitarra foi espatifado e atirado no público: uma ceninha meio careta, mas que ali, com aquele som, impressionou. Já os gaúchos, encerrando a grade, passaram batido e tocaram para poucos.

SÁBADO (11/3) - A escalação da noite mostrava tudo: seria o dia mais jovem-guarda do Ruído 2006. O efeito túnel do tempo já começava no show dos paulistas do Headphone. Os músicos têm uma estampa meio The Wonders, com cabelos, roupas e óculos da época, além de um som que se localiza entre Beatles, Byrds e R.E.M. Tal visual fez com que o grupo parecesse contido demais no show, causando indiferença. O Vanguart, do Mato Grosso, foi o oposto, com referências entre o post-rock e o brit-pop - o vocalista tinha lá seus ataques de Thom Yorke - e entrega quase total no palco.

A noite no palco principal começou mal, com a notícia de que os jovemguardistas do The Pop's, que tocariam naquela noite, tinham dado o fora. Puto da vida com os sucessivos atrasos do show - coisa possível de acontecer em qualquer festival do porte do Ruído - o baterista Parada se mandou, seguido dos outros músicos. Dava para calcular o grau de frustração dos organizadores do evento - especialmente do autorama Gabriel Thomaz, flagrado dizendo para amigos que o show dos coroas seria "a alma" do festival.

Coube a Nervoso & Os Calmantes, bons de público, segurarem a onda. O show dos cariocas deve ter calado a boca de quem ainda insistia em ver no ex-Matanza um traque dos Los Hermanos. Letrista storyteller e carismático no palco, Nervoso está cantando cada vez melhor e conta com pelo menos quatro hits irresistíveis no set list: "Já Desmanchei Minha Relação", "A Visita", "O Mala" e a Nova "Candidato A Amigo" - esta, numa onda bem Roberto Carlos anos 70.

Sapatos Bicolores é um grupo de Brasília que mistura punk e rock dos anos 50. Uma combinação já meio passadinha e repetitiva, mas que, no caso deles, dá certo - a banda subiu no palco em clima de jogo ganho, com o público cantando todas as músicas. E chega, porque a grande atração da noite foram mesmo os gaúchos do Graforréia Xilarmônica (foto), de volta e gravando disco novo. Os fãs curtiram a nova "40 Anos", sucessos como "Bagaceiro Chinelão" e canções que se tornaram hits com outros artistas ("Eu", conhecida na versão do Pato Fu, e "Empregada", idem com Wander Wildner). A união de punk, jovem guarda, zoação e sabedoria gaúcha do Graforréia levou muita gente às lágrimas. Teve até fã subindo no palco - no caso, o publicitário Fred Whately, que fez sua segunda aparição especial num show da banda, cantando "Eu Gostaria De Matar Os Dois". "Combinei tudo com o Carlo Pianta e eles me chamaram", diz ele, que não é músico.

DOMINGO (12/3) - Mais uma novidade: pela primeira vez, o domingo não foi o dia da pirralhada no Ruído. Quem não queria se espremer em shows de bandas de emocore e afins, voltou feliz (e ileso) pra casa. No fechamento, foram escaladas as bandas mais rock’n’roll, cujo show foi aberto por um pequeno debate entre agitadores do underground - contando com os organizadores do evento entre os debatedores.

O Tchopu abriu os trabalhos com um som bacana, entre o punk e o metal, e hits inconformados como "Não Tenha Medo" - fica faltando apenas o vocalista Rômulo se soltar mais no palco. Violentures, de São Paulo, veio na seqüência, mandando bala num som que mostra outras faces dos anos 90 - sai o grunge, entra o rock alternativo de Superchunk e Weezer, cantado em inglês. Ganharam respeito. No palco "mundo" - como era chamado por alguns incautos - o rock underground na língua de Shakespeare continuava, graças às meninas punk-metal do Lava. Nada de Pitty ou coisa parecida: o esquema das garotas é bem mais pesado, típico das bandas que entraram pro "esquema rock´n´roll" da capital paulista - e aí, foi complicado não pensar em Forgotten Boys. O show ficou numa linha entre o amador e o profissional, trazendo conversas com a platéia e papos-calcinha em meio ao barulho do grupo.

Depois veio o Drosophila (foto). O nome foi baseado no nome científico da "mosca-de-fruta" (drosophila melanogaster), mas, diante do visual da vocalista-gata Ana Luiza Pimentel houve quem preferisse uma outra mosca - a de padaria. Trocadalhos do carilho à parte, o som do grupo paulista é bacana, mas em vários momentos deu a entender que precisam urgentemente escapar de rótulos como "rock fofinho" e "Penélope cover" - Érika Martins, pelo que informaram a este escriba, curtiu o show e percebeu influências de sua ex-banda. Fofura, por sinal, é assunto para o Rádio De Outono, banda pernambucana que dispensa a presença de um guitarrista (!), baseando-se em teclados, baixo, bateria e no carisma da charmosa vocalista Barbara Jones. O som une new-wave à la B-52's e toques sutis de jovem guarda - rolou até cover de Ronnie Von, "Espelhos Quebrados".

A presença de Jimmy London, vocalista do diabólico Matanza, bebendo num canto do bar, já dizia tudo. O MQN (foto), de Goiânia, subiu ao palco e transformou o Teatro Odisséia numa sucursal do inferno - para poucos, infelizmente, porque muita gente já tinha se mandado. Quem ficou, ganhou um showzaço. Hard rock e stoner rock (ô rotulozinho...) pesado e chapado, com direito ao carisma do vocalista-figuraça - e sósia do DJ carioca Edinho - Fabrício Nobre, além de hits como "Buzz in My Head". Talvez o melhor fechamento que o Ruído já teve em toda a sua existência.

E, vale citar, não deu em quase nenhum jornal. Certas coisas nunca mudam. O Ruído Festival existe desde 2002, sempre trazendo várias bandas e uma boa estrutura, no Rio de Janeiro - e sempre sem apoio dos barões da telefonia, sem vips, sem muita mídia etc. Agora, na estréia do evento no Teatro Odisséia - já que a casa de shows Ballroom, que abrigava o Ruído, foi demolida - a pouca atenção dos grandes jornais continuou a mesma. Havia poucos jornalistas, a maioria cobrindo para sites especializados. Para quebrar a inércia, uma equipe da TVE esteve por lá filmando algumas atrações e colhendo opiniões de algumas pessoas. E só.

Maldade com um festival que já trouxe montes de atrações bacanas. Seja como for, o Ruído chega ao quinto ano com moral no meio independente do Rio - afinal, é um dos raros festivais do underground carioca com visibilidade - e continua trazendo shows surpreendentes, além de alguns nomes já manjados.

+ Todas as fotos são minhas
+ Publicado originalmente em Rock Press.

É hoje

Fora da ordem
Artistas se unem em show público hoje na Lapa para protestar contra o sistema vigente na Ordem dos Músicos do Brasil

Nelson Gobbi

No decorrer deste ano, músicos subirão em palanques Brasil afora, aproveitando o abastado período de showmícios das eleições. Mas hoje um grupo de artistas subirá em um palanque diferente, montado nos Arcos da Lapa para a defesa dos seus direitos. Numa histórica demonstração de mobilização da classe, artistas como Roberto Frejat, Sandra de Sá, Lenine, Zélia Duncan, Cláudio Zoli, Jards Macalé, Jorge Aragão, João Carlos Assis Brasil, Cama de Gato, Ivo Meirelles & Funk'n Lata, entre outros, farão um show gratuito em protesto contra a atual administração da Ordem dos Músicos do Brasil.

O espetáculo Fora de ordem, programado para acontecer ininterruptamente das 16h às 22h, tem como objetivo levar à sociedade a proposta de renovação da entidade. Presidida desde 1965 pelo juiz aposentado Wilson Sândoli, ela tem a mudança pleiteada pelos integrantes do Fórum Permanente de Música do Rio de Janeiro, responsáveis pelo evento.

Entre as reivindicações, estão a reformulação do processo eleitoral, instituindo pleitos diretos a cada biênio; o levantamento de todo o patrimônio material e imaterial da instituição; a restituição dos registros de todos os músicos cassados por não concordarem com as regras internas; a regulamentação do direito de voto aos chamados músicos práticos; intervenção, através do Ministério Público Federal, para suspender o mandato de dirigentes comprometidos com práticas autoritárias e irregulares.
(...)

Leia mais aqui. O show rola hoje das quatro da tarde às vinte e duas horas, nos Arcos.

Quinta-feira, Março 23, 2006

CDemos, promos, etc

O Discoteca Básica andou meio parado um tempo, só publicando textos velhos - é algo que vinha acontecendo desde meados do ano passado - e os CDs recebidos ficaram acumulados. Vou colocando todos eles aqui gradativamente, ok?

"OS DIAS" - REAÇÃO EM CADEIA (Deckdisc - promo)

Provável próximo lançamento roqueiro da Deckdisc a se dar bem nas lojas, a banda gaúcha Reação em Cadeia chamou atenção da gravadora por lotar apresentações no Sul - algumas em festivais de grande porte - contando apenas com dois álbuns independentes na bagagem. Febre confessional, o próximo CD, sai em breve - contando com a boa e pesada "Os dias", distribuída num promo. Na capa, a blusa de flanela do líder Jonathan Corrêa mostra tudo: o Reação é a banda dos sonhos - ou dos pesadelos, sabe-se lá - de quem se perguntava porque é que a escola eddievederiana de vocalistas não aportava logo no Brasil.

"BESOURO ZORAH" - BESOURO ZORAH (CDemo)

Banda carioca - destaque em festivais como Oi Tem Peixe na Rede e Humaitá Pra Peixe - com um tom mais rock´n roll, mais anos 90, mas sem deixar o tino pop de lado. O forte do grupo são melodias e letras carregadas e românticas, com guitarras pesadas - caso de "Amigos de manhã" e "Gabriela" - e vocal quase performático, unidos num som sem muitas misturas. O disco tem ótima produção; por acaso, feita por um sujeito chamado Dado Villa Lobos - antes, vale afirmar, uma outra demo teve produção de ninguém menos que Leoni. E-mail: besourozorah@gmail.com.


"ENQUANTO ISSO..." - OS PARALELOS (CDemo)

Também vindos do Rio, os Paralelos fazem pop-rock de boa qualidade, com uma bela quedinha para o misto Smiths + Legião Urbana - em especial nas baladas "Kara amiga"e "Sem volta" - e para o misto de powerpop e jovem guarda na agitada "Até o anoitecer". No release ainda fala-se de influências de bandas como Ramones e Los Hermanos, o que é perceptível nas quatro músicas da demo - produzida de forma independentaça por Washington (vocais, guitarra), Fábio Lima (guitarra), Willame (baixo) e Marcelo Magno (bateria), que fizeram produção, mixagem e até produziram um clipe (do hit "Lá vem ela"). Site: www.osparalelos.com.br.

"NAVE S.A" - NAVE S.A (promo)

Vinda de Vitória (ES), a Nave s.a. já havia aparecido aqui com o CD Vinil (Lona! Records). Após algumas mudanças na formação, o grupo retorna com um promo, trazendo quatro músicas que estarão no próximo disco. O mix de rock anos 90, punk, eletronices e até MPB do grupo ficou mais pesado, com queda para o new metal em "A fuga" e para o rock´n roll estilo Foo Fighters em "Assim como eu". Sons mais tranqüilos e formais, sem muita mistura, também aparecem em "Jogando os dados" e "Qualquer coisa". E-mail: gustavonave@hotmail.com .

"A PRAIA" - HEREGES (CDemo)
Outra banda carioca, os Hereges aparecem com uma demo muito bem gravada, canções pop bem resolvidas e letras muito bem construídas - lembrando o tom épico do Renato Russo de Legião Urbana Dois, em alguns momentos. O som do grupo (Costello, voz e teclado; Dezinho, guitarra; Digo, baixo; Aranha, guitarra e voz; Leo, bateria) localiza-se mais no powerpop de bandas como Ash e Weezer, em faixas como "Santa heresia" e "Alice" - cabendo também um som mais energético e quase surf em "A praia". No final, tem uma versão piada de "A dor desse amor", do KLB - feita para uma coletânea de versões indie de sucessos pop, Pop que me pariu. Site: www.hereges.com.br .

Terça-feira, Março 21, 2006

Desencavando colunas


Saiu na minha coluninha do Nitideal:

ROCK BRASILEIRO? ANOS 70?

Rock brasileiro dos anos 70? Isso existiu? Sim, e não é ruim quanto pintam por aí. As letras podem, às vezes, ser esquisitas - mas afinal, como fazer rock tendo, de um lado, uma ditadura e do outro, um povo mais interessado no último disco do Chico? A moda progressiva pode ter tomado conta do pedaço roqueiro - mas, ora bolas, a onda grunge também deitou e rolou nos anos 90 aqui no Brasil. E mesmo assim, teve muita gente que criou coisas novas, adicionou música brasileira ao rock e até peitou o regime vigente com letras politicamente incorretas.

A seleção abaixo traz um pouco do rock nacional da época. Alguns discos não estão mais em catálogo - mas o Soulseek tá aí pra isso, embora sebos bacanas também sejam uma boa saída. E ainda falta muita coisa legal - teve o soul glam de Paulo Bagunça & Tropa Maldita e de Cornélius & Santa Fé, a lisergia folk do Karma, o rock nordestino de Flaviola & Bando do Sol e Ave Sangria, etc. Divirtam-se.

O TERÇO - "CRIATURAS DA NOITE" (Copacabana, 1974). Lá por 73, o então desconhecido Flávio Venturini praticamente usurpou o poder na banda carioca O Terço, então liderada pelo guitarrista Sérgio Hinds. Criaturas... marcou o envolvimento d'O Terço com um misto de rock progressivo, preciosismo erudito e sons rurais, em faixas como "Jogo das pedras", "Criaturas da noite", "Queimada" e a quilométrica (e instrumental) "1974". Voltaram recentemente para um show e um DVD ao vivo, ainda não lançado (é a banda da foto acima, caso você não saiba).

MÓDULO 1000 - "NÃO FALE COM PAREDES" (Top Tape, 1972): Um dos nomes mais poderosos do nosso acid rock (sim, isso mesmo que você leu aí), os cariocas do Módulo 1000 começaram - pasme! - tocando bossa-nova e rock de bailinhos. E não dá para imaginar nada disso quando se ouve o som pesado, tosco e psicodélico de faixas como "Metrô mental", "Não fale com paredes" e "Sine est cut crine caput". O tecladista Luís Simas, que depois montaria o funk-prog Vímana com os então desconhecidos Lobão, Lulu Santos e Ritchie, notabilizaria-se como autor do plim-plim da Globo (!).

SOM IMAGINÁRIO - "SOM IMAGINÁRIO" (Odeon, 1970): Quanto você apostaria numa banda de rock progressivo formada por músicos de Milton Nascimento? Som Imaginário, primeiro disco do grupo que acompanhava Milton desde 1969 - e que também faria bases para Marcos Valle e Gonzaguinha - é aposta das boas. Zé Rodrix (teclados, voz), Luiz Alves (baixo), Tavito (guitarra), Frederyko (guitarra, voz), Robertinho Silva (bateria) e Wagner Tiso (teclados) misturavam os Beatles, o Pink Floyd do começo e o som progressivo à aurora do Clube da Esquina - "Feira moderna", dos então teenagers Beto Guedes e Lô Borges, teve sua primeira versão nesse disco. E ainda tem mais doideiras maravilhosas em "Super-God", "Make believe waltz", "Nepal" e "Poison".

OS LOBOS - “MIRAGEM” (Top Tape, 1971): Até Niterói deu sua contribuição na época, com as belas harmonias vocais e o pop-rock estilo Beatles d’os Lobos - que além de Miragem, ainda conseguiram emplacar o semi-hit “Na sombra da amendoeira” na trilha da global O espigão (1974). Teve hits como “Fanny” e “Cabine Classe A” e revelou talentos como Dalto (o próprio) e Cássio Tucunduva.

MADE IN BRAZIL - "JACK O ESTRIPADOR" (RCA, 1976): Psicodelia? Verão do amor? Tá louco? Quer apanhar? O Made In Brazil era rock de macho, no que isso tinha de melhor e de pior. De melhor: os riffs burrões e a postura rocker dos irmãos Vecchione (Oswaldo, guitarra e Celso, baixo) e de quem eles escolhiam para acompanhá-los. De pior: as letras meio bobocas de músicas como "Meu amigo Elvis" e "Banheiro". No meio disso, grandes canções como "Jack, o estripador" e “Tratamento de choque”. Detalhe: a banda ainda existe, e conta com o filho de Oswaldo, Rick Vecchione, na bateria.

O PESO - "EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO" (Polydor, 1976): Baseados (opa) no Rio, os rapazes do Peso traziam em sua formação um cearense (o vocalista Luis Carlos Porto) e um norte-americano (o guitarrista Gabriel O'Meara, acompanhante de Erasmo Carlos e Gal Costa e brother de Tim Maia). Seu LP único, Em busca... é hard rock dos bons, com destaque para o romantismo de "Só agora estou amando você", a malandragem de "Boca louca" e o satanismo de "Lúcifer". Mas os dois maiores hits d'O Peso foram as caras-de-pau "Cabeça feita" (da dupla Guilherme Lamounier e Tibério Gaspar), cuja letra pregava que o lance era "cabeça feita pra não dar bandeira/a cabeça feita não marca bobeira" e "O pente", que narrava as desventuras de um maconheiro perdido na Barra da Tijuca.

ZÉ RAMALHO E LULA CORTES - "PAÊBIRU" (Solar/Rozenblit, 1975) - A estréia de Zé Ramalho é um grande mistério. Gravado ao lado do então amigo Lula e de um who's who do rock nordestino da época (Alceu Valença e o guitarrista Paulo Rafael, entre eles), Paêbiru foi concebido em parcos 2 canais e é considerado por muitos um dos melhores trabalhos de rock psicodélico já realizados - graças a energia de canções como "Os segredos de Sumé" e “Raga dos Raios”. O lado "misterioso" vem do LP nunca ter sido lançado oficialmente: uma enchente do rio Capiberibe, em Pernambuco, estragou quase toda a primeira (e única) prensagem. As poucas cópias a sobrarem foram vendidas, dadas ou roubadas - alguns dos vinis trazem a capa ondulada, devido à ação da água.

GUILHERME LAMOUNIER - "GUILHERME LAMOUNIER" (Continental, 1973) - Carioca, Guilherme seria mais conhecido como autor de canções popularescas como "Enrosca" (gravada por, bem... como direi... Fábio Jr e depois por Sandy & Junior) ou de temas de novelas, como "Requebra que eu curto", da trilha da global O pulo do gato (1978). Seu segundo LP, concebido ao lado do letrista Tibério Gaspar, era o início de uma bela trilha pop, cruzando rock pesado ("Cabeça feita"), soul ("Freedom", "Capitão de papel"), baladas românticas ("GB em alto relevo", "Amanhã não sei") e desesperadoras ("Passam anos, passam Anas").

CASA DAS MÁQUINAS - "LAR DE MARAVILHAS" (Som Livre, 1975): Paulistas, os moços do Casa das Máquinas - vindos de uma defecção dos jovem-guardistas Os Incríveis - batiam qualquer banda no quesito detalhes sórdidos: 1) Gravaram três LPs que parecem ter sido feitos, cada um, por uma banda diferente - o primeiro é meio jovem guarda, o segundo é progressivo e o terceiro é hard rock; 2) O guitarrista do Casa, Piska, é hoje compositor de Zezé di Camargo & Luciano - como solista, teve um semi-hit brega em 1977, "Um amigo meu está ficando cego"; 3) O vocalista Catalau arrastou-se na bebida por anos - até que, em 1986, já curado, ganhou fama como frontman do grupo Golpe de Estado, do qual seria expulso na década seguinte, por mau comportamento; 5) Conseguiram sucesso - e muito - com letras de saudável mongolice, como "Casa de rock" e "Certo sim, seu errado"; 6) Terminaram após um estranho incidente, no qual morreria um cinegrafista da TV Tupi - um dos músicos do Casa seria indiciado pelo fato. Lar..., o tal disco progressivo, é o melhor momento da trama do Casa das Máquinas.

Segunda-feira, Março 20, 2006

Recebi por e-mail

ROMANTISMO NA MPB

DÉCADA DE 30
Ele, de terno cinza e chapéu panamá, em frente à vila onde ela mora, canta:
"Tu és, divina e graciosa, estátua majestosa!
Do amor por Deus esculturada.
És formada com o ardor
da alma da mais linda flor, de mais ativo olor
que na vida é a preferida pelo beija-flor..."

DÉCADA DE 40
Ele escreve para a Rádio Nacional e manda oferecer a ela uma linda música:
"A deusa da minha rua, tem os olhos onde a lua costuma se embriagar.
Nos seus olhos eu suponho, que o sol num dourado sonho, vai claridade buscar..."

DÉCADA DE 50
Ele pede ao cantor da boate que ofereça a ela uma canção da Bossa Nova:
"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.
É ela a menina que vem e que passa,
no doce balanço a caminho do mar.
Moça do corpo dourado, do sol de Ipanema.
O teu balançado é mais que um poema.
É a coisa mais linda que eu já vi passar."

DÉCADA DE 60
Ele aparece na casa dela com um compacto simples embaixo do braço e coloca na vitrola uma música papo-firme:
"Nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito
não é maior que o meu amor, nem mais bonito.
Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar,
como é grande o meu amor por você..."

DÉCADA DE 70
Ele chega em seu fusca, abre a porta pro broto entrar e bota uma melô jóia no toca-fitas:
"Foi assim, como ver o mar,
a primeira vez que os meus olhos se viram no teu olhar....
Quando eu mergulhei no azul do mar,
sabia que era amor e vinha pra ficar...

DÉCADA DE 80
Ele telefona pra ela e deixa rolar um:
"Fonte de mel, nos olhos de gueixa, Kabuki, máscara.
Choque entre o azul e o cacho de acácias, luz das acácias,você é mãe do sol. Linda..."

DÉCADA DE 90
Ele liga pra ela e deixa gravada uma música na secretária-eletrônica:
"Bem que se quis, depois de tudo ainda ser feliz.
Mas já não há caminhos pra voltar.
E o que é que a vida fez da nossa vida?
O que é que a gente não faz por amor?"

EM 2000
Ele captura na Internet um batidão legal e manda pra ela, por e-mail:
"Tchutchuca!
Vem aqui com o teu Tigrão.
Vou te jogar na cama e te dar muita pressão!
Eu vou passar cerol na mão,vou sim, vou sim!
Eu vou te cortar na mão!Vou sim, vou sim!
Vou aparar pela rabiola!Vou sim, vou sim!"

ONDE FOI QUE NÓS ERRAMOS?SERÁ QUE AINDA É POSSÍVEL PIORAR?
POIS PIOROU !
"Hoje é festa , lá no meu apê, pode aparecê, vai rolar bunda-lelê"

É... bem.,.. sei lá. Admito que acho o Latino um artista bem engraçado e interessante - mas não tenho nenhum disco dele em casa, e nem quero ter. E "Você é linda", do Caetano é um pé no saco, hein?

Sexta-feira, Março 17, 2006

Maluquice do bem

A banda nova-iorquina Yeah Yeah Yeah liberou TODO o conteúdo de seu novo disco, Show your bones, para ser ouvido de graça na internet até o dia 21. Pelo que andei vendo lá (muito distraidamente), as faixas só estão liberadas para ouvir, não para baixar. O site é http://myspace.com/yeahyeahyeahs.

Quinta-feira, Março 16, 2006

Olha, eu gostava desse troço

"Depois de meses de especulação, tudo indica que a turnê de reunião das Spice Girls não deve sair do papel.

De acordo com o jornal inglês The Sun, Melanie Chrisholm (a Sporty Spice) teve um encontro com Victoria Beckham (a Posh Spice) para discutir a idéia, mas as duas chegaram à conclusão de que a tentativa de volta seria 'embaraçosa'.

Promotores de shows queriam 'comemorar' os dez anos do hit Wannabe com uma turnê pela Europa em novembro e dezembro, mas Chrisholm quer se concentrar em um novo disco-solo, enquanto Beckham está mais interessada no mundo da moda.

Outro problema é Geri Halliwell, que está esperando um bebê para a metade do ano."

Desencavando matérias: Ramirez

PARA TODOS

Difícil dizer qual seria a melhor época para o rock nacional: se a fartura de novidades pop dos anos 80, se a redescoberta do som brasileiro dos 90 ou os tempos de hoje, em que tudo parece possível. Há bandas saindo das grandes gravadoras, enquanto vários grupos – e de todos os tipos – circulam pelo underground nacional, disponibilizando músicas em MP3, vendendo discos autoproduzidos, assinando com selos pequenos. Fato é que, depois do MP3 e das facilidades para se vender-compor-gravar música, nunca se produziu tanto. Em compensação, haja espaço para escoar todo esse mercado.

A banda carioca Ramirez é filha desse período de alta rotatividade, que também revela um contraste curioso. "A maioria das bandas de hoje gosta de mostrar 'atitude' e se esquece da música", diz Thiago Pedalino, vocalista, guitarrista e principal compositor do quarteto. Enquanto a maioria dessas bandas de 'atitude' vem de grandes gravadoras, toda uma geração pop-rock [no sentido de compor canções que agradem a todo tipo de público] se espreme no underground.

"Falta as grandes gravadoras olharem para essas bandas. Tem muita banda independente que faz show pra três ou quatro mil pessoas. A galera tem que se informar", diz Thiago, citando exemplos como a formação carioca Stellabella [que tem pelo menos um under-hit, "Um Dia Desses"] e dos paulistas do Brilhantines. "Hoje rola um olhar maior para a cena independente. Você não precisa do mainstream para ouvir música", completa Thiago, que começou a maquinar a banda há alguns anos, quando mudou-se do Rio para a cidade mineira de Caxambu. "Fui pra lá e comecei a compor sozinho. Foi um começo meio solitário. Aí chamei o Frank, que era meu amigo do Rio. Quando voltei para cá, continuamos".

O álbum de estréia da banda, o despretensioso Ramirez (Performance Be Records/Universal), marca a entrada no mercado de mais um grupo [completado por Frank Dias, baixo e voz; Rafael Cosme, guitarra e voz; e Matheus de Giácomo, bateria] cujas idéias musicais estão próximas do pop-rock "para todos". Aliás, as onze faixas do álbum incluem, em sua maioria, melodias doces com batidas e guitarras pesadas, além de algumas baladas – em um estilo que até poderia ser chamado tranqüilamente de emocore. Balizando o disco, há a agitada "Alguém Melhor" [cujo nome original, na demo distribuída pelo grupo, era "Alguém Melhor Pra Me Levar"] e a balada "Não Vá", duas caras importantes para se conhecer a banda e o disco.

Perguntado por uma definição do Ramirez, Thiago deixa claro qual é a da banda. "Nossa idéia é, acima de tudo, fazer músicas bonitas, usando guitarra e bateria pesadas. Nosso som prima muito pelas canções". Nesse esquema de adocicar, mas sem deixar de lado o peso, garantido pela bateria socada de Matheus, surgem outras canções, como a punk-60 "Matriz" [que descreve um amor indie que poderia acontecer em estabelecimentos under como o Teatro Odisséia e a Casa da Matriz, no Rio de Janeiro: "Mas olha só o jeito dela dançar/ Seu tênis preto All Star/ Sem nem ligar se vão notar/ Sorri e fecha os olhos/ Sabe que é musa soberana nesse bar"] e uma nostálgica balada, "Menininha". Também há hardcores melódicos como "Te Esquecer" e ramonices como "Vem Me Abraçar". Letras românticas dominam todas as faixas.

As influências, segundo Thiago, incluem grupos como Weezer, Ash e até artistas da Jovem Guarda como Renato & Seus Blue Caps. Várias canções sugerem uma comparação com o primeiro álbum do Los Hermanos – algo confirmado pelo tom de voz de Thiago em algumas faixas e pela estrutura de algumas canções. "A linha que separa nossas influências das dos Hermanos é muito fina. Tanto nós quanto eles temos esse lance de privilegiar a melodia. Mas eles são mais MPB, especialmente se você pegar os discos mais recentes", diz o cantor do Ramirez. "Também tem o fato de que as pessoas sempre curtem escutar uma banda nova e ir comparando com as que já saíram, o que é normal.”

Ramirez, o disco, já estava gravado desde 2003 – a banda apenas acrescentou guitarras e bateria feitas no Special Studio, do guitarrista Robertinho de Recife [cujo filho Eduardo Albuquerque, baixista da banda carioca Canvas, participou do álbum tocando guitarra em "Não Fique Assim", escondido sob o pseudônimo Reverendo Albuquerque]. Para o disco, foi mantida a produção de Marcos Sketch, também empresário do grupo e parceiro de Pedalino em algumas faixas.

"O repertório é composto das músicas que já tocávamos há um bom tempo. Selecionamos 16 ou 17 faixas e, delas, fechamos com onze", diz Thiago, falando da estrada já percorrida pela banda. "Muita gente pode pensar que o Ramirez é uma banda nova, mas a gente já tem uma estrada no underground. Temos uma grande bagagem, com vários shows e festivais como MADA e Humaitá Pra Peixe. O repertório é o resultado desse tempo de experiência. A gente tocava em qualquer buraco. Vai ser até chato não fazer mais isso."

Com Ramirez nas lojas, resta esperar que os hits underground da banda cheguem às rádios. Para os fãs já conquistados na primeira fase, eles prometem ainda mais. "A gente adora compor, tem sempre alguma coisa nova para mostrar. E já temos material até para o próximo disco", garante Thiago.
+ publicada ano passado no Bacana.

Quarta-feira, Março 15, 2006

Desencavando matérias: Matanza

DIABO A QUATRO

Lançamentos de luxo não são comuns no caso de artistas em fase de ascensão. Para a banda carioca Matanza, contudo, a regra não funcionou: a gravadora Deckdisc resolveu investir em uma mídia nova para o lançamento do terceiro disco do grupo, To Hell With Johhny Cash. Sim, o terceiro lançamento do Matanza é um álbum de covers [do countryman Johhny Cash, ídolo do quarteto] e é um dualdisc, um disco dupla-face com CD e DVD. É uma mídia até então inédita no Brasil e que, espera-se, deverá combater a pirataria – pelo menos em parte, já que a "face de áudio" do disco anda circulando por aí em programas p2p como o Kazaa e o Soulseek. O lado DVD inclui um documentário sobre o disco [intitulado To Hell With Matanza], falas dos integrantes da banda [o vocalista Jimmy London e o guitarrista-compositor Donida, em especial], clipes filmados em grande estilo no Teatro Municipal de Niterói e uma "jukebox" com algumas músicas do CD.

O lançamento do disco valeria por uma coluna social: foi realizado no bar carioca Saloon 79, que costuma abrir espaço para shows de bandas novas e cuja decoração realmente lembra os velhos filmes de faroeste. Rolaram presenças de músicos de grupos independentes, fãs do Matanza, alguns jornalistas [poucos], amigos e amigos-de-amigos a fim de beber de graça e badalar. Entre uma bebemoração e outra, rolaram várias audições [non-stop] do disco novo e a coletiva da banda, aberta por ninguém menos que João Augusto, dono do selo Deckdisc. O que dava a entender que, mesmo que o quarteto tenha saído há pouco do underground [dois discos editados, um deles no último suspiro da Abril Music, gravadora que subsidiava a Deckdisc em seu surgimento, foram suficientes para tornar o Matanza uma banda manjada, mas nem por isso popular], a moral é alta.

Sim, o formato não vai ficar nessa: a Deck ainda vai lançar dualdiscs de Pitty [você ainda tinha alguma dúvida?] e do Dead Fish. O disquinho duplo – que é fabricado na Alemanha – deve ser vendido, diz João, por um preço pouco maior que o de um CD; portanto, reze para seu lojista preferido colaborar. "Tomamos contato com o formato ao ver um dualdisc do David Bowie. Como já queríamos fazer algo em DVD com o Matanza, todas as idéias convergiam para isso. É um sonho antigo da banda, que veio à tona após o falecimento do Cash. Agora eles vão voltar às profundezas do inferno com o próprio", brincou João, sob as vistas de seus contratados Jimmy, Donida, o baixista China e o baterista Fausto.

Hora de conversar com a banda. Jimmy, com a mesma voz de trovão que canta os clássicos countrycore da banda [como "Pé na Porta, Soco na Cara" e 'Ela Roubou Meu Caminhão"], dá mostras de saber da equação risco-roubada de lançar um dualdisc em um momento desses. "Se você for pensar corretamente, é o disco de uma banda que ainda não vendeu um milhão de cópias. E fazer, em um caso desses, um disco de covers, não é exatamente seguir as regras normais. Mas estamos cagando para isso e a Deck também", afirma.

Para qualquer fã da banda, o CD é matador. O Matanza nunca soou tão fiel á sua proposta de unir country, metal, punk e climas sombrios, graças às melodias cruas embora belas e às letras fim-da-linha de Cash – que incluem títulos como 'Don't Take Your Guns To Town" ["a mãe do cara fica dizendo pra ele não trazer as armas para a cidade; ele traz e morre!", diverte-se Donida], "Cry, Cry, Cry" e "Leave That Junk Alone", além de hits cadeeiros como "I Got Stripes" e "San Quentin" e pérolas como "Belshazzar" e “Wide Open Road".

Enfermaria

Durante a coletiva, com Jimmy de perna quebrada e China contundido no braço [os acidentes ocorreram entre a gravação e o lançamento do disco e atrasaram alguns shows], dá até vontade de fazer piada. "O China se machucou em uma van que bateu na Avenida Niemeyer [Barra da Tijuca, zona Oeste do Rio de Janeiro]. Estava indo pegar onda. Falei pra ele que se estivesse voltando da night isso não teria acontecido", sacaneia Jimmy. Dá para ver que o clima ali não era nada top de linha – a interação entre convidados e artistas mostra isso.

Bastaram alguns minutos de papo e umas perguntas meio no estilo Minha Novela para o Matanza se soltar mais e até falar das internas. "A gente é tranqüilão, gosta de beber, bater papo. Esse lance de Música Para Beber e Brigar [título do segundo álbum da banda], na verdade, foi inspirado em um tipo de música irlandesa, chamada drink'n’fight music, que é mais uma pilha de ser ogro, de ser escroto, de falar de brigas e de bebida, do que de ser violento. A gente não tem paciência para o politicamente correto", diz Jimmy. De fato, não daria outra, no caso de uma banda que narra casos singelos como as desventuras de bandidos em liberdade condicional, brigas de bar, porres e batalhas no estilo Velho Oeste – como naqueles desenhos do Pica-Pau, em que uma colina fica atirando contra a outra e famílias têm brigas seculares. "Me sinto satisfeito vendo que as pessoas ouvem nosso som e não levam a sério", solta o vocalista.

Mas... Opa! Será que, no futuro, é possível ver o Matanza no Domingão do Faustão ou em um Criança Esperança da vida? "A gente conseguiu agora sair dessa de banda de fim de semana. Temos vontade agora de ter mais equipamentos, tocar no exterior. É um projeto pessoal. Tirando isso, tô cagando para esse lance de um milhão de pessoas vestindo a camisa e cantando na micareta", manda bala o vocalista. E, não, o CD em inglês nem tem – pelo menos diretamente – nada a ver com a vontade de ir lá para fora, dizem eles. Realmente, em tempos de nu metal e hip hop, seria difícil imaginar uma banda brasileira querendo invadir as paradas norte-americanas com um disco de covers de country rock com molho diabólico. Não estamos mais em 1991 e a febre Sepultura ficou lá para trás. "Também sempre escutamos que somos uma banda muito americanizada. Só que os americanos fazem o melhor rock’n’roll do mundo, vou fazer o quê? Cago pra isso", defeca o ruivo, pela terceira vez no papo.

Antes que algum leitor mais sensível resolva premiar Jimmy com um papel higiênico de ouro, vale lembrar que a cara de mau do Matanza nada tem a ver com a bandidagem estudada de um Charlie Brown Jr., por exemplo – e quem conhece a banda sabe disso. O quarteto tem um nível de informação e um caráter tão cult [no bom sentido] que fica complicado imaginá-lo saindo de vez do meio das "bandas novas", mas outros lançamentos vêm por aí para pôr os quatro novamente na mídia – em breve sai um DVD da série MTV apresenta, um projeto que quase saiu antes do dualdisc [assim como o próprio dualdisc, por um desejo inicial da banda, quase transformou-se em uma série de singles de vinil]. O momento é certo: tanto para os músicos quanto para a gravadora, o peso country-punk-metal do Matanza está tinindo. "Sempre que gravávamos outros discos, escutávamos de algumas pessoas: 'que história é essa de country hardcore? Aqui tem até thrash!'. Nesse disco dá para perceber exatamente onde entra o riff do Johnny, a gente explica o que esse tal de country hardcore, onde ele está no nosso som", diz o vocalista.

Fim da entrevista. "Pô, alguém tem mais alguma pergunta?". Pequena pausa. "Olha, até admiro que depois do release e do DVD alguém tenha mais alguma pergunta para fazer. Mas sem querer botar pressão, tem cerveja rolando ali". Nem precisa dizer duas vezes. Até porque um discaço como To Hell With Johnny Cash fala por si só.

+ publicado no Bacana, ano passado.

Terça-feira, Março 14, 2006

Resumindo a caixa do Nirvana


"SLIVER - THE BEST OF THE BOX" - NIRVANA (Geffen/Universal)

Sliver - The best of the box não é um dos produtos mais indispensáveis dos últimos tempos - até por não ser difícil de baixar da internet. Na verdade, é um paliativo para os fâs (fanáticos) do Nirvana que não conseguiram dinheiro para comprar a caixa When the lights out, lançada ano passado após séculos de enrolação da viúva de Kurt Cobain, Courtney Love. E acaba soando como aquele montes de gravações que você tem - sim, eu sei que você tem - acumuladas em CDs de mp3 na sua casa. Sim, sabe aqueles disquinhos piratas que você, na base do olho grande, baixa do Soulseek enquanto procura pelos oficiais de uma banda qualquer? Ou aqueles fóruns de mp3 que você freqüenta em busca de coisas legais e acaba esbarrando com umas piratarias que você baixa, passa pra CD e não escuta nunca? Até porque a qualidade sonora delas é uma porcaria, claro - mas você acaba achando bacana ter gravações raras da sua banda preferida, mesmo que todas elas sejam toscas e inintelegíveis? No caso, compra quem for muito curioso ou fâ xiita. E esta segunda categoria já deve ter boa parte destas gravações faz tempo.

A caixa do Nirvana, na verdade, tinha muito disso. Sliver é que deu uma compilada nas gravações para que coubessem num só CD. O disquinho deixa de lado faixas interessantes, como as versões que o grupo de Kurt fizera para "When she comes now" (Velvet Underground) e "Jesus doesn't want me for a sunbeam" (Vaselines). Por outro lado, faz a alegria dos fâs completistas com três faixas que não estavam na caixa: "Spank thru", música que quase todo mundo conheceu a partir da gravação do CD ao vivo From The Muddy Banks of Wishkah, aparece na tosca versão que Kurt gravara na demo de sua banda Fecal Matter, em 1985. O futuro líder de Krist Novoselic e David Grohl se esgoela, canta, tosse e é acompanhado por Dale Crover no baixo e na bateria. "Sappy", que depois reapareceria com o nome de "Make you happy" (numa gravação do raro CD coletivo No alternative) aparece numa versão produzida por Jack Endino em 1990, com o baterista Chad Channing, com quem a banda gravaria Bleach (1989). Já "Come as you are" aparece numa versão de ensaio, mal gravada, com David Grohl na bateria. Fica claro, comparando as atuações dos dois principais bateras da história do Nirvana, que o grupo atingiria outro nível com o talentoso Grohl nas baquetas, uma vez que ele é um dos raros bateristas atuais que sabe unir simplicidade, pancadaria e competência técnica.

Escutando distriaidamente o CD, é possível encontrar surpresas maravilhosas, como a sobra de Nevermind "Old age", uma das melhores canções secretas do Nirvana, com alcance pop superior a muita coisa daquele disco - foi produzida por Butch Vig, mas sem o mesmo apuro técnico das outras faixas do álbum, tanto que sequer tem overdubs. "Oh the guilt", que o grupo encaixou num compacto dividido com o monolito under Jesus Lizard, é simplesmente feroz, com acordes sombrios e paradinhas que mais lembram uma mistura de Beatles e Queens of The Stone Age - se é que isso seria possível. Tão punk e feroz quanto, é "Mrs. Butterworth", gravada em 1988 num ensaio na casa de Dale Crover. E lados obscuros do Nirvana aparecem na versão quase cow-punk de "Ain't it a shame", de Leadbelly, gravada em 1989 com Jack Endino comandando os trabalhos.

De resto, tem várias faixas que se localizam no limite entre a raridade e a toscaria - demos mal conservadas de voz e violão de "Lithium" e "Opinion" (faixa inédita) gravadas numa rádio, "Sliver" gravada em casa em 1989 e uma "All apologies" cansada, encerrando o disco em clima ruim. Uma raridade interessante é "Heart shaped box" gravada no estúdio Companhia dos Técnicos (ou BMG Ariola, como diz o encarte), em Copacabana, em janeiro de 1993, quando da estada da banda no Brasil para os shows no Hollywood Rock. Já uma das versões de "Rape me" tem "participação" de ninguém menos que Frances Bean Cobain, filha de Kurt e Courtney, chorando ao fundo. Mas, de modo geral, são faixas que um fã do grupo poderia ter compilado da caixa e disponibilizado na internet, poupando a viúva de Kurt de faturar com mais esse lançamento.

Sem visto, Echo & The Bunnymen cancela shows

Merda, merda, merda.
Perdemos a chance de ver o "anos 80" que realmente vale a pena.

Sexta-feira, Março 10, 2006

Será que esse troço é bom?

Raconteurs, banda de Jack White, lança álbum e faz shows

A banda Raconteurs, segundo projeto de Jack White, do White Stripes, vai lançar seu álbum de estréia em 16 de maio, quatro dias antes de fazer sua primeira apresentação ao vivo na Grã-Bretanha.

O álbum Broken Boy Soldiers tem dez faixas e é liderado pelo single Steady, As She Goes, que já pode ser ouvido no Web site da banda.

O grupo também inclui o vocalista e compositor Brendan Benson, Patrick Keeler e Jack Lawrence, do trio de Cincinatti The Greenhornes.

A banda fará seu primeiro show ao vivo em 20 de março em Liverpool, seguido por escalas em Glasgow, Newcastle e Londres. "É algo totalmente novo para mim: dois compositores trabalhando juntos", disse Jack White à Billboard no verão passado, falando do Raconteurs.
"Vocal duplo, duas guitarras principais, duas pessoas escrevendo as canções. Não somos apenas Brendan e eu ¿ Patrick e Jack são músicos de muito talento. As canções são muito boas, mesmo."

O White Stripes, que no mês passado conquistou um Grammy por seu álbum mais recente, "Get Behind Me Satan", está concluindo uma série de apresentações no Japão que foram adiadas no início do ano enquanto Jack White se recuperava de um problema nas cordas vocais.

Mais sucessos da década que não terminou


"PLOC 80" - VÁRIOS (Performance Be Records/Som Livre)

Se você esteve imune à febre "anos 80", não viveu o ano de 2005. Parece bizarro que uma das maiores tendências de um ano tenha sido o revival de uma década (ou a completa banalização da tal década, como querem alguns), mas foi o que aconteceu: festas de "anos 80" proliferaram-se pelo país, o repertório do período voltou a ser tocado na noite, bandas de duas décadas atrás (algumas delas irrelevantes) voltaram para garantir um troco, grupos novos apareceram com trabalhos totalmente influenciados por bandas daquela década, etc.

Quem mexe com música arrisca explicações para isso. Um conhecido DJ me disse crer que tal revival venha da falência musical da década seguinte. Eu não seria tão radical - até porque o rock nacional dos anos 90 teve ótimas bandas - mas ele não deixa de ter uma boa dose de razão. Quem se acostumou ao pop-rock no capricho daquela época, depois viu o mercado esvair-se em modas vazias (lambada, forró universitário), focos de resistência mantidos pela política das gravadoras (axé, pagode, funk), misturebas roqueiras (algumas geniais, outras exageradíssimas) e vai por aí. O resultado talvez seja traço no ibope para quando forem inventar o revival dos anos 90 - e já tem gente investindo nisso.

Se houver alguma dúvida, é só pegar o DVD/CD Ploc 80, gravado ao vivo na festa homônima, durante uma das noites em que o músico carioca Rodrigo Quik levou sua banda Perdidos na Selva (e mais vários convidados) para uma apresentação no Circo Voador. Lá, você vê que "Pop star", do João Penca, "Fórmula do amor", de Leo Jaime e "He-Man", do Trem da Alegria, podem até ocupar o mesmo lugar no espaço - e ainda dá para imaginar a galera dançando ao som de "Ska", dos Paralamas do Sucesso, "Envelheço na cidade", do Ira!, etc. Agora, viaje aos anos 90 e imagine se clássicos como "Sliver", do Nirvana poderiam conviver em perfeita harmonia com gemas do naipe de "I saw the sign", hit dançante dos suecos do Ace Of Base. Não, claro que não. Os anos 80 foram talvez a última década em que quase todo mundo unia-se em prol da mesma música. Não que isso seja bom, ou ruim - era uma tendência, talvez mais interessante do que o "cada um no seu canto" dos anos 90, que era quase uma preparação para o mundinho de Comunidades do Orkut, festas indies e fãs de bandas underground da Eslovênia de hoje em dia.

Contribuindo para o espírito de festa, no DVD, fica claro que o lado privilegiado de boa parte das comemorações oitentistas é o alegrinho (ou "sorvete na testa", como dizem alguns). O símbolo do lance é a capa do disco, com um rapaz gordinho fantasiado de He-Man: imagina-se um cara de 30 anos arrumando o armário e encontrando aquela roupinha e a espada de plástico que ele não usava desde os 12 anos, e o resto é história. No disco, é possível descobrir aonde estão vários artistas pop desaparecidos da época, e por "pop", entenda-se quase tudo que foi feito nos anos 80 e que tinha uma batidinha rock por trás. O guitarrista do Ira!, Edgard Scandurra, que vociferava que "no Brasil, ouve-se pop como se fosse rock", iria detestar. Mas quem manda no show (e no DVD, e no CD) é o público, e este adorou ver, por exemplo, Avelar Love, ex-João Penca, mandando bala em "Pop star", um dos melhores hits do período. Rosana mostra a cara e canta pouco (e mal) em um de seus maiores sucessos, "O amor e o poder". Da série "quem é vivo sempre aparece", tem Ricardo Graça Mello, de quem pouca gente deve lembrar (ele foi o lançador de "De repente Califórnia", de Lulu Santos, antes mesmo do autor), cantando "Garota dourada", do Radio Táxi.

Além de Ricardo, outros desaparecidos ressurgem das trevas: Nico Rezende, que teve seu lugar ao sol em 1986 com "Esquece e vem", pop na cola do RPM e dos Heróis da Resistência, aparece para cantar "Transas", que compôs para Ritchie; Marcelo, que pouco tem a ver com anos 80, aparece com um sucesso de 1981 (antes do estouro do rock nacional), "Abre coração". Nem a música infantil da época escapou, já que Silvinho, do Absyntho, aparece com a dispensável "Meu ursinho blau blau". Já o Dr. Silvana & Cia. comparece com a inacreditável "Serão extra" (aquela do "Eu fui dar, mamãe"). E, para você ver, a melhor performance é de ninguém menos que Luciano Nassyn, do Trem da Alegria - em versões quase metálicas para "Piuí abacaxi", "He-Man" e "Uni duni tê".

É verdade que anos 80 não é só isso - fica complicado convencer qualquer pessoa da excelência de grupos renegados da época, como Inocentes e Picassos Falsos, muito embora (veja só) Tony Platão, ex-vocalista de uma banda "maldita" da época, o Hojerizah, esteja no DVD também. Mas para divertir, alegrar e encantar até quem não viveu o período, está de ótimo tamanho - cabendo ainda menção honrosa para a boa performance do Perdidos na Selva, em momentos solo ou acompanhando outros artistas. O lado histórico da coisa fica para o set dos DJs da festa, Dom LV e Lady K, que já tocaram até Talking Heads para as massas na Ploc 80. De resto, é torcer para que não haja mais "falência musical" em mais nenhuma década, mês, ano ou o que quer que seja. Outro revival massivo desses, não rola.

Quarta-feira, Março 08, 2006

Jabá

É uma das palavrinhas do momento, não dá pra negar. Andam falando pra caramba numa tal lei, que ainda está em projeto, e que tenterá criminalizar o jabá - algo que vem sendo enrolado pelo ministério da cultural faz tempo, mas ninguém faz quase nada. O tal projeto, do deputado pernambucano Fernando Ferro (PT), foi criado em 2003, tem o apoio do cantor Lobão - que o ajudou - e pode ser lido com calma aqui.

O pessoal que vem tentando criminalizar o jabá vem se organizando, conta com vários braços nas mídias alternativas e/ou menores e já tem até um blog - no qual é possível assinar uma petição pelo fim da corrupção na música (tem um abaixo-assinado on line, mas eu não consegui entrar lá - eles disponibilizam um endereço de e-mail para quem quiser assinar).

Acho que ninguém hoje em dia desconhece o que é o jabá, certo?

Bom, de qualquer jeito, vai aí um pequeno clipping do assunto - tem matérias inclusive falando no tal projeto de lei, etc.

+ A dança do jabá.
+ MPB teve ajuda do jabá.
+ Projeto de lei tenta criminalizar o jabá.
+ Porto musical - não ao jabá.
+ O Jabá Nosso de Cada Dia (a repetição de uma mesma palavra em vários títulos já está me dando nos nervos, confesso).
+ Salve Lobão! (ufa).

Os dois últimos links foram tirados do blog do André X, baixista da Plebe Rude - quem vem se tornando um dos melhores lugares alternativos para se ler sobre música, política e cultura em geral.

E os blogs?

Para quem achava que o formato estava desgastado, ou algo assim - andei lendo até artigo sobre isso, como se o fato do Globo e do Dia terem feito até seções de blogs não significasse algo - a novidade é que tem mais vários blogs surgindo, de música ou não. Um blog de música bacana é o do Marcos Bragatto, Rock em geral, que é cheio de matérias ótimas. A Rock Press, na qual escrevo às vezes, também andou dando suas blogadas - afinal, a home page da revista tem quase o mesmo formato de um blog, só que com aqueles recursos de "leia mais", etc. De eminências pardas como o Urbe e o Trabalho Sujo, nem falo mais - de vez em quando os links desses blogs até aparecem por aqui. Interessante é ver que outros jornalistas que também tiveram (e têm) passagem pela Bizz, como Fábio Bianchini e Emerson Gasperin, também mantém seus blogs.

Não é sobre música, mas um blog que vem me rendendo altas reflexões e algumas risadas é o politicamente incorreto Viciado Carioca. Nem vou explicar muito, é um blog que fala por si só. Mesmo que nem sempre dê pra concordar com tudo que o autor coloca (preste atenção no nome do blog!), vale a pena.

UPDATE: Achei uma matéria bem bacana (e dessa semana) sobre blogs no Webinsider. É o tipo de matéria que eu gostaria de ter lido quando montei o Discoteca Básica. De qualquer maneira, várias coisas que estão escritas lá, eu descobri sozinho.

Terça-feira, Março 07, 2006

Achei o texto do Quinto Andar!

"PIRATÃO" - QUINTO ANDAR (Tomba/Tratore)
O CD do grupo niteroiense Quinto Andar, Piratão - encartado na revista do Lobão, Outracoisa, sempre em cima da pinta com as novidades do underground - dá a medida das diferenças entre o rap paulista e o carioca, além de separar de vez o rap que tem tocado em nossas rádios daquele mais ligado ao underground. Se Marcelo D2 é a demonstração, por excelência, de que cara amarrada não tem nada a ver com rap carioca, o Quinto Andar busca outras formas de protesto que se diferenciem de D2 da discurseira paulista. Tem o manual jovem de sobrevivência duranga do “Rap do calote” (que ensina truques para dar balão no ônibus, como entrar pela frente vestindo uniforme de colégio público), o papo anti-consumo e bem humorado de “Melô da propaganda”, o romantismo às avessas de “Pra falar de amor” (barraco zoado para cima de ex-namoradas, amigas e pretendentes) e as dores de crescimento de “Esse planeta (velhos bons tempos)”- seguida por samples de telejornais e até do “trabalhadores do Brasil!” de Getúlio Vargas. Soa sempre como se o Quinto Andar tivesse arrumado um modo de conciliar o bom humor de Gabriel O Pensador com o papo engajado dos Racionais (e com conhecimento de causa, o que faz o grupo escapar do discurso vazio anti-shopping que sempre pinta nas letras de Mano Brown e cia).
Apesar de não se mostrarem muito a favor da palavra “coletivo” (geralmente usada para classificar uniões de rappers, DJs e grafiteiros), o Quinto Andar funciona de forma parecida, numa união de forças que inclui um DJ (Castro) e três rappers (Shaw, De Leve e Bruno Marcus) - o núcleo básico ainda conta com colaborações de dois rappers paulistas (Kamau e Lombriga), de um mineiro (Matéria Prima) e do carioca Tapechu. No todo, uma obra que tem seu lado panfletário - pegando pesado em temas esquerdistas, anti-sistema e anti-capitalismo - mas que não deixa a diversão de lado. E ela é ampliada pela conexão que o Quinto Andar tem com o Miami-bass, o famoso funkão do bailes (citado em faixas como “Funk da secretária” e “Montagem da bandeira”, esta com samples de uma manifestação em frente ao Consulado dos EUA, no Rio). As melodias são as mais simplificadas possíveis, sem as conexões hiper-black dos Racionais ou as misturas finas de D2 - consistem em poucos acordes sintetizados e sampleados, lembrando por vezes o estilo da dupla francesa Air. Dando um diferencial, tem até um dub, “Muita falta de anti-profissionalismo Dub”, com B. Negão nos vocais e Pedrão (da banda Os Seletores de Frequência, que acompanha o ex-Planet Hemp) no trompete. Num disco chamado Piratão, claro que diatribes contra a indústria fonográfica não poderiam ficar de fora - elas aparecem em “Melo do piratão”.
O pessoal do Quinto Andar já mereceria a maior atenção só pelo fato de fugir do esquema mauzão do rap nacional - e por, nas fotos de divulgação, primar por um look tipo bermuda-e-camiseta, ao contrário dos Racionais, que descem o cacete no consumismo e posam trajando belos conjuntos Adidas. O resultado é um som crítico, bem bolado e relaxado. Confira ou com o pessoal da Tratore, que a essas alturas, já deve ter o CD para distribuir (www.tratore.com.br), ou com a galera da Tomba records (www.tombarecords.com.br).

+ Deu caquinha no Blogger e não consegui carregar a foto da capa. O disco ainda está sendo vendido em lojas virtuais como a Submarino, por um preço até bem em conta - confira aqui.

Fim do Quinto Andar

O Quinto Andar acabou. A notícia foi dada pelo integrante De Leve em seu blog.

O fim do grupo de Niterói era, de certa maneira, previsível, natural até. O primeiro a descer para o térreo foi o MC Marechal, que se juntou a trupe de Marcelo D2 e prepara (faz tempo...) um disco próprio. De Leve também já tinha dado umas voltinhas de elevador, pra lançar seu disco solo "O estilo foda-se" (Segundo Mundo).

Na comunidade do Quinto Andar no Orkut, as explicações são conflitantes. Enquanto o MC Shawlin diz que "só o De Leve saiu, mas ele levou o nome junto porque ele era o último fundador do bagulho" (os fundadores, na verdade, foram o DJ Castro e Marechal), Castro explica:

"(...)Há algum tempo, muito depois da saída do Marechal, por motivos que não vêm ao caso, começamos a ter problemas de relacionamento interno no grupo (paradas normais quando um monte de macho fica muito tempo junto, nada muito sério), que com o tempo estava influenciando no clima do trabalho. O De Leve, por conta disso, me falou que queria sair do grupo e, depois de pesar os prós e contras, achei que era hora de dissolver o coletivo, antes de se descaracterizar, da galera brigar de vez ou pior, virar um emprego burocrático. Todos concordaram (...)".

O grupo foi um dos primeiros fenômenos musicais da internet brasileira, conquistando fãs através da distribuição de MP3, como o clássico "A lenda". Ano passado, o Quinto Andar lançou seu único disco oficial, Piratão (
Tomba Records).

Como no caso do Planet Hemp e seus integrantes (BNegão, Black Alien e D2), o fim do Quinto Andar deve resultar em diversas carreiras solo interessantes. Shawlin e De Leve já estão com os seus prontos, Lumbriga herdou as bases que seriam do segundo disco do Quinto. As vezes, menos é mais.


Texto roubado do site Urbe. Já saiu uma resenha do Piratão neste blog, em algum lugar do passado. Achando, boto aqui.

Segunda-feira, Março 06, 2006

E o Vespeiro????

Se você ainda não sabe, o sebo carioca Baratos da Ribeiro - localizado em Copacabana, ali naquele meio em que literalmente tudo acontece - recebeu, em meados de janeiro, uma intimação da Delegacia do Meio Ambiente, proibindo a realização de shows no palco improvisado dentro da livraria. Os shows, que já levaram bandas como Nelson & Os Gonçalves, Noitibó, Cacus Cream, Pic Nic e Sex Noise, tinham o nome de Vespeiro e deixavam o sebo sempre cheio. Logo após prestar esclarecimentos sobre a acusação de poluição sonora, o sebo encerrou a agenda de shows.

“No dia 11 de fevereiro, a revista MOSH!, que é co-produtora do Vespeiro, reuniu a galera para bater um papo sobre a necessidade de movimentos espontâneos e gratuitos como o Vespeiro, sobre a convivência com a vizinhança e a tentativa de harmonização entre os direitos ao lazer e ao descanso e sobre o papel da prefeitura como reguladora e fomentadora da cultura”, diz o gerente do sebo, Mauricio Gouveia, num e-mail disparado pelo Orkut a amigos. “Foram mais de 3 horas de papo. E a discussão não ficou só no umbigo; falou-se do Jabá nas rádios, do empobrecimento da noite carioca e, é claro, falou-se muito de política. O mais bacana foi a troca de experiências. A mediação do debate procurou fugir das teorias e achismos, se atendo ao que cada participante da mesa já havia vivenciado de relevante para os problemas em questão”.

O que importa, no momento, é que para que o Vespeiro possa voltar a funcionar, há toda uma pendenga burocrática pela qual a livraria e os organizadores do evento têm de passar. “No sentido mais prático e imediato, a Associação de Moradores dos Postos 2,3,4 e 5 se ofereceu para respaldar e mediar um encontro com o Secretário Municipal das Culturas. O Vespeiro é um encontro entre quem faz e quem ouve rock, locais e datas podem ser adaptados”, diz Mauricio. Só que, para que esse encontro aconteça, eu, você e todo mundo que gostava do Vespeiro tem que ir lá na Baratos da Ribeiro (Rua Barata Ribeiro 354, Copacabana, pertinho do metrô Siqueira Campos - tels. 21-2549 3850 ou 2256 8634) assinar um abaixo-assinado, que precisa de mais de 1000 assinaturas para ajudar o Vespeiro a voltar.

Aproveite e conheça o site da Baratos da Ribeiro aqui e o fotolog da livraria aqui.
"O MAIOR ZIRCÔNIO CÚBICO DO MUNDO" - NOITIBÓ (independente)

Consegue imaginar essa? O Noitibó é uma banda que é rotulada por Deus e o mundo como sendo punk. Eles vêm de Niterói, que é tradicional "celeiro" de artistas de música instrumental, mas são mais uma das bandas a desbravarem um ainda incipiente circuito alternativo na cidade. Mexendo daqui e dali, eles até que têm certa semelhança com muita coisa que vinha do underground paulista dos anos 80 (a banda feminina Mercenárias, por exemplo, parece pairar sobre algumas faixas de seus discos, e de vez em quando pulam de lá e de cá coisas assemelhadas a Fellini e Smack).

Tudo rebate falso. Alex Luiz, vocalista, guitarrista e letrista da banda (que ainda tem Andréa Amado na bateria e Sidney Santana no baixo), diz que tais grupos não têm nada a ver com o som do Noitibó. "Entra de tudo na nossa receita, menos essas bandas", brinca. "Até hoje não me interesso por elas, não sinto identificação alguma". O fato da banda ter, muitas vezes, uma sonoridade crua e ríspida e cuidar de tudo referente à sua carreira com capricho, numa boa tradução do faça-você-mesmo para os tempos da web, também já fez com que o rótulo "punk" aparecesse em algumas resenhas - Alex, pessoalmente, não se importa com o rótulo, mas diz saber que essa não é a do Noitibó.

O lance é mais complicado do que parece, então? "Posso citar outros artistas que gosto, mas acho que eles também não servem de referência real para a gente", diz Alex. "Quando fazemos as músicas não pensamos em ninguém, apenas no que ela tem a dizer e qual a melhor maneira de fazer isso. A base intuitiva que remete às coisas que escutamos no passado não é clara na hora da composição". Comparações com a coletânea No New York, que reunia grupos punk-cabeça oitentistas de Nova York (como o Teenage Jesus & The Jerks e os Contortions) também passam longe do som do Noitibó - Alex diz que nunca nem escutou esse disco. Atualmente a banda tem escutado uma salada musical que inclui Hermeto Paschoal, Queens of The Stone Age, The Mars Volta, Matanza, o punk-anos 50 dos cariocas do Canastra e até sambistas antigos.

Em quatro CDs, o Noitibó (que tirou seu nome do de um "pássaro de hábitos noturnos e pouco sociável") construiu uma personalidade marcante, que inclui riffs punks, melodias atonais, sons que misturam rock, samba e até jazz e letras provocativas - sem ser diretas. Tais atributos vêm chamando atenção nos lugares que abrem espaço para o trio tocar. Os nomes dos álbuns anteriores da banda - quase todos gravados no aconchego do lar - já são instigantes por si só: A mulher do tempo, O filme que deu origem à série e Este lado para cima. O novo, também independente, se chama O maior zircônio cúbico do mundo. Explica essa, Alex? "Como essa é uma pergunta recorrente e não queremos parecer dogmáticos, colocamos à disposição respostas diferentes de acordo com a personalidade de cada um". Enfim, zircônio é um elemento químico, encotnrável na tabela periódica e, segundo o enigmático release do disco, "é uma palavra que foi usada unicamente pela característica de estranhamento que possui". Contribuindo para o clima, as músicas não têm nomes comuns - chamam-se, pela ordem, "Cinco", "2", "Quatro", "3", "Hum", "6" e 'Sete".

Na hora de ouvir, no entanto, é mais simples. Zircônio, de todo o material já lançado pela banda, é o que tem o melhor som e o melhor acabamento. "Com exceção do primeiro, nós mesmos gravamos todos os nossos discos", diz Alex. Para o disco novo, a gravação e a mixagem foram deixadas a cargo da dupla eletrônica Ouvintes (Peter Strauss e Maurice Velt). "Eles realmente foram essenciais para essa mudança. Somente a bateria e os metais foram gravados em outros estúdios diferentes". O som punk - sem deixar de lado flautinhas, percussões e até batidas de samba - de outros álbuns evoluiu para músicas bem mais elaboradas, como a desconstruída "Cinco" (que - vá lá - até lembra um pouco as canções de No New York, só que é bem tocada) e o rock´n roll "Quatro". Tem também o punk-hardcore simples de "2" e "7" (esta, aberta com conversas de estúdio), o jazzinho atonal e instrumental de "3", um quase sambinha-punk em "Hum" e o peso de "6", conduzida por viradas de bateria e por um insistente riff de wah-wah - a letra: "Vamos internacionalizar a Amazônia e o Louvre/Vamos internacionalizar a Amazônia e o Guggenheim/O meu eu quero com mostarda, maionese, catchup e fritas". Mesmo com um caráter quase político em alguns momentos, a banda diz no release que "as letras são viagens, abstrações sem nexo. As músicas não tem nomes para se aumentar essa sensação de abstração das canções".

Além dos discos auto-bancados, a banda ainda faz o e-zine www.humeletronico.com, que reúne resenhas, poesias, artigos, artes plásticas, etc. "Tá cada vez mais difícil fazer o site, mas a gente vai levando. Há momentos em que nos entregamos mais a ele e outros em que ele fica entregue às moscas cibernéticas", diz Alex. É um dos lugares onde se pode saber qual é a do Noitibó - sem falar no próprio site da banda, www.noitibo.com, aonde é possível baixar mp3, ver vídeos, comprar CDs, ver a agenda e até baixar um curioso jogo de tabuleiro chamado O tabernáculo da vaquinha. Enfim, de uma tacada só, o Noitibó é punk (com ou sem aspas), poesia, diversificação sonora e ataque a diversas mídias.

+ Em um texto publicado no site Rock em geral, Marcos Bragatto chama a atenção para semelhanças entre o som do Noitibó e o do Primus (leia aqui).
+ Notícia chata: o Hum Eletrônico, aonde este blogueiro colaborou por muito tempo - quase o mesmo tempo que o Discoteca Básica existe - vai acabar.
+ O texto acima era para sair no Bacana - que vai voltar.

Quarta-feira, Março 01, 2006

Rolinga?

Pois é, "Rolingas" é como os fâs dos Rolling Stones são chamados na Argentina. É o que descobriu o estudante de jornalismo gaúcho Guilherme Zanini, que foi cobrir o show da banda em Buenos Aires para o site Contraponto. Leia o texto todo aqui.