RUÍDO
Teatro Odisséia, Rio de Janeiro
Dias 10, 11 e 12 de março/ 2006
SEXTA (10/3) - Em sua versão 2006, o Ruído trouxe, além das atrações musicais, algumas novidades. A primeira delas foi a divisão entre dois palcos, interessante do ponto de vista prático - enquanto duas bandas tocavam, o palco principal era montado com calma, evitando problemas - mas complicada para o público, que teve de assistir aos dois primeiros shows de cada noite num calor dos diabos e (em alguns casos) um som mais ou menos. Sorte que a banda de abertura era o
Charme Chulo, do Paraná. O som dos caras é punk + brit-pop da roça, com viola caipira, letras roceiras ("O Que É Que Foi, Piá?" é um achado) e referências a Smiths e Violent Femmes. Em seguida, veio o
Dead Rocks, de São Paulo. O trio liderado pelo guitarrista e sósia de Marcelo Nova, Johnny Crash, faz surf-punk instrumental, com muita categoria. O público, que gritava "toca rock´n roll!" (ai...), ganhou resposta à altura, com covers roqueiras - e irreconhecíveis - de duas músicas de Cartola, "Preciso me Encontrar" e "Basta de Clamares Inocência".

Acompanhado por naipe de metais, o
Canastra abriu o palco principal mostrando que faz um dos melhores shows do rock carioca atual. Aliás, o grupo tem também um dos públicos mais participativos e fiéis do meio. Se a Sony-BMG, que os contratou, souber levar, o som punk + dixieland + rock anos 50 do grupo - herdeiro de bandas como Ultraje A Rigor, João Penca e Brasov - estoura rapidinho. Canções como "Diabo Apaixonado" e "Meu Capuccino" estão preparadas para isso. Houve também muita gente interessada na toscaria do
Jumbo Elektro (foto), banda eletro-rock de São Paulo. Cumprimentando a platéia com sonoros "freak to meet you", os caras subiram ao palco fantasiados - um de general, outro de gueixa etc -, fizeram vocoder ao vivo, causaram risos. Para muitos, lembrou o show do Cansei De Ser Sexy na edição passada do Ruído, o que não chega a ser exatamente um bom cartão de visitas. Mas agradou a várias pessoas. Resta ouvir o disco e saber se o som se sustenta além do visual.

Depois do Canastra e do Jumbo, o público diminuiu consideravelmente, e tanto o
Zefirina Bomba (foto), da Paraíba, quanto o
Irmãos Rocha!, do Rio Grande do Sul, penaram. No caso da primeira banda, um desperdício: impondo respeito graças a uma sonoridade meio punk, meio experimental - o vocalista Ilsom empunhava um misto de violão e guitarra, com som distorcido - o grupo seguiu mandando bala e concluiu o show com uma versão tosca de "Interestellar Overdrive", do Pink Floyd, acrescida de um rap berrado por cima do instrumental. Quase no fim, o tal violão-guitarra foi espatifado e atirado no público: uma ceninha meio careta, mas que ali, com aquele som, impressionou. Já os gaúchos, encerrando a grade, passaram batido e tocaram para poucos.
SÁBADO (11/3) - A escalação da noite mostrava tudo: seria o dia mais jovem-guarda do Ruído 2006. O efeito túnel do tempo já começava no show dos paulistas do
Headphone. Os músicos têm uma estampa meio The Wonders, com cabelos, roupas e óculos da época, além de um som que se localiza entre Beatles, Byrds e R.E.M. Tal visual fez com que o grupo parecesse contido demais no show, causando indiferença. O
Vanguart, do Mato Grosso, foi o oposto, com referências entre o post-rock e o brit-pop - o vocalista tinha lá seus ataques de Thom Yorke - e entrega quase total no palco.
A noite no palco principal começou mal, com a notícia de que os jovemguardistas do
The Pop's, que tocariam naquela noite, tinham dado o fora. Puto da vida com os sucessivos atrasos do show - coisa possível de acontecer em qualquer festival do porte do Ruído - o baterista Parada se mandou, seguido dos outros músicos. Dava para calcular o grau de frustração dos organizadores do evento - especialmente do autorama Gabriel Thomaz, flagrado dizendo para amigos que o show dos coroas seria "a alma" do festival.
Coube a
Nervoso & Os Calmantes, bons de público, segurarem a onda. O show dos cariocas deve ter calado a boca de quem ainda insistia em ver no ex-Matanza um traque dos Los Hermanos. Letrista
storyteller e carismático no palco, Nervoso está cantando cada vez melhor e conta com pelo menos quatro hits irresistíveis no set list: "Já Desmanchei Minha Relação", "A Visita", "O Mala" e a Nova "Candidato A Amigo" - esta, numa onda bem Roberto Carlos anos 70.
Sapatos Bicolores é um grupo de Brasília que mistura punk e rock dos anos 50. Uma combinação já meio passadinha e repetitiva, mas que, no caso deles, dá certo - a banda subiu no palco em clima de jogo ganho, com o público cantando todas as músicas. E chega, porque a grande atração da noite foram mesmo os gaúchos do
Graforréia Xilarmônica (foto), de volta e gravando disco novo. Os fãs curtiram a nova "40 Anos", sucessos como "Bagaceiro Chinelão" e canções que se tornaram hits com outros artistas ("Eu", conhecida na versão do Pato Fu, e "Empregada", idem com Wander Wildner). A união de punk, jovem guarda, zoação e sabedoria gaúcha do Graforréia levou muita gente às lágrimas. Teve até fã subindo no palco - no caso, o publicitário Fred Whately, que fez sua segunda aparição especial num show da banda, cantando "Eu Gostaria De Matar Os Dois". "Combinei tudo com o Carlo Pianta e eles me chamaram", diz ele, que não é músico.
DOMINGO (12/3) - Mais uma novidade: pela primeira vez, o domingo não foi o dia da pirralhada no Ruído. Quem não queria se espremer em shows de bandas de emocore e afins, voltou feliz (e ileso) pra casa. No fechamento, foram escaladas as bandas mais rock’n’roll, cujo show foi aberto por um pequeno debate entre agitadores do underground - contando com os organizadores do evento entre os debatedores.
O
Tchopu abriu os trabalhos com um som bacana, entre o punk e o metal, e hits inconformados como "Não Tenha Medo" - fica faltando apenas o vocalista Rômulo se soltar mais no palco.
Violentures, de São Paulo, veio na seqüência, mandando bala num som que mostra outras faces dos anos 90 - sai o grunge, entra o rock alternativo de Superchunk e Weezer, cantado em inglês. Ganharam respeito. No palco "mundo" - como era chamado por alguns incautos - o rock underground na língua de Shakespeare continuava, graças às meninas punk-metal do
Lava. Nada de Pitty ou coisa parecida: o esquema das garotas é bem mais pesado, típico das bandas que entraram pro "esquema rock´n´roll" da capital paulista - e aí, foi complicado não pensar em Forgotten Boys. O show ficou numa linha entre o amador e o profissional, trazendo conversas com a platéia e papos-calcinha em meio ao barulho do grupo.

Depois veio o
Drosophila (foto). O nome foi baseado no nome científico da "mosca-de-fruta" (
drosophila melanogaster), mas, diante do visual da vocalista-gata Ana Luiza Pimentel houve quem preferisse uma outra mosca - a de padaria. Trocadalhos do carilho à parte, o som do grupo paulista é bacana, mas em vários momentos deu a entender que precisam urgentemente escapar de rótulos como "rock fofinho" e "Penélope cover" - Érika Martins, pelo que informaram a este escriba, curtiu o show e percebeu influências de sua ex-banda. Fofura, por sinal, é assunto para o
Rádio De Outono, banda pernambucana que dispensa a presença de um guitarrista (!), baseando-se em teclados, baixo, bateria e no carisma da charmosa vocalista Barbara Jones. O som une new-wave à la B-52's e toques sutis de jovem guarda - rolou até cover de Ronnie Von, "Espelhos Quebrados".

A presença de Jimmy London, vocalista do diabólico Matanza, bebendo num canto do bar, já dizia tudo. O
MQN (foto), de Goiânia, subiu ao palco e transformou o Teatro Odisséia numa sucursal do inferno - para poucos, infelizmente, porque muita gente já tinha se mandado. Quem ficou, ganhou um showzaço. Hard rock e stoner rock (ô rotulozinho...) pesado e chapado, com direito ao carisma do vocalista-figuraça - e sósia do DJ carioca Edinho - Fabrício Nobre, além de hits como "Buzz in My Head". Talvez o melhor fechamento que o Ruído já teve em toda a sua existência.
E, vale citar, não deu em quase nenhum jornal. Certas coisas nunca mudam. O Ruído Festival existe desde 2002, sempre trazendo várias bandas e uma boa estrutura, no Rio de Janeiro - e sempre sem apoio dos barões da telefonia, sem vips, sem muita mídia etc. Agora, na estréia do evento no Teatro Odisséia - já que a casa de shows Ballroom, que abrigava o Ruído, foi demolida - a pouca atenção dos grandes jornais continuou a mesma. Havia poucos jornalistas, a maioria cobrindo para sites especializados. Para quebrar a inércia, uma equipe da TVE esteve por lá filmando algumas atrações e colhendo opiniões de algumas pessoas. E só.
Maldade com um festival que já trouxe montes de atrações bacanas. Seja como for, o Ruído chega ao quinto ano com moral no meio independente do Rio - afinal, é um dos raros festivais do underground carioca com visibilidade - e continua trazendo shows surpreendentes, além de alguns nomes já manjados.
+ Todas as fotos são minhas