Essas e outras frases maravilhosas, você encontra na entrevista que Leonardo Bonfim e Rafael Pesce fizeram com Jards Macalé para o e-zine lisérgico
Freakium. Lá ele comenta sobre Caetano, Gal, tropicalismo, MPB, rock, drogas, Lanny Gordin ("a gente tomou muito ácido, mas ele era menino e não soube se defender"), e vários outros assuntos. O link da matéria tá
aqui.
Fiz, para a matéria, resenhas da triologia básica de Macalé. Os textos estão aí embaixo (link
aqui).
"JARDS MACALÉ" – JARDS MACALÉ (Philips, 1972)Jards Macalé, primeiro disco do cantor carioca, é um dos trabalhos mais inusitados da música brasileira. Um disco até hoje duro de ser conceituado - e por isso mesmo genial, e tantas vezes esquecido. Feito após Jards ter passado por experiências diversas como músico, o álbum marcava sua transição para a via pop, revolucionando a música brasileira ao mesclar rock, samba, eruditismo, jazz, bossa-nova, tropicalismo, melancolia e sofrimento em doses cavalares. Gravado às pressas, da forma mais minimalista possível (com Jards no violão, Lanny no violão solo e no baixo e Tutty na bateria), o disco traz uma sonoridade crua, anti-comercial, com letras que chegam a soar punks. O LP abria com "Farinha do desprezo", quase um anti-rock, desconstruído, misturado com samba e jazz (a letra: "só vou comer agora da farinha do desejo/alimentar minha fome para que nunca mais me esqueça/como é forte o gosto da farinha do desprezo").
Uma vinheta com "Vapor barato"
a capella - cantada de forma quase fúnebre, fantasmagórica mesmo - antecede o forrock "Revendo amigos", que chegou a ir 12 vezes para a censura, encucada com versos como "se me der na veneta eu morro/se me der na veneta eu mato". Numa época em que Roberto Carlos era rei, Jards só oferecia romantismo em faixas originais como o quase-samba "78 rotações", na voraz "Meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata" e na desolação de "Movimento dos barcos". O lado mais característico de Macalé, no entanto, era a faceta melancólica e existencial de faixas como o rock "Mal secreto" ("massacro meu medo, mascaro minha dor, já sei sofrer") e o hino "Let's play that" ("vai, bicho/desafiar o coro dos contentes", dizia a letra de Torquato Neto). Num viés tenso, repleto de improvisos roqueiros ao violão, em que não havia oposição entre tristeza e felicidade, alegria e melancolia ("dessa janela sozinha/olhar a cidade me acalma/estrela vulgar a vagar/rio e também posso chorar", diz a letra de "Hotel das estrelas", que fechava o disco), Jards Macalé também trazia o rock´n roll suicida e ágil de "Farrapo humano" (de Luiz Melodia) - sintomaticamente seguido pelo samba "A morte", de Gilberto Gil.
A ousadia custou caro:
Jards Macalé acabou tendo pouca tiragem e logo foi tirado de catálogo. O cantor iniciou uma série de shows, mas continuava com problemas de colocação no mercado. Em 1973, liderou na Philips um misto de show-disco coletivo,
O banquete dos mendigos, feito por ele e por vários amigos para comemorar o aniversário de 25 anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem e, de quebra, ajudar a tirar a conta de Macalé do vermelho: o show foi feito, mas o disco ao vivo acabou sendo completamente censurado e só liberado em 1979 (e já pela RCA).
"APRENDER A NADAR" - JARDS MACALÉ (Philips, 1974)
Aprender a nadar, segundo disco de Jards, foi sua tentativa de arranhar as paradas de sucesso. Foi algo que
ele até conseguiu e que lhe valeu alguma – boa – mídia, mas não o suficiente para livrá-lo da pecha de “maldito”, de anti-comercial. Apesar da pouca vendagem do primeiro disco, a Philips decidiu manter o contrato do cantor, que aproveitou para gravar um álbum bem menos “econômico”, com arranjos mais elaborados – ao contrário do primeiro, no qual se restringia a um grupo básico. Em
Aprender a nadar, aparecem músicos de estúdio como Wagner Tiso (arranjos, piano), Robertinho Silva (bateria), Rubão Sabino (baixo) e Ion Muniz (flauta), além de um regional que inclui os experientes Canhoto (cavaquinho) e Dino Sete Cordas (violão).
Concebido ao lado de Waly Salomão (que usava a alcunha lisérgica de Wally Sailormoon) era um disco conceitual, com faixas que tratavam de uma certa "linha de morbeza romântica" -
morbeza, um neologismo inventado por Waly, era uma mistura de morbidez e beleza, que ele definia como “uma idéia para identificar uma linha de ação, como uma estratégia da qual depois se larga e se busca outra”. Tal idéia esteve por trás de pelo menos quatro faixas do disco, “O Faquir da Dor”, “Rua Real Grandeza”, “Anjo Exterminado” (gravada numa versão mais radiofônica por Maria Bethânia no disco
Drama) e “Dona do Castelo”, como uma retomada, sob um viés tropicalizado, da antiga dor-de-cotovelo. Músicas antigas do estilo – ou aproximadas a ele – eram revisitadas em algumas regravações, como “Imagens”, de Orestes Barbosa (quase uma pré-psicodelia, em versos estranhos como “a lua é gema do ovo/no copo azul lá do céu.../o beijo é fósforo aceso/na palha seca do amor”). O maior sucesso do LP, no entanto, foi a regravação do clássico “Mambo da Cantareira”, antigo sucesso de Gordurinha – que serviu de pretexto para Macalé alugar uma barca da travessia Rio-Niterói e pular na baía de Guanabara ao som da música, na festa de lançamento do álbum. “Orora analfabeta”, outro grande sucesso de Gordurinha, cuja letra sacaneava a ignorância das elites, também estava no LP, e também fez sucesso (os versos iniciais são inesquecíveis: “Conheci uma dona boa lá em Cascadura...”).
O lado experimental do disco ficava por conta de estranhas vinhetas, como as cinematográficas “Jards Anet da Vida”, “No meio do mato” e “O faquir da dor”, além da interface música-artes plásticas-cinema, que encontrava seu desvelo na arte da capa e do encarte (com fotogramas de
Kakodddevrydo, filme de Luís Carlos Lacerda) e na dedicatória a Lygia Clark e Hélio Oiticica. Numa época em que o barato era freqüentar Ipanema, Jards homenageava um dos pedaços mais suburbanos da zona sul carioca ("Rua Real Grandeza", finalizada com uma engraçada vinheta baseada em “Pam-Pam-Pam”, de Paulo da Portela, na qual Wally “tocava” chaves e porta). O disco ainda apresentava o poeta underground Ricardo Chacal, lendária figura da vida cultural carioca – até hoje, aliás – ao mundo da música, como letrista de “Boneca semiótica”, composta com Macalé, Duda e o multi-homem baiano Rogério Duarte.
"CONTRASTES" - JARDS MACALÉ (Som Livre, 1977)O terceiro LP de Jards Macalé, já pela Som Livre – que se esforçou para investir no disco - revela que a tal fama de "maldito" de Jards Macalé só demonstra o total despreparo do mercado fonográfico para lidar com o cantor. O título, inspirado por um antigo samba de Ismael Silva - que virou faixa-título, incluída até numa trilha de novela global,
Duas vidas - não mente: é um álbum pródigo em misturar estilos musicais díspares, como samba, música pop, reggae, MPB orquestral, pós-tropicalismo e experimentos de estúdio. O tamanho da lista de músicos convidados até assusta - deve ter sido o disco mais caro da Som Livre até então (a contra-capa, em clima de
Sgt. Pepper's carioca, com o Pão de Açúcar ao fundo, mostra numa colagem todo o time que foi para o estúdio, além de fotos de inspiradores do trabalho, como Luiz Gonzaga e Moreira da Silva – este, companheiro de palco de Macalé, à época).
Quando o disco foi reeditado, em 2003, foram incluídos vários textos do próprio Macalé (escritos em 1977 e 2003), nos quais são citados pelo menos quatro nomes de grande importância para o disco: Paulo Moura - que havia gravado na época seu clássico
Confusão urbana, suburnana e rural (RCA, 1976) -, Wagner Tiso, Júlio Medaglia e Severino Araújo. Paulo contribuiu com uma sonoridade mais ligada ao samba e ao jazz, enquanto Wagner assinou arranjos grandiosos como os de "Poema da Rosa" (feito por Jards em cima de um poema de Bertolt Brecht) e "No meio do mato". Júlio Medaglia incorporou o lado mais experimental do disco, utilizando tapes com ruídos e até cedendo sua cadelinha (!) para latir nos segundos finais de "Cachorro babucho", clássico quase concretista de Walter Franco - e definido por Jards no livreto do CD como "uma canção sobre a amizade". Severino, caso à parte, é maestro e idealizador da Orquestra Tabajara, que marcou época entre os anos 40 e 60 e, em especial, a infância de Macalé. A Orquestra estava desativada em 1977 e Jards conseguiu reunir todos os músicos que fizeram parte de sua primeira formação para tocar no instrumental "Choro de Archanjo" - feito pelo cantor para o filme
O amuleto de Ogum, do qual ele participava como ator. A música é um animado samba-choro, soando como uma homenagem bem carioca às gafieiras.

Entre os vários contrastes unidos por Macalé no disco estão a delicadeza de "Sem essa", "O poema da Rosa" e "Garoto", tema instrumental composto em homenagem ao celebrado violonista, autor de uma melodia que anos depois Vinicius de Moraes e Chico Buarque transformariam em "Gente humilde". Homenageando alguns ídolos e aumentando o clima conceitual do disco, Macalé imita Louis Armstrong na regravação do antigo jazz "Black and blue" - não fosse Jards quase um jazzista-blueseiro nos vocais, dono de uma rouquidão digna dos melhores nomes dos gêneros - e convida Jackson do Pandeiro e seus irmãos para tocar no forró sacana "Sim ou não", marcado por um loop de risadas da cantora Marlui Miranda. "O conto do pintor" revê e atualiza um antigo samba de breque de Moreira da Silva, com acompanhamento orquestral, barulhos de máquinas e ruído de ruas. "Negra melodia", com Gilberto Gil ao violão, traz o reggae para o caldeirão de "raízes" do álbum. Ecos do tropicalismo dão as caras no sensível trabalho de Júlio Medaglia em "Cachorro babucho". "Passarinho do relógio", gravado nos estúdios da Rádio Globo, mistura o violão e voz de Macalé a um cuidadoso trabalho de sonoplastia, à maneira das novelas de rádio, com uso de ruídos de casa, relógios, pássaros-cuco e até peidos - terminando com um acidente de trem, gritos, sirenes e uma locução radiofônica, feita pelo veterano radialista Luiz de França. Fechando, o belo arranjo orquestral de "No meio do mato", valendo por uma pintura. Cada faixa do disco recebeu um tratamento único e especial, de ourivesaria musical mesmo.
Importante: o relançamento de
Contrastes, feito pela Dubas/Universal, teve modificações na capa: a foto original, que trazia Macalé aos beijos com sua então namorada, a escritora Ana Miranda, teve que ser “cortada” (literalmente) devido a um veto da própria Ana. “'Não autorizei a capa porque tenho direito sobre a minha imagem. Além disso, eu e Macalé tivemos uma briga pessoal muito séria, e eu quero ficar fora da vida dele”, disse ela a Joaquim Ferreira dos Santos no
Jornal do Brasil, em maio de 2001 (foto modificada acima).