Terça-feira, Janeiro 30, 2007

E se o Peru da Festa virasse Discoteca Básica da Bizz


Desafiado por um colaborador da Bizz, o jornalista paulista Leandro Saueia, que já colaborou com sites como o saudoso Ruídos, escreveu sua versão "Discoteca Básica" (a da Bizz, não esta aqui) para o clássico do Costinha, Peru da festa. Tudo o que há nesse texto, claro, é a mais deslavada mentira.


"O PERU DA FESTA" - COSTINHA (CID)

O fim dos anos 70 não foram fáceis para o humorista Costinha (nascido Lírio Mário da Costa em 1923). Relegado ao papel de coadjuvante em programas humorísticos de domingo a tarde tipo “Balança mas não cai” os dias de ouro de rei do cinema popularesco há muito haviam se passado (ainda que um ou outro papel antológico como o do caçador em Histórias que Nossas Babás não contavam dessem um pouco de brilho a uma carreira que caminhava para o ocaso).

Conta a lenda que enquanto fazia um show em uma boate carioca na segunda metade dos 70, Costinha sem querer bateu com o microfone em sua boca no meio de uma anedota e sem querer soltou um “puta que pariu”, que levou a platéia a ter orgiásticos ataques de risos. Mesmo temeroso com a censura - que ainda estava a toda - ele arriscou mais um "merda" aqui, um "filha da puta" acolá... e assim nasceu a figura definitiva do humorista que ficou para a posteridade.

Aos poucos Costinha foi ganhando uma aura cult, enquanto mais e mais pessoas viam suas apresentações. Quem assistiu diz que elas eram antológicas. Afinal, mais do que rir, o que se via era uma grande comunhão entre artista e platéia - que por alguns minutos podiam esquecer a rotina dura de desaparecidos políticos, Programas como os de Amaral Neto e as tradicionais Semana do Presidente no Sílvio Santos.

Era a hora de levar isso tudo para o vinil. Mas como? Sem os palavrões não haveria sentido tal empreitada. E foi aí que entrou em cena um dos grandes heróis não reconhecidos da nossa história: Pedro Joaquim dos Anjos, presidente da CID Discos. Essa lançava basicamente discos de boleros e enganava os incautos com discos que pareciam ser dos Beatles, mas que na verdade só tinham regravações feitas por brasileiros. Pedro resolveu peitar a censura e falou: “Costinha, vamos gravar essa merda e se alguém reclamar que se foda. Eu seguro o pato”. Costinha retrucou: “Já que vai segurar o pato aproveita e segura o meu peru”.

E desse jogo de palavras nascia o Peru da Festa.

Por ainda não terem à disposição equipamento e know how para gravar ao vivo, Pedro buscou inspiração em discos como Slade Alive, do Slade, e Nighthawks at the dinner, de Tom Waits, e resolveu simular uma apresentação ao vivo. Mais ou menos 30 pessoas adentraram os velhos estúdios da SOMA em julho de 1981 e assistiram a um festival de anedotas que iam da mais sutil ironia à mais pesada grosseria (um crítico na época comparou ao White album inclusive).

Quando foi lançado, o disco imediatamente estourou - muito por conta da capa que se tornou emblemática com o passar dos anos: Costinha nu a frente de uma mesa, com um peru e o título O Perú da Festa (até hoje não se sabe se o acento foi erro do tipógrafo, burrice mesmo ou uma homenagem á grafia de Peru – o país – em seu idioma de origem). Isso tudo em um vinil lacrado, e ainda tinha a frase RIGOROSAMENTE PROIBIDO PARA MENORES DE 21 ANOS, que só deixava a coisa ainda mais excitante.

Com vendas que hoje superam as 400 mil cópias, o Peru teve mais três seqüências, sendo a terceira igualmente brilhante com piadas como a da foda no circo, a do bigode do gato e a do tapete de onça. O legado também é imensurável: do Casseta & Planeta a trupe do Hermes e Renato, que injetou ácido – falo de humor e não de alucinógenos – à receita original, é quase impossível achar quem não tenha se influenciado.

O Peru da Festa salvou a carreira da CID e também a de Costinha, que voltou ao primeiro time do humor brasileiro. Ele encerrou sua carreira de forma muito digna em 1994, vítima de um câncer quando desfrutava de enorme sucesso na Escolinha do professor Raimundo. Do céu ele provavelmente deve estar orgulhoso de seu legado ainda que provavelmente preferisse falar para nós aqui embaixo, bem ao seu modo: “Ah pelo amor de Deus, para com isso VÃO TOMAR NO CU”.

DADOS – lançados originalmente em 81, 82 e 83. Relançamento em cd pela CID em 89 com problemas de masterização e pela Rhino CID em 2002 que deixa o ruído dos garfos tão nítidos que dão a impressão de que você está lá no restaurante. Diz-se que existem alguns minutos não lançados das sessões originais e que pelo menos duas ou três dessas piadas eram tão boas que fizeram os ossos de quem as ouviu sair pela bunda.

1 Comments:

Blogger Alexandre said...

Até aí, você já comentou aquele disco do Juca Chaves no blog, não foi? Dobradinha perfeita!

10:46 AM  

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