Quinta-feira, Setembro 28, 2006

Gram / Cascadura


"SEU MINUTO, MEU SEGUNDO" - GRAM (Deckdisc)

O Gram é o tipo da banda da qual não é muito complicado pegar no pé. Já teve um conhecido meu dizendo que Seu minuto, meu segundo, lembra "Legião Urbana e Coldplay. Ou Uns & Outros e Keane". Ver um bando de marmanjos cantando versos pueris como "sempre quero alguém/que jamais olhou pra mim" e fazendo canções com títulos como "Me trai comigo" pode até tocar em certos corações - mas, er... deixa pra lá. Na parte musical, no entanto, Seu minuto... tem uma sonoridade belíssima, irrepreensível, traduzindo perfeitamente a sonoridade das bandas mais deprê do brit pop para o universo do rock nacional - na desolação de baladas como "Parte de mim, "Antes do fim" e "O rei do sol" - mas acrescentando-lhe as melodias exaustivamente trabalhadas de várias faixas. O CD traz ainda o detalhe de ser o primeiro disco de verdade de uma banda brasileira lançado exclusivamente em dualdisc (To hell with Johnny Cash, do Matanza, é mais um projeto especial do que um CD comum).

Seu minuto meu segundo vem mais baladeiro, menos intenso - em se tratando de peso - do que Gram, o primeiro disco. Há sonoridades aparentadas ao Radiohead (na balada sobrenatural "Vivo de novo", com a participação de um sinistro - no bom sentido - coral de crianças), palhetadas de baixo assemelhadas ao Cure e ao New Order (na faixa-título) e momentos que lembram coisas bem mais esquizofrênicas, como Elliot Smith. Em alguns momentos, a choradeira das letras é compensada pela poesia de certas faixas, que atingem níveis muito, mas muito altos em se tratando de rock nacional recente - caso de "Melhor assim", do belo folk "Em nome do filho" e "Tem cor" (dos versos "você já é grande/o monstro já se foi/dentro do armário não tem mais/você não é super-herói"). E aí é que aparecem alguns dos momentos mais gloriosos do álbum tanto em letras quanto em música. Um disco que, com certeza, vai agradar aos fãs e alargar espaços.

"BOGARY" - CASCADURA (L&C editora/Terapia)

Lançado na Outracoisa do mês passado, Bogary, quarto disco da banda baiana Cascadura, marca algumas diferenças para quem - como eu - não escutava nada do grupo fazia tempo. Além de só ter ficado o vocalista Fábio Cascadura da formação original (época em que se chamavam Dr. Cascadura), o grupo limou as carascterísitcas que os deixavam muito parecido como uma filial noventista do Casa das Máquinas. Pra abrir o disco novo, escolheram um quase-grunge pesadíssimo, "Se alguém o ver parado", com refrão e riffs poderosos. Seguindo, a energia punk e as palhetadas friamente calculadas de "Senhor das moscas" e a melodia lembrando um Sonic Youth com um pé no pop de "12 de outubro". Uma boa reentrée para uma banda que fazia falta no cenário nacional.

Resta saber como Bogary será vendido nas lojas - a Outracoisa teve, por algum motivo, que apelar para o lançamento em capinha de papel. Um invólucro caído que esconde um dos melhores lançamentos independentes do rock nacional e um dos mais brilhantes discos já lançados pela revista - como você poderá conferir no rock ágil de "O centro do universo", no lado mais setentista da folk "Onde aprendeu a andar" e "Mesmo eu estando do outro lado", no power pop de "Juntos somos nós" ... Olha, é melhor você comprar esse disco logo - ou baixar, já que o próprio Fábio Cascadura permitiu que alguns blogs e comunidades do Orkut de mp3 divulgassem um endereço do Rapidshare para quem desejasse pegar o CD.

Terça-feira, Setembro 26, 2006

Plebe Rude & Moptop

Calma, calma, gente, já voltei...

"R AO CONTRÁRIO" - PLEBE RUDE (LC editora/Tratore)

Já tinha gente sacaneando o sexto disco da Plebe Rude, dizendo que seria o Chinese democracy deles, pela demora. Isso se tornou lugar comum tão grande quanto afirmar que O concreto já rachou é o melhor disco da banda, ou que a Plebe só funciona com Herbert Vianna comandando as máquinas - agora, Mais raiva do que medo, com o grupo reduzindo-se à dupla Philippe Seabra e André X., é conciso, belo, bem gravado e tem músicas maravilhosas, e o líder dos Paralamas sequer passou perto do estúdio durante sua elaboração.

Com R ao contrário, a Plebe entra num clube raro em se tratando de rock nacional - o das bandas que retornam tendo algo a dizer. Pra começar, a entrada do Inocente Clemente, mesmo sendo pouco perceptível no disco - ele gravou poucas guitarras e apenas cantou, com a mesma voz grave do ex-membro Ameba, em algumas faixas - deu novo sangue ao grupo, unindo a Plebe a um companheiro de luta da mesma geração e abrindo a possibilidade de inputs maravilhosos dentro do grupo. Sua presença na banda emociona qualquer fâ da parcela mais enjeitada do rock mainstream dos anos 80 (um grupo que inclui Plebe, Inocentes, Replicantes, Picassos Falsos, De Falla, etc). Txotxa, que tocou com a melhor formação brasiliense dos anos 90 (o Maskavo Roots de Maskavo Roots e Se não guenta porque veio?) é um grande baterista. R ao contrário tem a melhor fornada de canções que os plebeus poderiam apresentar num disco novo - abrindo com a cavalar "O que se faz" e encerrando com a bem vinda ironia - que pode ser levada a sério, sem problema algum - de "Vote em branco".

Philippe Seabra mostra que criou um estilo como letrista - por vezes desesperado e caótico, mas sempre levantando a cabeça do ouvinte. Melodicamente, a banda permanece investindo num estilo épico, às vezes lembrando um The Who pós-punk - nos refrões berrados e melódicos de "E quanto a você" e na quase hard rock "Discórdia", além da belíssima faixa-título. Há quem já esteja citando Foo Fighters como grande referêcia para se compreender o disco - o que o peso melodioso de várias canções nem desmente (vá lá que músicas como "Mil gatos no telhado" e "R ao contrário" poderiam até ter saído da mão de Dave Grohl, enquanto a quase balada "Traçado que parece o meu" aponta para o lado do R.E.M.). Mas é impossível ouvir o disco sem ver ali traços do que a Plebe já havia feito em seus primeiros discos, que já estavam à venda antes mesmo do Nirvana, banda anterior de Grohl, aparecer. No geral, R ao contrário é um puta disco de rock. Traz um som que passa longe da recordação barata dos anos 80 e que tem que ser ouvido por roqueiros de todas as idades.

DISCOGRAFIA

O CONCRETO JÁ RACHOU (EMI, 1986):
Da fornada de mini-LPs que a EMI lançou em 1986 foi o que mais se destacou (ao lado de Passos no escuro, o Zero), pela produção, pela qualidade e pela vendagem. Sete músicas definitivas para se compreender o velho dito esquerdista de se "lutar contra o sistema, dentro do sistema". Destaques: "Proteção", "Até quando esperar", "Brasília", "Johnny".

NUNCA FOMOS TÃO BRASILEIROS (EMI, 1987): No mesmo ano em que a Legião Urbana e os Inocentes lançavam discos de revirada-no-baú (Que país é este e Adeus carne), a Plebe também decidiu reaproveitar todo seu catálogo de canções antigas, nunca gravadas - decisão arriscadíssima para um primeiro verdadeiro LP. O resultado saiu bom, embora talvez faltasse algo mais impactante. Destaques: 'A ida", "Bravo mundo novo", "Mentiras por enquanto", "Censura".

PLEBE RUDE (EMI, 1988): Tentativa da banda de soar mais "brasileira" - ainda que pós-punks raivosos ainda dominassem o disco, ele era balizado por algumas músicas com influência de baião, MPB épica no estilo Zé Ramalho e até moda de viola erudita. Algumas coisas soavam estranhas demais, embora espontâneas - outras, no entanto, eram ousadas e valiam a pena. Destaques: "A serra", "Longe", "Um outro lugar", "O traço que separa".

MAIS RAIVA DO QUE MEDO (Natasha, 1992): O disco belo, conciso e cheio de canções maduras que a Plebe talvez devesse ter apresentado na época de Nunca fomos... - conseguiu driblar até mesmo o fato de não ter uma produção tão trabalhada quanto a de discos anteriores. Só que a baixa divulgação e a pouca atenção da imprensa não ajudaram muito. Destaques: "Este ano", "Se lembra", "Ação, solidão, adeus", "Aurora".

ENQUANTO A TRÉGUA NÃO VEM (EMI, 2000): Disco ao vivo - gravado no antigo estúdio da EMI - que emocionou ouvintes e marcou uma volta (flopada) do quarteto. Depois da primeira audição, as falhas pipocavam: execuções tensas, pouca definição do papel de Jander na banda (ele voltou tocando uma "viola elétrica" que pouco acrescentava à Plebe), músicas novas inferiores ao material antigo e apego demais a "Até quando esperar", que até clipe novo ganhou.

"MOPTOP" - MOPTOP (Universal)

A ranzinzice e o ressentimento de muita gente já começam a pegar o Moptop pelo contrapé em vários setores - e o título do primeiro single, o alegre "O rock acabou", soa como piada pronta pra um bando de pessoas. Mas quem ouvir antes de detonar vai descobrir uma grande banda. Zoar os cariocas pelas semelhanças com Strokes seria lugar-comum demais e uma baita demonstração de falta de senso - não fosse o rock nacional, historicamente, uma revisão bem feita e hiperturbinada de várias coisas. O fato é que, numa época em que bandas antigas e novas chegam ao mesmo tempo, pela internet, a montes de pessoas diferentes, os Mops já podem falar, se bobear, que tiveram as mesmas influências dos Strokes e do Franz Ferdinand - as guitarras de "Uma chance" e "Paris", além do andamento irrestivalmente dançante de "Moonrock", soam como coisa de quem não se contentou em figurar como vagãozinho brazuca do new rock e foi atrás de bandas como Television, Duran Duran e várias outras. Assim como a trama musical de "Tão certo" é pós-punk e mainstream como o rock nacional poucas vezes foi - só nos anos 80, talvez,com a tríade de Brasília (Plebe, Capital e Legião) chegando na frente.

Moptop revela novidades interessantes no front do rock brazuca. A primeira é a de que a Universal, gravadora que costumeiramente não tem o menor jogo de cintura para trabalhar rock, está realmente disposta a investir. Chamou até o Benício, artista gráfico famosíssimo dos anos 70 e 80 (ele fez pôsteres para vários filmes nacionais do período, de Histórias que nossas babás não contavam a Os saltimbancos Trapalhões), para fazer a capa - o trabalho desse cara não deve ser barato. A outra é a de que Chico Neves, que produziu o disco, pode fazer o caminho inverso do que está acostumado - além de ajudar Skank, Los Hermanos e O Rappa a largar o pop mais inofensivo, também pode formatar, para as rádios e para ouvidos que estão acostumados a bandas como CPM 22 e Hateen, um dos nomes mais representativos do rock carioca. Num golpe para fazer o rock nacional subir de nível, os Mops vêm com uma proposta sonora distante de qualquer tendência roqueira que se encontra nas grandes gravadoras e apresenta o new rock à brasileira ao mainstream - sem afetação e sem forçação de barra. É a chegada ao meio de uma geração que não ét]ao indie para entrar num Tim Festival, mas já desmamou o suficiente pra deixar de atrair o público emo.

Sábado, Setembro 16, 2006

Ultraje A Rigor no Circo Voador


Ultraje A Rigor - Circo Voador
12 de agosto de 2006

Parecia até que era de propósito. Antes do show do Ultraje a Rigor, o DJ decidiu alegrar os fãs com versões remixadas de Chico Buarque - grande monstro da MPB que "nem olhou na cara" de Roger durante as gravações do single "Chega de Mágoa", em 1985, conforme o próprio líder do Ultraje lembrou numa entrevista à Veja, faz tempo. Depois, rolou quase inteiro um CD ao vivo dos Paralamas, banda de Herbert Vianna, que... deixa pra lá. Entre a - ótima, por sinal - apresentação dos cariocas dos Netunos, que abriram o show, e o espetáculo de Roger & cia, o público ainda engoliu, feito supositório, uma seleção de sons eletrônicos, recebida com gritos de "tira essa m*!".

No que dependesse do começo, seria um baita enguiço - e olha que os fãs do Ultraje não mereciam uma recepção menos que boa, levando em conta que a banda não dava as caras no Rio fazia um bom tempo. Só que, com o tempo, tudo foi se ajeitando. Fã que é fã não desanima. Foi assim que os Netunos (foto ao lado) entraram em campo com jogo ganho, platéia favorável - fãs das duas bandas, felizes da vida de ver o grupo carioca pela primeira vez no Circo - e ótimas canções, tocadas com peso e garra de emocionar. Hits como "Daniela" e "Bem vindo ao clube" eram cantados a plenos pulmões pela galera, cabendo ainda uma ótima e corajosa versão de "Surfin USA", dos Beach Boys.

Depois de um belíssimo atraso (graças à demorada passagem de som em cena aberta) veio o Ultraje. Eles são o tipo de grupo que, na atualidade, pode - deve, diriam alguns - deitar-se sobre os louros da fama. Não são muitas as bandas que conseguiram acertar de primeira num disco primoroso, em que praticamente tudo é bom - e o que não é tão bom, passa numa boa. Só que resumir a carreira do Ultraje a Nós Vamos Invadir Sua Praia chega a ser sacanagem - e o que se viu no show foi um público que acompanhou todas as letras (até as das recentes "Me Dá Um Olá" e "Eu Não Sei"), em vários momentos, se divertiu como se estivesse num show punk, com direito a coices, rodas, stagedives etc. Roger e seus amigos de então (hoje a banda tem Mingau no baixo, Sérgio Serra na guitarra (foto ao lado) e Bacalhau na bateria, como é público e notório) deviam se sentir como peixes fora d'água em meio ao punk e ao underground paulista dos anos 80, claro. Mas pra quem se cria hoje ao som de CPM 22, curtir clássicos do rock nacional - que rolam atualmente em qualquer festa de família ou casamento - naquela velocidade e naquele peso, com uma clássica banda da época, é novidade das boas.

Fãs que deviam estar nascendo na época em que o Ultraje começava em SP conheciam até velhos rituais de shows do grupo, como as moedas atiradas ao palco em "Mim Quer Tocar". Quem conhecia bem os segredos do Ultraje até berrou "Paulo Ricardo!" ao ouvir a introdução de "A Festa", baladinha irônica de Sexo!, segundo álbum do Ultraje - e dedicada ao ex-RPM. Roger e seus colegas de banda - cada um mais figuraça que o outro, com destaque para o guitarman Sérgio Serra - devolviam as moedas e notas de 1 real, davam autógrafos em pleno palco ("faça como Roger, assine cheques para as crianças carentes", piadou Serra) e impressionavam com uma segurança e uma atitude totalmente renovadas.

No repertório, rolaram várias surpresas, desde covers para "Do You Wanna Dance?" (Johnny Rivers, mas evidentemente na cola dos Ramones) e "Barbara Ann" (Beach Boys). A galera só não deve ter entendido nada no bis, quando o grupo irrompeu num enorme improviso de blues - imediatamente colado numa versão bacana para "Marylou" - e logo depois Sérgio e Roger começaram a solar... "Um bilhete pra Didi", dos Novos Baianos! Pois é, surpresa: Roger, sempre reconhecido como um grande letrista, é um ótimo guitarrista - e Sérgio Serra não deixa por menos, dividindo a atenção e as piadas com o frontman. E... mais uma do público do Ultraje, sempre ele: "Eu Gosto De Mulher", música que em outros tempos já recebeu até o rótulo de "machista", virou hino GLBT tão poderoso quanto "Mesmo Que Seja Eu", do Erasmo (aquela do "você precisa de um homem pra chamar de seu"). No refrão, a platéia mandou bala num belo coro formado por mulheres e por aquilo que Reginaldo Rossi chama de "moças do sapato grande".

Dá até vontade de pensar o quanto Renato Russo não foi por demais considerado um grande poeta e intelectual - e o quanto a mentalidade caetanovelosófica da nossa música, da nossa crítica musical e do nosso público não transformou o rock nacional pós-1985 num monstrengo que se traveste de sério para falar "sério". Maldade da grossa com o Ultraje, que desde o começo, investiu numa temática que sorria enquanto descia o pau na acomodação do brasileiro (em "Terceiro"), nas modinhas da mídia (na própria "Eu Gosto De Mulher", que muita gente xingou sem prestar atenção), no nosso tradicional oba-oba ("Mim Quer Tocar"), no nosso preconceito social ("Nós Vamos Invadir Sua Praia") etc. Sei que ao final do show, quando Roger se despediu da platéia com um "até uma próxima!" (até a próxima, no caso de uma banda que pouco sai de São Paulo, seria realmente complexo), ficou uma sensação de que não há apenas humor ali. Sorte de quem entendeu.

(Texto e fotos meus - publicado em Rock Press)

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Emepebê

Duas resenhas minhas de CDs lançados pela gravadora Dubas que saíram por aí - a primeira no International Magazine, a segunda na Bizz. A da Maria Bethânia é boa para marcar o fato da discografia inteira dela ter saído em CD recentemente, num acerto inédito entre EMI, BMG e Universal. A segunda fala sobre o tipo de MPB que cada vez mais vale a pena lembrar.

"BETHÂNIA REVISITADA" - MARIA BETHÂNIA (Dubas)

Complicado isso, mas Maria Bethânia, que em vários momentos é tida como sendo uma cantora bem mais "MPBzona", mas romântica, do que - por exemplo - uma Gal Costa, desafiou muito mais a falta de criatividade da MPB dos anos 70 e 80 do que muita gente por aí. O relançamento da discografia da cantora nos anos 70 é fundamental para que muita gente perceba que, muitas vezes, é possível que apareçam até mais inovações naquilo que já parece instituído.

No caso de Maria Bethânia, o lado de "instituição" fica na cara do gol. Grande vendedora de discos em praticamente toda a sua carreira, ela teve várias músicas em novelas, passou por praticamente todas as multinacionais do disco no Brasil e conseguiu para si uma reputação quase equivalente à de Fernanda Montenegro no teatro - a de grande artista que dá honra e legitimidade a todo material com o qual se envolve. Bom, quase todo: antes mesmo de Zezé di Camargo & Luciano meterem na cabeça que podem ser sertanejos bem-educadinhos, Maria Bethânia já fizera uma versão de gosto duvidoso de "É o amor". A música de Zezé di Camargo, em sua versão original, sequer pode ser considerada de gosto duvidoso - e quem afirmou, sobre o filme 2 filhos de Francisco, que "um filme que termine com 'É o amor' jamais pode ter um final feliz" não gastou latim à toa.

Só que foi muto pouco para jogar por terra a carreira da cantora. Nos momentos em que qualquer pessoa poderia falar que a MPB estava acabada ou monótona, ela jogou luz sobre os iê-iê-iês de Roberto e Erasmo (apresentando a dupla a seu irmão Caetano Veloso, inclusive), buscou novas formas de falar de amor em letras de Cacaso e Waly Salomão, tangenciou a MPB de motel de Roberto em discos como Álibi e Mel, lançou compositores novos (como Djavan e Jards Macalé) e uniu-se a músicos que iam do jazz emepebístico ao soul de FM - sem resvalar na praia brega em momento algum. Nem parei para pesquisar em sites como o Cliquemusic, mas aparentemente, Maria Bethânia deve ter sido a única cantora da MPB a não sucumbir a modas de rádio como a dupla Sullivan & Massadas, que mandavam bala no repertório de Alcione, Tim Maia e Gal Costa nos anos 80. Nada contra, mas é algo notável - e que sedimentou seu caminho para que, na atualidade, ela tenha sido uma das primeiras cantoras célebres da música brasileira a adotar o mercado independente.

Todo esse intróito é só para falar que saiu Bethânia Revisitada, coletânea com 13 músicas pinçadas do repertório setentista da cantora. Tiradas de discos que, em város momentos, primavam pelo apuro conceitual - o que se torna extremamente temerário no caso de uma coletânea - as faixas não soam vazias. Mostram que Bethânia, ao lado de Ney Matogrosso, foi um dos raros artistas nacionais a cruzar vários ritmos, nacionalidades, compositores, músicos, etc, e dar a toda essa união um caráter de abraço, de rigor conceitual - como se tudo servisse para forjar no subconsciente do brasileiro a sua imagem e a imagem de seu trabalho. Não soam deslocadas peças melódico-teatrais como "Drama", canções sublimes como "Amor, amor" (de Sueli Costa e Cacaso) e experimentações como "Anjo exterminado", de Macalé e Waly, além de sons mais pop como as sensuais "Mel" e "Cheiro de amor", que dominavam as rádios de MPB nos anos 70. Estas músicas aparecem unidas a clássicos como "Folha morta", de Ary Barroso e "Olha o tempo passando", de Dolores Duran, e até a sambas como "Sonho meu", de dona Ivone Lara.

Bethânia Revisitada pode servir como uma boa opção para condensar - e até ensinar, para quem não conhece ou para quem guarda preconceitos - um dos lados mais expostos da MPB que, a despeito de tudo que foi feito de bom nos anos 80, 90 e 00, é a que até hoje vigora, seja lá isso bom ou ruim.

"CLUBE MODERNO - ESQUINA DO MUNDO" - VÁRIOS (Dubas)

Nos anos 70, o som de Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes correu o mundo, deu voz às preocupações de uma época sofrida e expôs uma MPB diferente, com toques de samba, rock e bossa nova banhados em jazz. Clube Moderno - Esquina do Mundo mostra hits e raridades, pendendo para os lados jazzista e brasilianista do Clube - a face pop surge na contemplativa "Chuva na Montanha", de Lô Borges, mas cede lugar ao filé de Milton (com Herbie Hancock e Wayne Shorter em "Saídas e Bandeiras" e com Eumir Deodato em "Vera Cruz") e Toninho Horta ("Aquelas Coisas Todas"). Nana Caymmi recria "Clube da Esquina 2", Alaíde Costa vocaliza a instrumental "Catavento" e une-se a Milton no samba "Me Deixa em Paz", Joyce e Nelson Ângelo surgem com o samba-folk "Tiro Cruzado". Já "Nada Será Como Antes", com Elis Regina, é a cara dos anos 70, mas consegue soar atual nesses tempos em que nada é como parece ser.

Domingo, Setembro 03, 2006

De volta... com Sonic Youth

"RATHER RIPPED" - SONIC YOUTH (Geffen/Universal)

Passados 23 anos após o lançamento de seu primeiro disco - Confusion is sex , pelo selo SST - a banda novaiorquina Sonic Youth ainda é "a" trilha sonora alternativa por excelência. Basta tocar uma musiquinha deles em uma festa qualquer - mesmo que seja uma canção até amena, como o hit "Sugar kane", de 1992 - e você tem a certeza de que está entrando em um ambiente onde pode acontecer de tudo. Ícones do povo gótico como The Cure e Jesus & Mary Chain também têm isso (bom, não tanto no caso da primeira banda), mas o grupo de Thurston Moore (voz, guitarra), Kim Gordon (voz, baixo), Lee Ranaldo (guitarra) e Steve Shelley (bateria) leva tal caráter (vá lá) indie às últimas conseqüências, com suas melodias cheias de feedback, seus vocais blasé, suas músicas de teor experimental e suas letras enigmáticas, de inspiração beat. O Sonic é tão ágil na análise das ruas, das pessoas, das vidas e dos porões que transformou sua visão de Nova York numa trilogia formada pelos álbuns NYC ghosts and flowers, Murray street e Sonic nurse, os mais recentes do quarteto.

O Sonic continua sendo assim, pelo menos um pouco. A tal trilogia, apesar de criativa, não fazia parte (minha opinião, ok?) de seus discos mais interessantes. Thruston, Kim & cia lançaram petardos (ô, clichezinho...) como Daydream nation e Sister e, mais recentemente, Goo e Dirty, os primeiros após o grupo deixar o meio alternativo e ser contratado pela grandona Geffen Records. O grupo era cria direta de bandas doidaralhaças e cabeçudas como Velvet Underground e Band of Susans, além das bandas que criaram, nos anos 70, a atonal no wave - cujo disco-ícone é a coletânea No New York, que um amigo meu definiu como "disco feito por viciados em heroína, para ser ouvido ou por viciados em heroína, ou por seres humanos com saco na lua". Drogas ilícitas à parte, o que era criativo foi se tornando um tanto repetitivo e sonolento no front do Sonic Youth, a ponto das antigas peças experimentais (e enooormes) do grupo ganharem um ar de progressivo do demo.

Em Rather ripped, disco novo, a banda volta a acertar. Ou não - depende do ponto de vista. Quem sente saudades da esporreira dos primeiros discos, será brindado logo de cara com uma bela canção pop, "Reena". Pop, claro, para os padrões do grupo - é rock de garagem, com bons riffs de guitarra, mas audível, acessível, tranqüilo. Saudosismos à parte, funciona - e é capaz dos velhos fâs concordarem, muito embora imagine perfeitamente a galera mais radical achando que o grupo envelheceu.

Sinal dos tempos: o Sonic influenciou meio mundo do rock alternativo e, no álbum novo, vem lembrando alguns de seus pupilos e/ou subsequentes, como Nirvana, Pixies e Dinosaur Jr. E ainda há muito de anos 60 - Beatles, Kinks, Pink Floyd do começo e até The Who - ali. Rather ripped é um disco que continua sorrindo, contente e ironicamente, em faixas como a ensolarada e agitada "Incinerate" - de riff alegre e letra destrutiva, na qual o coração de um dos personagens é arrancado do peito e substituído por uma granada. O SY de antes começa a agir na sombria e bela "Do you believe in rapture?", marcada por ruídos secos e cruzados como transmissões radiofônicas. E continua atuando no ruído intermitente que abre a marcial "Sleepin around", garageira como um Jon Spencer Blues Explosion bem tocado, com Thurston Moore unindo Iggy Pop e Mick Jagger nos vocais. Kim Gordon manda bem vocalizando uma das belas músicas do CD, "What a waste", com ecos de ferocidade e riffs construindo novas melodias dentro da mesma canção.

Daí para o final, o grupo brinca com tons imperfeitos ("Jams run"), faz barulho ("Free"), manda ver em baladas experimentais e tristes ("Turquoise boy", "Lights out" - esta, com vocais e baixo sugerindo um New Order sujo), criam um provável futuro hit que é a cara do grupo ("The neutral"), mandam uma quilométrica e maravilhosa música quase-instrumental ("Pink steam") e brincam com palavras ("Or", que alguns críticos já pensaram ser até uma zoação com as perguntas-clichês de entrevistas, graças a versos como "qual o tamanho da turnê?" e "o que vem primeiro/a música ou as palavras?" - fato que foi negado por Kim Gordon).

Fechando a tampa, vem uma ruidosa canção com som de demo, "Helen Lundeberg", que é a cara daquela já citada geração no wave - e homenageia uma falecida artista plástica norte-americana. Ao final de Rather Ripped, o fã do Sonic Youth terá ouvido um dos discos da banda com maior quantidade de belas canções por metro quadrado - algo que há muito o grupo não fazia. Vamos ver se cola.
+ publicado no Nitideal.