Killers / U2*

"SAM'S TOWN" - THE KILLERS (Island/Universal)
O segundo disco da banda norte-americana The Killers era aguardado. E como. Após Hot fuss, o alegre primeiro álbum, no qual a banda unia tudo o que conhecia de Duran Duran, New Order e The Cure (este, clara influência nos vocais de Brandon Flowers) e criava hits excelentes, muita gente poderia apostar num segundo álbum melhor ainda - e a banda até que colaborou para tais expectativas, dellarando que o segundo álbum seria "um dos melhores discos de rock dos últimos 20 anos". De Sam's Town, dá pra dizer que valeu a intenção de Brandon, Ronnie Vanucci (bateria), Dave Keuiining (guitarra) e Mark Stoermer (baixo).
Gravado parte num estúdio dentro de um cassino em Las Vegas, terra dos caras, parte em Londres, o disco novo vem num tom mais "pra baixo", distante das ótimas canções do disco anterior. Deixa entrever um certo apego a "conceitualismos", que pouco têm a ver com o que se espera de uma banda festeira como os Killers. O lance é que, de qualquer jeito, é um disco ousado. A faixa-título, que abre o CD, tem um tom épico e quase operístico em alguns momentos - embora tais detalhes se encaixem na argamassa dance-rock que a banda já criara em seu disco anterior, sem muitos problemas. Logo depois, vem um "interlúdio" de piano-e-voz que convida o ouvinte a embarcar na do disco: "Esperamos que você aproveite a estada/É bom ter você com a gente/Mesmo que seja só por um dia". O mesmo tom épico continua em "When you were young", bom hit, repleto de riffs com referências power-pop, mas bem inferior a eles mesmos há dois anos.
É nessa base que a banda talvez jogue algumas duchas de água fria em vários fãs, já que mesmo os hits mais dançantes do disco são caídos, se comparados aos de Hot Fuss. O grupo tem sido acusado por muita gente de tentar copiar o U2, coisa que nem é mentira: Brandon Flowers, que já soou idêntico a Robert Smith do Cure, dessa vez imita Bono Vox direitinho - seja em "Bling (Confession of a king)", cujos riffs e arranjo também são chupação direta do grupo irlandês, seja na pesada "For reasoins unknown", a cara do U2 dos primeiros anos. Vai soar até clichê repetir o que todo mundo já disse, mas é isso aí - e provavelmente as escolhas dos produtores Flood e Alan Moulder, conhecidos por seus trabalhos com os irlandeses, não vieram à toa. Nada disso torna Sam's Town um disco fraco, chato ou vazio. As músicas são boas, mas estão distantes do que se esperava da banda em trmos de qualidade. O problema é quando um segundo álbum dá saudade do primeiro disco, da expectativa que se criou em torno dele e da alegria dos hits iniciais. Ou quando a banda vem, num segundo disco, com um número maior de canções um tanto repetitivas (e tomara que eles não queiram fazer da breguinha "Read my mind" uma "Somebody told me" do segundo disco).
Como momentos que provavelmente muita gente vai curtir, vale citar a beleza da dançante "Bones", a balada pesada "Uncle Johnny" (que, dizem, foi feita por Flowers para seu tio, que pegava pesado demais em drogas). A imitação de Bono & cia fica só na música. Flowers continua o mesmo doidão de sempre, a ponto de fazer da faixa título do disco um inventário da putaria da sua terra natal. Ainda bem, porque se Sam's town fosse um disco "cabeça" seria frustrante demais. Mas falta organização ao disco, como se fossem dez faixas (na verdade doze, mas há ainda o tal "interlúdio" e um "encerramento" quase igual) costuradas na pressa - nenhuma delas rendendo "a" grande canção que a banda precisava. O resultado é que Sam's town é um disco que talvez fosse ouvido de outro jeito se estivessem os Killers lá pelo quarto ou quinto disco. Saído logo agora, parece que o peso do "segundo disco" fez mal a eles.
"ZOO TV - LIVE FROM SYDNEY" - U2 (Island/Universal - DVD)Ao atravessar as três horas e alguns quebrados de duração do DVD U2 Zoo TV: Live from Sydney fica a impressão de que o comportamento coxinha da maioria das bandas de rock nacional jamais permitiria a existência de um U2 aqui no Brasil. Tanto o público brasileiro quanto as bandas de rock nacional lidam muito mal com a incoerência - coisa típica de um mercado no qual os "santos" e os "demônios" ainda estão bastante claros na cabeça de todo o mundo (e os "demos" dominam a mídia de uma forma tal que é dificílimo escapar deles). Na época da turnê Zoo TV, lá por 1993, Bono e seus amigos criaram uma nova forma de discursar, que soava contundente sem largar a incoerência de lado. No show capturado para este DVD - gravado no Estádio de Futebol de Sydney, na Austrália, em 27 de novembro de 1993 - sexo, Deus, religião, televisão, mídia de modo geral, coisas de pop star, rock´n roll, egolatria aparecem em doses mais ou menos iguais.
No período de Zoo TV a banda acabara de lançar seu álbum Zooropa e estava vivendo uma nova situação no meio roqueiro mundial. Da banda de temática quase gospel dos primeiros discos - que chegou a pensar em abandonar o rock por causa de suas raízes católicas - o U2 se transformara numa poderosa máquina de fazer dinheiro, e justo a partir de seu lançamento que parecia mais inusitado e anti-comercial, Achtung Baby, de 1991. Bono, enquanto pop star que se encontra com chefes de estado, cria planos para acabar com a fome nos países subdesenvolvidos e discursa com conhecimento de causa sobre os principais problemas do universo, começou a ser forjado naquele momento. Quanto a Zoo TV saiu do papel, com seu aparato de enolouquecer (nos extras, é possível acompanhar os números: foram usados 4 videowalls, 30 monitores de vídeo, 18 projetores, 19 membros de equipe de vídeo, 12 diretores, o palco tinha 76 metros de largura e 24 pés de altura, etc), a banda já desfrutava deste novo formato - e não por acaso, muita gente chamou a nova turnê de "Sgt.Pepper's das turnês de rock", sem exagero.
A turnê foi concebida como algo em que várias informações se cruzavam ao mesmo tempo - sempre balizadas por uma frase comum a várias entrevistas da banda, e que também aparece bastante no DVD: "veja mais TV!". O resultado soava como uma grande sátira-referência-homenagem à televisão e ao excesso de comunicação que já dobrava a esquina naquele momento, com montes de monitores ligados no palco, as frases que eram disparadas na cara do público sem que ele tivesse tempo de pensar no que via ("Tudo o que você sabe é errado" virou até camiseta), trechos de telejornais que eram exibidos ao vivo (soando como sátira aos canais de notícias 24 horas).
Bono abusava de seu poder de comunicação, montando personagens diferentes (como o roqueiro arrogante e ególatra The Fly, o irônico McPhisto, que sempre tentava falar com o então presidente dos EUA, Bush pai, de um telefone instalado no palco; e Mirrorball Man, um pastor que jogava dinheiro para a platéia). Era uma revisão antenada, irônica e bem mais caótica dos espetáculos grandiloquentes de rock dos anos 70 - coisa que havia ficado famosa com Alice Cooper e David Bowie na fase Ziggy Stardust, mas que aqui ganhava outros contornos, mais perigosos, diferentes. As contradições estavam evidentes: o U2 se assumia como parte daquilo tudo, algo que estava inserido no esquema de todo aquele excesso comunicacional - e declarava seu entusiasmo pela comunicação via satélite que trazia detalhes a cada minuto da Guerra do Golfo.
Zoo TV Live from Sydney já havia sido lançado em VHS, faz tempo. O lançamento em DVD traz o original intgralmente digitalizado, com opções de áudio como PCM stereo e Dolby Digital - pelo menos aqui em casa, o som não ficou lá essas maravilhas. Musicalmente, foi a fase mais prolífica e diferenciada do grupo, com direito a hits mais dançantes e irônicos que os do começo - caso de "Even better than the real thing", "Mysterious ways" (com participação de uma dançarina do ventre), "Stay (Faraway, so close!)", "Zoo station", etc. O repertório mistura várias músicas de Achtung Baby - que aparecem até com mais destaque - algumas do Zooropa e algumas poucas de discos anteriores. A soma de tudo isso dá vontade mesmo é de estar ali no meio do povo para experimentar aquilo tudo, passar por uma vivência que, antes de qualquer julgamento, deve ter sido a experiência mais impactante que o público de rock daquele período deve ter tido.
Além do show, o DVD traz alguns documentários mostrando os bastidores da turnê, além do interessante Trabantland, que fala sobre a idéia que a banda teve de usar velhos automóveis Trabant como iluminadores na turnê. Eles já haviam aparecido no encarte de Achtung e em alguns clipes - o Trabant era um carrinho feio pra burro, econômico e durável, que era o único meio de transporte possível dentro da Alemanha Oriental antes da queda do Muro de Berlim. E pela primeira vez, aparecem imagens do Video Confessional, uma salinha do lado de forma do estádio na qual as pessoas anunciavam seus segredos para o mundo - tem desde garotos fazendo rap até meninas anunciando que se tornaram lésbicas, uma espécie de pré-reality show bem particular. No fim das contas, um DVD obrigatório como retrato de época - sem falar na grande música que o U2 fazia na época, bem distante dos discos algo repetitivos de hoje em dia.
* publicado no International Magazine.

4 Comments:
Para mim, em "Hot Fuss" o Killers era o Franz Ferdinand que havia dado certo. Pérolas como "Mr. Brightside", na minha opinião, já são futuros clássicos que tocarão (e nos deixarão cheios de saudades) nas festinhas anos "2000".
Em "Sam's Town" me parece que a coisa afroxou. Aquele tom caricato/satírico do primeiro álbum ficou ofuscaso por um trabalho deveras pretensioso, na minha opinião. Concordo totalmente com teu review.
Pelos teus comentários, fiz uma baita bobagem ao comprar a versão simples do DVD do U2. Me lembro que este show foi transmitido pela Band, mesmo no início da adolescência, já ficava impressionado com toda aquela parafernalha. E como queria estar ali no meio! Aquela turnê jamais foi superada em termos tecnológicos, talvez somente comparável a "Division Bell" do Pink Floyd.
Um forte abraço!
É isso ae, a zootv ainda é a melhor turnê que o u2 fez.
É isso ae, a zootv foi a maior e melhor turne do u2. Será que se ela viesse pra cá o público entenderia os devaneios do mr bono em se travestir de demônio etc???
Schott,
belos textos.
A dançarina do ventre é hoje a esposa do guitarrista da banda. Como parte do Achtung Baby foi gravado em Berlim, conheceram lá os Trabants - o palco até foi desenhado por um das mais bacanas designs de palco do mundo (William Willies, ou algo assim). E a ZOO TV foi mesmo o melhor momento da carreira do U2.
Abs
Postar um comentário
Links to this post:
Criar um link
<< Home