Terça-feira, Abril 25, 2006
Bruno Natal, do site URBe, fez um documentário sobre as gravações do disco novo do Chico Buarque, Carioca - na iminência de sair pelo selo Biscoito Fino (ou será que já saiu?). Era para eu ter dado essa notícia no fim do ano passado numa Bizz - a galera da revista chegou a conversar isso comigo - , mas não lembro exatamente porque, o lance foi sendo adiado, adiado, adiado (acho que por que o próprio disco do Chico foi adiado) até que não saiu nada lá. Agora, o documentário virou DVD e a história toda da parada tá aqui, contada pelo próprio Bruno.
Domingo, Abril 23, 2006
Paulinho Guitarra/Mu Carvalho
"THE VERY VERY COOL COOL BAND" - PAULINHO GUITARRA (Very Cool Music)A época Racional de Tim Maia já passou da fase de culto - chegou às lojas de CDs (finalmente!) e ao Fantástico. Ótima hora para se descobrir, então, o antigo braço-direito do cantor. O niteroiense Paulinho Guitarra, atual acompanhante de Ed Motta, foi brother de Tim de 70 a 77 e, depois, tocou com Marina Lima, Cassiano, Cazuza, etc. Após um disco - hoje esgotado - pelo selo Niterói, ele volta com The Very Very Cool Cool Band, um CD que mostra sua face mais ligada ao jazz e ao blues, sempre esbanjando nos solos e improvisos.
As músicas soam como uma canja entre amigos, na qual Paulinho, além da guitarra, ataca teclados e cede espaço até para outro guitarrista, Ricardinho "Cafubá" Silva. O clima é de bom humor, no rock´n roll de "Mulher esqueleto", na união de rock, soul e Henry Mancini em "A vida sexual das aranhas", na animação jazzy de "Tchau tchau blues" e "Gente que não esquenta" e nos títulos de algumas outras ótimas faixas ("Suicídio coletivo", "Festa dos macacos"). E se o guitarrista já atendeu pela alcunha de "Paulinho Racional" - era assim que Tim o chamava lá por 1974 - o encarte do CD dá mostras de que ele ainda busca discos voadores no céu: há agradecimentos à "grande consciência extraplanetária, ultra galáctica, intra cósmica universal e aos irmãos de Alfa Centauro e Periferia". Peça o seu correndo em verycool@via-rs.net.
"ÓLEO SOBRE TELA" - MU CARVALHO (Café Brasil)A Cor do Som, banda que Mu integrou até 1984, retornou ano passado com um CD/DVD ao vivo - mas, paralelmente, o músico voltou a investir em sua carreira solo com o belo Óleo sobre tela, um dos melhores discos instrumentais recentes do Brasil. O CD une música e artes plásticas - cada faixa é ilustrada por uma obra ou foto. Nem precisava: cada faixa se sustenta por si só, mostrando o lado mais erudito e brasileiro do tecladista da Cor do Som, como naqueles instrumentais que geralmente abriam os discos da banda nos anos 70/80 ("Frutificar", "Dança das fadas", etc). Para complementar o clima, Mu convidou até mesmo o George Martin da banda, Nivaldo Ornellas - os belos arranjos de orquestra em faixas como "Veneza" e "Joinville", são dele.
A viagem de Mu pelas artes plásticas rendeu momentos em que música, experimentação e erudição andam de braços dados, como no vocoder da bossinha "Manhã azul", na beleza de "Pra onde foram todas as flores" (ilustrada pela pintura Los muertos queridos, de seu primo Antonio Claudio Carvalho, que exibe retratos bem humorados de Che Guevara, Villa Lobos e Andy Warhol), na saudade de "Paisagem carioca" (choro retratando o Rio antigo e lembrando o que o próprio Mu já fizera no CD O pianista do cinema mudo), no ritmo bem marcado do jazz "Relógio de Dali", na bossa-soul de "Caffé Florian", etc. Uma beleza (site: www.kuarup.com.br).
+ Um blog só com mp3 de discos de música brasileira instrumental: http://br-instrumental.blogspot.com. Tem discos de Tom Jobim, Moacir Santos, Grupo Um, Quantum, e várias coisas inéditas em CD.
Sexta-feira, Abril 21, 2006
Desencavando matérias: Nitideal

RADIODIFUSÃO COMUNITÁRIA
Diz-se de Niterói que é uma cidade monitorada pela capital. Trata-se de uma situação natural - afinal o Rio de Janeiro é o epicentro do estado. Só que Niterói tem uma identidade cultural, impressa em suas comunidades e em seus moradores. Dar voz a todos esses grupos - e à cidade como um tudo - não é brincadeira.
Uma solução para isso pode ser a radiodifusão comunitária - com pequenas rádios nas localidades da cidade, dando-lhes voz e colocando sua identidade no ar. Só que esse tipo de comunicação ainda engatinha. Atualmente, só três rádios comunitárias operam em Niterói. A Pop Goiaba, uma das mais famosas da cidade, foi fechada no dia 4 de outubro de 2005, sob a alegação de funcionamento irregular, e teve seu equipamento apreendido. No resto do Brasil, a situação não é boa: no último dia 19, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) fechou cinco emissoras comunitárias da região noroeste do Rio Grande do Sul. Em todo o país, as pequenas rádios reclamam da repressão.
Uma solução para isso pode ser a radiodifusão comunitária - com pequenas rádios nas localidades da cidade, dando-lhes voz e colocando sua identidade no ar. Só que esse tipo de comunicação ainda engatinha. Atualmente, só três rádios comunitárias operam em Niterói. A Pop Goiaba, uma das mais famosas da cidade, foi fechada no dia 4 de outubro de 2005, sob a alegação de funcionamento irregular, e teve seu equipamento apreendido. No resto do Brasil, a situação não é boa: no último dia 19, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) fechou cinco emissoras comunitárias da região noroeste do Rio Grande do Sul. Em todo o país, as pequenas rádios reclamam da repressão.
Cláudio Salles, professor de Comunicação e coordenador da Pop Goiaba, busca reerguer a rádio, atuante na divulgação da música e da cultura niteroiense.
- Já conseguimos a liberação do equipamento nesta semana, e vamos nos reunir para decidir o que fazer. Queremos voltar em maio. - diz ele, até hoje indignado. - Tínhamos recebido autorização do Ministério das Comunicações. Só que o papel ainda teria de receber a assinatura do Lula. Enquanto esperávamos, explodiu aquela crise do mensalão, e ninguém assinou nada.
A rádio permanecia funcionando enquanto estava, segundo Cláudio, "no hiato da lei", mas autorizada.
- O Ministério já havia permitido seu funcionamento. Nós fomos atingidos porque incomodávamos. Já discutíamos questões complexas como jabá e rádio digital há cinco anos. - diz.
Outra rádio conhecida na cidade é a NB FM, pertencente ao Núcleo Barreto. Ela tem chancela do Ministério da Cultura - está no programa de governo Ponto de Cultura - e fornece diversas atividades comunitárias.
- A rádio é apenas a voz de nossos projetos. - diz o diretor do Núcleo, Marcelo Silveira. - Temos uma oficina de comunicação comunitária, capacitamos cerca de 50 jovens a cada seis meses. Damos uma bolsa de 150 reais para eles, pelo projeto Primeiro Emprego. Os jovens fazem de tudo: falam no ar, dão aulas, operam fitas.
Dificuldades e soluções: Há vários empecilhos para se montar uma rádio comunitária - inclusive na própria lei que permite seu funcionamento, segundo Cláudio.
- A lei é proibitiva. – lamenta. – O Ministério das Comunicações estabelece que as rádios devem ter só 25 watts de potência, o que alcança apenas um quilômetro. Não se pode comercializar anúncios, o que dificulta no pagamento de luz, água, aluguel, etc. Além disso, a antena da rádio tem que ficar a 30 metros de altura, o que não leva em conta as especificidades geográficas de cada região. Tem vários meandros que impedem a democratização da radiodifusão comunitária.
Marcelo cita outros obstáculos.
- Temos muita concorrência das rádios grandes. A rádio comunitária, por ter alcance pequeno, precisa que você fique na comunidade para ouvi-la, o que não acontece numa cidade-dormitório como Niterói. – diz.
Há quem afirme que a digitalização das rádios pode ser uma saída – o sistema permite que mais rádios surjam, já que, no sistema analógico, só é possível um número x de emissoras no dial. Mas, para Cláudio, isso pode ser sinal de mais problemas.
- O Ministério está na iminência de escolher o sistema norte-americano de rádio digital (Iboc), que causa interferências nas rádios pequenas. - diz. - Ele pode levar a digitalização a um grande apartheid tecnológico. Queremos que isso seja testado. Esse sistema está sendo escolhido por pressão das rádios grandes (numa matéria do site IDG Now, o ministro das comunicações, Hélio Costa, afirma que "estão sendo realizados testes com o sistema norte-americano por decisão das emissoras que financiam as pesquisas").
O jornalista e agitador cultural Pedro de Luna lamenta que a situação das rádios comunitárias esteja nesse ponto.
- Essas rádios poderiam ser um ótimo laboratório para estudantes de comunicação. – diz. – Numa emissora pequena, que não tem o mesmo esquema competitivo de uma rádio grande, o estudante pode errar mais, e o aprendizado é maior.
Na política, a radiodifusão comunitária conta com "anjos da guarda" como o deputado Carlos Minc e o vereador niteroiense André Diniz - que busca, a partir de projetos de lei, dar uma solução para tais impasses:
- Estamos fazendo um projeto que destina 1% das verbas de publicidade para rádios e TVs comunitárias. Não é nenhum ônus grande para a cidade, e o município passa a reconhecer a importância de haver diversos atores disseminando informação. – diz André, que também planeja criar uma rádio aberta, educacional, para a Fundação de Artes de Niterói. – Seria o equivalente da rádio USP, de São Paulo. Já reservamos 200 mil reais para esta rádio, que abriria espaço para a cidade. Planejamos que isso esteja fora do papel em um ano e meio.
Foto: Divulgação.
Quarta-feira, Abril 19, 2006
É isso aí, bicho
Alguém disponibilizou na internet uma coletânea de textos sobre psicodelia, contracultura, anos 60/70, cultura hippie. Entre originais de Luis Carlos Maciel, Ana Maria Bahiana, Silvio Essinger, etc, tem até um texto meu (sobre os Brazilian Nuggets). Leia tudo aqui.
Aliás, alguém pegou vários LPs originais cujas faixas foram colocadas nas pastas Brazilian Nuggets do Soulseek, zipou e colocou no Rapidshare - e coletou no blog BrNuggets. O lance dos blogs de mp3 está se tornando uma coisa cada vez mais séria e ainda está para ser debatida a fundo aqui no Discoteca Básica e em vários outros lugares. Tem coisas que você acha lá e nunca vai achar no e-mule!
Aliás, alguém pegou vários LPs originais cujas faixas foram colocadas nas pastas Brazilian Nuggets do Soulseek, zipou e colocou no Rapidshare - e coletou no blog BrNuggets. O lance dos blogs de mp3 está se tornando uma coisa cada vez mais séria e ainda está para ser debatida a fundo aqui no Discoteca Básica e em vários outros lugares. Tem coisas que você acha lá e nunca vai achar no e-mule!
Terça-feira, Abril 18, 2006
Lado de dentro

"A proposta do Lado de dentro é ser uma loja virtual focada em arte brasileira. Enquadram-se quaisquer tipos de manifestações autênticas: livros, discos, quadros, esculturas, fotografias, dvd's, etc (...). Pretendemos acolher todos que fazem arte brasileira e querem divulgar e vender seus trabalhos". Clique aqui e conheça o site, que já tem um catálogo bem grandinho de artistas brasileiros de todas as áreas.
Titanic 2?????
Um maluco pegou cenas dos filmes do Leonardo Di Caprio e criou o trailer de Titanic 2: The surface. A mesma equipe que busca aquela jóia da Rose acha o corpo do Jack (personagem do Di Caprio, pra quem não se lembra) congelado e... Vejam aí: www.vekay.com/titanic.html.
Fonte: Guilherme Mattoso.
Luxúria/Tara_Code
"LUXÚRIA" - LUXÚRIA (Sony & BMG)Complicado dar uma escutada distraída no trabalho da banda paulista Luxúria e não tecer nenhuma comparação com Pitty - afinal, a Sony & BMG, que não dorme no ponto, foi contratar logo uma banda liderada por uma vocalista bonita, tatuada e carismática, Meg Stock. Que existem "contingências de mercado" por trás da contratação do grupo, isso é visível - e é até compreensível - mas vale afirmar que o Luxúria mandou otimamente bem na estréia, partindo para um som que mistura punk, new wave (ao vivo, rolam covers até de Billy Idol, como pôde ser atestado no Humaitá Pra Peixe), grunge, etc. "Ódio", hit-single (cujo clipe pode ser assistido no CD) é atravessada por esses gêneros, assim como o punk-blues de "Cinderela compulsiva" e um insólito encontro entre Foo Fighters (pelo peso) e Cardigans (pela beleza das linhas vocais) em "Pés no chão".
Longe de qualquer radicalismo, Luxúria, o disco, tem até faixas em que Meg Stock fica parecendo Maria Rita - e, segundo entrevistas, a MPB aparece no rol de influências do grupo. Também fica fácil perceber que Meg e seus camaradas Luciano Dragão (baixo), Beto Richieri, Ed Redneck (guitarras) e Guilherme Cersosino (bateria) curtem anos 80 - graças à condução quase marcial de "Suja e só" - e a gritaria de Brody Dale, vocalista dos punks norte-americanos Distillers - essa, influência perceptível na barulheira de "Fechar os olhos". Vale citar também as letras e títulos fortes e irônicos de quase todas as faixas - como na ensolarada "Imperceptível" e na grunge "Frankenstein do subúrbio". Um estréia legal, que merece ser ouvida com atenção (site: www.bandaluxuria.com.br).
"AZUL E ROXO" - TARA_CODE (independente/Tratore)Quer se divertir escutando o novo som da Bahia? Então voa daqui. O Tara_Code, que mescla música, comunicação multimídia e poesia desconcertante, está mais para um apavoramento, no bom sentido, do que para a diversão pura e simples. Azul e roxo é um disco que oscila entre o rock do Nine Inch Nails, as experimentações do Einturzende Neubaten e a fúria do Kraftwerk inicial. Quem for carioca pode até lembrar do Vulgue Tostoi em faixas como "Azul e roxo", "Spinner com tônica", etc. Cada música soa como a trilha de um filme desconcertante e aterrorizador, que entretém e tensiona, sempre com saldo positivo.
Marcado pelas programações e intrumentos de Gilberto Monte e pela poesia declamada de Andrea May, o Tara_Code cospe batidões pesados, samples de riffs de metais e letras e melodias fortes. Tem o peso de "Rum cake", a oração maldita de "Espelho de 1/4 de mim", o clima anfetamínico de "O avesso da tristeza" (com letra rodada ao contrário e milimetricamente encaixada nas batidas da faixa), o ruído intermitente de "Medo pré mix" e a pancadaria de "Amanhã nem sei", que beira o eletrohardcore. Ouça no volume máximo (site: www.taracode.com.br).
Sexta-feira, Abril 14, 2006
Marisa Monte
"UNIVERSO AO MEU REDOR" / "INFINITO PARTICULAR" - MARISA MONTE (Phonomotor/EMI)Universo ao meu redor e Infinito Particular, os dois discos novos de Marisa Monte (Phonomotor/EMI), têm algo a ver com 4, disco mais recente dos Los Hermanos. São álbuns que já chegam às lojas com um certo ar de raridade, aludindo a mundos (musicalmente e liricamente falando) bem peculiares, criando um tipo de música mais particular ainda - que pode até ganhar a denominação rasteira de "pop", mas que alude a outras viagens.
Talvez por causa do momento de recolhimento da cantora - Marisa passou os últimos anos mais dedicada à família, embora tenha tido um bom momento de exposição com o disco dos Tribalistas e a febre de "Já sei namorar" e "Velha infância", em 2003 - os discos vieram introspectivos, costurando para dentro. A grande atração de quase todas as letras e músicas é o fato de que Marisa e seus parceiros estão mais ligados em epifanias, em lugares escondidos, em paraísos que só existem em seus próprios universos - daí os títulos. Isso, com certeza, vai espantar quem procura hits fáceis em ambos os lançamentos. Pouca coisa em Infinito - o disco mais "pop", mais autoral - lembra coisas como "Amor I love you", e o som de Marisa parece dedicado a uma mistura de modernidades (dosadas) e antiguidades. Antiguidades mesmo, no sentido mais direto da palavra, levando em conta coisas como o Rio antigo, os romances de Machado de Assis, os doces da Confeitaria Colombo, etc.

Se Marisa já declarou em entrevistas que "adora coisas de avó", o som dos dois discos tal preferência bem clara, numa proposta estética que une descobertas do fundo do baú (como a bela seresta "A primeira pedra" que, não parece, mas é do trio que fez Tribalistas, ou o delicado bolerinho "Aquela") com coisas da natureza. Tal união rendeu belezas como "O rio" (canção de ninar, feita em parceria com Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e - incrível - Seu Jorge), "Vilarejo" e "Pernambucobucolismo". O dado mais pop aparece em faixas como a balada quase-soul "Até parece" - que poderia ser gravada pelo Kid Abelha - a orquestral "Aconteceu" e a ensolarada "Gerânio", cuja letra, que traz o relato jornalístico do dia-a-dia de alguém, lembra Jorge Ben - e tem o nome de Nando Reis no rol de autores.
Um dia, perguntaram pra Maria Bethânia o que ela achava de Marisa Monte - e ela respondeu que achava que a cantora de "Bem que se quis" parecia querer mostrar o tempo todo que não era brasileira, mas sim novaiorquina. Pouco desse lado "cosmopolita" de Marisa se vê nos dois álbuns - e a mixórdia musical do primeiro álbum de Marisa, em que ela aparecia como ponta-de-lança das "cantoras ecléticas" nem passa perto. Infinito Particular é um disco que forja um som próprio - embora associe-se, em alguns momentos, a um lado mais obscuro da MPB dos anos 60 e 70, como se o disco fosse uma preciosidade, um nugget perdido daquela época, figurando entre o bucolismo do Clube da Esquina e o pós-tropicalismo. Já Universo ao meu redor é um disco de samba, mas sem ser um "disco de samba", no que essa expressão tem de mais caricatural.
Em Universo, Marisa poderia muito bem juntar um regionalzinho, fazer música "de raiz" e se limitar a prestar homenagens. Em vez disso, uniu algumas (poucas) programações, teclados e samplers, instrumentações bacanas (há tubas e harpas dando um clima mágico a algumas faixas) e fez, ela mesma, alguns sambas que não soam deslocados no disco - caso de "Bonde do dom", "Quatro paredes", "Cantinho escondido" e da faixa-título. Ainda que "Três letrinhas", de Moraes Moreira e Luiz Galvão, não tenha perdido sua pinta de Novos Baianos, e haja sambas antigos como "Perdoa meu amor" (Casemiro Vieira) e "Meu canário" (Jayme Silva), tudo ali tem unidade. De esquisito mesmo, só a viagem na maionese de "Statue of liberty", parceria - em inglês - com o ex-Talking Head David Byrne. Só aí rola munição para a tal bronca da Maria Bethânia.
Ficou faltando falar do que há por trás da música. Talvez a cantora tenha confiado demais no lado "elite" de seu público, ao lançar dois discos de uma vez - a política de preços da EMI, gravadora que distribui o selo da cantora, o Phonomotor, deixou os álbuns custando, cada um, cerca de 40 paus. O público "povão" da cantora, se é que existe, já baixou os discos da internet ou providenciou dois piratões. Resta saber se, na época em que o CD perde lugar para o mp3, o fetiche, mais ligado ao rock e ao pop, do álbum duplo - mesmo que dividido em discos separados - ainda terá sua vez.
+ Publicado no Nitideal.
+ O leitor José Henrique escreveu pra avisar que a letra de "Gerânio" é uma carta que a Marisa Monte recebeu de uma prima no começo dos anos 90, e que o Nando Reis musicou.
Quinta-feira, Abril 13, 2006
Só pra marcar
Saiu Bizz nova, com uma materinha que fiz com o Moptop. Infelizmente, a revista foi fechada antes que eles anunciassem que a Universal contratou os caras - até então, fofocava-se que a Sony & BMG havia contratado o grupo. O Moptop é uma das bandas que veio para mostrar que o empreendedorismo dá certo - criaram o grupo como um projetinho-dupla de quarto, que não dava shows e, em breve, os caras já estavam chamando a atenção da maior galera, até fora do Brasil. Vale a pena esperar pelo que vem aí.
Quarta-feira, Abril 12, 2006
Desencavando entrevistas: Fiery Furnaces na Rock Press

BRASIL, BANANA E FIERY FURNACES
Os irmãos Eleanor e Matthew Friedberger, que formam o Fiery Furnaces, fazem um indie-rock dos mais esquisitos e amam tropicalismo. Conheceram Mutantes no finalzinho dos anos 90 escutando rádio, quiseram imitar a capa do álbum de 1969 de Gilberto Gil (o que tem “Aquele abraço”) na arte gráfica de seu primeiro disco e amam os discos antigos de Caetano Veloso - que têm como “alguns dos melhores álbuns de rock já feitos”. Vai ser indie assim lá na China, diriam alguns – nem mesmo Beck, que chegou a aproveitar uma entrevista para convidar Caetano para subir no palco, em seu show no Rock In Rio III (convite recusado ou ignorado, sabe-se lá) babou tanto o ovo da rapaziada que mudou a MPB dos anos 60.
Neste papo, feito por e-mail, só faltou saber o que os FF acham do mandato água-com-açúcar do atual ministro Gil e da fase pós-tropicalista de Caetano. No entanto, deu para saber um pouco do que está por trás da sonoridade MUITO peculiar da dupla, que recentemente teve seu álbum Blueberry Boat lançado aqui. Detalhe interessante: a predileção da banda por gente que já esteve bem na foto e hoje anda meio no desvio não pára por aí. Matthew já declarou ser fã do Who, embora não demonstre muita simpatia pelos eternos retornos da banda. Confira:
O site www.allmusic.com disse que os Mutantes são uma de suas influências. Isso é verdade? Como vocês ficaram conhecendo seu trabalho?
MATTHEW: Sim, é verdade. Os álbuns deles foram relançados ao mesmo tempo nos Estados Unidos, em meados dos anos 90. Escutei "Rita Lee" (música do segundo álbum da banda, de 1969) numa rádio comunitária de Chicago, em 1999, e Eleanor comprou o primeiro discos dos Mutantes em 2000. Gosto especialmente do segundo disco. Nós amamos o Tropicalismo e a capa do nosso primeiro disco, Gallowsbird Bark, simula a capa do álbum de 1969 de Gilberto Gil. Os primeiros discos do Caetano Veloso e os seguintes são encontrados para importação por nada menos que 20 dólares. E nem são difíceis de serem achados em CD nas grandes cadeias de lojas de discos, em grandes cidades. Todo mundo deveria conhecer esses discos. Eles estão - tranqüilamente! - entre os melhores discos de rock já feitos.
EP soa mais pop do que seu segundo disco, Blueberry Boat, que era quase uma suíte com longas faixas. Fazer uma coletânea com estes singles seria uma maneira interessante de fazer mais pessoas conhecerem a banda? E por que fazer uma coletânea com tais singles num momento em que a banda ainda está no começo de sua carreira?
Bom, as canções de EP saíram como singles na Inglaterra. Elas nunca saíram nos Estados Unidos porque lá não há mercado de singles para nosso tipo de banda. É apenas um modo de lançar tais músicas pela primeira vez nos EUA. Certamente é um disco mais pop, na medida em que fizemos estas canções para ser singles – ou seja, pop, como manda o esqueminha dos singles (pelo menos foi com isso em mente que as fizemos). Ultimamente, pensamos que tais canções soariam bem juntas e dariam um bom álbum.
Como a imprensa costuma definir o som do Fiery Furnaces? Existe algum tipo de definição que não tenha agradado a vocês? E alguma que tenha agradado em especial à banda?
Eles dizem todo tipo de coisas, quer tenham gostado ou não. Há muita gente que não compreende o que o rock deve ser.
É comum ver pessoas falando que o rock progressivo é uma influência de vocês - e ao mesmo tempo não é uma influência que costumamos encontrar em bandas novas. V ocê ouve esse tipo de som?
Ah, sim, eu conheço bem esse estilo - mas Blueberry Boat não é rock progressivo. Ele foi feito para soar como as bandas pré-progressivas, Ogden's Nut Gone Flake, dos Small Faces, "Rael", do Who (do álbum The Who Sell Out, de 1967), os bootlegs ou outtakes de Smiley Smile, dos Beach Boys, a primeira música do segundo álbum dos Mutantes ("Dom Quixote") e os discos de 1969 de Caetano e Gil. Esses discos têm um approach muito mais interessante do que as noções reacionárias de musicalidade que moveram boa parte do rock progressivo. A maneira como eu toco no disco é, espero, totalmente diferente da maneira como um músico prog toca. A expressividade no rock vem de erros, de casualidades eventuais, e a maneira como tocamos em Blueberry Boat segue tal linha. O modo de tocar do rock progressivo não tem nada a ver, por exemplo, com Sam Phillips dizer que "a Sun Records é apenas um grande erro", e Pete Townshend achar que “se você tem qualidade está ok”. A guitarra no Close To The Edge, do Yes, é, por exemplo, brilhante, freqüentemente bonita... mas não interessa como guitarra de rock. E certamente, também não interessa como música. Amo King Crimson - aliás amo Adrian Belew (guitarrista do grupo em alguns discos) - e seu disco This Heat's Deceit, mas não passa muito disso.
Sua família (mãe, avó) têm ligação com música. A música que você ouvia em casa influenciou em algo na mistura sonora que vocês fazem hoje?
Tivemos uma família tradicionalmente musical. Nossa mãe tocava piano e cantava. Nosso pai era fanático por Handel - ele está no Handel Festival, em Halle, no momento em que escrevo isso. Nossa avó era a melhor musicista da família, era organista e diretora de coral na sua igreja, desde 1939, e estava sempre cantando e tocando. Escrevi um disco para que ela e Eleanor cantassem, se chama Rehearsing My Choir e sairá no inverno (alguém por acaso sabe se esse disco saiu?)
Matthew, você declarou gostar muito do Who. Se a banda gravar novo disco com a formação atual (com músicos contratados no lugar do baterista e baixista), você o comprará? O que você achou das faixas inéditas que eles divulgaram numa coletânea ano passado?
Não, provavelmente não irei comprá-lo. Nem sei quais são essas músicas inéditas das quais você me fala. Além disso, as músicas inéditas que estão saindo nos relançamentos dos discos estão confundindo muita gente. Tem gente achando que "Glittering Girl" pertencia realmente ao The Who Sell Out (na verdade, a música entrou como bônus em um dos relançamentos do disco). Não acho que isso seja legal.
Como você acha que as pessoas acostumadas com o rock usual ou com o som dos "heróis da guitarra" encara um álbum extenso e complexo como o de vocês? Será que há alguma possibilidade desse tipo de pessoa gostar da música do Fiery Furnaces?
Bom, acho que elas podem gostar de "Chris Michaels" - ou pelo menos de partes dela - ou "Evergreen", que realmente é tradicional.
O Rough Trade, selo pelo qual saíram seus discos, de certa forma acabou se tornando uma grife, devido aos discos de bandas como Smiths, James, Aztec Camera etc. Como é ser lançado por um selo que editou tantas bandas importantes? Isso representa algo para a música de vocês?
Isso é muito bom. Eu não gosto de Smiths, mas amo The Fall, especialmente Grotesque e Perverted by Language, lançados pela Rough Trade. É lisonjeador ter nossos discos lançados pelo mesmo selo.
Vocês têm idéia de quem é seu público? Se são pessoas que curtem indie rock ou fâs de clássicos, rock progressivo, música experimental?
Realmente não sei. Há pessoas que gostam de nós e de uma série de novas bandas - e há pessoas que gostam de nós e não gostam de grupos novos. Quando sai um disco, as pessoas vão ouvi-lo de sua própria maneira, não da nossa maneira, e elas irão associá-lo com quaisquer outros discos que lhes ocorra. Creio que seja assim que acontece.
Quais são suas maiores influências e o que você está escutando agora?
Dylan, Tom Jobim, Caetano Veloso, Stevie Wonder, Rolling Stones... Os outros discos mencionados acima também.
+ publicado em Rock Press.
Terça-feira, Abril 11, 2006
Tim Maia Racional no Fantástico (achou que eu ia esquecer?)
Foi impressão minha ou eu pautei o Fantástico domingo passado? Naquela matéria do Tim Maia Racional só faltou o Paulinho Guitarra falar pro repórter: "olha, como eu disse praquele maluco da Bizz que veio aqui em casa...".
Bom, a matéria do Fantástico, com direito a video e texto escrito, tá aqui. Divirtam-se. E o Rodney Brocanelli, blogueiro-jornalista amigo nosso, andou levantando essa lebre da relação Bizz-Discoteca Básica-Fantástico num dos comentários aí embaixo.
Bom, a matéria do Fantástico, com direito a video e texto escrito, tá aqui. Divirtam-se. E o Rodney Brocanelli, blogueiro-jornalista amigo nosso, andou levantando essa lebre da relação Bizz-Discoteca Básica-Fantástico num dos comentários aí embaixo.
Harry
"TAXIDERMY" - HARRY (Fiber)A banda santista Harry não pode ser considerada um dos nomes mais sortudos do rock nacional oitentista - e, aliás, muita gente (infelizmente, diga-se de passagem) deve ter lido a primeira frase deste texto e pensado: "Harry? Rock nacional? Anos 80? Que banda é essa?". Pois é, se você não conhece, deveria conhecer - e saiba que o selo Fiber Records está reeditando os três álbuns do grupo no box set Taxidermy. Trata-se de um outro lado do rock brasileiro da época, que vale a pena ser conhecido - e pra já!
O grupo de Hansen (vocais, guitarra), Cesar Di Giacomo (bateria), Richard Jonsson (baixo) e Roberto Verta (teclados, produção) era um dos nomes que, naquele período, insistia em correr contra a maré do rock nacional - e justamente numa época em que o gênero já começava a apresentar sinais de desgaste. Seus três discos, independentes, lançados entre 1987 e 1991, traziam rock inglês, noisy rock, rock industrial, sons eletrônicos (a então chamada electronic body music), efeitos de estúdio, fitas ao contrário, sons eruditos... Tudo o que não estava no cardápio das rádios rock da época. Detalhe: as letras eram em inglês! O único álbum a trazer qualquer coisa cantada em português foi o primeiro, o EP Harry (ou Caos), lançado em 1987 pelo falecido selo paulista Wop Bop, trazendo um som bem mais roqueiro que o comum da banda - lembra um Sonic Youth mais eletrônico, ou mesmo alguns trabalhos de grupos como Art Of Noise. Como a new wave à brasileira ainda dava pé, o grupo resolvera dar um tempo nas letras em inglês e chamou Denise Tesluki para dar uma força em canções como "Caos" e "Adeptos" (só "Blood and shame" era cantada na língua dos Beatles).
Até que Caos saísse, o grupo (originado da banda punk Yardrats, ativa - pasmem - em Santos nos anos 70!) já se chamara Harry & The Addicts, contando apenas com Hansen, Di Giacomo e o baixista Renato Grillo - este, falecido pouco tempo depois. Johnsson entraria pra o baixo e o grupo, inspirado por uma personagem de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, reduziria o nome para Harry. O tecladista Roberto Verta, grande responsável pela sonoridade mais eletrônica que o grupo adotaria em seguida, só entraria depois do EP, para gravar o primeiro LP, Fairy tales, publicado pela Wop Bop em 1988. É um disco que chama a atenção pela produção cuidadosa e pela qualidade de gravação acima da média para os álbuns independentes do período - cortesia do estúdio paulista Big Bang. Unindo rock, tecnopop e tons cinzentos, o grupo mandou bala em anti-hits como "Sky will be grey", "Genebra", "You have gone wrong" (com tapes de discursos de Getúlio Vargas e Hitler) e "The beast inside", além das melancólicas "Silent telephone" e "The last birthday". Um discão, ignorado pela grande mídia, mas escutado pelas pessoas certas - tanto que só recebeu críticas positivas.
O grupo só lançaria disco novo em 1991, Vessels Town. Tratava-se de um lançamento "meio" independente - saiu pelo selo Stilleto, que era distribuído pela Sony Music e tinha discos vendidos até em grandes magazines. Com a saída do baterista di Giácomo, o grupo entraria de vez na seara tecnopop - com direito a samples, sintetizadores e baterias eletrônicas à vontade. Apesar de contar com um momento promissor para a música eletrônica, de estar numa gravadora de maior porte e de fazer seu disco mais acessível (repare no nome do então novato Dudu Marote - ! - como consultor para assuntos sampleiros, na ficha técnica), o Harry não se deu bem: a despeito da boa qualidade de Vessels town, não rolou muita repercussão. Para os fâs, resta curtir músicas como o eletropunk "Savior", as canções de guerra "Stories" e "Watching the watchmen" e a pesada "Bronco brain", pela primeira vez em CD.
Além dos três discos originais, o fâ poderá curtir também a história da banda contada num informativo livreto - com todas as músicas comentadas - e mergulhar num mundo de faixas bônus, incluídas em cada disco. Caos, por exemplos, traz tapes dos anos 90, gravados para álbuns que nunca chegaram a sair - além das demos de uma tentativa de volta do grupo, sem Verta, em 1998. Os outros discos trazem mixagens alternativas, remixes, out-takes, etc. Pois é, Taxidermy, enquanto resgate, é mais luxuoso que muita coisa relançada por grande gravadora. Uma lição e tanto - e uma grande surpresa para os antigos fâs da banda. Saiba do Harry em www.harrynet.com.br.
+ pulbicado em International Magazine.
Quarta-feira, Abril 05, 2006
Zzzzzzzzzzzzzz...
"GREATEST HITZ" - LIMP BIZKIT
"GREATEST HITS" - BLINK 182 (Universal)
Musicalmente falando, o período que compreende o final da década de 90 aos meados da década atual poderá entrar para a história como uma era dominada pelo erro de leitura, em várias áreas. Disseram para os ex-Big Brothers que eles eram "celebridades" e vários deles acreditaram que poderiam se manter no ar freqüentando festinhas - e a própria falta de explicação, de debates, sobre o que são esses reality shows, provoca distorções como essas. Disseram para o povo que a solução era votar num "partido do bem", para depor de vez o "mal" do neo-liberalismo - e logo depois o PT apareceu fazendo as mesmas coisas que o PSDB já fazia, mas com cara de pau decuplicada. Como sempre acontece - no Brasil e no mundo - ninguém lembra de ler a bula, de ver o outro lado, de dar uma pesquisada, dormir sobre o assunto. E quando se dão conta da cagada (montes de celebridades vazias, de programas inócuos dominando as tardes na televisão, de CPIs em cima de CPIs, e uma situação política que, quando aparece em qualquer noticiário, mais se assemelha a um quebra-cabeças), haja papel higiênico para limpar tudo.

Musicalmente falando, o período que compreende o final da década de 90 aos meados da década atual poderá entrar para a história como uma era dominada pelo erro de leitura, em várias áreas. Disseram para os ex-Big Brothers que eles eram "celebridades" e vários deles acreditaram que poderiam se manter no ar freqüentando festinhas - e a própria falta de explicação, de debates, sobre o que são esses reality shows, provoca distorções como essas. Disseram para o povo que a solução era votar num "partido do bem", para depor de vez o "mal" do neo-liberalismo - e logo depois o PT apareceu fazendo as mesmas coisas que o PSDB já fazia, mas com cara de pau decuplicada. Como sempre acontece - no Brasil e no mundo - ninguém lembra de ler a bula, de ver o outro lado, de dar uma pesquisada, dormir sobre o assunto. E quando se dão conta da cagada (montes de celebridades vazias, de programas inócuos dominando as tardes na televisão, de CPIs em cima de CPIs, e uma situação política que, quando aparece em qualquer noticiário, mais se assemelha a um quebra-cabeças), haja papel higiênico para limpar tudo.

No rock, não foi diferente nos últimos tempos, com direito a baldes de bandas fazendo o serviço pela metade. Em que pese o fato do Limp Bizkit ter um balanço bacana e um baixão pesado, um vocalista como Fred Durst só pode ter se criado em cima de várias leituras erradas do rap - rapper medíocre, seu trabalho se resume a criar meia dúzia de frases de pouco efeito (repleta de “fucks”) e encadeá-las com vocais sem graça. O resultado soa como um espelho do lado execrável do Charlie Brown Jr. Igualmente pagando de rapper, Eminem soa quase como uma Jacqueline Joy (aquela personagem de Celebridade, interpretada pela Juliana Paes) do estilo, frequentando revistas de celebridades e os noticiários - e quem erra a leitura é o público que, porventura, ainda vê nacos de "radicalismo" nisso tudo. Do Blink 182, fica até chato não falar sobre, dada a quantidade de clichês melódicos que a banda insistia em fazer o públco engolir goela abaixo como sendo "punk rock". Foi nesse vazio que a galera do indie rock se criou e, hoje em dia, vê-se um Franz Ferdinand ou um The Killers conquistando espaços bem maiores e mais honestos.
Boa parte desse vazio está de volta às lojas, em coletâneas. A Universal soltou recentemente Curtain Call - The Hits, com 16 faixas de Eminem, Greatest Hitz, com 14 sucessos e três inéditas do Limp Bizkit e o Greatest Hits do Blink 182. Atirar os grupos à fogueira por completo é impossível. O fato de tanto o Limp Bizkit, quanto o Eminem e o Blink 182 se apresentarem como artistas descontínuos, feito um quebra-cabeças sem algumas peças, é curioso. E serve, no mínimo, como lembrete de que o pop, um dia, já foi mais inteligente - e o rap, menos boçal. E nos três discos, há momentos bacanas que merecem ser levados em conta. Os três discos têm em comum o fato de, realmente, justificarem mais coletâneas do que vários discos de carreira.No caso de Eminem, tem a anti-edipiana "Cleanin' out my closet", as duas boas versões de "Stan" - a primeira com o sample de “Thank you”, da rainha do mais-ou-menos, Dido, e a segunda, belíssima, com Elton John no piano - e o Miami-bass de "Fack". O Limp Bizkit, por sua vez, sofre do mesmo mal de Eminem - o de vender raivinha disfarçada de revolta - só que em escalas astronômicas. É o que pode ser escutado em letras egocêntricas como as de "Counterfeit", "Nookie" e outras, sempre com alguns balanços bons e farto reaproveitamento de idéias batidas do rap e do heavy metal - ironicamente, o que mais chama a atenção no disco do Limp é o som vigoroso do baixo, o que já diz muito a respeito de como o conceito de "música pesada" foi sendo modificado com o passar dos tempos.
O Blink 182 – egresso dos anos 90, mas estouradaço no Brasil após 2000 - tem a seu favor o fato de ter sido uma banda sorvete-na-testa que, mesmo usando erradamente o rótulo "punk", não engana quase ninguém - e até que amealhou bons hits, tanto na fase hardcore melódico, quando no período punk de FM, que teve sua conclusão com uma estranha tentativa de ser levado a sério no álbum Blink 182, de 2003. No fim das contas, Curtain call, Greatest Hits (do Blink) e Greatest Hitz (do Limp) servem mesmo é para duas coisas: 1) para fazer um agradinho aos fâs; 2) como retrato da época em que bandas medíocres vendiam milhares de discos e arrebanhavam milhares de fâs. Mas como essa época está longe de passar, então...
+ publicado no International Magazine.
Segunda-feira, Abril 03, 2006
Rindo pra não chorar
Fizeram uma compilação dos melhores - o que não quer dizer necessariamente "os mais gloriosos" - momentos da campanha presidencial de 1989, e botaram no YouTube. Veja aqui.
Desencavando colunas: Nitideal

TÁ COM SAUDADES?
Não foram poucas as vezes que eu, trintão assumido - mas com senso de ridículo - escutei pessoas com 20, 21 anos acometidas de um estranho sintoma: saudade do que não viveram. "Ah, se eu tivesse vivido nos anos 80... Aquela época é que era legal". Trata-se de um desejo meio ilógico, porque quem tem 20 anos VIVEU os anos 80, já que nasceu em 1986 - mas dá para entender o sentido da frase acima. Se você viveu uma década quando era criança ou adolescente, pôde curtir coisas interessantes, mas perdeu boa parte da festa. Quem nasceu em 1974 - meu caso - pegou Vila Sésamo, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Globo Cor Especial, deu risada do Bozo, viu Chaves quando ainda era novidade. Mas conheceu o sexo já com camisinha. Nesse quesito, sorte de quem foi da época do Vigilante Rodoviário.
A leitura de 1985 - O ano em que o Brasil recomeçou, dos jornalistas Edmundo Barreiros e Pedro Só (Ediouro), pode ensinar muita coisa pra quem só vê nos anos 80 um sorvetão cravado na testa. O tal sorvete, na verdade, continua espetadão na testa de muitos, mas de outro modo. Se você tem entre 30 e 40 anos e lembra da tal "Nova república" de Tancredo Neves, já sabe no que deu aquele papo: Tancredo morreu, Sarney assumiu - com muita gente acreditando que o falecido presidente iria "salvar o Brasil" - e a tal renovação política foi pra... bom, siga a rima. Se houver alguma dúvida, é só ler o texto da contra-capa do livro: "Os tais anos 80 foram realmente divertidíssimos. Mas a coisa não era brincadeira de criança, não. (...) Até hoje tem gente esperando um coelho sair da cartola ou um sapo barbudo chegar ao poder pra salvar a pátria. Mas quem viajar nesse balão rumo a 1985 não se deixará enganar pelo ursinho Blau Blau da história".
Traduzindo: se havia um lado "alegrinho" naquela época, ficou na música pop do período. Nos anos 80 começaram a florescer "entes" queridos da mídia atual, como o Comando Vermelho - com direito à fuga espetácular do traficante Escadinha do presídio de Ilha Grande, no reveillon de 1985. A maneira como o povo se agarrou ao presidente eleito (por voto indireto!) Tancredo Neves, já diz muita coisa sobre como o Brasil precisava de heróis, após 20 anos de ditadura. E até hoje tem gente atordoada, tentando entender o que houve por trás da morte de Tancredo - o que o livro explica, em parte.
O grande lance de 1985 é dar uma complementada numa época que, atualmente - e no que depender dos novos lançamentos literários e das festas Ploc - só existe na cabeça de quem a viveu enquanto criança. Quem tem 40 anos, e memória afiada, pode contabilizar as derrotas do país - e do mundo - de lá para cá. Várias dessas perdas tiveram sua raiz naquele ano, numa "democracia" que o povo teve que engolir, num futebol-arte que andava mal das pernas e não se atualizava aos novos tempos de batalha campal, no entendimento péssimo entre nações, na corrupção política que já não se podia esconder mais. Por outro lado, se a corrupção começou a ficar cada vez mais à mostra, os corruptos passaram a nem se preocupar em esconder mais cagada nenhuma. Se o povo tornou-se menos ingênuo ou não, aí é outro papo. Mas, de um jeito ou de outro, dá alívio ver que o conhecimento sobre assuntos espinhosos como aids, drogas e cidadania - abordados no livro, em capítulos especiais, um para cada mês do ano - aumentou. Não a ponto de provocar grande mudanças na cabeça das pessoas, lógico - ou então viveríamos no melhor dos mundos.
O restante do livro pode até dar alguma nostalgia sim - se é que havia alguma criança doida com os olhos plugados no Jornal Nacional, ou se alguém mais velho quiser recordar o ridículo que eram algumas situações da época. Você tem idéia de quem era Carlos Imperial, o ideólogo da jovem guarda? Grande agitador cultural pop (Roberto Carlos deve muito a ele) e apresentador de um hilário programa de sacanagem (ô ingenuidade...) na TV dos anos 80, ele foi candidato à Prefeitura do Rio pelo inacreditável Partido Tancredista Nacional. Na verdade, a candidatura de Imperial era até pinto - quem viu a farra de candidatos à presidência da república em 1989, com direito ao começo da carreira política de Enéas, aos inexpressivos PG e Nelson Merrú e ao conspiratório Marronzinho, pode até dar graças aos céus pela existência de Lula e Alkmin. Coisas MUITO sinistras, como o Caso Baumgarten, a morte da menor Mônica Granuzo e a subida do Bangu (do Bangu!) a altos postos no campeonato carioca também estão lá. Por outro lado, qualquer fâ do ForFun ou do Dibob daria risada ao saber que, por volta de 1985, "maconheiro" era como se chamava qualquer usuário de drogas - e que a culpa do vício que assolava a juventude era sempre do pipoqueiro da porta da escola, ou do coleguinha de sala que jogava maconha na Coca-Cola dos outros. "Ignorância é felicidade", diriam os Ramones. E olha que talvez seja mesmo.
Apesar do subtítulo otimista, 1985 mostra que, se o Brasil aprendeu alguma coisa com o tempo, foi quase na porrada. O legal talvez seja pensar que daqui a vinte anos, fatos como a "dancinha da pizza" servirão como retratos de uma era - em que políticos sequer precisam de programas de humor para serem sacaneados e caírem no ridículo - e causarão risos. Em todo caso, vale comprar o livro e recordar os fatos - até porque a escrita de Edmundo e Pedro é garantia de boas risadas em vários momentos.
Não foram poucas as vezes que eu, trintão assumido - mas com senso de ridículo - escutei pessoas com 20, 21 anos acometidas de um estranho sintoma: saudade do que não viveram. "Ah, se eu tivesse vivido nos anos 80... Aquela época é que era legal". Trata-se de um desejo meio ilógico, porque quem tem 20 anos VIVEU os anos 80, já que nasceu em 1986 - mas dá para entender o sentido da frase acima. Se você viveu uma década quando era criança ou adolescente, pôde curtir coisas interessantes, mas perdeu boa parte da festa. Quem nasceu em 1974 - meu caso - pegou Vila Sésamo, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Globo Cor Especial, deu risada do Bozo, viu Chaves quando ainda era novidade. Mas conheceu o sexo já com camisinha. Nesse quesito, sorte de quem foi da época do Vigilante Rodoviário.
A leitura de 1985 - O ano em que o Brasil recomeçou, dos jornalistas Edmundo Barreiros e Pedro Só (Ediouro), pode ensinar muita coisa pra quem só vê nos anos 80 um sorvetão cravado na testa. O tal sorvete, na verdade, continua espetadão na testa de muitos, mas de outro modo. Se você tem entre 30 e 40 anos e lembra da tal "Nova república" de Tancredo Neves, já sabe no que deu aquele papo: Tancredo morreu, Sarney assumiu - com muita gente acreditando que o falecido presidente iria "salvar o Brasil" - e a tal renovação política foi pra... bom, siga a rima. Se houver alguma dúvida, é só ler o texto da contra-capa do livro: "Os tais anos 80 foram realmente divertidíssimos. Mas a coisa não era brincadeira de criança, não. (...) Até hoje tem gente esperando um coelho sair da cartola ou um sapo barbudo chegar ao poder pra salvar a pátria. Mas quem viajar nesse balão rumo a 1985 não se deixará enganar pelo ursinho Blau Blau da história".
Traduzindo: se havia um lado "alegrinho" naquela época, ficou na música pop do período. Nos anos 80 começaram a florescer "entes" queridos da mídia atual, como o Comando Vermelho - com direito à fuga espetácular do traficante Escadinha do presídio de Ilha Grande, no reveillon de 1985. A maneira como o povo se agarrou ao presidente eleito (por voto indireto!) Tancredo Neves, já diz muita coisa sobre como o Brasil precisava de heróis, após 20 anos de ditadura. E até hoje tem gente atordoada, tentando entender o que houve por trás da morte de Tancredo - o que o livro explica, em parte.
O grande lance de 1985 é dar uma complementada numa época que, atualmente - e no que depender dos novos lançamentos literários e das festas Ploc - só existe na cabeça de quem a viveu enquanto criança. Quem tem 40 anos, e memória afiada, pode contabilizar as derrotas do país - e do mundo - de lá para cá. Várias dessas perdas tiveram sua raiz naquele ano, numa "democracia" que o povo teve que engolir, num futebol-arte que andava mal das pernas e não se atualizava aos novos tempos de batalha campal, no entendimento péssimo entre nações, na corrupção política que já não se podia esconder mais. Por outro lado, se a corrupção começou a ficar cada vez mais à mostra, os corruptos passaram a nem se preocupar em esconder mais cagada nenhuma. Se o povo tornou-se menos ingênuo ou não, aí é outro papo. Mas, de um jeito ou de outro, dá alívio ver que o conhecimento sobre assuntos espinhosos como aids, drogas e cidadania - abordados no livro, em capítulos especiais, um para cada mês do ano - aumentou. Não a ponto de provocar grande mudanças na cabeça das pessoas, lógico - ou então viveríamos no melhor dos mundos.
O restante do livro pode até dar alguma nostalgia sim - se é que havia alguma criança doida com os olhos plugados no Jornal Nacional, ou se alguém mais velho quiser recordar o ridículo que eram algumas situações da época. Você tem idéia de quem era Carlos Imperial, o ideólogo da jovem guarda? Grande agitador cultural pop (Roberto Carlos deve muito a ele) e apresentador de um hilário programa de sacanagem (ô ingenuidade...) na TV dos anos 80, ele foi candidato à Prefeitura do Rio pelo inacreditável Partido Tancredista Nacional. Na verdade, a candidatura de Imperial era até pinto - quem viu a farra de candidatos à presidência da república em 1989, com direito ao começo da carreira política de Enéas, aos inexpressivos PG e Nelson Merrú e ao conspiratório Marronzinho, pode até dar graças aos céus pela existência de Lula e Alkmin. Coisas MUITO sinistras, como o Caso Baumgarten, a morte da menor Mônica Granuzo e a subida do Bangu (do Bangu!) a altos postos no campeonato carioca também estão lá. Por outro lado, qualquer fâ do ForFun ou do Dibob daria risada ao saber que, por volta de 1985, "maconheiro" era como se chamava qualquer usuário de drogas - e que a culpa do vício que assolava a juventude era sempre do pipoqueiro da porta da escola, ou do coleguinha de sala que jogava maconha na Coca-Cola dos outros. "Ignorância é felicidade", diriam os Ramones. E olha que talvez seja mesmo.
Apesar do subtítulo otimista, 1985 mostra que, se o Brasil aprendeu alguma coisa com o tempo, foi quase na porrada. O legal talvez seja pensar que daqui a vinte anos, fatos como a "dancinha da pizza" servirão como retratos de uma era - em que políticos sequer precisam de programas de humor para serem sacaneados e caírem no ridículo - e causarão risos. Em todo caso, vale comprar o livro e recordar os fatos - até porque a escrita de Edmundo e Pedro é garantia de boas risadas em vários momentos.

