Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Van Morrison


"PAY THE DEVIL" - VAN MORRISON (Universal)

O bardo irlandês Van Morrison poucas vezes chegou perto do sucesso popular - seja graças ao medo de palco que o acompanhou por anos, seja pelo fato de se dedicar a montes de projetos que duram um só álbum. Nos últimos anos tivemos o bom pop clássico de Down the road (2002) e o som jazzy de What’s wrong with this picture (2003, lançado pelo selo Blue Note), só para citar dois exemplos. E Van - cuja extensa carreira, que gerou um número incontável de discos, merece ser conhecida por qualquer pessoa que entenda de música - continua inventando moda, no bom sentido. Dessa vez, ele chegou pra cima dos clássicos do country, em Pay the devil. Mais um álbum em que passado e presente aparecem entrelaçados - característica que acompanha a vida de Van faz tempo.

Surgido do meio roqueiro sessentista - fez parte da banda Them, aqueles de "Baby please don’t go", da trilha de Bom dia Vietnã - Van sempre localizou suas intenções no rhythm’n blues e no soul, algo fácil para um branco com voz de negro. Em Pay the devil, repleto de pérolas country-folk, a impressão que dá, a todo momento, é a de se estar escutando um disco de soul, tamanha a emoção que Morrison imprime a seus vocais. No meio, tem até duas faixas próprias, "Playhouse" e "Pay the devil", que já nascem clássicas, em meio a canções como "What Am I living for?" (Chuck Willis) e "Half as much" (gravada por Hank Williams e até por Emmylou Harris).

Fanático por Ray Charles e por suas gravações de country music, Van seguiu o caminho do ídolo em quase todo o disco - em especial, nos vocais cheios de sentimento de "Things have gone to pieces". Em faixas como "There stands the glass" os vocais, como não poderia deixar de ser num trabalho desses, soam como um Elvis Presley retrabalhado, mais agudo - união total entre country e tons negros. Tanto os arranjos quanto (de certa forma) a qualidade sonora, honram os discos de country dos anos 50 e 60 - não há nada modernizado, a própria gravação de vocais tem um calor difícil de ser encontrado após o advento das gravações digitais. Mais que reproduzir uma época, Van trabalhou como se aquele período fosse agora - com direito a steel guitars, corais e dobros. Algo típico de seu trabalho - desde o começo, quando brigou com o produtor do Them e foi fazer seus discos solo, muitas vezes à margem do reconhecimento popular, Van Morrison sempre primou por fazer o som que existia em sua cabeça, sem muitas concessões.

Em Pay the devil, Van esmera-se em reproduzir uma época, um conceito, uma emoção que existe em seu coração e sua lembrança de grande admirador da música norte-americana - característica que pegou outra banda formada por irlandeses, o U2. E pode acabar emocionando até mesmo quem não se sentia tocado pelo universo do country e suas letras carregadas.

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

MxPx/Snow Patrol


"PANIC" - MxPx (DeckDisc)*

Lançado no Brasil pela DeckDisc, o grupo norte-americano MxPx está com seu disco novo nas lojas, o Panic. O disco sinaliza mudanças - a banda veio de um insólito gueto gospel-punk e chegou a gravar discos por um selo de rock católico, o Tooth & Nail. No álbum recém-lançado, a banda não abandonou as raízes, mas mostra que quer ir além de seu público - numa fase na qual os três integrantes desejam, mais do que nunca, "partir do zero". "Nossa meta era ficar ligado no que acontecia lá fora, sair da redoma e ver o que o resto do mundo andava fazendo", disse à imprensa o guitarrista-baixista Mike Herrera.

Apesar do nome do CD, não há espaço para nenhum trocadilho infame - nem há nada que os fâs precisem temer. Após alguns álbuns bem fracos lançados pela major A&M (o último deles, Before Everything and After, vendeu tão pouco que rendeu aos rapazes um chute no traseiro), Mike Herrera e seus asseclas Tom Wisniewski (guitarra) e Yuri Ruley (bateria) finalmente voltaram a acertar a mão e fizeram o melhor disco desde o brilhante Life in General, de 1996.

Agora, eles já não são os moleques de outrora, fato percebido por eles enquanto bolavam o disco. As letras ficaram bem menos ingênuas e sem referências à religiosidade - pelo menos não há referências muito diretas. As melodias, em sua maioria, não são tão alegres nem tão furiosas. De qualquer jeito, a maturidade vem para todos e é preciso saber envelhecer com dignidade - coisa que o MxPX vem conseguindo fazer bem. A volta ao circuito independente - agora através do selo Side One Dummy, que licenciou o disco para a Deck - ao que parece fez muito bem ao grupo, pois, ao contrário do fraquíssimo álbum anterior, citado anteriormente, eles passaram longe das influências de Good Charlotte, pisaram mais fundo no acelerador e voltaram a beber na boa e velha fonte do punk pop do Green Day e cia.

Claro, ainda existem os momentos radiofônicos, como a balada "Wrecking Hotel Rooms" e a bela "This Weekend", que fecha o disco, mas não são elas que dão o tom da bolachinha. O que predomina são as melodias agitadas de faixas como "Darkest Places", "Young and Depressed" e a curiosa "Late Again", que parece um country rock acelerado no melhor estilo Matanza de ser. Outro ponto que chama muito a atenção é que, para uma banda com raízes católicas, é impressionante que eles tenham feito uma letra com temática tão pessimista quanto a de "Waiting for the world to end" ("História é história, o amanhã nunca chega / Nós só temos o hoje e o dia já acabou").

O MXPX andava no desvio fazia um tempo - corria o risco de sucumbir à moda emocore ou mesmo de entrar na seara engraçadinha do Blink 182, banda cujo líder, Mike Hoppus, é amigo de Herrera e até participa de Panic. Mas, pelo visto, houve a recuperação com o disco novo. Ainda assim, vale recomendar a qualquer pessoa que queira conhecer melhor a banda a audição urgente de clássicos do trio, como Teenage Politics e, claro, Life in General. Panic tem lá seus momentos de disco para fâs - , e é bastante recomendável para eles.

* texto de Luciano Cirne e Ricardo Schott

"EYES OPEN" - SNOW PATROL (Universal)

O Snow Patrol teria tudo para ser confundida com qualquer outro grupo britânico choramingoso, graças ao seu passado - seus primeiros discos tiveram até participação de membros do ex-cultuado Belle & Sebastian e saíram pelo mesmo selo da banda de The Boy With The Arab Strap, o Jeepster. Pois é, isso aconteceu lá pelo fim da década passada, quando o Belle começava a chamar atenção na mídia - Songs For Polarbears, primeiro álbum do Snow Patrol, é de 1998. Hoje, se bobear, o Snow está bem mais aclamado e conhecido do que os amigos que o ajudaram no começo da carreira. Isso inclusive no Brasil, onde o grupo anda chamando a atenção.

Formado na Escócia por três irlandeses, o Snow Patrol vem conseguindo chegar bem mais perto do gosto popular do que seus patronos - a ponto de terem assinado contrato com a Fiction, mesmo selo do Cure, e de seus discos terem sido distribuídos pela multi Universal, que lança agora no Brasil o mais recente CD, Eyes open. O grupo, hoje um quinteto com Gary Lightbody (vocais, guitarra), Paul Wilson (baixo), John Quinn (bateria), Tom Simpson (teclados e samplers) e Nathan Connolly (guitarra), vem bem mais comercial, mais ajuizado e mais "ajustado" ao mercado do que em discos anteriores - vale afirmar que o disco novo já foi logo ficando "íntimo" dos primeiros lugares das paradas britânicas.

Em comparação com The Final Straw, o disco anterior (também editado aqui pela mesma Universal - os anteriores saíram aqui pela Trama), Eyes open mantém o nível, trazendo de oitentices típicas - como a batidinha dançante de "You're all I have" e o som chique de "Shut your eyes" - a tons bem mais pesados, impressos nas guitarras e na batida insistente do power pop "Hands open". Entre uma face e a outra, há a elaboração das notas circulares de "Chasing cars", da quase infantil, com teclados cristalinos, "You could be happy" e da balada folk e "climática" "Set the fire to the third bar", com participação de Martha Wainwright, cantora que vem a ser irmã do cantor Rufus Wainwright . Esta, uma das mais belas de Eyes open, é também um dos momentos mais anos 60/70 do CD, e ficaria linda num arranjo repleto de cordas - o grupo preferiu revesti-la de teclados, embora várias faixas do grupo tenham participações de corais e músicos de orquestra.

Fica claro no disco novo, mais até do que nos anteriores, que o Snow Patrol já deu adeus há tempos a condição de banda underground - o crossover entre o som com o qual o público da banda já estava acostumado e a "nova condição" de grupo de sucesso já foi estabelecido há algum tempo. Se bem que para quem está acostumado com o som do Coldplay, vale afirmar que a banda de Chris Martin desponta como grande influência do Snow Patrol em vários momentos - seja na "etérea" (e meia-boca) "The finish line", que fecha o disco, seja no pianinho da boazinha "Make this go on forever". Agora, acusar o Snow Patrol de pouca originalidade por conta disso seria até maldade. Músicas ensolaradas como "It's beggining to get to me" merecem tocar nos bailes de rock da vida e chegar a ouvidos ligados em grupos novos. E o grupo tem uma de suas marcas nos vocais carismáticos e cheios de romantismo (no melhor sentido da palavra) de Gary Lightbody, que preeenche suas letras de imagens fortes, como em "Headlights on dark roads".

No fim das contas, Eyes open traz uma boa coleção de canções pop, revelando uma banda que descorbiu que ser comercial não é sinônimo de ser pentelho ou de abaixar a cabeça - e dando alegria a quem já os conhecia de outros tempos. Vale dar uma ouvida.

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

Tem blog meu na Bizz

Tô com um blog no site da Revista Bizz agora! É o Hiperatividade. Entrem lá, mandem bala, deixem comentários, etc. A idéia é rolar pelo menos um post por dia, já que lá os textos são mais curtos - ao contrário daqui.
Só avisando uma coisa: os blogs são complementares. Lá, rolam textos que não aparecerão por aqui e vice-versa.

Digital Dubs

A matéria abaixo, sobre o coletivo de DJs e MCs Digital Dubs, saiu no International Magazine. Mas depois do texto vem a íntegra do papo que bati com Nelson Meirelles, um dos cabeças do coletivo - e que rende momentos interessantes. Para quem não sabe, Nelson é um dos responsáveis pela formatação do reggae brasileiro como o conhecemos hoje - esteve por trás do lançamento do Cidade Negra e era tecladista do Rappa na primeira formação, antes de Marcelo Lobato entrar para o grupo. E hoje ele é uma das pessoas que mais lutam, no Brasil, por renovações no gênero. Leia!!!

"BRASIL RIDDIMS VOLUME UM: REGGAE DA RAIZ ATÉ AS FOLHAS" - DIGITAL DUBS (Muzamba)

Se você costuma freqüentar bailes funk e um dia se deparar com uma batidão diferente, mais lisérgico, com influências de dub e reggae, num Castelão da vida, não estranhe. Pode ser o Digital Dubs, projeto capitaneado pelos cariocas MPC, Nelson Meirelles e Cristiano Dubmaster, e que vem a ser a primeira equipe de som do Rio especializada em dub, reggae e dancehall. Os caras apresentam bailes concorridos em lugares como a Casa da Matriz - pico indie carioca - e mandam bala em versões de reggae, grooves eletrônicos e tudo o mais que dê pra dançar e viajar na pista. Agora, não chame (ou melhor: evite chamar) o som do Digital Dubs de funk. Ou dub. O som dos caras é "reggae do raiz às folhas", conforme eles próprios dizem, mas segue um esquema bem mais inovador - ainda mais em se tratanto de um gênero repleto de fâs radicais e/ou desinformados como o reggae - e diferente: o dos riddims. Tanto que o primeiro disco dos caras se chama simplesmente Brasil Riddims volume um: Reggae da raiz até as folhas.

Para quem não faz a mínima idéia do que sejam riddims, eles têm sido uma prática bastante comum no reggae, pelo menos fora do Brasil: bases instrumentais repetidas - com influências de dancehall, ragga e até, no caso do Digital Dubs, com toques de samba e demais ritmos brasileiros - que podem ser aproveitadas por diferentes MCs, que inclum letra e melodia. O processo inclui todos do DD nas pickups, mais o auxílio de Dubmaster no toasting. Só que tanto o disco quanto o show de estréia incluíram convidados muito especiais: Mr. Catra, B Negão, Biguli, Jimmy Luv (ex- Funk Fuckers), Ras Bernardo (ex-Cidade Negra, etc), numa lista que vai do funk ao rap, passando pelo reggae.

"Esse conceito de riddim é novidade aqui no Brasil, mas não nos lugares onde a cultura reggae está estabelecida há mais tempo", diz Nelson Meirelles, cujo currículo inclui trabalhos com Cidade Negra e O Rappa (do qual foi integrante e aglutinador no primeiro CD). "Quem está inserido nesse universo já está acostumado a ver as mesmas bases sendo reutilizadas diversas vezes. Um grande estímulo pra nós ao lançarmos esse disco é justamente de apresentar ao público daqui esse conceito que sempre fez parte da história do reggae". História sim senhor: o Digital Dubs tem o maior jeitão de soundsystem, aquelas equipes de som que mandavam novos grooves na Jamaica dos anos 60 - só que traduz essa linguagem para tempos em que as pessoas só estão acostumadas a ver "batidão", "groove" e "impacto sonoro" (com direito a um baixão marcando o ritmo) nos bailes funk. "Com o tempo, vão sacar que a gente mexe, a partir do reggae, com elementos comuns à black music em geral: samba, funk, rap, etc".

Brasil Riddims oferece uma verdadeira viagem pela atual cultura black, trazendo, em módulos divididos por riddims, papos sobre negritude ("Diáspora", com Biguli), favelização ("No morro não tem play", com Ras Bernardo), sacanagem ("Se liga nelas", com o divertido Mr Catra, e "Vários rolé", com Funnk Mc), etc. Entre os riddims, há passagens mais ligadas ao dub e ao reggae, como o Diáspora Riddim (que se estende pelas duas primeiras faixas, de Biguli e Ras Bernardo) e o Cidade Alta Riddm, que inclui reggae relaxados como "Mandando vê" (com Jero Banio) e "Pretinho Babylon" (com M7). Mas o que brilha mesmo no disco é o Curimba Riddim, o lado mais sacana e experimental do Digital, unindo funk, umbanda e samba - com direito a B. Negão emocionando na versão de "Sorriso aberto", sucesso na voz de Jovelina Pérola Negra.

Após ouvir o disco, pergunta-se: será que os riddims vão pegar no Brasil? Quem conhece o universo reggaeiro, sabe que se trata de um mercado conservador - alimentado por grupelhos idênticos e "tributos" salafrários. Nelson, no entanto, promete ousadias mil. "Um dos nossos desafios é sacudir essa tribo de reggae-de-beira-de-praia, iô-iô-de-raiz, esse reggaezinho-rutz preguiçoso e desinformado. Queremos um choque de informação já! Essa galera não tem muita noção da história do reggae como um todo, da qual Bob Marley obviamente foi um grande ícone, mas que há muito mais - bota muito nisso!! - dessa história que ainda não foi contada por aqui", diz Nelson, que não perdoa o reggae feito sem informação.

O Digital Dubs não economiza artilharia: o projeto inclui um estúdio (o Muzambinho) e um selo (o Muzamba), pelo qual já estão agendados novos projetos, até no exterior. Do front do Digital Dubs, Nelson avisa virão mais surpresas. "Tudo o que a gente vier a fazer será sempre na direção de expandir o entendimento do que o reggae significa musical e culturalmente". Conheça em www.esquemageral.com.br/digitaldubs.

E ABAIXO VAI A ÍNTEGRA PARA A ALEGRIA DA GALERA!!!

O Digital Dubs trabalha com um "novo conceito" que seriam os riddims. Só que, pra quem está desavisado, o som pode lembrar muito o funk carioca ou até mesmo o dub. Queria saber se você está preparado para ver o trabalho do Digital Dubs ser chamado de "dub" ou até "funk" por aí.
Esse conceito de riddim, na real, é novidade aqui no Brasil mas não nos lugares onde a cultura reggae está estabelecida há mais tempo. Quem está inserido mais a fundo nesse universo já está acostumado a ver as mesmas bases sendo reutilizadas diversas vezes. Um grande estímulo pra nós ao lançarmos esse disco é justamente de apresentar ao público daqui esse conceito que sempre fez parte da história do reggae.

Como trabalhamos com 13 cantores, era natural que o CD tivesse essa grande "biodiversidade", cada um deles trazendo seu feeling e sua influência. Isso foi intencional da nossa parte, "reggae da raiz até às folhas", como o próprio sub-título avisa. Com relação a possíveis "ruídos" nesse entendimento, acho isso normal no início. Se um ouvinte "genérico" (não um aficcionado por reggae ou funk) ouvir apenas as músicas feitas em cima do Curimba Riddim, ele poderá achar que está ouvindo algo próximo do funk. Mas se ele ouvir as faixas com o Diáspora Riddim, aí talvez ele ache que é um reggae-roots...

Acho que com o decorrer do tempo, com as pessoas entendendo melhor do que se trata o Digitaldubs, neguinho vai sacar que a partir do reggae nós vamos estar sempre mexendo com elementos comuns à black music em geral, seja funk, rap, samba, etc...

A maioria dos fâs de reggae têm aquele apego ao reggae "de raiz", quando não é totalmente desinformado sobre as diferenças entre o reggae e a música pop com influências de reggae. Você acha que os riddims podem pegar por aqui, mesmo que o reggae ainda tenha, de certa forma, um público bem conservador? Olha, cara, um dos grandes desafios do Digitaldubs é de dar uma sacudida nessa tribo de reggae-de-beira-de-praia, iô-iô-de-raiz, esse regguezinho-rutz preguiçoso e desinformado... Queremos um choque de informação já!! Essa galera não tem muita noção da história do reggae como um todo, da qual Bob Marley obviamente foi um grande ícone, mas que há muito mais (bota muito nisso!!) dessa história que ainda não foi contada por aqui. O assim chamado "reggae-roots" aqui é uma coisa mal definida, muitas vezes sinônimo de música de segunda qualidade, letras indigentes, arranjos repetitivos, fruto de uma concepção equivocada e, volto a frisar, desinformada. Tudo o que o Digitaldubs vier a fazer (hoje são os riddims, amanhã pode ser um disco só com dubs ou parceria com outros artistas, o que for...) será sempre na direção de expandir o entendimento do que o reggae significa musical e culturalmente.

Você esteve por trás do trabalho de bandas como O Rappa e Cidade Negra, que começaram a levantar a bandeira do reggae numa época em que o gênero não tinha por aqui a mesma popularização dos dias atuais. Você curte o trabalho dessas bandas hoje? Como vê o atual sucesso delas? Olha, antes desses grupos já havia gente desfraldando a bandeira do reggae por aí como o Gil, Melodia e, é sempre bom lembrar, o Paralamas. Tinha também o povo off-Rio/SP como Luís Wagner e Edson Gomes, mas realmente o Cidade Negra foi a primeira banda 100% reggae em cadeia nacional. O Rappa nunca foi um grupo totalmente reggae, mas elementos desse estilo (arranjos, timbres, mixagens) pintavam ao longo do trabalho.

Ambas as bandas tiveram suas figuras-chaves trocadas. Como não querer que as saídas de Ras Bernardo e Marcelo Yuka não gerassem um impacto grande nesses grupos? Não dá para considerar que são as mesmas bandas, ainda com os mesmos objetivos do início da carreira. Hoje em dia o trabalho do Cidade Negra é mais um pop com pitadas reggae do que o contrário, o que pra mim é uma pena, já que há músicos com grande talento lá dentro. O Rappa virou um dos grandes nomes da música brasileira, amado por toda uma geração. Ambos viraram grifes de inquestionável sucesso, e fico feliz por ter feito parte das duas histórias e de ver meus amigos numa boa. Agora, artisticamente, ando meio distanciado tanto de um quanto de outro - sou Digitaldubs até o caroço!! :-))

Como foi arregimentar todo aquele pessoal que cantou no disco? Vocês pretendem levar todo aquele povo para o palco em outras oportunidades? Foi um processo mais ou menos simples porque foi feito ao longo de dois anos. De vez em quando alguém aparecia lá no Muzambinho, nosso estúdio, e acabava escolhendo uma ou outra base para colocar alguma letra. Tinha também o pessoal mais "de casa", sempre por perto e mais disponível para experimentações. Até aí tudo bem, duro mesmo é reunir todos numa mesma apresentação!! Primeiro porque nem sempre a produção está apta a arcar com um grupo de quase vinte pessoas (13 cantores + 3 DJ's + percussão + roadie + ...) viajando. Segundo porque fica difícil conciliar a agenda de todo mundo, principalmente Ras Bernardo, B Negão e Mr. Catra.

Por outro lado, o Digitaldubs é bem flexível na hora de se apresentar, podemos ser de quatro à dezesseis pessoas num palco (ou boate ou clube ou sound system de rua...). Então acredito que vamos trabalhar muito ao longo desse ano, independentemente do número de cantores que estejam ao nosso lado.

Queria que você falasse um pouco das atividades do selo e do estúdio. O que tem sido feito, quais são os projetos, etc. Muzambinho é o nosso estúdio e Muzamba o selo. Atualmente estamos bastante focados na promoção e divulgação do Brasil Riddims #1, mas a produção musical nunca para. Várias versões estrangeiras para alguns desses riddims estão sendo mixadas agora e estarão disponíveis para o público provavelmente via internet. Há também o disco do Ras Bernardo, gravado há algum tempo, que está recebendo um tratamento especial para finalmente ser lançado no mercado. Quem sabe até pelo nosso selo, ainda vamos ver isso.

Além disso temos outras conexões no exterior que em breve renderão frutos saborosos... Por enquanto o que temos lançado lá fora é o nosso compacto prensado na Jamaica, com a grande cantora inglesa de reggae Sylvia Tella dando sua versão para o Diáspora Riddim. Esse mercado de vinil (7, 10 ou 12 polegadas) é muito importante no circuito internacional de sound systems e o Digitaldubs também vai procurar seu lugar ao sol nesse mercado. Quem viver, verá!!

"OOOOARIAAAAOOOO/OBÁOBÁOBÁÁÁ"


Entrevistei o Sérgio Mendes para uma matéria que a essas alturas deve ter saído no Guia de Compras da Bizz. Com as sobras - ou seja, o que conversei com ele sobre a cidade de Niterói, onde eu e ele nascemos (e ele ainda nasceu no meu bairro!!) - fiz uma materinha para o Nitideal. Divirtam-se.

SÉRGIO MENDES

O sucesso internacional é uma realidade para o compositor e músico brasileiro Sérgio Mendes desde os anos 60. Em 1966, acompanhado de seu grupo Brazil 66, ele gravou uma versão de "Mas que nada", hit de Jorge Ben, que estourou em todo o mundo. E agora, 40 anos depois, ele retorna às paradas com uma outra versão do hit. Só que com toques novos: além do piano suingado de Sérgio e dos vocais femininos – uma característica de seu som, desde os primeiros anos de sucesso – o músico conta também com a participação do grupo Black Eyed Peas, que fez um rap em cima da composição original de Ben. O resultado, você confere nas paradas mundiais.

Nem todo mundo sabe, mas Sérgio Santos Mendes nasceu em Niterói, no dia 11 de fevereiro de 1941. Seus primeiros contatos com a música foram no conservatório da cidade, ainda durante a infância. A contra-capa de seu segundo disco, Você ainda não ouviu nada!, gravado por Sérgio com seu primeiro grupo, o Sexteto Bossa Rio, traz um texto assinado por ninguém menos que Tom Jobim, explicando como era tocar com o então iniciante Sérgio. "Tive o prazer (o sofrimento) de colaborar com ele neste disco. E foram mil noites sem dormir e café e cigarros. Depois, eu ia levar Serginho a Praça XV. Comprávamos os jornais do dia, enquanto vinha chegando a barca que o levava de volta à sua Niterói", relatou o maestro.

- Adoro Niterói. – disse Sérgio em um contato com o Nitideal, por telefone, dos Estados Unidos, onde mora desde os anos 60. – Toda vez que vou ao Brasil, passo aí para visitar minha irmã. Tenho muitas saudades da cidade.

Apesar de estudar piano e de pesquisar música clássica desde os seis anos de idade, Sérgio não deixou de lado as brincadeiras de infância.

- Joguei muita bola na rua aí em Niterói. – diz o músico. – Nasci no Largo do Barradas, ali no Barreto, mas fui criado na rua Comendador Queirós, em Icaraí.

Com o tempo, Sérgio conheceu o jazz e a bossa nova, montou vários grupos e, já no começo dos anos 60, passou a tocar no célebre Beco das Garrafas – epicentro da fusão bossa-pop, em Copacabana. Suas idas para fora do Brasil, inicialmente para divulgar o seu trabalho com o Sexteto Bossa Rio, foram se multiplicando até que ele decidiu ficar de vez nos Estados Unidos. Desde 1964 lança discos regularmente lá fora, sempre com grupos diferentes, como Brasil 65, Brasil 66 e Brasil 77. Ficaram célebres suas versões abrasileiradas para clássicos dos Beatles (“Fool on the Hill”) e Otis Redding (“Sitting on the dock of bay”). Sérgio também gravou várias músicas de compositores brasileiros, em inglês ou português – caso de Marcos Valle (“Samba de verão”), Edu Lobo (“Memórias de Marta Sare”), Gilberto Gil (“Ê, povo, ê”, “Roda”), etc. Sérgio foi o único músico brasileiro a realmente fazer sucesso popular em todo o mundo, no período. Hoje, é tido como parte do pop mundial dos anos 60.

Em 2006, ele retorna às paradas com seu novo disco, Timeless (Universal). Além do Black Eyed Peas (cujo líder, Will.I.Am, produziu o álbum ao lado do músico), Sérgio contou com vários outros amigos, numa lista que vai do rap a MPB – Marcelo D2 (“Samba da bênção”), o violonista Guinga (“Fo´ Hop”) e rappers como Jill Scott (“Let me”) e Q-Tip (“The frog”, ou “O sapo”, de João Donato). E o público brasileiro, que o via pouco desde seu último grande sucesso – o álbum Brasileiro, de 1993, que ganhou um Grammy e teve participação de Carlinhos Brown – poderá ter a oportunidade de assistir a um show do músico num lugar bastante especial.

- Queremos dar um show aí na Praia de Icaraí! – avisa Sérgio.

Link: Site do disco Timeless.
Foto: Divulgação.

Terça-feira, Agosto 08, 2006

Camisa de Venus - ao vivo

Circo Voador, Rio
29/7/2006

O fato das bandas brasileiras de rock não acabarem nunca, merece, a meu ver, um mínimo de compreensão. Com raras exceções, ninguém aqui tem a grana do Led Zeppelin, que pôde pendurar as chuteiras assim que o baterista morreu. Sair de cena é uma arte, sim - mas não é para muitos. De qualquer modo, chega a ser engraçado ver que o Camisa de Vênus, se bobear, já deve ter voltado tantas vezes quanto o RPM. E, sim, já que todo mundo dos anos 80 parece ter retornado na atual década - exceção feita, talvez, ao Degradée e aos Rapazes de Vida Fácil - o Camisinha não fugiu à regra. Até deu show num local-ícone oitentista, o Circo Voador, aqui no Rio - cidade detestada e eternamente zoada por Marcelo Nova, líder do grupo.

O Camisa de Vênus trilhou os anos 80 como uma banda deslocada do esquemão da década, pelo menos na fachada. Marcelo e seus amigos conseguiram verbalizar o conceito punk de forma mais dura que muita banda iletrada da época, falando de drogas, dor-de-corno, mulheres vulgares, marginalidade, caos, inveja em família, violência. Olhando friamente, o Camisa não era nem tão diferente de seus pares - até por seguirem (e de forma bem mais ostensiva) a cartilha-plagiário das bandas dos 80's, copiando na cara-dura letras, refrões e músicas completas de grupos como Buzzcocks, The Jam, Talking Heads, Clash etc. Só que, de qualquer jeito, durante os anos 80, o Camisinha ainda dava aquela sensação de se estar ouvindo uma banda politicamente incorreta, de mal com o mundo - e eles desempenhavam bem o papel, recebendo discos de ouro no Perdidos na Noite, do Fausto Silva, e recusando-se a ir ao Chacrinha numa época em que qualquer banda se degladiava por um espaço naquele palco.

Nem o fato de serem mais-uma-banda-dos-anos-80-que-volta fez Marcelo Nova (vocal), Karl Hummel, Gustavo Mullem (guitarra) e Robério Santana (baixo) perderem a pose no palco. Trazendo Dennis Mendes no lugar do baterista original, Aldo Machado (que antes de entrar para o Camisa, era evangélico - e voltou a ser, ao deixar o grupo) e Luís Carlini na terceira guitarra, a banda pareceu se esforçar para mostrar que estava ali por puro acaso. Deu certo: Marcelo Nova até aprendeu, com o tempo, a falar pouco e a fazer discursos que realmente funcionam, ao contrário dos sermões que pontuavam as apresentações da banda, há anos. O lance é zoar o Rio? Beleza: é só "homenagear" o balneário com dois clássicos do compositor mais maldito da área, Jards Macalé - uma punkinha "Gotham City" e trechos de "Rio Sem Tom" (aquela do "é dengue que o Rio tem"), estes, encartados em "Silvia". "O Adventista", por sua vez, ganhou trechos novos, como "eu acredito no Big Brother Brasil/eu acredito na p... que pariu".

O abuso da tal pose é que talvez tenha feito o grupo errar a mão em algumas coisas. Não importou para muita gente que o set fosse curto e grosso, como as letras do grupo - e que, no bis, "Eu Não Matei Joana D'Arc" fosse executada sem o menor tesão, com direito a Marcelo Nova saindo do palco na seca. Entre o começo e o fim abrupto, o público - que sempre foi um "sexto" ("sétimo", na ocasião) integrante da banda - cantou e urrou todos os hits, em versões corretas ("Hoje", "Silvia", "Negue", "Passatempo", "My Way", "Só o Fim") ou equivocadas ("Muita Estrela, Pouca Constelação" em andamento punk). Mas, no fim, não foram poucas as pessoas que se entreolharam com um ar de "ué, já acabou?".

Quem via o show tencionando deixar de lado a antipatia pelos "eternos retornos" do rock - meu caso - pode ter vibrado com a inclusão, no set list, da longa balada "A Ferro E Fogo", uma das preferidas de Nova, ou com os trechos de músicas de Genival Lacerda (como "Chevette da Ivete" e "Ela Deu O Rádio") inseridos em algumas canções. Já a fraca "O Ponteiro Tá Subindo", da fase travada do grupo - aquela volta breve dos anos 90, quando lançaram dois frouxos discos pela PolyGram - bem podia ter sido deixada de lado.

O lance é que, se rock tivesse final feliz, após o primeiro fim da banda, em 1987, cada ex-integrante deveria ter caído fora do cirquinho da mídia: Marcelo Nova talvez devesse ter voltado ao radialismo, já os outros integrantes não sei o que fariam (Karl Hummel, um dos guitarristas, era camelô antes da fama, não era isso?). Manter velhos ícones intocados deveria ser uma nobre arte no rock, até para evitar distorções históricas - como a do rapaz que, num papo entreouvido no bar do Circo, teimava com um amigo que o Camisa nunca havia feito sucesso durante os anos 80. O fato é que tá faltando ao Camisa de Vênus, banda que sempre encheu a boca para falar de sua independência perante os ditames do rock nacional dos anos 80, duas coisas básicas: 1) dizer a que voltou; 2) tramar voltas que sejam menos burocráticas, já que o retorno é inevitável. Deixar os hits segurando a onda não é bem o que se espera deles.

Fotos: Ricardo Schott
Publicado em Rock Press.

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Entrevista Autoramas

(matéria publicada em Rock Press).

Bandas brasileiras que já foram para o eixo EUA-Europa existem várias - Paralamas, Engenheiros do Hawaii, Titãs, Charlie Brown Jr... e os Autoramas, que recentemente fizeram shows em Portugal e na Inglaterra. Só que há uma grande diferença: as quatro primeiras bandas têm o apoio de gravadoras grandes, contam com uma mídia generosa, coisas do tipo.

Gabriel Thomaz (guitarra, voz), Selma (baixo) e Bacalhau (bateria) são o protótipo da banda brasileira independente que batalha, briga por seu espaço na mídia e dribla o marasmo das majors trabalhando com selos indies - até teve uma passagem de dois anos pela Universal, mas como banda contratada do pequeno selo Astronauta, na época, ligado à multi.

No papo abaixo, feito por e-mail, Gabriel fala um pouco sobre os shows lá fora, sobre o próximo disco do trio - que já está sendo gravado, com Berna e Kassin na produção - e sobre a batalha no underground brasileiro.

Vocês acabaram de voltar de uns shows na Europa. Como foi a experiência de tocar por lá e como vocês batalharam esses shows? Foi a primeira ida para aqueles lados? Foi nossa primeira ida pra Europa, sim. Fomos chamados pra fazer duas noites num lugar em Londres chamado Guanabara, onde muitos artistas brasileiros, de todos os gêneros, se apresentam. Aproveitamos que tínhamos mais um dia na Europa e armamos de ir também a Portugal, onde já tivemos matérias em revistas de música e uma galera já conhecia nosso som. É sempre bom tocar em lugares onde nunca tínhamos tocado. Fazer shows em Londres era tipo um sonho, pelo menos pra mim. E a reação da platéia foi ótima, o lugar virou uma grande pista de dança. Vamos ver o que pode acontecer daqui pra frente.

Quais foram as impressões que vocês trouxeram de lá? Deu para conhecer muitas bandas novas? Eu já conhecia Londres e já sabia como era a galera de lá, por isso, tinha certeza que iam curtir o Autoramas. Não deu pra conhecer muita coisa além do que a gente já sabia, pois fomos a trabalho, foi muita correria, como qualquer turnê. E só ficamos quatro dias na Europa.

Em Portugal, a sensação era de que já estávamos de volta ao Brasil... Além de não precisarmos exercitar nosso ingrêis, dá pra perceber como cidades como o Rio e Salvador têm muita coisa parecida com Lisboa... e reencontramos vários amigos lá, o engraçado é ouvi-los usando as gírias lusitanas. E lá tem muita banda boa, que eu já conhecia. Wraygunn, Bunnyranch, Legendary Tiger Man, Act-Ups e os lendários Tédio Boys. Dá pra achar isso tudo no MySpace, por exemplo, fácil.

O público que foi aos shows já conhecia os Autoramas? E o Phonopop, que tocou com vocês em algumas datas, já tinha fãs por lá? Em Londres, a não ser nossos poucos amigos que foram ao show, ninguém conhecia nenhuma das bandas. Tocamos pro público da casa. Em Portugal muita gente foi curiosa ver o show, mas quase ninguém já tinha ouvido as músicas. Mas vendemos muitos CDs, vamos ver como vai ser quando voltarmos a esses lugares...

O fato de vocês terem tocado por lá significa que os fãs de rock de lá têm alguma curiosidade pelas bandas underground daqui? Ou vocês desbravaram totalmente o mercado? Fomos pra Londres representando uma nova tendência da música brasileira, o rock independente. No geral, eles têm interesse em música boa, não importa de onde for. Muitos artistas brasileiros de todos os gêneros fazem shows por lá e turnês pelo mundo inteiro. Estamos oferecendo nosso som pra quem quiser curtir. Não existem fronteiras para os Autoramas.

O Autoramas costuma trabalhar com selos pequenos, como a Monstro. Como é a estrutura da banda atualmente? Vocês trabalham com empresário, ou vocês mesmos batalham tudo? Sim, temos empresários agora. Em 2003 e 2004 eu era o empresário da banda, eu mesmo armava tudo, mas o trabalho foi tão bem sucedido que eu não conseguia mais fazer tudo sozinho. A partir do início de 2005 começamos a trabalhar com um escritório, a Spetaculo, que tem mandado muito bem.

Neste ano, vi você participando de dois debates de peso no Rio, o do Humaitá Pra Peixe e o do Ruído Festival. Rola muito das pessoas quererem saber o segredo da longevidade e da atividade dos Autoramas? E o que você costuma falar para esse pessoal? Rola, sim. Durante muito tempo, independente foi sinônimo de amador, CD independente era sinônimo de demo... Hoje as coisas mudaram muito. O Autoramas é independente e é uma das bandas que mais faz shows. Mas o sucesso ainda se mede pela quantidade de vezes que sua música toca no rádio. Apesar de você ir na agenda de muitas dessas bandas que as rádios tocam e ver que eles quase não fazem shows. O artista ganha dinheiro com shows, certo? A partir do momento que isso começa a acontecer, torna-se possível viver de música. Cultivar um público de uma maneira mais lenta, porém sólida. Pouca gente conseguiu fazer isso, é uma novidade. Sempre tem gente que demora a assimilar as novidades. Ou torce o nariz. Ou simplesmente não tem a mínima idéia do que está acontecendo bem debaixo do seu nariz. Sou chamado pra falar em debates porque minha banda provou que existe outro jeito de fazer as coisas acontecerem.

Vocês desbravaram um circuito que aqui no Brasil estava meio intocado: o das bandas que até aparecem na mídia, as pessoas até conhecem - a ponto do grupo já ter aparecido até mesmo em reportagens do Auto Esporte, da Globo - mas que ainda mantém os pés no underground, batalhando shows, participando de debates, gravando em selos pequenos... É um circuito viável por aqui? E como é a batalha diária nesse meio? O Frejat também participa de debates e ele não é underground faz mais de 20 anos. Não entendi muito bem esses "até" aparecem, "até" conhecem... Será que as bandas têm que chegar num certo ponto e abandonar o que elas gostam? É lógico que é viável, estamos aí. Fazemos muito mais shows que muito artista com "investimento" por aí. Fomos a banda mais premiada de 2005 na MTV, foi a primeira vez que aconteceu isso com uma banda independente. Já fizemos turnês pelo Japão, Inglaterra, Portugal, Uruguai, Chile e Argentina. No Brasil só não tocamos em dois estados, Roraima e Maranhão. Esse ano vamos ultrapassar a meta de cem shows no ano. As coisas estão mudando e devemos todos acompanhar.

Não te chateia o fato das gravadoras brasileiras não estarem tão ligadas nesse filão? Ou pra você isso nem é um problema? Uma coisa muito louca que acontece no Brasil é que a grande maioria das bandas contratadas por gravadoras grandes lança um único disco e depois acabam - ou você nunca mais ouve falar delas. No exterior, as grandes gravadoras fazem acordos com selos pequenos e o negócio dá muito certo. Uma banda top mundial como o Franz Ferdinand, por exemplo, é contratada da minúscula Domino Records... Acho que - digo mais uma vez - as coisas mudaram muito. Se não repensarem tudo, sabe-se lá onde as coisas vão parar. Bem-vindos a 2006.

Afinal, por que a Simone saiu da banda? Como os fãs encararam a mudança? É engraçado, pois quando o Autoramas finalmente conseguiu engatar uma seqüência grande de shows e contratantes interessados, a Simone pediu pra sair da banda, alegando que não estava agüentando o pique, que não era isso que ela queria pra vida dela. É lógico que eu e Bacalhau sentimos o golpe, ainda mais porque foi dez dias antes de uma turnê pelo Chile e Argentina. Mas Selma entrou muito bem, e conseguimos resolver tudo em pouquíssimo tempo. Muita falação rolou quando na época que a Simone saiu - e isso já vai fazer dois anos - mas todo mundo já se acostumou com a Selma. As pessoas não deixaram de ir aos shows e a banda continua a mesma. Estamos prontos pra outra.

No site de vocês consta que o próximo disco está sendo produzido pelo Berna e pelo Kassin. O engraçado é que eles não são pessoas naturalmente associáveis ao som que o Autoramas faz. Como está ficando a produção desse disco e o que eles (geralmente associados a projetos mais experimentais, como o Artificial) estão trazendo de novo para os Autoramas? Kassin e Berna são grandes amigos nossos. Kassin é meu parceiro em várias composições e já toquei com os dois no Acabou La Tequila. Pra nós, a escolha pareceu muito natural. Eles são caras que entendem muito de música e sabiam exatamente o que a gente queria. Espere pra ouvir o disco novo e confira.

Vocês tocaram recentemente em dois tributos - a Raul Seixas e a Renato Russo - feito por estações de TV a cabo. O que vocês acham desse tipo de projeto? Acho um barato, é ótimo gravar ao vivo. O do Renato foi especialmente legal pra mim, pois também sou candango e pude cantar uma música que entendo perfeitamente o que está sendo dito...

O clipe de "Você Sabe" é muito bem feito. Ele custou muito caro? Custou, mas pudemos fazer uma ótima parceria com o Luis Carone, o diretor. Ele entrou em contato conosco, dizendo que era fã da banda e queria fazer um clip nosso. Obviamente, aceitamos e o resultado foi muito além do que poderíamos esperar. Todas as contas foram feitas na ponta do lápis e resultou no clip mais premiado do ano passado, abrindo muitas portas pra nós.

Domingo, Agosto 06, 2006

"A MPB nunca existiu, foi invenção da Shell!"

Essas e outras frases maravilhosas, você encontra na entrevista que Leonardo Bonfim e Rafael Pesce fizeram com Jards Macalé para o e-zine lisérgico Freakium. Lá ele comenta sobre Caetano, Gal, tropicalismo, MPB, rock, drogas, Lanny Gordin ("a gente tomou muito ácido, mas ele era menino e não soube se defender"), e vários outros assuntos. O link da matéria tá aqui.

Fiz, para a matéria, resenhas da triologia básica de Macalé. Os textos estão aí embaixo (link aqui).

"JARDS MACALÉ" – JARDS MACALÉ (Philips, 1972)

Jards Macalé, primeiro disco do cantor carioca, é um dos trabalhos mais inusitados da música brasileira. Um disco até hoje duro de ser conceituado - e por isso mesmo genial, e tantas vezes esquecido. Feito após Jards ter passado por experiências diversas como músico, o álbum marcava sua transição para a via pop, revolucionando a música brasileira ao mesclar rock, samba, eruditismo, jazz, bossa-nova, tropicalismo, melancolia e sofrimento em doses cavalares. Gravado às pressas, da forma mais minimalista possível (com Jards no violão, Lanny no violão solo e no baixo e Tutty na bateria), o disco traz uma sonoridade crua, anti-comercial, com letras que chegam a soar punks. O LP abria com "Farinha do desprezo", quase um anti-rock, desconstruído, misturado com samba e jazz (a letra: "só vou comer agora da farinha do desejo/alimentar minha fome para que nunca mais me esqueça/como é forte o gosto da farinha do desprezo").

Uma vinheta com "Vapor barato" a capella - cantada de forma quase fúnebre, fantasmagórica mesmo - antecede o forrock "Revendo amigos", que chegou a ir 12 vezes para a censura, encucada com versos como "se me der na veneta eu morro/se me der na veneta eu mato". Numa época em que Roberto Carlos era rei, Jards só oferecia romantismo em faixas originais como o quase-samba "78 rotações", na voraz "Meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata" e na desolação de "Movimento dos barcos". O lado mais característico de Macalé, no entanto, era a faceta melancólica e existencial de faixas como o rock "Mal secreto" ("massacro meu medo, mascaro minha dor, já sei sofrer") e o hino "Let's play that" ("vai, bicho/desafiar o coro dos contentes", dizia a letra de Torquato Neto). Num viés tenso, repleto de improvisos roqueiros ao violão, em que não havia oposição entre tristeza e felicidade, alegria e melancolia ("dessa janela sozinha/olhar a cidade me acalma/estrela vulgar a vagar/rio e também posso chorar", diz a letra de "Hotel das estrelas", que fechava o disco), Jards Macalé também trazia o rock´n roll suicida e ágil de "Farrapo humano" (de Luiz Melodia) - sintomaticamente seguido pelo samba "A morte", de Gilberto Gil.

A ousadia custou caro: Jards Macalé acabou tendo pouca tiragem e logo foi tirado de catálogo. O cantor iniciou uma série de shows, mas continuava com problemas de colocação no mercado. Em 1973, liderou na Philips um misto de show-disco coletivo, O banquete dos mendigos, feito por ele e por vários amigos para comemorar o aniversário de 25 anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem e, de quebra, ajudar a tirar a conta de Macalé do vermelho: o show foi feito, mas o disco ao vivo acabou sendo completamente censurado e só liberado em 1979 (e já pela RCA).

"APRENDER A NADAR" - JARDS MACALÉ (Philips, 1974)

Aprender a nadar, segundo disco de Jards, foi sua tentativa de arranhar as paradas de sucesso. Foi algo que ele até conseguiu e que lhe valeu alguma – boa – mídia, mas não o suficiente para livrá-lo da pecha de “maldito”, de anti-comercial. Apesar da pouca vendagem do primeiro disco, a Philips decidiu manter o contrato do cantor, que aproveitou para gravar um álbum bem menos “econômico”, com arranjos mais elaborados – ao contrário do primeiro, no qual se restringia a um grupo básico. Em Aprender a nadar, aparecem músicos de estúdio como Wagner Tiso (arranjos, piano), Robertinho Silva (bateria), Rubão Sabino (baixo) e Ion Muniz (flauta), além de um regional que inclui os experientes Canhoto (cavaquinho) e Dino Sete Cordas (violão).

Concebido ao lado de Waly Salomão (que usava a alcunha lisérgica de Wally Sailormoon) era um disco conceitual, com faixas que tratavam de uma certa "linha de morbeza romântica" - morbeza, um neologismo inventado por Waly, era uma mistura de morbidez e beleza, que ele definia como “uma idéia para identificar uma linha de ação, como uma estratégia da qual depois se larga e se busca outra”. Tal idéia esteve por trás de pelo menos quatro faixas do disco, “O Faquir da Dor”, “Rua Real Grandeza”, “Anjo Exterminado” (gravada numa versão mais radiofônica por Maria Bethânia no disco Drama) e “Dona do Castelo”, como uma retomada, sob um viés tropicalizado, da antiga dor-de-cotovelo. Músicas antigas do estilo – ou aproximadas a ele – eram revisitadas em algumas regravações, como “Imagens”, de Orestes Barbosa (quase uma pré-psicodelia, em versos estranhos como “a lua é gema do ovo/no copo azul lá do céu.../o beijo é fósforo aceso/na palha seca do amor”). O maior sucesso do LP, no entanto, foi a regravação do clássico “Mambo da Cantareira”, antigo sucesso de Gordurinha – que serviu de pretexto para Macalé alugar uma barca da travessia Rio-Niterói e pular na baía de Guanabara ao som da música, na festa de lançamento do álbum. “Orora analfabeta”, outro grande sucesso de Gordurinha, cuja letra sacaneava a ignorância das elites, também estava no LP, e também fez sucesso (os versos iniciais são inesquecíveis: “Conheci uma dona boa lá em Cascadura...”).

O lado experimental do disco ficava por conta de estranhas vinhetas, como as cinematográficas “Jards Anet da Vida”, “No meio do mato” e “O faquir da dor”, além da interface música-artes plásticas-cinema, que encontrava seu desvelo na arte da capa e do encarte (com fotogramas de Kakodddevrydo, filme de Luís Carlos Lacerda) e na dedicatória a Lygia Clark e Hélio Oiticica. Numa época em que o barato era freqüentar Ipanema, Jards homenageava um dos pedaços mais suburbanos da zona sul carioca ("Rua Real Grandeza", finalizada com uma engraçada vinheta baseada em “Pam-Pam-Pam”, de Paulo da Portela, na qual Wally “tocava” chaves e porta). O disco ainda apresentava o poeta underground Ricardo Chacal, lendária figura da vida cultural carioca – até hoje, aliás – ao mundo da música, como letrista de “Boneca semiótica”, composta com Macalé, Duda e o multi-homem baiano Rogério Duarte.

"CONTRASTES" - JARDS MACALÉ (Som Livre, 1977)

O terceiro LP de Jards Macalé, já pela Som Livre – que se esforçou para investir no disco - revela que a tal fama de "maldito" de Jards Macalé só demonstra o total despreparo do mercado fonográfico para lidar com o cantor. O título, inspirado por um antigo samba de Ismael Silva - que virou faixa-título, incluída até numa trilha de novela global, Duas vidas - não mente: é um álbum pródigo em misturar estilos musicais díspares, como samba, música pop, reggae, MPB orquestral, pós-tropicalismo e experimentos de estúdio. O tamanho da lista de músicos convidados até assusta - deve ter sido o disco mais caro da Som Livre até então (a contra-capa, em clima de Sgt. Pepper's carioca, com o Pão de Açúcar ao fundo, mostra numa colagem todo o time que foi para o estúdio, além de fotos de inspiradores do trabalho, como Luiz Gonzaga e Moreira da Silva – este, companheiro de palco de Macalé, à época).

Quando o disco foi reeditado, em 2003, foram incluídos vários textos do próprio Macalé (escritos em 1977 e 2003), nos quais são citados pelo menos quatro nomes de grande importância para o disco: Paulo Moura - que havia gravado na época seu clássico Confusão urbana, suburnana e rural (RCA, 1976) -, Wagner Tiso, Júlio Medaglia e Severino Araújo. Paulo contribuiu com uma sonoridade mais ligada ao samba e ao jazz, enquanto Wagner assinou arranjos grandiosos como os de "Poema da Rosa" (feito por Jards em cima de um poema de Bertolt Brecht) e "No meio do mato". Júlio Medaglia incorporou o lado mais experimental do disco, utilizando tapes com ruídos e até cedendo sua cadelinha (!) para latir nos segundos finais de "Cachorro babucho", clássico quase concretista de Walter Franco - e definido por Jards no livreto do CD como "uma canção sobre a amizade". Severino, caso à parte, é maestro e idealizador da Orquestra Tabajara, que marcou época entre os anos 40 e 60 e, em especial, a infância de Macalé. A Orquestra estava desativada em 1977 e Jards conseguiu reunir todos os músicos que fizeram parte de sua primeira formação para tocar no instrumental "Choro de Archanjo" - feito pelo cantor para o filme O amuleto de Ogum, do qual ele participava como ator. A música é um animado samba-choro, soando como uma homenagem bem carioca às gafieiras.

Entre os vários contrastes unidos por Macalé no disco estão a delicadeza de "Sem essa", "O poema da Rosa" e "Garoto", tema instrumental composto em homenagem ao celebrado violonista, autor de uma melodia que anos depois Vinicius de Moraes e Chico Buarque transformariam em "Gente humilde". Homenageando alguns ídolos e aumentando o clima conceitual do disco, Macalé imita Louis Armstrong na regravação do antigo jazz "Black and blue" - não fosse Jards quase um jazzista-blueseiro nos vocais, dono de uma rouquidão digna dos melhores nomes dos gêneros - e convida Jackson do Pandeiro e seus irmãos para tocar no forró sacana "Sim ou não", marcado por um loop de risadas da cantora Marlui Miranda. "O conto do pintor" revê e atualiza um antigo samba de breque de Moreira da Silva, com acompanhamento orquestral, barulhos de máquinas e ruído de ruas. "Negra melodia", com Gilberto Gil ao violão, traz o reggae para o caldeirão de "raízes" do álbum. Ecos do tropicalismo dão as caras no sensível trabalho de Júlio Medaglia em "Cachorro babucho". "Passarinho do relógio", gravado nos estúdios da Rádio Globo, mistura o violão e voz de Macalé a um cuidadoso trabalho de sonoplastia, à maneira das novelas de rádio, com uso de ruídos de casa, relógios, pássaros-cuco e até peidos - terminando com um acidente de trem, gritos, sirenes e uma locução radiofônica, feita pelo veterano radialista Luiz de França. Fechando, o belo arranjo orquestral de "No meio do mato", valendo por uma pintura. Cada faixa do disco recebeu um tratamento único e especial, de ourivesaria musical mesmo.

Importante: o relançamento de Contrastes, feito pela Dubas/Universal, teve modificações na capa: a foto original, que trazia Macalé aos beijos com sua então namorada, a escritora Ana Miranda, teve que ser “cortada” (literalmente) devido a um veto da própria Ana. “'Não autorizei a capa porque tenho direito sobre a minha imagem. Além disso, eu e Macalé tivemos uma briga pessoal muito séria, e eu quero ficar fora da vida dele”, disse ela a Joaquim Ferreira dos Santos no Jornal do Brasil, em maio de 2001 (foto modificada acima).

Sábado, Agosto 05, 2006

Eba

Coletânea de videos do Monty Phyton no YouTube.
Não, este blog NÃO vai virar coletânea do YouTube. Mas eu estou sem tempo de postar e preciso colocar alguma coisa para enrolar os leitores.

Terça-feira, Agosto 01, 2006

Nova Brazilian Nuggets no ar!

Volume 6 da compilação disponível no Rapidshare. Podem baixar que a qualidade eu garanto!

1 - Os Nucleares - Apolo
2 - Paulo Sérgio - Faça O Que Quizer de Mim
3 - Os Jovens - Se Você Contar
4 - Som Imaginário - Morse
5 - Red Snakes - Trying To Be Someone
6 - Pedro Paulo - Ponha No Lugar
7 - O Bando - Pela Rua Da Praia
8 - The Fevers - Você Morreu Pra Mim
9 - The Fevers - Quando Eu Tinha Você
10 - Marcos Valle - Os Grilos
11 - Os Aranhas - Gloria
12 - The Hot Dogs - It´s Time To Stop
13 - Tom Zé - Irene
14 - Os Megatons - Só Penso Em Meu Bem
15 - Ronnie Von - Menina Azul
16 - Tribo - Kyrie
17 - Blow Up - Som D´Avenida
18 - Leno & Lilian - Deus É Quem Sabe
19 - Som Beat - My Generation
20 - Eumir Deodato - Skyscrapers
21 - The Brazilian Bitles - Tema Baseado Na Coisa
22 - Jorge Ben - Si Manda
23 - Odair José - Tudo Acabado
24 - Os Selvagens - Coração de Pedra
25 - Sá, Rodrix e Guarabyra - Azular

Música nova do Skank já tá rolando no rádio

"Uma canção é para isso” (Samuel Rosa / Chico Amaral), primeiro single do CD “Carrossel”, sétimo álbum de carreira do Skank, chegou ontem (31 de julho) nas rádios de todo o país. A música já está disponível para audição no site da banda: http://skank.uol.com.br

“Uma canção é para isso” foi produzida por Chico Neves, que assina também a produção de outras nove faixas do disco, que conta também com a produção de Carlos Eduardo Miranda em quatro faixas. “Carrossel” será lançado na 2ª quinzena de agosto pela SonyBMG.

Numa primeira audição, lembrou demais "Here comes the sun", dos Beatles - banda que influencia o Skank praticamente desde o começo da carreira. Vale dar uma escutada.