Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

Wood & Stock / Falcão


"WOOD & STOCK - SEXO, ORÉGANO E ROCK´N ROLL" - VÁRIOS (Deck)

A trilha de Wood & Stock - Sexo, orégano e rock´n roll (desenho de Otto Guerra baseado - opa - nas histórias em quadrinho de Angeli), segundo testemunhas, está longe de ser melhor que o filme - digo "segundo testemunhas" porque, por falta de tempo, nem eu mesmo pude ainda assistir. Mas diverte bastante, como tem acontecido com várias trilhas de filmes nacionais recentemente lançadas. E ainda serve como momento histórico bastante interessante. Quantas vezes na sua vida você pôde pegar o encarte de um CD lançado por uma gravadora de grande porte (no caso a Deck Disc) e ler lá: "fonograma cedido pela Baratos Afins?". Foi a veterana gravadora independente paulista que forneceu os fonogramas da banda alagoana Mopho. Até fonogramas publicados na revista-CD Outracoisa, de Lobão, aparecem, já que Arnaldo Baptista pinta no CD tocando sua versão para "Woody Woodpecker", um dos temas do Pica-Pau (aquela do "everybody thinks I'm crazy"...).

A história dos dois velhos hippies é muitíssimo bem contada em CD, com músicas de artistas antigos e novos. Júpiter Maçã é um dos mais ativos da trilha, servindo de música de fundo em vários momentos, com músicas de momentos diferentes de sua carreira. Tem várias de A Sétima Efervescência, como "The freaking Alice (Hippie Under groove)", quase uma lição sobre cogumelos psicodélicos, e "Querida Superhist x Mr. Frog", mas também tem a maravilhosa "A marchinha psicótica de Dr. Soup", herdeira direta da psicodelia de Ronnie Von e das marchinhas ingênuas de Abílio Manoel - isso sem falar no hino "Um lugar do caralho". Rita Lee, que faz a voz da Rê Bordosa - ressucitada especialmente para o filme, já que o quadrinista Angeli matou a personagem em 1987 - aparece com duas faixas de seu primeiro LP solo, Build up, a engraçada "Hulla-Hulla" e a gospel-irônica "Eu vou me salvar".

Entre as outras surpresas do CD, encontram-se os alagoanos do Mopho, elogiados pelo próprio Rogério Duprat durante uma entrevista - a balada triste "Quando você me disse adeus" emociona e encanta no meio de um disco que tem a descontração como mola mestra. "Ferro na boneca", do primeiro LP dos Novos Baianos, É ferro na boneca (1970) vem para mostrar que Moraes, Galvão, Baby & etc não faziam apenas samba-rock-choro - o som é pesado, com guitarras, gritos psicodélicos a la Tropicália, etc. "Um Oh! e um Ah!", de Tom Zé é o lado tropicalista brincalhão (mais até do que experimental) do CD. E boa parte desses fonogramas nem sequer teria ido parar aí se não fosse o crescente hábito dos fâs de pedras obscuras do rock nacional, de estar sempre trocando mp3 e baixando discos desconhecidos da internet. Pois é... Os "ladrões" de música têm muito a ensinar, até mesmo ás grandes gravadoras.

"WHAT PORRA IS THIS?" - FALCÃO (NC Music)

Você soube que o humorista e cantor cearense Falcão lançou disco novo? Não? Se não soube, nem esquente a cabeça. Quase ninguém que não faça parte do fâ-clube do cantor deve ter sabido mesmo - logo ele, que chegou a ter até anúncio de página inteira em jornais cariocas quando saiu o relançamento em CD, pela BMG, de seu primeiro disco solo, Bonito, lindo e joiado, lançado originalmente à própria custa (antes da BMG, a Continental chegou a bancar uma reedição, até com poucas cópias em CD).

Pois é. What porra is this, mesmo nome de um CD-ROM que o cearense chegou a lançar faz uns dez anos, é uma boa volta ao passado. Após alguns álbuns caidaços, o cantor (ou "cantor", como querem alguns) foi para o pequeno selo NC music e lançou um disco que tem uma característica fundamental para um CD lançado por um humorista: é engraçado. Engraçado, mas não de fazer ninguém rolar de rir: é irônico, como são aquelas boas piadas que você escuta e só ri meia hora depois. E, vá lá, tem um som bem legal, brega-rock bem gravado, com guitarras sacadas de Peter Frampton e Eric Clapton e até arranjos numa mescla de The Police e Lulu Santos fase "Último romântico" - em "Amanha será tomorow", um ajuntamento de frases escrotas. Já o rock´n roll "Fome zero-a-zero" é a melhor crítica que o governo Lula poderia ter recebido, valendo mais de mil discursos - "No Brasil nem tudo está perdido/muita coisa ainda há para se perder/(...) para sair o zero-a-zero contra a fome/encher o bucho é nosso melhor projeto".

Daí para diante, duas coisas são perceptíveis. A primeira: Falcão, assim como Caetano Veloso em , tentou fazer um disco de rock - com boas guitarras, gravação bacana, teclados bregas que não ferem o ouvido e letras cáusticas (confira "Doa a quem doar"). A segunda: o mensalão e a sacanagens de Brasília preenchem o disco todo e ganham sátiras engraçadíssimas (caso da havaiana "Ordem e progresso", dos versos: "se Satanás morasse em Brasília/seria com certeza aprendiz"). Mais: se nos primeiros discos ele era o cara que mais conseguia satirizar o comportamento besta de boa parte dos cânones emepebísticos, What porra is this? volta a isso com força total, em faixas como o reggae "Desculpe ter-lhe visto", "Alguma coisa acontece no meu bucho" (a letra é um discurso sobre fome que valeria a pena ser enviado num iPod para o Palácio do Planalto), "A sociedade não pode viver sem as pessoas" (só esse título já vale a música). Já "Doze perguntas que podem cair na prova" é o lado Tom Zé-satírico-brega de Falcão. E ainda há espaço para uma homenagem ao soulman nordestino Paulo Diniz, com a regravação de "Severina Cooper (It's not mole não)", sucesso seu dos anos 70.

Além de What Porra is This?, o fâ de Falcão pode se divertir também com a coletânea Maxximum, lançada pela Sony & BMG, trazendo 20 sucessos dos discos que o cantor deixou na multinacional - fase que vai do relançado Bonito... a Quanto pior, melhor, lançado numa fase em que ele chegou a ter um programa semanal na Rede Bandeirantes, Falcão na contramão. Tem de tudo lá: "Ai! minha mãe", "Isaltina", "A terra há de comer (Já que eu não comi)", "Black people car" (versão em inglês de mentira para "Fuscão preto"), "I'm not dog no" (idem para "Eu não sou cachorro não"), etc. Só não dá pra entender porque é que um conhecido site de vendas on-line resolveu oferecer esse CD em venda casada com o livro Jesus: o maior psicólogo que já existiu, de um sujeito chamado Mark Baker (!). Quanto a What porra is this?, não faço idéia de como você vai conseguir esse disco, já que nenhum site vende. Tente descobrir no site do cantor, www.sitedofalcao.com.br.

2 Comments:

Anonymous el escama said...

Como fã do Falcão, e cidadão consciente dos seus deveres com meus semelhantes, tenho o dever de falar q vc pode comprar não só o CD novo, como o livro (sim, ele escreveu um livro de pensamentos!) e camisetas do mestre no seguinte site: http://www.mubi.com.br

3:46 AM  
Blogger SidCosta said...

Pô vei, o disco anterior "do penico à bomba atômica" é muito bom. Mas concordo quando vc diz que esse é o tipo de disco q vc só vai sacar depois de uma meia hora depois da audição.

4:30 PM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home