Quinta-feira, Novembro 30, 2006

Katarse / Ventura S.A / Cumbaquê / Homens do Pântano / Tubarão em Chamas / Brasil Papaya


"A PROSAICA ONIPRESENÇA DA CRIATURA" - KATARSE (Independente) - Ô doideira, esse tal de Katarse. A banda paulista já havia aparecido aqui anteriormente com o CD a Monstruosa panacéia de bodisatva. O disco novo une folk rock e experimentalismos, com letras poéticas, músicas com "explicações" no encarte (vale contar a história das faixas, incluir letras de músicas que tenham a ver com a banda, etc), união total de Tom Waits, Arnaldo Antunes e Pixies (a banda americana nem é citada no release, mas é a primeira coisa que vem à cabeça em alguns momentos, como no caso de "Zzz..."). Não é o tipo de grupo que agrada a roqueiros radicais, nem a gente que queira ouvir bandas com cara muito definida - o Katarse une a seu som referências funk ("Funeral", na qual o vocalista T.Greguol convida os amigos para aproveitar seu último adeus), tons pop ("Lembrete", com violãozinho e estalar de dedos), e doideiras como a vinheta "Telutelinho"e o rock "Acorda", lembrando os Titâs dos anos 80. Há coisas muito legais, mas o excesso de intelectualismo e poesia talvez só chegue aos ouvintes depois da quinta audição (site: www.katarse.com.br).

"SEM CONTROLE OU DIREÇÃO" - VENTURA S.A (Highlights) - O nome desta banda paulista - formada por Ricardo (bateria), Nen (guitarra e "garganta"), Marothy (voz), Denis (baixo) e Peruka (guitarra e voz) - sugere um plágio do Los Hermanos. Mas não é nada disso. O grupo, até pouco tempo, se chamava Fuleiragem e tinha até aparecido na coletânea Surf Rock, da Deckdisc, com "Estranho mas real", bom punk rock com letra crítica e heranças musicais de bandas como Bad Religion. Em Sem controle ou direção, o primeiro disco, a banda destaca-se por investir em ótimas e pesadas músicas, sempre com refrões facilmente assimiláveis - lembrando gritos de guerra, em faixas como "Sem controle ou direção", "Hora do show" e a já citada "Estranho...". Uma ótima banda punk para engrossar as fileiras dos grupos brasileiros que militam ao lado do Dead Fish, abordando temas mais políticos ou existencialistas, em faixas como "Coração", "Todos têm o seu lugar" e "Sonho americano" (site da Highlights: www.highlights.com.br).

"O AR Q MOVIMENTA NO OCO PERFURADO" - CUMBAQUÊ (Independente) - A banda Cumbaquê conseguiu fazer uma boa conexão Rio-Minas. Começou gravando lá em BH e depois veio para o Rio concluir O ar q movimenta no oco perfurado com uma galera bem interessante - Jongui, Junior Tostoi, Mariana Eva - que incluiu o disco nas fileiras engrossadas por Lobão, Vulgue Tostoi, mim, etc. Música brasileira com toques de rock, eletrônica, samba, samba-rock, macumba, etc, com boa poesia nas letras. O disco acerta mais em momentos como o rock´n roll de "Pesado" e "Só", o rap-funk brazuca de "Vira o disco" e "Jornada" e, em especial, na lisergia eletrônica de "Oco" e "Negro y blanco", cheias de efeitos e boas guitarras - dando mostras de que o grupo soa melhor à medida que as composições mostram-se mais ousadas. (site: www.cumbaque.com.br)

"HOMENS DO PÂNTANO" - HOMENS DO PÂNTANO (Lama produções/Dub monster) - Vindos de Jacarepaguá, zona Oeste do Rio, os Homens do Pântano seguem uma linha associável (por vezes, associável demais, diga-se) à do Planet Hemp em discos como Usuário e Os cães ladram mas a caravana não pára: rap, guitarras (boas), uniões rock-rap-samba, uma trinca de MCs (ágil, diga-se) e letras que, ora parecem espertas, ora pecam demais pelo excesso de "se tu vacilá, vão te ganhá na atitude" (trecho de "Verdadeiro MC", faixa de abertura) ou de papos no estilo "eu sou o Rio". O saldo fica positivo ao entrarem o balanço legal e as guitarras meio psicodélicas de "Gravidade zero", além do samba-funk de "Aperte o play", mas fica a vontade de ver todo esse pessoal (são oito pessoas no time, incluindo um DJ, um cavaquinista/percussionista e um cara que toca cítara e oboé) fazendo um som mais diferente do que já foi feito no mesmo estilo. (e-mail: homensdopantano@gmail.com).

"RESSURREIÇÃO" - TUBARÃO EM CHAMAS (Independente) - O Tubarão não lançou um disco, lançou um kit - pelo menos para a imprensa, Ressurreição veio acompanhado de garrafa de cachaça, revista de história em quadrinhos (com a trilha de imagens das músicas) e versão em vinil (com capa dupla) do disco. Em termos de som, o Tubarão é associável ao heavy metal paulista dos anos 80 - até no projeto gráfico, que lembra bandas como Harppia e o Sepultura do começo. Com pouca produção na qualidade de gravação/mixagem, o CD soa como uma demo e mostra momentos interessantes em músicas como a progressiva "Viagem ao centro do útero" e a palhetada "Contato com Júpiter". Rola uma certa ingenuidade e amadorismo, embora tais pontos talvez estejam dentro da proposta da banda, pelo que o disco (e tudo o que o acompanha) dá a entender. Vale citar a boa qualidade dos músicos e do vocalista do grupo. (site: www.tubaraoemchamas.com.br).

"ESPERANZA" - BRASIL PAPAYA (Beluga/Tratore) - Que disco legal. O Brasil Papaya mostra que ainda dá pra fazer música boa sem necessariamente ser original, mas também sem recorrer na repetição. É só música instrumental, roqueira até a medula, mas com outras influências - desde o quase jazz-funk repleto de solos da faixa-título, até o tango roqueiro explícito de "Libertango", de Astor Piazolla. No meio tem ainda a patada flamenca de "Noyé", o som pesado de "Punkbone fighter" e "Kichute" e até uma sentida versão para "Cowboy", semi-inédita de Arnaldo Baptista - com participação de Rolando Castello Junior, da Patrulha do Espaço, na bateria. Não é um trabalho que possa ser colocado gratuitamente na gavetinha de "progressivo" - apesar de um momento ou outro até enganar - nem se assemelha ao normal que as pessoas imaginam da música instrumental (até por ser rock´n roll).

Unindo tramas musicais que se alternam entre guitarra-baixo-bateria e instrumentos como derbak e cavaquinho, o Brasil Papaya surpreende também pela ótima qualidade de produção (o trabalho gráfico é de primeira, incluindo um envelope com papel reciclado) e pelo fato de criar um trabalho requintado, mas acessível, que pode despertar a atenção de roqueiros sem preconceitos e de fâs de outros estilos musicais. Muito bom (www.brasilpapaya.com.br).

Terça-feira, Novembro 28, 2006

Discoteca Básica: The Early Years - Som Imaginário


Já que falamos no pré-clipe do Som Imaginário, segue abaixo resenha do primeiro disco deles, publicada aqui no blog em julho de 2003.

"SOM IMAGINÁRIO" - SOM IMAGINÁRIO (Odeon, 1970)

O QUE VOCÊ APOSTARIA
numa banda psicodélica formada por membros do grupo que acompanhava Milton Nascimento no fim dos anos 60? Pode apostar alto: os três únicos discos lançados pelo Som Imaginário (cujos músicos também acompanharam Lô Borges, Beto Guedes, Erasmo Carlos, Gonzaguinha e outros) são good trips garantidas. O primeiro, em especial, trazia um som mais pop, que misturava Beatles, psicodelia, rock progressivo, hippismo explícito e praticamente nada de MPB - destacando a criatividade de Frederyko, um dos melhores e menos reconhecidos guitarristas do Brasil, hoje sumido da mídia.

A formação que gravou Som Imaginário foi surgindo aos poucos, no fim dos anos 60. Wagner Tiso, que acompanhava Milton Nascimento desde o início de carreira (chegaram a montar, na adolescência, um conjunto de jazz chamado W Boys, graças à predominância na banda de rapazes com a inicial W no nome - Milton, que era o baixista, chegou a trocar seu nome para Wilton) se juntou a alguns músicos que tocavam com ele na noite carioca, como o baterista Robertinho Silva e o baixista Luiz Alves, e acabaram formando uma banda para tocar com o cantor mineiro. Antes disso, boa parte da formação do Som Imaginário podia ser encontrada no grupo de bailes Impacto 8, que tinha, entre outros, Robertinho e Frederyko. A banda não deu muito certo - Raul de Souza, trombonista e, em tese, líder do Impacto 8, desistiu do grupo após um show num Clube Militar em que todos os músicos simplesmente "esqueceram" de animar o baile para improvisar no palco.

Já contando com Wagner Tiso, Luiz Alves e Robertinho Silva, o Som Imaginário logo admitiria Frederyko, o percussionista Laudir de Oliveira (que não ficaria na banda) e mais uma dupla de compositores que também se destacaria no álbum de estréia: Zé Rodrix (órgão) e Tavito (guitarra-base e violão de 12 cordas). O grupo gravaria o LP de 1970 de Milton Nascimento e logo entraria em estúdio para registrar Som Imaginário, um dos mais interessantes lançamentos da música psicodélica brasileira. O disco tinha muito menos influências de MPB do que o pedigree dos músicos poderia fazer supor - mas havia a presença de Milton, fazendo alguns vocais (não creditados) e cedendo o instrumental prog mineiro "Tema dos deuses", sem contar a latinidade que aparecia em algumas canções assinadas por Zé Rodrix, como a ruidosa "Morse" e a doidaralhaça "Super-God", com sua letra psicodélica e contra-cultural. Todas as faixas eram preenchidas pela fuzz-guitar de Frederyko, que ainda contribuiu com dois dos momentos mais hippies do disco, a bela "Sábado" (gravada nos anos 80 pelo - veja só - Roupa Nova) e a balada anarquista "Nepal", gravada em clima de zoação no estúdio.

O maior sucesso do disco acabou sendo "Feira moderna", parceria de Beto Guedes, Lô Borges e Fernando Brant, gravada pela banda numa versão crua, cheia de riffs de órgão - é aquela mesma música que você conhece da versão de Beto Guedes no disco Amor de índio, de 1978 (e regravada também pelos Paralamas do Sucesso nos anos 90). Zé Rodrix, que praticamente liderava o grupo no disco e fazia quase todos os vocais, prosseguia sua viagem pop e lisérgica em faixas como "Make believe waltz" (mesclando valsa, rock e country), a agressiva "Hey man" (espalhando brasa para a Copa de 70 e a ditadura nos versos: "você precisava da taça de ouro/você precisava beber nessa taça/que você pagou com o sangue que nela derreteu.../só que nesse instante você foi feliz/você é feliz quando deixam") e o hino psicodélico "Poison", com letra lembrando Timothy Leary e os Beatles de "Tomorrow never knows" ("I always get the poison that I need to be alive, to see and sing/so poison me to get my mind way out/my mind way in").

Formado por músicos bastante requisitados - até hoje, aliás - o Som Imaginário se dividia entre a banda e vários trabalhos para outros artistas. Com o tempo o grupo foi perdendo integrantes. Zé Rodrix logo sairia da banda para se juntar a Sá & Guarabyra e gravar dois discos não menos clássicos, além do solo 1º acto, de 1973 (também pela Odeon). O segundo disco do Som Imaginário (1971), também homônimo, trazia Frederyko na liderança, compondo uma série de faixas anárquicas (como "Cenouras" e a engraçada "Salvação pela macrobiótica"), além do tema "A nova estrela", dele e de Wagner Tiso. E é a sonoridade de Wagner que domina Matança do porco, disco de 1972 da banda, mais chegado ao estilo que marcaria os trabalhos solo do tecladista. Com três discos bastante diferentes uns dos outros - Milagre dos peixes ao vivo, disco de Milton Nascimento lançado em 1975, pode ser considerado o quarto LP do grupo, por ter sido creditado a eles e ao cantor - o Som Imaginário chegou a um resultado que não permitia comparações com praticamente nenhuma banda nacional ou internacional. Pena que tenha durado tão pouco.
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Som Imaginário. Primeiro disco da banda formada por Frederyko (guitarra, vocais), Zé Rodrix (vocais, órgão), Wagner Tiso (piano), Tavito (guitarra base, 12 cordas), Robertinho Silva (bateria), Luiz Alves (baixo). Participações não creditadas de Milton Nascimento (vocais) e Naná Vasconcelos (percussão). Track list: "Morse", "Super-God", "Tema dos deuses", "Make believe waltz", "Pantera", "Sábado", "Nepal", "Feira moderna", "Hey, man", "Poison". Fora de catálogo.

Segunda-feira, Novembro 27, 2006

Som Imaginário em... clipe?


Não existiam clipes no Brasil de 1971, claro. Mas a banda Som Imaginário, grupo de rock (progressivo? psicodélico?) formado por músicos que tocavam com Milton Nascimento fez à sua maneira um pré-clipe de "A nova estrela", música feita para entrar na coletânea experimental Posições, da Odeon (que trazia faixas de grupos como Equipe Mercado e Módulo Mil).

Na verdade foi um curta, feito pelo grupo durante uma estadia de cinco dias numa casa em Mangaratiba (RJ) que pertencia à cantora Luhli - o filme estava num super-8 guardado à sete chaves por outra cantora, Lucina, parceira de Luhli. "A nova estrela" pode ser achada também no segundo CD do Som Imaginário, Som Imaginário, que foi lançado em CD pela EMI nos anos 90 mas está esgotado.O filme foi dirigido por André José Adler.

Segue aí embaixo trecho do e-mail que troquei com Tavito, que foi do Som Imaginário:

"Eu copiei este vídeo para umas dez pessoas, incluindo a própria Luhli. Mas quem o divulgou no Youtube foi o próprio André Adler (que hoje vive na Hungria), picado por nossa comadre Lizzie Bravo, que à época era recém-casadinha com o Zé Rodrix e é mãe da Marya Bravo, que está explodindo como Ângela Maria na peça Cauby, Cauby. Essa versão que está no ar está pior que a que tenho em casa, em termos de imagem, mas isso é compensado pela trilha, que foi re-inserida com o poema censurado.

Uma curiosidade é a participação da Tânia Scher (eita muié linda, sô). Na época o Zé compôs as canções da peça Miss, apesar de tudo, Brasil, de Maria Clara Machado (sou parceiro em duas delas), estrelada pela Tânia. Ficamos todos amigos e o bolo se concretizou no filme, junto com o Bituca e a Gal. 1971 foi o ano em que tocamos com a Gal pelo Brasil todo"

* post publicado aqui e no meu outro blog, o Hiperatividade, que funciona no portal da Bizz.

Sexta-feira, Novembro 17, 2006

Wolfmother

"WOLFMOTHER" - WOLFMOTHER (Universal)

Falar que a banda australiana Wolfmother é o "novo Black Sabbath" pode ser repetitivo - porque quase todo mundo está fazendo isso. Na verdade, o grupo pré-metal liderado por Ozzy Osbourne pode até ser uma das grandes referências de Andrew Stockdale (vocais, guitarra), Chris Ross (baixo/órgão) e Myles Heskett (bateria). Mas quase todos os sons não-recomendáveis para pessoas simpáticas dos anos 60 e 70 entram na lista de referências. E isso mesmo com o fato de "Dimension", uma das melhores músicas do CD, citar "Black Sabbath", faixa de abertura de Black Sabbath, primeiro LP do Black Sabbath (quanto Black Sabbath!) até no refrão - que é igualzinho ao do original, até no final com um “ooooh, yeeaaah” doidaralhaço.

Se esta coluna há duas semanas falou do rock brasileiro politicamente incorreto do Matanza, vamos ficar na mesma linha. Wolfmother, primeiro disco dos caras (Interscope/Universal), é uma aula de rock sujo, garageiro, pré-metal como se o próprio, além do punk ainda não tivessem sido inventados. A qualidade de gravação é de disco lançado em 2006, mas a sonoridade vem de riffs e instrumentos de época - órgãozinhos vagabundos, guitarras sujaças, tons psicodélcos etc.

Andrew Stockdale mantém a linha dos vocalistas gritalhões, sem preocupações maiores com afinação. Chris Ross, por sua vez, volta no tempo e recoloca no mercado a figura do baixista-tecladista, algo que está no inconsciente coletivo roqueiro dos anos 60 - Led Zeppelin (John Paul Jones), Doors (Ray Manzarek), Mutantes (Arnaldo Baptista) etc - e que aqui volta com baixos distorcido e intervenções quase eruditas de órgão, com pedal. O que vem à cabeça é imediatamente bandas lisérgicas e estridentes como o Iron Butterfly. Ou o som de macho do Deep Purple.

Dizem por aí que ficar citando referências demais torna uma resenha chata - como se o jornalista ficasse tentando achar motivos para não achar uma banda original. Só que o fato de bandas como os californianos psicodélicos do Blue Cheer, por exemplo, baterem ponto no som do Wolfmother, torna a audição de seu primeiro disco bem mais interessante, um bom contraponto às modernidades de hoje. A comparação com Doors nem soa fútil - Andrew Stockdale estreou na guitarra tocando flamenco (Robbie Krieger, guitarrista dos Doors, também tinha predileção por células rítmicas "esquisitas" em se tratando de rock) - e bandas como MC5 e até Jethro Tull também surgem no som do trio.

Desatrelados de qualquer cena moderna (segundo Stockdale, o grupo é meio outsider até mesmo em sua terra natal), os caras do Wolfmother talvez até passem batidos em meio a tantas bandas novas. Não há nada do esquema certinho de boa parte dos grupos atuais, fora que parece que no trio ninguém ouviu Gang of Four ou Pixies.

Falando das músicas: Wolfmother é uma suadeira de riifs mal-educados em faixas como "Apple tree" (com sujeira quase punk), "Joker and the thief" (outra das que lembram o Black... chega!) e "Mind's eye". Sem falar nos discretos acentos progressivos em músicas como "Where eagles have been" e "Tales from the forest of gnomes", além do solinho de flauta da diabólica "Witchcraft", som apocalíptico como há muito não se via no rock. Outra grande aposta para hit é a melancólica "White unicorn".

A pesada "Woman" ensina a lição que qualquer garota adolescente que faz aulas de jazz sabe: o rock veio de um gênero há muito esquecido, chamado fox - reabilitado por bandas como Led Zeppelin ("How many more times"), Kiss ("Detroit rock city") e até mesmo o Soundgarden (em algumas músicas do Badmotorfinger, grande referência anos 90 para se entender o Wolfmother). No mais, se você curte bandas de stoner rock - como o Queens of The Stone Age - prepare-se para amar esse trio.

* publicado em Nitideal.

Terça-feira, Novembro 14, 2006

Ih!

A MTV liberou o video da famosa briga entre João Gordo e Dado Dolabella. Claro, já tá no You Tube.

Lembretes


+ Amanhã é meu aniversário (parabéns nos comments, por favor).
+ Na Guitar Player do mês passado tem matéria minha com Big Gilson.
+ Na Bizz desse mês tem materião meu sobre o Gal A Todo Vapor, show histórico da Gal Costa (foto acima)
+ No International Magazine continuam saindo coisas minhas.
+ Tenho atualizado pelo menos semanalmente o meu blog no portal da Bizz.

P.S: Os links acima apontam para trechos das matérias. Para ler tudo, compre na banca.

Keane / Dead Fish


"UNDER THE IRON SEA" - KEANE (Universal)

Não comparar o Keane com o Coldplay é quase uma impossibilidade. Ou era. No primeiro disco deles, Hopes and fears, nego cantou essa pedra direto - e pelo que tenho ouvido falar por aí, ainda tem gente dizendo isso. Pois agora o Keane lançou Under the iron sea, disco que, pelo menos de acordo com a minha observação, subverte o caminho natural das coisas. O Keane veio de um disco que, para mim, não passou de um lançamento mediano, que não deixou claro a que vinha o hype formado em torno da banda - e lança agora um segundo disco bem melhor, mais amadurecido e claro na sua proposta de... bem... um soft rock com toques de Radiohead, Coldplay e outras bandas experimentais do tipo? Seria isso?

Se for, a banda acertou em cheio. E, vá lá, no segundo álbum, o Keane - os lamurientos Tom Chaplin, vocais; Tim Rice-Oxley, piano/baixo/vocais e Richard Hughes, bateria/vocais - vem com uma cara de U2 que até assusta. O disco tem tudo pra estourar e chamar atenção na novela das oito - e com certeza o mundo televisivo vai estar mais feliz ouvindo os caras do que aturando o último sucesso maleta do James Blunt.O Keane segue uma tendência que já chamou a atenção em bandas como o Ben Folds Five: não há guitarras. O disco foi gravado apenas pelo trio, com baixo, piano e bateria, além das programações do produtor Andy Green. Sem a tecnologia - e assim acontece com um dos maiores inspiradores do grupo, o Radiohead, que tematizou os novos tempos no afamado OK Computer - talvez o Keane sequer existisse. Ouvindo o disco, pega-se uma série de sons que parecem até guitarras, mas são teclados; parecem até sintetizadores, mas devem ser pianos gravados com algum truque maluco de gravação. Como dizia aquele bom e velho reclame: "não é feitiçaria, é tecnologia". E conquista fâs - o primeiro álbum vendeu quase 5 milhões de cópias no mundo todo, rendeu dois prêmios no Brit Awards e uma indicação ao Grammy na categoria de melhor banda nova. E rende histórias cabulosas: a banda quase acabou no meio das gravações, por causa de estresse - o pianista Tim botou a culpa no fato do Keane não ter parado pra descansar após o fim da primeira turnê.

A fórmula do bom pop do grupo encontra lá seus momentos de doideira em "Crystal ball" - que começa com uma introdução psicodélica enorme, quase dando a entender que a música vai ficar só nisso ou vai render apenas um bom instrumental - ou na viajeira e romântica "Broken toy". O disco segue essa proposta, usando o "rio de metal" do título como metáfora para uma certa confusão e desencanto das letras - que, para quem saca um mínimo de inglês, podem ir do profundamente poético ao completamente brega em questão de segundos. O disco tem de baladinhas absolutamente soft-rock ("Try again", breguinha e linda de doer) a sons aparentados a Bono Vox & cia ("Is it any wonder?" e "Nothing in my way") e coisas meio Coldplay-pop (a bela "A bad dream"), carregando em baladas de piano e experimentações de timbragem comsintetizadores, pedais, distorções, etc. Um som mais rock e oitentista aparece em faixas como a dançante "Put it behind you". Under the iron sea é um disco belo e, vá lá, poético, da maneira dele.

"UM HOMEM SÓ" - DEAD FISH (Deck)

O Dead Fish parecia seguir a cartilha das bandas que vão ser sempre independentes - investindo no próprio trabalho, montando a própria estrutura, etc - até que foi contratada pela DeckDisc. Para felicidade dos fâs, Zero e um, disco de estréia no selo novo (2003) mostrava o grupo afiado, engajado e muito bem produzido, mantendo a linha dos anteriores. O DVD da série MTV Apresenta, que veio na seqüência, dava vários passos além do Ao Vivo que foi seu último lançamento independente, e mostrava o Dead Fish em seu verdadeiro habitat, com mais recursos. E o grupo mostrava que bandas que engoliam tesouradas em seu repertório e em seu conceito ao entrarem para uma grande gravadora - mal que nos anos 80 acometeu bandas recém-saídas do underground, como os Cascavelletes - eram coisa do passado. Só que, no caso do DF, não poderia ser de outro jeito, mesmo. Ninguém aceitaria um Dead Fish mais polido, talvez nem a própria gravadora.

Em Um Homem Só, a banda não brilha como em discos anteriores - o melhor continua sendo Afasia, de 2001 - mas mantém a linha de sempre lançar álbuns interessantes, com novidades no som e nas letras. As melodias estão se destacando cada vez menos pela rapidez e cada vez mais pela sua elaboração - em especial nas linhas vocais e nos riffs de guitarra. Mas foi mantida a urgência característica do Dead Fish. Há os riffs palhetados de "Destruir tudo de novo", punk cruzando Bad Religion e acordes sombrios típicos dos anos 90 ("Didático"), o grito de guerra de "Rei de açúcar", a rapidez quase metálica de "Oldboy", o punk feroz de "Fora do mapa", o rock´n roll unindo punk rock e The Cult de "Exílio", o triste hardcore de "Canção menor" etc. As letras abandonam a rispidez de outrora para entrar em papos cada vez mais introspectivos ou em recados interessantes - como o de "Menos do mesmo", que ataca "o compromisso em satisfazer/entreter como obrigação/será que está aqui o que precisa?/procurando seus clichês nos meus".

No mais, o Dead Fish não fez concessões nem letras militantes e panfletárias (esta, uma verdadeira tentação em ano de eleição, visto que até Felipe Dylon veio com papos "conscientes" em seu novo disco). Quando soam políticos - pelo menos no aspecto mais óbvio do termo - mantém a linha das outras letras em faixas como "Eleito por ninguém" e "Um homem só".

A Deck também repôs nas lojas a discografia anterior da banda - ou melhor, pôs nas lojas, visto que eram CDs independentes, com distribuição restrita. Para os fâs radicais, faltam apenas o EP lançado em 2002 com sobras de Afasia e o Metrofire, do Projeto Peixe Morto, banda paralela lançada pelos músicos do DF, com letras irônicas como "Tim Maia" (um assalto à "Telefone", do soulman, só que com a melodia totalmente modificada) e "O soco racional". Com distribuição nacional e ótima estrutura, a banda de Rodrigo (voz), Alyand (baixo), Nô (bateria) e dos guitarristas Philippe e Hóspede tem tudo para se tornar, para os anos 00 - guardadíssimas as devidas proporções - o que a Plebe Rude foi para os 80. Só que com apoio da gravadora, com um pouco mais de consciência comercial e com a sorte de lidar com pessoas que realmente entendem seu som.

* tudo publicado no International Magazine.

Segunda-feira, Novembro 06, 2006

Audioslave caído


"REVELATIONS" - AUDIOSLAVE (Sony/BMG)

Um ligeiro acento yuppie começa a assombrar uma das bandas mais interessantes dos últimos tempos, em seu terceiro disco, Revelations - coisa que faixas como "Broken city" não escondem. O Audioslave, na verdade, sempre teve um lado que lembra mais aqueles elogios às avessas, como se a pessoa que elogia quisesse ser sarcástica - tipo: "a banda é legal porque lembra demais Led Zeppelin" (caso da chupação de "Whole lotta love" em "Cochise", o primeiro hit). Só que difícil não reconhecer que Audioslave e Out of exile, os anteriores, são dois grandes discos.

E agora a coisa mudou. Em Revelations, a idéia parece ter sido deixar o peso inspirado em Led-Black Sabbath um pouco de lado e investir mais no groove - que só sai fora no fim do disco, em faixas como a sombria "Nothing left to say but goodbye" e a arrastada "Moth". Deixar o groove sobrepujar o peso foi uma ótima intenção - e até o guitarrista Tom Morello andou dizendo que o disco é algo como "Earth, Wind and Fire encontra Led Zeppelin". Só que não foi o suficiente para fazer de Revelations um grande disco. Ficou parecendo o lado fraco e repetitivo da Rollins Band (as pioires faixas de Weight e Come in and burn). Chris Cornell, um grande vocalista - mas que já demonstrou derrapar feio em bootlegs e até mesmo no DVD Live in Cuba - parece desperdiçado, preso à fórmulas. Se os discos anteriores eram uma feliz revisão dos riffs do Led e das doideiras do Rage Against The Machine, misutrada a outros elementos (como a marcha U2 de 'Be yourself"), agora tudo parece igual, como se tudo tivesse sido feito às pressas - e provavelmente foi.

Para a alegria da galera, tem o tom baladeiro de "Until we fall", a sacolejante "Sound of a gun", os riffs distorcidos de "Jewel of the summertime" e, em muitas músicas, uma sonoridade que lembra um pouco o saudoso Living Colour. Mas tudo soa isolado, como pílulas de criatividade em meio à repetição e a vocais e riffs pouco criativos - uma das músicas nas quais isso fica mais na cara é "Wide awake", composta para a trilha do filme Miami Vice (ao lado de "Shape of things to come", outra do álbum). Revelations pode entrar para a história como o Presence (aquele disco caído do Led Zeppelin) do Audioslave, de repente. Se é que dá para tecer esse tipo de comparação sem parecer bobo.

Sexta-feira, Novembro 03, 2006

Matanza


"A ARTE DO INSULTO" - MATANZA (Deckdisc)*

Para ouvidos desinformados, um disco como A Arte do Insulto pode muito bem remeter a Bocas Ordinárias, último disco que realmente prestou do Charlie Brown Jr. Não é à toa - só que se as pessoas não perceberem o quanto as duas bandas são diferentes, vai ser um tanto preocupante. Até pelas entrevistas dá para perceber as tais diferenças, seja em atitude, seja nas figuras de seus porta-vozes (sempre achei que o grande problema de Chorão foi começar a se levar a sério demais, enquanto Jimmy, do Matanza, dá entrevistas dizendo que "fico satisfeito de ver as pessoas escutando nosso som e não levando a sério").

Comecei a pensar nisso quando percebi que, para o bem de toda uma geração de fâs de rock nacional que cresceu com a figura do letrista-com-banda-atrás, talvez seja uma boa que o Matanza continue com um dos pés plantados no underground - uma banda que apareça na MTV, venda discos, mas cujos músicos podem ser encontrados em alguns picos roqueiros cariocas, cujo vocalista possa ser achado (de perna quebrada e cadeira de rodas!) divertindo-se na Casa da Matriz, cujo baterista entre quase incógnito pela porta do local onde vai fazer o show de lançamento do CD novo da sua banda - e ainda esbarre casualmente com esse que vos escreve no estacionamento, após o show. O fâ coxinha de rock nacional, que leva a sério bandas como NX Zero e CPM 22 e enxerga "atitude" onde não tem, talvez não mereça a seqüência de histórias tragicômicas e papos politicamente incorretos - quase todos na linha de um dos maiores inspiradores da banda, o countryman Johnny Cash - de A arte do insulto.

O som do grupo (Jimmy, vocal; Donida, guitarra; China, baixo; Fausto, bateria) aparece mais pesado, mais aprimorado, do que nos dois discos anteriores. A mistura de metal e hardcore com música country, que marcou hits como "Tombstone city"e "Ela roubou meu caminhão", continua em faixas como "Whisky para um condenado" e "Quem perde, sai". Rola até um aceno às canções tradicionais americanas (muitas músicas da banda lembram algo que você já ouviu mas não recorda onde - pode ter sido num filme, em algum disco de folk, etc) e à música irlandesa, na animada "Estamos todos bêbados", que fecha o disco, com acordeon, violão, flauta e um vocal que parece mais inspirado no marinheiro Popeye do que em Lemmy, do Motorhead. Mas o peso do álbum de ineditas anterior, Música para beber e brigar, já domina bem mais a escolha de faixas, em todos os sentidos - e a qualidade de demo do primeiro disco, Santa Madre Cassino, já deu adeus faz séculos. Nessa linha, aparece desde o hardcore de "A arte do insulto" ao metal peão-de-obra de "Ressaca sem fim", além de uma pérola pesada, folk e venturosa, "Tempo ruim" (apesar do título, o refrão diz: "quero que a estrada venha sempre até você/e que o vento esteja sempre a seu favor/quero que haja sempre uma cerveja em sua mão/e que esteja ao seu lado, seu grande amor".

Nas letras - e na ótima divisão silábica de Donida, principl compositor do grupo, e de Jimmy, o vocalista - se acha alguns dos principais atributos do Matanza. A arte do insulto inclui uma música que já é piada pronta a partir do título (a brigona "Meio psicopata", com o refrão "é impressionante como eu nunca faço nada/ é sempre a confusão que vem até aqui/ eu falo disso para o meu psiquiatra/mas é claro, ele não entende"), recados bem dados ("A arte do insulto", quase na mesma linha de "Pé na porta, soco na cara") e montes de histórias de bebedeira, leis do cão, mesas de saloon, vida selvagem (as ótimas "Sabendo que eu posso morrer" e "Clube dos canalhas"), etc. O Matanza é o tipo da banda que vai ganhar muito se conseguir estourar sem se banalizar ou gerar seguidores e/ou imitadores. O disco novo é a prova disso.

* publicado em Nitideal.