Calma, calma, gente, já voltei...
"R AO CONTRÁRIO" - PLEBE RUDE (LC editora/Tratore)Já tinha gente sacaneando o sexto disco da Plebe Rude, dizendo que seria o
Chinese democracy deles, pela demora. Isso se tornou lugar comum tão grande quanto afirmar que
O concreto já rachou é o melhor disco da banda, ou que a Plebe só funciona com Herbert Vianna comandando as máquinas - agora,
Mais raiva do que medo, com o grupo reduzindo-se à dupla Philippe Seabra e André X., é conciso, belo, bem gravado e tem músicas maravilhosas, e o líder dos Paralamas sequer passou perto do estúdio durante sua elaboração.
Com
R ao contrário, a Plebe entra num clube raro em se tratando de rock nacional - o das bandas que retornam tendo algo a dizer. Pra começar, a entrada do Inocente Clemente, mesmo sendo pouco perceptível no disco - ele gravou poucas guitarras e apenas cantou, com a mesma voz grave do ex-membro Ameba, em algumas faixas - deu novo sangue ao grupo, unindo a Plebe a um companheiro de luta da mesma geração e abrindo a possibilidade de inputs maravilhosos dentro do grupo. Sua presença na banda emociona qualquer fâ da parcela mais enjeitada do rock mainstream dos anos 80 (um grupo que inclui Plebe, Inocentes, Replicantes, Picassos Falsos, De Falla, etc). Txotxa, que tocou com a melhor formação brasiliense dos anos 90 (o Maskavo Roots de
Maskavo Roots e
Se não guenta porque veio?) é um grande baterista.
R ao contrário tem a melhor fornada de canções que os plebeus poderiam apresentar num disco novo - abrindo com a cavalar "O que se faz" e encerrando com a bem vinda ironia - que pode ser levada a sério, sem problema algum - de "Vote em branco".
Philippe Seabra mostra que criou um estilo como letrista - por vezes desesperado e caótico, mas sempre levantando a cabeça do ouvinte. Melodicamente, a banda permanece investindo num estilo épico, às vezes lembrando um The Who pós-punk - nos refrões berrados e melódicos de "E quanto a você" e na quase hard rock "Discórdia", além da belíssima faixa-título. Há quem já esteja citando Foo Fighters como grande referêcia para se compreender o disco - o que o peso melodioso de várias canções nem desmente (vá lá que músicas como "Mil gatos no telhado" e "R ao contrário" poderiam até ter saído da mão de Dave Grohl, enquanto a quase balada "Traçado que parece o meu" aponta para o lado do R.E.M.). Mas é impossível ouvir o disco sem ver ali traços do que a Plebe já havia feito em seus primeiros discos, que já estavam à venda antes mesmo do Nirvana, banda anterior de Grohl, aparecer. No geral,
R ao contrário é um puta disco de rock. Traz um som que passa longe da recordação barata dos anos 80 e que tem que ser ouvido por roqueiros de todas as idades.
DISCOGRAFIA
O CONCRETO JÁ RACHOU (EMI, 1986): Da fornada de mini-LPs que a EMI lançou em 1986 foi o que mais se destacou (ao lado de
Passos no escuro, o Zero), pela produção, pela qualidade e pela vendagem. Sete músicas definitivas para se compreender o velho dito esquerdista de se "lutar contra o sistema, dentro do sistema". Destaques: "Proteção", "Até quando esperar", "Brasília", "Johnny".
NUNCA FOMOS TÃO BRASILEIROS (EMI, 1987): No mesmo ano em que a Legião Urbana e os Inocentes lançavam discos de revirada-no-baú (
Que país é este e
Adeus carne), a Plebe também decidiu reaproveitar todo seu catálogo de canções antigas, nunca gravadas - decisão arriscadíssima para um primeiro verdadeiro LP. O resultado saiu bom, embora talvez faltasse algo mais impactante. Destaques: 'A ida", "Bravo mundo novo", "Mentiras por enquanto", "Censura".
PLEBE RUDE (EMI, 1988): Tentativa da banda de soar mais "brasileira" - ainda que pós-punks raivosos ainda dominassem o disco, ele era balizado por algumas músicas com influência de baião, MPB épica no estilo Zé Ramalho e até moda de viola erudita. Algumas coisas soavam estranhas demais, embora espontâneas - outras, no entanto, eram ousadas e valiam a pena. Destaques: "A serra", "Longe", "Um outro lugar", "O traço que separa".
MAIS RAIVA DO QUE MEDO (Natasha, 1992): O disco belo, conciso e cheio de canções maduras que a Plebe talvez devesse ter apresentado na época de
Nunca fomos... - conseguiu driblar até mesmo o fato de não ter uma produção tão trabalhada quanto a de discos anteriores. Só que a baixa divulgação e a pouca atenção da imprensa não ajudaram muito. Destaques: "Este ano", "Se lembra", "Ação, solidão, adeus", "Aurora".
ENQUANTO A TRÉGUA NÃO VEM (EMI, 2000): Disco ao vivo - gravado no antigo estúdio da EMI - que emocionou ouvintes e marcou uma volta (flopada) do quarteto. Depois da primeira audição, as falhas pipocavam: execuções tensas, pouca definição do papel de Jander na banda (ele voltou tocando uma "viola elétrica" que pouco acrescentava à Plebe), músicas novas inferiores ao material antigo e apego demais a "Até quando esperar", que até clipe novo ganhou.
"MOPTOP" - MOPTOP (Universal)A ranzinzice e o ressentimento de muita gente já começam a pegar o Moptop pelo contrapé em vários setores - e o título do primeiro single, o alegre "O rock acabou", soa como piada pronta pra um bando de pessoas. Mas quem ouvir antes de detonar vai descobrir uma grande banda. Zoar os cariocas pelas semelhanças com Strokes seria lugar-comum demais e uma baita demonstração de falta de senso - não fosse o rock nacional, historicamente, uma revisão bem feita e hiperturbinada de várias coisas. O fato é que, numa época em que bandas antigas e novas chegam ao mesmo tempo, pela internet, a montes de pessoas diferentes, os Mops já podem falar, se bobear, que tiveram as mesmas influências dos Strokes e do Franz Ferdinand - as guitarras de "Uma chance" e "Paris", além do andamento irrestivalmente dançante de "Moonrock", soam como coisa de quem não se contentou em figurar como vagãozinho brazuca do new rock e foi atrás de bandas como Television, Duran Duran e várias outras. Assim como a trama musical de "Tão certo" é pós-punk e mainstream como o rock nacional poucas vezes foi - só nos anos 80, talvez,com a tríade de Brasília (Plebe, Capital e Legião) chegando na frente.
Moptop revela novidades interessantes no front do rock brazuca. A primeira é a de que a Universal, gravadora que costumeiramente não tem o menor jogo de cintura para trabalhar rock, está realmente disposta a investir. Chamou até o Benício, artista gráfico famosíssimo dos anos 70 e 80 (ele fez pôsteres para vários filmes nacionais do período, de
Histórias que nossas babás não contavam a
Os saltimbancos Trapalhões), para fazer a capa - o trabalho desse cara não deve ser barato. A outra é a de que Chico Neves, que produziu o disco, pode fazer o caminho inverso do que está acostumado - além de ajudar Skank, Los Hermanos e O Rappa a largar o pop mais inofensivo, também pode formatar, para as rádios e para ouvidos que estão acostumados a bandas como CPM 22 e Hateen, um dos nomes mais representativos do rock carioca. Num golpe para fazer o rock nacional subir de nível, os Mops vêm com uma proposta sonora distante de qualquer tendência roqueira que se encontra nas grandes gravadoras e apresenta o new rock à brasileira ao mainstream - sem afetação e sem forçação de barra. É a chegada ao meio de uma geração que não ét]ao indie para entrar num Tim Festival, mas já desmamou o suficiente pra deixar de atrair o público emo.