Terça-feira, Outubro 31, 2006

O verdadeiro Plebeu (até que não tão rude assim)*


(Jorge Wagner, do blog Canção Pobre, foi até Mendes, no interior do estado do Rio, bater um papo com Jander Bilaphra, que foi guitarrista da Plebe Rude. O texto é dele e as fotos são de Carina Dornellas)

Com pouco mais de 17 mil habitantes e aproximadamente 77,5 km² de área total, Mendes é um lugar onde, em pleno sábado a tarde, é possível encontrarmos um senhor de cabelos brancos e óculos fundo-de-garrafa, trajando uma camisa vermelha abotoada até o alto do pescoço, cantando bolero para uma praça vazia. Dona do 4º melhor clima do mundo – como gostam de repetir, com orgulho, os moradores –, é uma daquelas cidades do interior do Rio de Janeiro que não pareceriam deslocadas se fossem cidades do interior de Minas.

Roadie do Nando Reis, violeiro, fotógrafo amador, ex-engenheiro de som, ex-produtor e é claro, ex-guitarrista da Plebe Rude. Jander Ribeiro, um sujeito grande e forte, de fala pausada e barba desgrenhada capaz de fazer inveja em muitos Hermanos, morou aqui por 16 anos. Não mora mais. Depois do término de seu casamento com a "menina mais bonita" citada na letra de "2ª feriado" (do terceiro disco da banda), mudou-se para São Pedro da Serra, em Nova Friburgo, mantendo assim a preferência por locais afastados dos grandes centros urbanos. Suas visitas à Mendes, hoje em dia, restringem-se a ocasiões esporádicas, como quando vem visitar as filhas Carina e Bianca, de 17 e 13 anos.

"Não fui eu quem escolhi morar em Brasília. Não foi vontade minha". Mineiro de nascimento, Jander, que já havia morado na capital por volta de 1974, mesmo sem querer, voltou à Brasília em 1980, período de efervescência de um cenário punk no país. Tornou-se amigo da "Turma da Colina", da qual faziam parte, entre outros, futuros membros de bandas como Capital Inicial, Legião Urbana e Escola de Escândalo, além de André Mueller ("a discoteca da turma, o cara que adorava gravar compilações em k7 com umas duas músicas de cada banda e distribuir para os amigos"), Philippe Seabra e Gutje, a já formada Plebe Rude a qual "Ameba" ("isso é apelido de moleque mesmo, sem maiores razões") veio se juntar, ainda que não soubesse muito bem tocar guitarra. "Muita gente olha pra mim e pensa ‘esse cara é o maior roqueiro’, e eu nunca fui roqueiro! Eu nunca tive um disco rock, e muita coisa eu vim a conhecer bem mais tarde, com meu irmão Julian, que é uns 10 anos mais novo que eu. Eu nunca soube tocar guitarra e acabei tocando numa banda punk, já que pra ser punk não precisava saber tocar. Eu era punk não pela música, mas por questões ideológicas", garante.

Músicas como "Até Quando Esperar?", "Proteção", do mini-disco O Concreto Já Rachou (1985) e "Censura", de Nunca Fomos Tão Brasileiros (1987) tornaram a banda conhecida em todo país. Não repetindo o sucessos dos primeiros discos com Plebe Rude III (1989), repleto de experimentações como a mistura de ritmos regionais em faixas como "Valor" e "Repente", por exemplo, a relação entre os membros da banda se tornou tensa e Jander, já morando em Mendes e tendo sido pai há pouco tempo, acabou "convidado a sair". Pouco depois montou o Tira Saibro, grupo com o qual se apresentou durante 6 anos em bares, comícios e em "onde mais tivesse espaço", tocando o que pedissem. "No nosso primeiro show, em Valença, o cara que contratou teimou que queria ouvir só bossa nova, e foi lá a gente tocar bossa nova a noite inteira".

Fez direção de palco para Lulu Santos, trabalhou como roadie para Fernanda Abreu, Engenheiros do Hawaii, Pato Fu e Gabriel, o Pensador. É melhor estar à frente de um palco ou nos bastidores? Jander garante que não gostaria de estar nem em um lugar nem em outro. "Parei de estudar no 1º ano. Não me especializei em nada. Isso é o que eu sempre fiz, é só o que eu sei fazer. O showbussines é ingrato. Ninguém faz o mesmo sucesso por anos. Eu trabalhei com o Gabriel quando vendeu 1 milhão de cópias e… cadê ele?! Nem faz tanto tempo assim!(…) Se pudesse, estava fora! Quando puder… estarei. Já foi meu tempo!"

Em 1999 a Plebe Rude ensaiou um breve retorno com a formação original, que rendeu o disco ao vivo Enquanto a Trégua Não Vem, em 2000, e alguns poucos shows ("uma lona cultural sei lá onde hoje, uma outra daqui a 15 dias… uns poucos shows bons em Brasília onde deu pra tirar um dinheirinho…"), mas a participação de Jander ficou só por aí. "Enquanto Philippe recebe a pensão por conta dos trabalhos do pai dele e o André tem um emprego no banco, com mobilidade pra sair uma sexta-feira mais cedo e viajar pra tocar, eu sou duro. Eu era duro. No começo era só um projeto: a gente toca, grava um ao vivo, faz uns shows. E mesmo com as poucas apresentações dessa época, os caras teimaram que dava pra fazer coisa nova. Isso eu não quis. Saí fora.".

Há quem considere esse retorno da Plebe em 1999 como um dos primeiros sinais de um movimento de revival dos anos 80 no Brasil. "Eu acho muito estranho esses caras com seus 40 anos fazendo a mesma coisa que faziam aos 18, tendo a mesma atitude que tinham há 25 anos atrás. Pegam o que era pra ser anti-comercial na década de 80 e como não sabem fazer mais nada, tentam ganhar um dinheiro com isso agora.". Perguntado se aplica a mesma opinião à Plebe, pensa um pouco, olha para os pés, coça a barba e diz que sim, "com a diferença de que pelo menos eles tentam fazer alguma coisa nova".

Enquanto seus ex-companheiros batalham a divulgação de R ao Contrário (novo disco da Plebe que trouxe Clemente, dos Inocentes, no lugar de Ameba), Jander, que tem aprendido desenho e que, tendo a fotografia como hobby, recentemente vendeu alguns cartões-postais de Nova Friburgo ("Tem que ser hobby mesmo! Minha máquina está ruim e uma boa nova custa uns R$3000! Teria que vender uns mil cartões pra comprar uma máquina boa e poder levar a sério!"), diz que tem como plano montar um bistrô ("para vender artesanato e comidas típicas") ao lado da namorada, artista plástica, com quem passou as férias vendendo tapioca numa barraca montada nas ruas de São Pedro da Serra. "Sempre estive mais para ‘Jander do interior’ do que para ‘Jander da cidade’".

Se o fato de não ter ouvido R ao Contrário pronto (e nem demonstrar qualquer pressa em fazê-lo) não chega a surpreender, os fãs mais radicais, aqueles mesmos que, ainda hoje, criticam Plebe Rude III, devem torcer o nariz ao descobrir as preferências musicais atuais de Jander: "O que eu tenho ouvido? Tonico & Tinoco! Conheço pouco mas acho maravilhoso! Os caras por aí endeusam… Chico Buarque, mas o cara hoje em dia está cheio de coisas que não dá pra ouvir! Tonico & Tinoco foram os maiores artistas brasileiros, com mais de… sei lá… 800 músicas gravadas!"

Ele tem fama de mal humorado, mas… desfrutando de um momento de sossego após três dias de estrada, talvez esteja cansado demais para demonstrar seu tão falado mau humor. Trabalhando muito desde agosto, quando começou a turnê de Sim e Não (disco mais recente de Nando Reis), "Jander do Interior" fez o trajeto Rio de Janeiro/São Paulo/Ribeirão Preto (onde Nando se apresentou na quinta-feira, 26 de outubro), foi para Recife (onde Nando tocou no dia seguinte, 27 de outubro) e então voltou ao Rio, para poder, finalmente, aproveitando a pausa para as eleições, visitar suas filhas em Mendes.

Alheio ao posicionamento político que consagrou a banda da qual fez parte durante a década de 80, Jander de hoje, na véspera das eleições de segundo turno, não sabe em quem vai votar. "Devo votar no Lula mesmo. Não sei ainda.", diz, deixando sua voz transmitir uma certa insegurança, comum a muitos outros eleitores.

Jander Ribeiro nunca foi tão brasileiro.

Domingo, Outubro 29, 2006

Entrevista Matanza*


Lançando seu quarto CD - ou terceiro, se desconsiderarmos o To hell with Johnny Cash, dualdisc lançado ano passado, só com músicas do countryman - a banda carioca Matanza continua fazendo um som muito, mas muito pesado, mistura total de country, metal e hardcore. O discurso continua politicamente incorreto e irônico, repleto de belas sacadas e boas histórias. A diferença é que o a fórmula aparece bem mais aprimorada em A Arte do Insulto. Batemos um papo por telefone com o vocalista Jimmy, que falou um pouco sobre o disco novo, as expectativas para os novos shows (a turnê da banda já está rolando), o amadurecimento do Matanza (cujo discurso, num país repleto de fãs de rock acostumados com letristas-gurus, corre o risco de ser levado a sério demais) e, como não podia deixar de ser, no caso de um grupo que vem divulgando seus novos clipes no YouTube, sobre internet. Leia aí:

O Matanza já gravou quatro CDs. O que a experiência em estúdio trouxe de melhor para a banda e no que o trabalho em estúdio deste disco diferiu dos anteriores? Cara... foi do caralho mesmo. A gente continua desde o primeiro CD com a mesma equipe: tem o Rafa na produção, desde o começo, e vai ser até o fim; o Jorge Guerreiro trabalhando também desde o primeiro disco. Na verdade, eu diria que é mais do que a nossa própria experiência. É a de uma equipe inteira, que tá gravando o Matanza há seis anos. Te falo que esse disco novo é o mais próximo que chegamos do som que quisemos fazer. Mudamos algumas coisas, alguns captadores... Mas nossa preocupação não é a de fazer um peso acurado, é a de fazer uma massa sonora que passaria mais a nossa intenção. Quando pensamos o disco, dissemos: “vamos fazer uma maçaroca podrenga mesmo, amassada!” (rindo)

Você disse que o Rafael Ramos é pra sempre. Nunca rolou a idéia de trazer algum gringo pra trabalhar com a banda? Ou de ir lá pra fora gravar? Olha, eu já falei isso até pra alguém que me perguntou... O dia em que o Rick Rubin quiser gravar a gente, mandamos o Rafa tomar no c* (risos). Mas enquanto isso não acontece...

Uma pergunta que você já deve ter respondido bastante nos últimos dias: a letra da faixa-título é endereçada a alguém? Quando me perguntam isso, eu levanto o braço e mostro: "A todos!". Quem não é um verdadeiro imbecil, não é? Inclusive a gente...

Outra que você já deve ter respondido direto: se você puder escolher algo ou alguém para insultar hoje em dia, quem você escolheria? Ah, um manezinho que fica ali no Palácio do Planalto, que neguinho chama de Presidente (risos). Esse eu insulto com prazer!

Quais têm sido as maiores influências do Matanza na atualidade? Andei lendo que você gosta de Pogues, música irlandesa em geral. Com certeza. Temos ouvido The Dubliners, Pogues, Floggin Molly, muitas coisas irlandesas. "Estamos Todos Bêbados" (que fecha o disco) é inspirada no lance irlandês mesmo. Foram quatro litros de uísque para gravar, até por isso mesmo (rindo). Para gravar, chamamos o Rick Ferreira (banjo), o Carlos Malta (flauta), foi um lance bem legal.

Você tem idéia de quem é o público do Matanza atualmente? A banda agrada ao pessoal mais radical que curte som pesado ou pega uma galera de cabeça mais aberta? Eu acho que o Matanza consegue falar com todo mundo que tem culhão. Mulheres com culhão (risos), homens com culhão, gente de camisa preta, verde, branca... De repente até gente de camisa rosa com culhão (risos). Contanto que seja uma pessoa que tenha atitude. A gente só não vai conseguir falar com quem tem falta de atitude, gente devagar, que fica blasé, deprimida, com sentimento de indefinição... Pensamos nas três coisas básicas, que são comer, foder e cagar.

Esse comportamento blasé tem sido maioria no rock atualmente, por sinal... Pois é, verdade. Mas daqui a pouco eles vão se tocar, ficar mais velhos, começar a ouvir música de homem.

O Matanza tem quase todas as suas músicas compostas pelo Donida. Como é o trabalho em conjunto dentro da banda? As músicas nascem de conversas de vocês? Na verdade, o que rola é o seguinte: quando vamos compor, ficamos sentados no bar bebendo e falando merda. Se alguma merda que a pessoa falar, rimar, ele dá metade da música para a pessoa que rimou. Se ele tiver que arrumar as palavras de alguma maneira, aí ele diz: “não, desculpa, mas travei". Na real, quem fala tudo sou eu, ele só põe as letras no lugar (risos).

O que você achou do desempenho do dualdisc do Matanza? Do caralho, velho. O disco do Johnny Cash foi a coisa mais séria, mais maneira, que fizemos. Era uma coisa simbólica, um acerto de contas importante. A idéia era mostrar o que é o Johnny pra nós, mostrar que se não houvesse Johnny Cash não haveria Matanza. Foi a coisa mais marcante da banda, mostrou o que somos mesmo.

Mas em termos de vendagem foi bem? Foi legal, levando em conta que era um produto mais caro que um CD... Não sei os números direito, nem procuro me envolver muito com isso, mas o disco se deu bem.

Aliás, e o tal DVD da série MTV Apresenta? Não vai sair, esse projeto acabou dentro da MTV, não existe mais. Não foi muito bem lá no começo do ano passado e eles desistiram. Na verdade, levando isso em conta, talvez tenha até sido melhor que não tenhamos feito mesmo... Mas temos mesmo que fazer um DVD ao vivo. Em algum momento, mais cedo do que se imagina, vamos fazer isso.

As letras do Matanza têm um discurso bem irônico, que fala de violência, de bebedeira etc. Você acha que existe a hipótese da banda atrair um dia um público que de repente não enxergue essa ironia e leve isso a sério? Olha, véio... acho que pode rolar isso sim, de pegarmos um público que leve isso a sério. Mas pode rolar que a gente consiga incutir neles essa ironia, que quebre esse astral radical das letras. Na verdade, neguinho entende as paradas da maneira que quer e sempre tem alguém que entende as paradas de maneira errada. Pode até acontecer de colar uns malucos meio esquisitos no show, mas depois nego se toca.

De repente alguém que pegue uma música como "Meio Psicopata" (do disco novo) e ache que aquilo é a vida de vocês... Pô, se nego achasse que depois de quatro discos a gente vive desse jeito, não estaríamos mais vivos (risos).

Aliás, até onde vocês iriam para divulgar o som da banda? Existe a possibildade de vermos o Matanza num Domingão do Faustão, por exemplo? Pô, eu iria ficar amarradão. Brother, imagina se o maluco me desse uma chance, de aparecer na TV e falar pra todo mundo que "devo nada pra ninguém, bebo se eu estiver a fim, a minha vida é minha e a sua que se foda" (risos)...

O Matanza teve clipes lançados no YouTube. O que você acha do sistema e dessa perseguição da ABPD a quem baixa música da intenet? Eu acho que, na verdade, a gente tem que discriminar os dois lados da pirataria. Tem a pirataria brasileira, que é a do maluco ladrão que compra uma impressora de CD, copia o disco, vende o CD por 4 reais... Esse cara tem que ser preso. Já o cara que troca arquivos pela internet... Olha, isso é assunto pra dez dias, mas só posso te dizer que isso é do caralho e que quem acha que não é, tá maluco. A maneira que as pessoas vão ter que arrumar para se virar, isso alguém vai ter que resolver. Quanto ao YouTube, é do caralho. Estamos fazendo a turnê de lançamento e mesmo as pessoas que ainda não têm o disco, conhecem as músicas do CD novo que tocamos no show. O cara que fez o YouTube ainda provou que dá pra ganhar dinheiro com internet, você vê o lance da venda pro Google (rindo).

E como está o show novo? Estamos tocando música pra caralho! O show tá bem grande, estamos ralando pra cacete, são 23 músicas, tem música de todos os discos. Tá maneiríssimo, eu estou me divertindo muito. Quem for num show nosso não esquece.

* publicado em Rock Press

Yeah Yeah Yeahs


"SHOW YOUR BONES" - YEAH YEAH YEAHS (Universal)

Já houve quem comparasse o som dos novaiorquinos do Yeah Yeah Yeahs com tudo, até com sexo. Hypes a parte, dá para enxergar neles uma ótima banda de rock´n roll, tanto no EP Master (2002) quanto no CD Fever to tell (2003, o primeiro lançado aqui) e agora em Show your bones, novo disco. Teoricamente, não haveria muito o que dizer sobre o trio se eles permanecessem sendo considerados um sub-Strokes - coisa que as cinco faixas do primeiro EP até davam a entender. Mas a evolução da banda de Karen O (vocais, piano, "omnischord"), Nick Zinner (guitarra, teclados) e Brian Chase (bateria, percussão, guitarra) é gritante.

O som dos dos discos anteriores da banda era bem mais sujo e tosco - no caso do primeiro EP, bastante tosco, dando uma cara praticamente punk ao grupo. Era bom, e era algo condizente com uma banda que tem uma vocalista enérgica como Karen O e que tomou atitudes como abolir o baixo em sua formação. Pra quem nunca ouviu, o gupo não tem nada a ver com os White Stripes, que também não usam baixo. O que na dupla de Jack White soa como molecagem adolescente - e até chama a atenção para a falta do instrumento - aqui soa como um convite para conhecer outras maneiras de se produzir ondas sonoras graves. No caso de Show your bones, guitarradas explodem na cara do ouvinte (acompanhadas de berros de Karen O) em "Mysteries", assim como teclados, ecos e efeitos de estúdio tomam o lugar das quatro cordas em outras canções - caso de "Dudley" e "Fancy".

Show your bones continua punk no título e nas letras, mas chama o ouvinte para conhecer uma banda em estágio amadurecido, evoluída dentro de sua proposta tosca original. O Yeah Yeah Yeahs já era uma banda formada por bons fazedores de canções, unindo punk e new wave a garage rock dos bons - os pré-punks dos Stooges e grupos mais modernos como Pixies e Jon Spencer Blues Explosion eram grandes referências. No CD novo, o Yeah Yeah Yeahs busca fazer o mesmo tipo de modificação feita, só para citar um exemplo, pelo Black Rebel Motocycle Club em seu mais recente CD, Howl: apostar em tons mais acústicos e que unem soul, blues e rock ("Gold lion" abre o disco assim, e a folk "Warrior" retoma a linha lá pelo final), mas sem dispensar a sonzeira habitual. "Way out", faixa subsequente, dá na pinta de ter sido composta com vistas a se tornar a canção pop perfeita da banda - com um quê de soul, combinação ruído + beleza, etc. "Fancy" impresisona pelo peso quase metálico, sem deixar de acenar ao rock de garagem. Nessa e em várias outras faixas, Karen canta como uma Siouxsie moderna.

Seguindo até o fim, surgem boas, pesadas e elaboradas faixas como "Phenomena", "Honey bear" (com balanço quase punk-funk - estilo, por sinal, da banda punk que dez entre dez bandas de hoje em dia adoram imitar, o Gang Of Four), a quase-psicodelia ruidosa de "Cheated hearts", o punk mod de "Mysteries" e a brincadeira com ambientações sonoras de "Turn into" - uma canção pop que parece ter sido gravada em diversas partes de um estúdio, criando sonoridades diferentes para levadas de violão, guitarras, teclados, etc. Pode conferir!

Quinta-feira, Outubro 26, 2006

Rui Motta

Como é público e notório, eu trabalho num portal sobre a minha cidade, o Nitideal. Lá tem uma seção chamada "Personagem", sobre pessoas da cidade, de qulquer área - já foram entrevistados lá desde o garçom mais antigo do Monteiro (tradicional restaurante da cidade) até o Sérgio Mendes. Dessa vez, entrevistei o Rui Motta, que foi baterista da fase progressiva dos Mutantes e está lançando livro.


Nascido em Niterói, o baterista Rui Castro Motta é uma figura bastante conhecida do rock nacional dos anos 70. Tocou em pelo menos um grupo que se tornou uma verdadeira lenda, o Veludo - cujos postos de guitarrista foram ocupados por nomes como Paul de Castro e Lulu Santos - e passou também pelas últimas formações do maior nome do rock brasileiro da época, os Mutantes. Hoje, aos 55 anos, morando no Rio, ele lança o segundo volume de seu livro, Curso de divisão rítmica.

- Mas não é um livro só para bateristas. - explica Rui. - Você tem divisão rítmica em qualquer instrumento que você toque, seja bateria, seja harpa, trombone, etc. O livro explica isso a nível prático. Você pode até abrir o livro, pegar os CDs que vêm com ele, escutar e ficar tocando em cima da mesa, nem precisa de instrumento.

Rui fez parte de uma geração que conheceu o rock com os Beatles. Começou a tocar quando ainda morava no Centro de Niterói, na avenida Visconde de Rio Branco, aos 13 anos. Seu avô e seu pai eram fâs de grupos como The Platters e de cantores como Nelson Gonçalves e Paul Anka.

- Lembro de ter uma vitrola em casa, que meu pai usava no fim de semana o dia todo. Fora isso, eu não tinha muitas referências musicais, parentes músicos, etc. Tinha só meu avô, que era pintor de paisagens e, no intervalo entre um trabalho ou outro, pegava no violão. - diz Rui, cujos filhos também não deram pra música. - Vamos ver agora se meus netos gostam da coisa! (rindo).

Seu contato com o instrumento se deu como a maioria dos grandes bateristas: por conta própria.

- Não tive base técnica. Lembro que conheci a bateria com os Beatles e um dia meu pai me deu um tarol. Eu estudava no Liceu Nilo Peçanha e me inscrevi na banda da escola. Eu me amarrava, os dias de ensaio eram os melhores da semana. Me dava uma energia indescritível. - diz Rui, que até então só tinha visto baterias em fotos de revistas. - Eu imaginava que daria para tocar aquele instrumento, já me imaginava tocando. Aí um dia enchi o saco do meu pai e ele me deu uma bateria.

Naquele período, lembra Rui, o espaço que as bandas tinham tocar era nos bailes.

- Isso era todo fim de semana. Era uma época em que os fâs de rock não iam para shows, iam para o baile dançar. Aí em Niterói havia bandas como Os Lobos (que revelou Dalto). Só depois vieram os primeiros concertos de rock, já no fim dos anos 60. Montei então o grupo Sociedade Anônima, que ficava entre o Rio e Niterói. O tecladista da banda, Paulo Machado, tinha uma casa no Jardim São João, e ensaiávamos lá. - rememora o baterista.

O Sociedade chegou a gravar um single pela Som Livre e a ter músicas em novelas e discos de festivais. Depos, Rui participou de bandas como Veludo e Mutantes. Esta última, Rui integrou a partir de 1973. Nesse período, o único integrante da formação original era o guitarrista Sérgio Dias - Arnaldo Baptista (teclados), Rita Lee (vocal), Liminha (baixo) e Ronaldo Leme (bateria) haviam debandado. Foi uma fase mais devotada ao rock progressivo, que gerou dois LPs pela Som Livre, Tudo foi feito pelo sol (1974) e Ao Vivo (1976). Essa fase dos Mutantes quase voltou há pouco tempo - Rui chegou a se encontrar com Sérgio Dias e com alguns ex-integrantes do grupo para tocar, mas Sérgio acabou preferindo voltar com a primeira fase da banda, trazendo Arnaldo, Dinho e, como substituta de Rita Lee, Zélia Duncan.

- Lembro de shows memoráveis que demos, eram experiências muito fortes, tanto pra banda quanto pro público. Sei de várias bandas que foram formadas após verem nossos shows. - relembra. - A gente sempre tinha que fazer duas sessões dos shows, porque muita gente ficava de fora. Em São Paulo, lembro do Secretário de Segurança indo lá pra verificar. Era uma época tão diferente, que lembro da gente chegando para dar um show em Chapecó (SC) e ouvíamos as pessoas perguntando se a nossa aparelhagem era para algum programa de rádio. A gente respondia: "não, é que vai ter um show de rock..." e eles: "mas o que é show de rock?" (rindo)

Após o fim definitivo dos Mutantes, Rui fez de tudo um pouco: tocou com vários cantores (como Ney Matogrosso, Zé Ramalho e Marina Lima), montou outras bandas (como Via Láctea e Trapézio) e também desenvolveu carreira solo, gravando discos como Mundos Paralelos (Niterói, 1992), Rui Motta (Gama Music, 1998) e o mais recente Ilusão motriz (independente, 2003). Costuma também dar workshops e montou há pouco tempo, sua escola de bateria, que funciona no Rio, na Rua Fonte de Saudade, 171, Lagoa.

- Comecei também a escrever livros em 1992, quando saiu meu primeiro livro, o Bateria em todos os níveis. Isso me levou a montar uma banda, a Rui Motta & Banda. Hoje estou sem produtor e não estou dando shows, mas adoro fazer workshops, descobri que era uma coisa que adorava fazer. - diz Rui, que recomenda nunca parar de estudar. - Nunca tive educação formal, mas busquei uma auto formação, sempre fui curioso. Ia em bibliotecas, comprava métodos de música. Tive que batalhar muito por minha formação. Isso foi legal porque sempre toquei do meu jeito. Tanto que costumo dizer que não tive exatamente um ídolo. Todos os bons bateristas que eu ouvia eram meus ídolos, cada um por causa de uma coisa.

Foto: Divulgação.

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

Cê foi mór rata comigo


"CÊ" - CAETANO VELOSO (Universal)

O modus operandi de Caetano Veloso causa mais discussão do que sua própria música - como se o discurso que está por trás de seus discos falasse mais alto que seus próprios discos. Traduzindo para os leitores: Caetano quer mesmo é chamar atenção. Quer que a imprensa fique discutindo dias e dias a fio o seu último lançamento. A música fica em segundo plano. Às vezes, mesmo assim,a coisa dá certo - e ele até passa por intelectual, coisa que até que ele é. Às vezes, não acontece nada disso.

, o (perdi a conta)º disco do cantor baiano, já está chamando a atenção por suscitar discussões por aí afora, sempre com um único tom: isso é rock? Pois é, vamos aos fatos. Caetano, um cantor e compositor que tem passado os últimos tempos em estado de suspensão (Circuladô Vivo, disco duplo ao vivo de 1992, foi seu último lançamento que realmente prestou - e nem era um disco de inéditas) resolveu - vá lá - pelo menos mostrar que não está tão morto assim. E isso em todos os sentidos. Após acabar seu casamento de vários anos com a empresária Paula Lavigne, ele dediciu recrutar os amigos do filho Moreno Veloso - já vinha trabalhando com alguns deles, aliás - e tentou mostrar que vem se atualizando musicalmente. A coluna Gente Boa, do jornal O Globo, já andou denunciando (opa!) que o baiano chegou a comprar discos do Franz Ferdinand, novidade roqueira que o povo indie, pelo menos até dois minutos atrás, adorava.

Diga-se de passagem, Caetano nunca foi muito feliz na aproximação com o conceito rock, em momento nenhum de sua carreira. O Tropicalismo tinha muito de rock - por intermédio das guitarras de Lanny Gordin (artífice da sujeira na guitarra, no período) e Sérgio Dias, dos Mutantes. Mas só isso. O par de discos de Caetano lançados em 1968 e 1969 cheira a MPB. Gilberto Gil, até por suas poucas limitações técnicas e por sua disciplina bem mais rígida ao conhecer e estudar música, sempre lidou bem melhor que Caetano com os signos pop. Dois momentos em que Caetano se roçou no rock devem estar frescos na memória de muita gente: 1) o disco Velô, de 1983, que ele falou que era "meu álbum mais rocky" e trazia a equivocada e quilométrica "Podres poderes" - com instrumentação providenciada por músicos do vnaguardista paulistano Arrigo Barnabé; 2) o dia em que ele, aboletado na cadeira de entrevistado de João Gordo, no Gordo A Go-Go da MTV , deu pancadinhas na mesa e bradou: "SE HOJE EXISTE SEPULTURA AGRADEÇAM A MIM!!! A MIM!!". Lamentável.

Dessa vez, Caetano quis chamar MESMO a atenção. Da imprensa, ao posar de "apenas mais um membro da galera" (a galera: o guitarrista Pedro Sá, o baixista Ricardo Dias Gomes e o baterista Marcelo Callado, além do filho Moreno, que produziu o CD). Da ex-esposa, ao adotar um discurso irônico em relação ao universo feminino ("Homem"), ao introduzir espetadas nas letras ("você não vai me reconhecer quando eu passar por você", em "Outro", aquela em que ele fala que está "feliz e mau como um p** duro"), etc. Dos críticos de plantão, ao inserir gírias de gosto duvidoso (o "você foi mór rata comigo" de "Rockz") e misturar retóricas quase cinema-novistas ("O herói") com discursos sem sentido ou adolescentes - na mesma faixa, Caetano faz uma defesa da luta social e racial que soa como se Chorão, do Charlie Brown Jr., tivesse resolvido ler as obras completas de Sérgio Buarque de Hollanda. É o tal "discurso da incoerência" ao qual já vi até um conhecido produtor de rock brasileiro se referindo - de acordo com a teoria do tal produtor (que deve estar certo), se mantém no rock nacional quem ainda alude a uma certa incoerência, a uma certa "liberdade". Caetano está aí desde 1966 fazendo mais ou menos isso. O duro seria explicar a ele que existem outros caminhos.

, longe de qualquer discussão sobre "isso é rock ou não é?", é um bom disco. Caetano conseguiu, como talvez nunca tenha aventado, se aproximar muito bem do conceito rock - seja na capa, uma citação barata de Waiting for the sirens call, do New Order, seja em "Rocks", que (vá lá), até insere Pixies no caldeirão de sonoridades do cantor, graças a palhetadas e conduções de baixo-bateria que remetem a "Gouge away", "Debaser" e outros clássicos da banda de indie rock - mas, claro, sem metade do peso do original. "Minhas lágrimas" tem o mesmo lado estradeiro e nostálgico que pode ser encontrado em bandas como Black Rebel Motorcycle Club, Raveonettes e os próprios Pixies. Em outros momentos, o lado roqueiro se despede e a baianidade, no que isso tem de bom e de ruim, toma conta, em músicas como "Musa híbrida", canção na qual Caetano mostra a mesma "mão" para compor que já apresentara em "Não enche", do Livro. E isso não é bem um elogio.

O lado experimental de outras investidas de Caetano surge forte em "Wally Salomão", música em homenagem ao poeta baiano, falecido em 2003 - uma condução marcial, percussiva,que já houve quem comparasse com os esquisitões do Ween, mas que tem a ver mesmo é com Noites do norte. Tem ainda o amor/ódio da boa "Não me arrependo", outra alfinetada em Paula Lavigne, que soa como molecagem, sentimentalismo barato, mas com ótimos versos - "não, nada irá nesse mundo apagar o desenho que temos aqui/nem o maior dos seus erros, meus erros, remorsos, o farão sumir". De qualquer jeito, um sentimento que, para quem quer demonstrar renovação e juventude, soa mais como rancor bobo, falta de noção. Daqui a pouco só falta algum gaiato falar em MPBEmo. E olha que não é difícil. Até lá resta falar que merece uma boa audição. E uma boa zoação, pra não perder o hábito.

* publicado em Nitideal.

Domingo, Outubro 08, 2006

Beatles N Choro


"BEATLES N' CHORO" - VÁRIOS (Deck Disc) *

Sim, o samba e o choro têm chance de ir além da "música de raiz", como prova este relançamento. Beatles N'Choro, projeto lançado originalmente em 2003 - em quatro CDs - foi idealizado por ninguém menos que Renato Russo, que deu a idéia para o cavaquinista e produtor da casa de shows carioca Rio Scenarium Henrique Cazes. Quando os discos chegaram às lojas, em separado, Henrique fez questão de manter o crédito para o líder da Legião Urbana. Agora os quatro CDs voltam em edição luxuosa, numa box set bem bacana, coisa rara de se ver em edições nacionais. Aproximações do choro com a música pop não faltaram nos últimos tempos - a Cor do Som arrumou motivos para viver em torno disso, o Vímana (banda antiga de Lobão, Ritchie e Lulu Santos) tentou mesclar choro e rock progressivo (sem o menor suingue, dizem várias testemunhas) e até mesmo os Beatles já haviam sido tema de um disco anterior, dos anos 70, O regional brasileiro na música dos Beatles.

Nunca ouvi esse disco, mas renovar a obra dos quatro de Liverpool como Henrique Cazes e vários outros solistas (gente como Hamilton de Holanda, Rildo Hora, Carlos Malta, Quarteto Maogani, etc) conseguiram nessa série, é covardia, coisa pra gênio. O lance já começa no texto de contra-capa do primeiro CD, que explica aos desinformados que "choro é uma maneira de tocar, e não um ritmo". Ou seja: estaremos livres de aturar frankestensteins sonoros, ou um simples "Beatles em ritmo de samba". Cazes & sua gang foram além, colocando vários outros ritmos no linguajar dos Beatles - polca, valsa, maxixe, lundu, forró, galope nordestino, etc. - criando um chorinho pop.

Os músicos transitam tão bem entre os dois espaços (choro e pop, ou rock) que criaram um trabalho em que, antes de qualquer coisa, o humor é a palavra chave. Dá pra se divertir um bocado ouvindo o sambão "I feel fine", o choro experimental "Come together", o nostálgico maxixe "Honey pie", a bem-humorada "Help" (que abre o projeto), todas com a gaita de Rildo Hora, o bandolim de Hamilton de Holanda, o clarinete de Paulo Sérgio Santos, a flauta e o sax de Carlos Malta, etc. Tem a violada nordestina de "We can work it out", o sambinha-rock de "We can work it out", o samba à Novos Baianos (é o encarte que diz) de "Got to get you into my life", a emoção de "The long and winding road", a polca de "Martha my dear", etc. Rildo Hora, na gaita, emociona especialmente no volume 4, com "Let it be" e "She loves you". Genial. E antes que você me pergunte: não, ninguém releu "Helter skelter". Nem "Revolution 9".

* publicado no International Magazine.

Domingo, Outubro 01, 2006

Serge Gainsbourg revisitado


"MONSIEUR GAINSBOURG REVISITED" - VÁRIOS (Universal)

Com Monsieur Gainsbourg Revisited o raciocínio fecha. Se alguém tinha alguma dúvida, fica claro que o tal "indie rock" (as bandas que tocam por aqui nos Tim Festivals da vida, além da porrada de grupos que surge de uma hora para outra lá fora) tem mais a ver com um conceito chique, classe A (até "lounge", diriam alguns) de música do que com qualquer outra coisa. Afinal, música francesa, ainda que feita por um sacana de marca maior como Serge Gainsbourg, não é pra qualquer um. Não é pra qualquer ouvido, não é pra qualquer ouvinte.

Produzido com apoio da revista musical francesa Les Inrockuptibles - um dos mais longevos e celebrados títulos de lá - Monsieur Gainsbourg Revisited traz artistas do rock europeu e norte-americano mandando bala nos clássicos do cara. Em inglês, naturalmente - o romancista Boris Bergman encarregou-se de fazer as traduções e de, igualmente, fazer com que algumas músicas perdessem certo clima. Já entregando de cara: a versão de "Je t'aime (mon noi plus)" nas vozes de Cat Power e Karen Elson virou "I love you (me either)" e perdeu boa parte da graça e quase 100% da sensualidade do original - como se nenhuma das duas tivesse, vamos na grosseria, jeito de vagaba o suficiente para mandar bem na música. Clima de sacanagem, de música de motel, rola na eletronice de "Au revoir Emmanuelle", com Tricky, e, lógico, na versão de "Réquiem for Anna", com o Portishead. E, um pouco, na participação de Jane Birkin (ex-esposa de Gainsbourg) na pesada e ágil versão do Franz Ferdinand para "Sorry angel" (que virou "A song for Sorry angel").

Como o Discoteca Básica não é a Revista Sexy, vale esqueçar o lado punheteen das gravações e cair de boca (opa!) logo na área musical. Seguindo a linha eclética do próprio Gainsbourg - o cara que levou a música francesa a conhecer os caminhos pop - o disco inclui de eletrônicos a roqueiros, sempre numa seleção que tenha a ver com o homenageado, mantendo a classe. Pop vagabundo ficou de fora, até pelo fato da Les Inrockuptibles estar no meio - se bem que depois que até Beyoncé e a fase hip hop de Nelly Furtado andaram ganhando elogios de certos críticos, valeria até ver o que as duas iriam fazer com as músicas do cara.

No time eletrônico, se encontra boa parte do álbum, em versões do trio Gonzales, Feist & Dani - que cantam "Comme un boomerang" nomeada como "Boomerang 2005" -, do já citado Tricky e até de Marc Almond & Trash Palace, no batidão "Boy toy", que versiona "I'm the boy". Marianne Faithfull, cuja voz a coloca bem próxima do trabalho desenvolvido por Gainsbourg (ainda que, com o passar dos tempos, seu timbre tenha se tornado bem diferente) aparece no disco acompanhada pelos reis do dub, Sly & Robbie, na piração "Lola R. for ever" - vale lembrar que Gainsbourg curtia o ritmo, tendo feito até versão reggae da "Marselhesa".

Já a galera do rock se permitiu uma experimentaçãozinha, como os timbres eletrônicos da versão do Placebo para "Ballade de Mellody Nelson" - com Cozette, cantora francesa e esposa do produtor dessa faixa, Dmitri Tikovoi. Brian Molko, do Placebo, volta acompanhando Faultline e Françoise Hardy em "Requien pour un con", que virou "Requiem for a jerk". Os Rakes vieram com um rock´n roll oitentista, quase new wave, em "Les poinçonneur des Lilas" (que viou "Just a man with a job"). The Kills cria um clima sensual e soturno em "La chanson de slogan", que virou "I call it art".

De pop francês, fora as participações discretas das musas Birkin, Hardy e Cozette, tem Carla Bruni, aquela da maleta "Quelqu'um m'a dit" (da novela Belíssima) numa faixa com cara de música bônus, "Ces petits riens" - traduzida da mesma forma para o inglês, "Those little things". Como em qualquer tributo, Monsieur Gainsbourg Revisited é uma experiência curiosa, que vale dar uma escutada - mas vale igualmente dar uma experimentada no programa p2p ou no blog de mp3 mais próximo, antes de realizar a compra final.