Terça-feira, Janeiro 30, 2007

E se o Peru da Festa virasse Discoteca Básica da Bizz


Desafiado por um colaborador da Bizz, o jornalista paulista Leandro Saueia, que já colaborou com sites como o saudoso Ruídos, escreveu sua versão "Discoteca Básica" (a da Bizz, não esta aqui) para o clássico do Costinha, Peru da festa. Tudo o que há nesse texto, claro, é a mais deslavada mentira.


"O PERU DA FESTA" - COSTINHA (CID)

O fim dos anos 70 não foram fáceis para o humorista Costinha (nascido Lírio Mário da Costa em 1923). Relegado ao papel de coadjuvante em programas humorísticos de domingo a tarde tipo “Balança mas não cai” os dias de ouro de rei do cinema popularesco há muito haviam se passado (ainda que um ou outro papel antológico como o do caçador em Histórias que Nossas Babás não contavam dessem um pouco de brilho a uma carreira que caminhava para o ocaso).

Conta a lenda que enquanto fazia um show em uma boate carioca na segunda metade dos 70, Costinha sem querer bateu com o microfone em sua boca no meio de uma anedota e sem querer soltou um “puta que pariu”, que levou a platéia a ter orgiásticos ataques de risos. Mesmo temeroso com a censura - que ainda estava a toda - ele arriscou mais um "merda" aqui, um "filha da puta" acolá... e assim nasceu a figura definitiva do humorista que ficou para a posteridade.

Aos poucos Costinha foi ganhando uma aura cult, enquanto mais e mais pessoas viam suas apresentações. Quem assistiu diz que elas eram antológicas. Afinal, mais do que rir, o que se via era uma grande comunhão entre artista e platéia - que por alguns minutos podiam esquecer a rotina dura de desaparecidos políticos, Programas como os de Amaral Neto e as tradicionais Semana do Presidente no Sílvio Santos.

Era a hora de levar isso tudo para o vinil. Mas como? Sem os palavrões não haveria sentido tal empreitada. E foi aí que entrou em cena um dos grandes heróis não reconhecidos da nossa história: Pedro Joaquim dos Anjos, presidente da CID Discos. Essa lançava basicamente discos de boleros e enganava os incautos com discos que pareciam ser dos Beatles, mas que na verdade só tinham regravações feitas por brasileiros. Pedro resolveu peitar a censura e falou: “Costinha, vamos gravar essa merda e se alguém reclamar que se foda. Eu seguro o pato”. Costinha retrucou: “Já que vai segurar o pato aproveita e segura o meu peru”.

E desse jogo de palavras nascia o Peru da Festa.

Por ainda não terem à disposição equipamento e know how para gravar ao vivo, Pedro buscou inspiração em discos como Slade Alive, do Slade, e Nighthawks at the dinner, de Tom Waits, e resolveu simular uma apresentação ao vivo. Mais ou menos 30 pessoas adentraram os velhos estúdios da SOMA em julho de 1981 e assistiram a um festival de anedotas que iam da mais sutil ironia à mais pesada grosseria (um crítico na época comparou ao White album inclusive).

Quando foi lançado, o disco imediatamente estourou - muito por conta da capa que se tornou emblemática com o passar dos anos: Costinha nu a frente de uma mesa, com um peru e o título O Perú da Festa (até hoje não se sabe se o acento foi erro do tipógrafo, burrice mesmo ou uma homenagem á grafia de Peru – o país – em seu idioma de origem). Isso tudo em um vinil lacrado, e ainda tinha a frase RIGOROSAMENTE PROIBIDO PARA MENORES DE 21 ANOS, que só deixava a coisa ainda mais excitante.

Com vendas que hoje superam as 400 mil cópias, o Peru teve mais três seqüências, sendo a terceira igualmente brilhante com piadas como a da foda no circo, a do bigode do gato e a do tapete de onça. O legado também é imensurável: do Casseta & Planeta a trupe do Hermes e Renato, que injetou ácido – falo de humor e não de alucinógenos – à receita original, é quase impossível achar quem não tenha se influenciado.

O Peru da Festa salvou a carreira da CID e também a de Costinha, que voltou ao primeiro time do humor brasileiro. Ele encerrou sua carreira de forma muito digna em 1994, vítima de um câncer quando desfrutava de enorme sucesso na Escolinha do professor Raimundo. Do céu ele provavelmente deve estar orgulhoso de seu legado ainda que provavelmente preferisse falar para nós aqui embaixo, bem ao seu modo: “Ah pelo amor de Deus, para com isso VÃO TOMAR NO CU”.

DADOS – lançados originalmente em 81, 82 e 83. Relançamento em cd pela CID em 89 com problemas de masterização e pela Rhino CID em 2002 que deixa o ruído dos garfos tão nítidos que dão a impressão de que você está lá no restaurante. Diz-se que existem alguns minutos não lançados das sessões originais e que pelo menos duas ou três dessas piadas eram tão boas que fizeram os ossos de quem as ouviu sair pela bunda.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Relançamento: Mutantes


"TUDO FOI FEITO PELO SOL"/"MUTANTES AO VIVO" - MUTANTES (Som Livre, 1974 e 1976)

Se hoje já há quem ache essa volta dos Mutantes a coisa mais sem sentido do mundo (não é meu caso), imagine o que sobrou para o período em que o guitarrista Sérgio Dias se juntou a outros músicos, a partir de 1973, e deu a essa (s) formação (ões) o nome de Mutantes. Inicialmente com Antonio Pedro (futuro baixista da Blitz), Rui Motta (bateria) e Tulio Mourão (teclados), o grupo conseguiu contrato com a Som Livre e gravou Tudo foi feito pelo sol - que, ajudado por propagandas na Rede Globo , vendeu mais que todos os discos da banda até então.

Agora a Som Livre recoloca nas lojas - com capas originais e embalagem digipack - os dois ábuns dessa fase. Tudo foi feito... bem poderia não ter recebido o nome Mutantes - não tem nada a ver com nada feito pela banda, nem que seja levado em conta o progressivo e ainda inédito até aquela época O A E O Z, já que o clima é bem outro, menos messiânico. O tom sisudo das melodias afastou o baixista Liminha, que compôs quase todo o repertório com Sérgio. Ainda assim, pode ser considerado um dos discos mais criativos do rock progressivo nacional, dosando influências de Emerson, Lake & Palmer, Yes e música instrumental brasileira, em faixas como o hard rock "Deixe entrar um pouco de água no quintal", o prog-barroco "Pitágoras" (de Túlio) e em inovações como o final rock´n roll de "Eu só penso em te ajudar" e o baixo com pedaleira de "Cidadão da Terra". Para completar, a Som Livre liberou como bônus as faixas do EP Cavaleiros Negros, a melhor coisa que essa formação dos Mutantes deixou gravada lá nos anos 70.

Em Mutantes Ao Vivo, de 1976, a casa caiu. O disco era para ser um duplo ao vivo, mas a Som Livre não deixou - e liberou pouca verba. Sérgio e Rui, ao lado de novos músicos (Paul de Castro, baixista e originalmente um guitarrista, e Luciano Alves, nos teclados), quiseram gravar um show da banda no MAM e chamaram o produtor Pena Schmidt para dar uma editada no master. Mau negócio: em quase todas as músicas se percebe tesouradas, o que torna tudo muito constrangedor, ainda mais com a péssima gravação/mixagem. O repertório meio encaretado, sem as inovações do disco anterior, completam o circo. Vale como registro histórico.

Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

Notinhas

+ Tem mais Humaitá Pra Peixe no blog da Bizz.
+ A banda carioca grandprix lança parte de seu novo EP no MySpace, com release meu. Vejam .

Terça-feira, Janeiro 23, 2007

O livro do Rei

"ROBERTO CARLOS EM DETALHES" - PAULO CÉSAR DE ARAÚJO* (Planeta)

A essas alturas, Roberto Carlos em Detalhes já deve ter virado um best-seller tão grande quanto os próprios discos do Rei - pelo menos os dos bons tempos, já que os mais recentes, em sua maioria, vendem mais pela fama e pelo nome do Rei do que por qualquer coisa. Só pra você ver, o livro do jornalista e historiador Paulo César de Araújo é a melhor coisa com o nome de Roberto Carlos a aparecer nas lojas nos últimos tempos. E nem por isso deve servir para dar um refresco na carreira do Rei, que já ameaçou o autor de processo (mas não conseguiu nada, ao que parece) e provavelmente vai seguir fazendo as coisas da mesma forma.

Ainda que o livro tenha servido para mostrar qual é o verdadeiro papel de Roberto na MPB, ainda que Paulo César tenha conseguido fazer um livro sobre a história da música brasileira tomando Roberto como um grande fio condutor, ainda que ele tenha arregimentado um verdadeiro exército de grandes nomes para falar do Rei (tem até Dorival Caymmi!), o que importa para RC é seguir na mesma linha idiota e corporativa que rege quase 100% do ramo da música no Brasil. Aqui, com raras exceções, biografar artistas, só se for pra transformar o cara num deus-astronauta. Ninguém é inimigo de ninguém, ninguém comeu ninguém (mesmo A vida até parece uma festa, dos Titâs, não explica certas fofocas que rondavam a banda nos anos 80), ninguém prejudicou ninguém, etc. E como eu sigo a teoria de que pessoas famosas não têm direito à vida particular (quem quer ter privacidade que vá ser escriturário ou contador), só me resta considerar Roberto Carlos em detalhes um dos livros mais corajosos e ricamente apurados da história da música brasileira.

Agora que Roberto deve dar uma entrevista dizendo quais foram as partes do livro que fizeram com que ele se sentisse prejudicado (ele já falou disso, afinal? disseram que ele não gostou da parte que fala sobre Maria Rita) talvez dê pra entender alguma coisa - mas já que o Rei disse que sua vida é seu "patrimônio", dá pra entender muita coisa. Seja como for, Roberto Carlos em detalhes é um puta livro e merece respeito pela trabalheira que deu e pela fluência de sua leitura. É um caso raro de livro MUITO grande - em extensão e peso - que não cansa. A história do livro começa lá na infância de Paulo César - que já era fã de RC desde a infância, quando morava em Vitória da Conquista, na Bahia - e segue pela extensa pesquisa que ele fez, consultando jornais brasileiros e estrangeiros, correndo atrás de fotos raras e buscando declarações de raridade inestimável. Tim Maia aparece falando sobre como foi, digamos, passado para trás por Roberto na época de sua primeira banda; Ronaldo Bôscoli fala sobre como as manias de Roberto zicaram sua primeira e única parceria com ele, em 1980 ("Procura-se", música pouco conhecida do LP que tem "A guerra dos meninos"), etc.

Surgem aqui e ali declarações do próprio Roberto, pinçadas sabe-se lá de onde - Paulo Cesar diz que Roberto nunca lhe deu uma entrevista, mas na própria abertura do livro diz que ele andou frequentando algumas coletivas e que chegou a ir na casa do Rei, na aba do jornalista Lula Branco Martins. Aliás, as peripécieas de Paulo César atrás da equipe do Rei devem ter sido um dos detalhes (opa) que mais irritaram Roberto, que não mexe em seu próprio time faz séculos. Ainda que, em vários momentos, sua equipe sirva até mesmo para alimentar suas próprias manias de uma forma que talvez lhe seja bem mais prejudicial do que ele imagina - o livro chega a citar aquela fábula sobre o pedreiro que chegou para trabalhar de calça marrom na casa do Rei e foi barrado na porta pela equipe (como não deve haver muitos pedreiros morando na Urca, imagine o cara voltando pra Nova Iguaçu puto da vida).

Seja lá o que for que aconteça com Roberto Carlos em Detalhes, o que importa é que o livro já é tão histórico quanto os melhores discos do Rei. A decisão da editora de manter o livro em catálogo - foi um dos primeiros projetos negociados por eles, em boca de siri total - já mostra, para quem ainda não leu o livro (tá, o preço - 60 paus - não ajuda muito...) que o trabalho realizado é sério, bem sério. Roberto, que não é um cara lá muito chegado em leitura (talvez por isso ele nem tenha vindo à público para falar detalhadamente sobre o que deixou ele tão puto assim no livro), pode até nem fazer idéia disso, mas seu "patrimônio" está em muito boas mãos.

Aliás, só ficaram duas coisas sem explicação no livro:

1) Onde foram parar Bruno Pascoal e Gato, respectivamente ex-baixista e ex-guitarrista da primeira banda de RC? No livro diz o que aconteceu na época em que eles saíram da banda, mas onde estão eles hoje?

2) Porque é que Paulo César Araújo não convidou Raul de Souza para dar depoimento no livro? Raul, hoje morando na França (ele visou recentemente o Brasil e até concedeu uma longa e ótima entrevista para o site Gafieiras), foi membro do naipe de metais do Rei por um bom tempo. Para ele meter o pau em Roberto é um palito e para contar casos escabrosoas da época, é outro. A história de quando ele pulou em cima do Rei chamando-o de "crooner do RC7" e ameaçando arrancar sua perna mecânica - ele estava puto da vida com alguns pagamentos atrasados - é de chorar de rir (saiu numa entrevista dada à revista Vip, há alguns anos).

* um erro FDP de revisão deixou que o livro aparecesse aqui como sendo escrito pelo próprio RC. Foi mal.

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Mais Humaitá Pra Peixe

A segunda semana do Humaitá Pra Peixe tá aqui.

Killers / U2*


"SAM'S TOWN" - THE KILLERS (Island/Universal)

O segundo disco da banda norte-americana The Killers era aguardado. E como. Após Hot fuss, o alegre primeiro álbum, no qual a banda unia tudo o que conhecia de Duran Duran, New Order e The Cure (este, clara influência nos vocais de Brandon Flowers) e criava hits excelentes, muita gente poderia apostar num segundo álbum melhor ainda - e a banda até que colaborou para tais expectativas, dellarando que o segundo álbum seria "um dos melhores discos de rock dos últimos 20 anos". De Sam's Town, dá pra dizer que valeu a intenção de Brandon, Ronnie Vanucci (bateria), Dave Keuiining (guitarra) e Mark Stoermer (baixo).

Gravado parte num estúdio dentro de um cassino em Las Vegas, terra dos caras, parte em Londres, o disco novo vem num tom mais "pra baixo", distante das ótimas canções do disco anterior. Deixa entrever um certo apego a "conceitualismos", que pouco têm a ver com o que se espera de uma banda festeira como os Killers. O lance é que, de qualquer jeito, é um disco ousado. A faixa-título, que abre o CD, tem um tom épico e quase operístico em alguns momentos - embora tais detalhes se encaixem na argamassa dance-rock que a banda já criara em seu disco anterior, sem muitos problemas. Logo depois, vem um "interlúdio" de piano-e-voz que convida o ouvinte a embarcar na do disco: "Esperamos que você aproveite a estada/É bom ter você com a gente/Mesmo que seja só por um dia". O mesmo tom épico continua em "When you were young", bom hit, repleto de riffs com referências power-pop, mas bem inferior a eles mesmos há dois anos.

É nessa base que a banda talvez jogue algumas duchas de água fria em vários fãs, já que mesmo os hits mais dançantes do disco são caídos, se comparados aos de Hot Fuss. O grupo tem sido acusado por muita gente de tentar copiar o U2, coisa que nem é mentira: Brandon Flowers, que já soou idêntico a Robert Smith do Cure, dessa vez imita Bono Vox direitinho - seja em "Bling (Confession of a king)", cujos riffs e arranjo também são chupação direta do grupo irlandês, seja na pesada "For reasoins unknown", a cara do U2 dos primeiros anos. Vai soar até clichê repetir o que todo mundo já disse, mas é isso aí - e provavelmente as escolhas dos produtores Flood e Alan Moulder, conhecidos por seus trabalhos com os irlandeses, não vieram à toa. Nada disso torna Sam's Town um disco fraco, chato ou vazio. As músicas são boas, mas estão distantes do que se esperava da banda em trmos de qualidade. O problema é quando um segundo álbum dá saudade do primeiro disco, da expectativa que se criou em torno dele e da alegria dos hits iniciais. Ou quando a banda vem, num segundo disco, com um número maior de canções um tanto repetitivas (e tomara que eles não queiram fazer da breguinha "Read my mind" uma "Somebody told me" do segundo disco).

Como momentos que provavelmente muita gente vai curtir, vale citar a beleza da dançante "Bones", a balada pesada "Uncle Johnny" (que, dizem, foi feita por Flowers para seu tio, que pegava pesado demais em drogas). A imitação de Bono & cia fica só na música. Flowers continua o mesmo doidão de sempre, a ponto de fazer da faixa título do disco um inventário da putaria da sua terra natal. Ainda bem, porque se Sam's town fosse um disco "cabeça" seria frustrante demais. Mas falta organização ao disco, como se fossem dez faixas (na verdade doze, mas há ainda o tal "interlúdio" e um "encerramento" quase igual) costuradas na pressa - nenhuma delas rendendo "a" grande canção que a banda precisava. O resultado é que Sam's town é um disco que talvez fosse ouvido de outro jeito se estivessem os Killers lá pelo quarto ou quinto disco. Saído logo agora, parece que o peso do "segundo disco" fez mal a eles.

"ZOO TV - LIVE FROM SYDNEY" - U2 (Island/Universal - DVD)

Ao atravessar as três horas e alguns quebrados de duração do DVD U2 Zoo TV: Live from Sydney fica a impressão de que o comportamento coxinha da maioria das bandas de rock nacional jamais permitiria a existência de um U2 aqui no Brasil. Tanto o público brasileiro quanto as bandas de rock nacional lidam muito mal com a incoerência - coisa típica de um mercado no qual os "santos" e os "demônios" ainda estão bastante claros na cabeça de todo o mundo (e os "demos" dominam a mídia de uma forma tal que é dificílimo escapar deles). Na época da turnê Zoo TV, lá por 1993, Bono e seus amigos criaram uma nova forma de discursar, que soava contundente sem largar a incoerência de lado. No show capturado para este DVD - gravado no Estádio de Futebol de Sydney, na Austrália, em 27 de novembro de 1993 - sexo, Deus, religião, televisão, mídia de modo geral, coisas de pop star, rock´n roll, egolatria aparecem em doses mais ou menos iguais.

No período de Zoo TV a banda acabara de lançar seu álbum Zooropa e estava vivendo uma nova situação no meio roqueiro mundial. Da banda de temática quase gospel dos primeiros discos - que chegou a pensar em abandonar o rock por causa de suas raízes católicas - o U2 se transformara numa poderosa máquina de fazer dinheiro, e justo a partir de seu lançamento que parecia mais inusitado e anti-comercial, Achtung Baby, de 1991. Bono, enquanto pop star que se encontra com chefes de estado, cria planos para acabar com a fome nos países subdesenvolvidos e discursa com conhecimento de causa sobre os principais problemas do universo, começou a ser forjado naquele momento. Quanto a Zoo TV saiu do papel, com seu aparato de enolouquecer (nos extras, é possível acompanhar os números: foram usados 4 videowalls, 30 monitores de vídeo, 18 projetores, 19 membros de equipe de vídeo, 12 diretores, o palco tinha 76 metros de largura e 24 pés de altura, etc), a banda já desfrutava deste novo formato - e não por acaso, muita gente chamou a nova turnê de "Sgt.Pepper's das turnês de rock", sem exagero.

A turnê foi concebida como algo em que várias informações se cruzavam ao mesmo tempo - sempre balizadas por uma frase comum a várias entrevistas da banda, e que também aparece bastante no DVD: "veja mais TV!". O resultado soava como uma grande sátira-referência-homenagem à televisão e ao excesso de comunicação que já dobrava a esquina naquele momento, com montes de monitores ligados no palco, as frases que eram disparadas na cara do público sem que ele tivesse tempo de pensar no que via ("Tudo o que você sabe é errado" virou até camiseta), trechos de telejornais que eram exibidos ao vivo (soando como sátira aos canais de notícias 24 horas).

Bono abusava de seu poder de comunicação, montando personagens diferentes (como o roqueiro arrogante e ególatra The Fly, o irônico McPhisto, que sempre tentava falar com o então presidente dos EUA, Bush pai, de um telefone instalado no palco; e Mirrorball Man, um pastor que jogava dinheiro para a platéia). Era uma revisão antenada, irônica e bem mais caótica dos espetáculos grandiloquentes de rock dos anos 70 - coisa que havia ficado famosa com Alice Cooper e David Bowie na fase Ziggy Stardust, mas que aqui ganhava outros contornos, mais perigosos, diferentes. As contradições estavam evidentes: o U2 se assumia como parte daquilo tudo, algo que estava inserido no esquema de todo aquele excesso comunicacional - e declarava seu entusiasmo pela comunicação via satélite que trazia detalhes a cada minuto da Guerra do Golfo.

Zoo TV Live from Sydney já havia sido lançado em VHS, faz tempo. O lançamento em DVD traz o original intgralmente digitalizado, com opções de áudio como PCM stereo e Dolby Digital - pelo menos aqui em casa, o som não ficou lá essas maravilhas. Musicalmente, foi a fase mais prolífica e diferenciada do grupo, com direito a hits mais dançantes e irônicos que os do começo - caso de "Even better than the real thing", "Mysterious ways" (com participação de uma dançarina do ventre), "Stay (Faraway, so close!)", "Zoo station", etc. O repertório mistura várias músicas de Achtung Baby - que aparecem até com mais destaque - algumas do Zooropa e algumas poucas de discos anteriores. A soma de tudo isso dá vontade mesmo é de estar ali no meio do povo para experimentar aquilo tudo, passar por uma vivência que, antes de qualquer julgamento, deve ter sido a experiência mais impactante que o público de rock daquele período deve ter tido.

Além do show, o DVD traz alguns documentários mostrando os bastidores da turnê, além do interessante Trabantland, que fala sobre a idéia que a banda teve de usar velhos automóveis Trabant como iluminadores na turnê. Eles já haviam aparecido no encarte de Achtung e em alguns clipes - o Trabant era um carrinho feio pra burro, econômico e durável, que era o único meio de transporte possível dentro da Alemanha Oriental antes da queda do Muro de Berlim. E pela primeira vez, aparecem imagens do Video Confessional, uma salinha do lado de forma do estádio na qual as pessoas anunciavam seus segredos para o mundo - tem desde garotos fazendo rap até meninas anunciando que se tornaram lésbicas, uma espécie de pré-reality show bem particular. No fim das contas, um DVD obrigatório como retrato de época - sem falar na grande música que o U2 fazia na época, bem distante dos discos algo repetitivos de hoje em dia.
* publicado no International Magazine.

Terça-feira, Janeiro 16, 2007

Humaitá Pra Peixe

Tá saindo minha cobertura do Humaitá Pra Peixe no meu blog no portal da Bizz.
Como eu dei uma atrasada pra colocar os textos no ar, tive que colocar os três primeiros dias juntos. Os três outros dias sairão assim também, talvez na quinta. Mas os próximos vão sair normais.

Terça-feira, Janeiro 09, 2007

Apocalyptica / Helmet*

"AMPLIFIED - A DECADE OF REINVENTING THE CELLO" - APOCALYPTICA (Universal)

A primeira década do grupo finlandês Apocalyptica está sendo comemorada com uma interessante coletânea, Amplified - A decade of reinventing the cello. Por ela dá para perceber a evolução do grupo, desde quando eram apenas quatro malucos que criaram arranjos de violoncelo para músicas do Metallica, até Apocalyptica, disco de 2005.

O Apocalyptica surgiu, na realidade, em 1993, época em que Eicca Toppinen, Max Lilja, Antero Manninen e Paavo Lötjönen estudavam na Sibelius Academy em Helsinki. A idéia original do grupo era bem mais simplificada - fazer arranjos de músicas do Metallica usando cellos. O primeiro disco, Plays Metallica by four cellos, sairia em 2006 daí o "decade" do título da coletânea. No álbum, o peso aplicado nos instrumentos é tão grande que a presença de uma banda de verdade (com guitarra, baixo e bateria) torna-se dispensável. Para ampliar a sonoridade, os violoncelos são distorcidos e fazem um som que se confunde facilmente com o de uma guitarra movida a palhetadas. É isso o que se ouve nas duas primeiras músicas, a magistral cover do grupo para "Enter sandman" e a não menos legal versão de "Harmageddon" - a primeira, tirada de Plays Metallica..., a segunda, de Inqusition symphony, disco de 1998, que já continha covers de outras bandas, como Pantera, Sepultura e Faith No More.

A fusão de metal e música clássica feita pelo Apocalytica é rica e bela sem cair na pentelhação típica que geralmente acomete os grupos que se dedicam a tais misturas - na verdade, a idéia do grupo é apenas aplicar tons eruditos a músicas pesadas, sem aporrinhar o ouvinte. Justamente por isso, "Refuse/Resist" (Sepultura) com eles, não deixou de soar podre, com violoncelos soando como serrotes - e o dado pop de músicas como "Nothing else matters" e "Master of puppets", do Metallica, não se perdeu. Todas as três músicas estão em Amplified.

Com o tempo, o grupo foi sofrendo baixas. No meio das gravações de Cult, disco de 2001, Antero Manninem saiu do Apocalyptica visando acompanhar a orquestra filarmônica de Helsinki, sendo substituído por Perttu Kivilaakso. O álbum já trazia uma sonoridade diferenciada, com bateria e percussão acrescentados aos cellos casca-grossa do quarteto, e algumas canções próprias - daí veio "Path vol.2", música em tom quase nu-metal, com Sandra Nasic, vocalista da banda alemã Guano Apes, nos vocais. Após esse lançamento, foi a vez de Max Lilja deixar o grupo, alegando problemas com Eicca Toppinen. O grupo virou trio e editou Reflections (2003), com mais material próprio e belos temas instrumentais como "Cohkka" e "Somewhere around nothing".

Apocalyptica, disco mais recente, foi considerado por muitos seu melhor trabalho, com uma sonoridade mais rock´n roll em algumas músicas, como "Life burns" - esta, trazendo nos vocais, Lauri Ylönen, da banda The Rasmus. Ville Vallo, do H.I.M., grupo metal-meio-farofa (e legal) que fez sucesso em 2001 com uma cover de "Wicked game", de Chris Isaak, canta ao lado de Lauri em "Bittersweet", outro hit do álbum. Além dos violoncelos novamente soando como gutarras, o grupo ainda acrescentou bateria a seu som.

Duas faixas da coletânea chamam a atenção de cara: "Seemann", single lançado em 2003, é uma tristonha e belíssima canção que conta com os vocais de ninguém menos que Nina Hagen. E "Repressed", música novinha e nunca lançada em nenhum disco, traz nos vocais Matthew Tuck, da banda Bullet For My Valentine, e Max Cavalera - este, numa berraria alucinada, com direito a algumas palavras em português. Enfim, são dez anos de uma mistura que tem erudição, mas não deixa de lado a podridão do som - e Amplified dá uma ótima mostra disso.

"MONOCHROME" - HELMET (Warcom)

Incrível: dando uma olhadela bem discreta no famoso site Amazon.com. - que vende CDs, mas tem uma seção de resenhas feitas pelos leitores (idéia que as lojas on-line brasileiras tentaram levar adiante, mas sem grande participação do público) vi que boa parte dos fâs da banda noaiorquina Helmet babou o ovo do novo álbum do quarteto, Monochrome.

O grupo voltou em 2004 e lançou um disco que gerou controvérsia entre fâs, Size matters - houve quem adorasse, houve quem considerasse comercial demais para a barulheira que o Helmet fizera em discos anteriores. Page Hamilton (vocais, guitarras, composições e dono da bola) se juntara com os amigos Chris Traynor (guitarra), John Tempesta (bateria) e Frank Bello (baixo) para retornar com o grupo - após o sucesso de uma coletânea, Unsung: The very best of Helmet - e editou um disco bem bacana, espremidinho entre as fases anteriores do grupo, o rock honesto de bandas como Foo Fighters e algo de nu-metal. Mas não deixou grandes marcas.

Monochrome marca o retorno do grupo ao mercado independente. A Interscope records, que recontratara a banda, deixou-a de lado, e o Helmet volta como contratado do selo hardcore Warcon. Mudanças no line up do grupo também apareceram, já que a seção rítmica mudou de novo - saíram Tempesta e Bello, entraram o batera Mike Jost e o baixista Jeremy Chaterlain. O caso é que Monochrome tem mais interesse para quem sente falta da fase inicial, totalmente indie, do grupo. A qualidade sonora lembra a de uma demo, as músicas têm menos "produção", menos acabamento do que as de outros álbuns - não por acaso, Wharton Tiers, que produziu o grupo em seus dois primeiros álbuns, voltou para co-produzir o disco novo. Mas é tudo bem mais fraco e repetitivo do que em Strap it on (1990), o primeiro LP do Helmet, ou nas gravações incluíds na coletânea Born annoying (1992). Diga-se que falar em "repetitivo" quando se fala do Helmet, sempre foi como falar em corda na casa de um enforcado: quem queria pegar no pé do grupo nos anos 90, dizia que o Helmet era "banda de uma música só", graças às suas canções baseadas em elementos recorrentes (palhetadas, paradinhas, riffs frios, etc).

Provavelmente foi a volta ao mundinho hardcore que motivou os fâs a curtir o disco, porque tudo em Monochrome soa igual, igual demais. As músicas se parecem entre si, lembram discos anteriores e pouco acrescentam - caso da pseudo-Black Sabbath "Swallowing everything", do hardcore "Brand new", da desencantada "Bury me". O suingue de Betty (1994), melhor disco do grupo, pouco aparece. De legal, o disco novo tem músicas como "Monochrome", "Money shot" e a descaralhação total de "Howl" (iniciada com um "solo" ensurdecedor de Page, que depois é repetido numa dispensável bonus track de 12 segundos), mas ainda é pouco. Monochrome soa como um craque do futebol em péssima fase, resfolegando em campo e jogando por pura obrigação. Resta saber se, já que voltou de vez, o Helmet vai melhorar ou vai continuar nessa.

* publicado em International Magazine

Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

No SeuTubo

+ Alex Antunes manda avisar que tem dois vídeos de sua antiga banda, Akira S & As Garotas que Erraram, no YouTube, aqui e aqui.
+ O jornalista Jorge Wagner, que faz o blog Canção Pobre e já teve um texto publicado aqui - uma entrevista com Jander Bilaphra, ex-Plebe Rude - avisa por e-mail: "Há uns meses eu e mais dois amigos da faculdade fizemos e filmamos a subida o Pico da Pedra d'Água, na Ilha Grande, e, com esse material, fizemos um documentário pra universidade.Se você tiver o mínimo de curiosidade em assistir isso, dê uma conferida aqui e aqui (dividimos em duas partes por causa do tamanho)".
+ Essa já apareceu no meu blog da Bizz: o grupo Eskimo, que tem como líder o ex-baixista do Los Hermanos e atual baixista do Biquíni Cavadão, Patrick Laplan, lançou um documentário sobre a gravação de seu primeiro EP - cuja resenha já apareceu aqui em algum canto do Discoteca Básica. Vejam aqui e também aqui, igualmente em duas partes.

Quinta-feira, Janeiro 04, 2007

Cabaret / Rockin Days

"CABARET" - CABARET (Rastropop)

Bati um papo rápido com Márvio dos Anjos, vocalista do Cabaret - a entrevista deverá sair no International Magazine - e ele me disse que o glam rock não pode ser visto de forma restritiva, como num lance meio Velvet Goldmine. Para ele, o glam inclui não só David Bowie e Sweet como também Ney Matogrosso, Cauby Peixoto e até Cazuza. E tudo o que você puder imaginar de dramático, espalhafatoso e roqueiro bate ponto nos shows do Cabaret - uma banda que é tão "de palco" e que encara o local como, mais do que tudo, um lugar de fantasia, que batizou a faixa de abertura de seu primeiro disco com o nome mais correto e conceitual possível: "O palco não pode ser pouco".

Em disco, o Cabaret não só não perde a graça como pode ser apreciado de outra forma: como uma ótima banda de rock. Márvio, ou Marvel (vocais), Myself de Luxe, ou Marcelo Caldas (baixo), Peter Glitter, ou Pedro Carrilho (guitarra) e Sid Licious, ou Cid Boechat (bateria) pegaram um pouco da estética rock-glam-galhofeira de sua antiga banda, o Glamourama (em faixas que restaram daquele período, como "Não desista de mim", "Um cadáver no palco" e "Se você confiar", um "Whole lotta love" todo próprio) e uniram tudo a riffs endiabrados de hard rock a la AC/DC (em "Messias pessoal", cuja letra tem um dos versos mais cafajestes, sem medo de ser feliz, do rock nacional: "fazer do amor um vício/um milagre na horizontal"), a sonoridades que lembram David Bowie, Secos & Molhados e Queen ("Brilhar" e, em especial, a nostálgica e pesada balada "O amor e a guerra") e sons entre o metal e o punk ("Copacabana full-time").

Sei que, ao final da audição de Cabaret, ao som da charmosa "Tudo que aprendi" - e vale citar as boas letras de Márvio, que ainda tem um blog bacana de poesia - a impressão que fica é a de que o Cabaret merece bem mais do que o público indie. Fosse o Brasil um país legal, e eles teriam bem mais reputação que o CPM 22 e o NX Zero -se bem que, vale lembrar, abraçar o glam rock numa época em que o gênero não está na moda nem lá fora (cadê o Darkness?), não deixa de ser um puta ato de coragem. Torçamos pela banda.

"ROCKIN DAYS" - VÁRIOS (Indie)

O disco ao lado foi gravado lá por 2005, era pra ter saído naquela época e, vai saber porque, não rolou - me contaram que só desencantou há pouco tempo. A idéia é genial: várias bandas do rock nacional, algumas conceituadas (Autoramas, Skank, Biquini Cavadão, Pato Fu, Leela), outras nem tanto (Tianastácia, Tihuana) e várias que ainda estão comendo pelas beiradas (Érika Martins & Telecats, TH3) revendo sucessos do rock internacional, em CD e DVD.

A rédea solta - apesar de produzido por Luís Carlos "Meu Bom" e co-produzido por Bruno Gouvêia, possível autor do projeto, cada grupo foi pro seu canto gravar sua participação - levou a resultados criativos e inesperados. E não é que "My generation", do Who, com o Tianastácia, ficou bem legal? "People are strange", com Uns & Outros, também soou bem. Ninguém dava mais nada pelos Raimundos, mas eles mostram carisma em "Private idaho", do B-52's. E, pra você ver, a melhor faixa é o medley de AC/DC (exclusivo do DVD) preparado pelo Tihuana - talvez pau-a-pau com a versão fofura que o Pato Fu fez de "Walking on sunshine", dos Pretenders, e com a animação de Erika & Telecats em "She loves you". E, hã? Pois é, até Chrissie Hynde, a própria, participa do disco. Em plena fase brasilianista - no meio de 2005, ela chegou a subir no palco com a Orquestra Imperial, vestida de Carmen Miranda, ou algo parecido - ela faz uma versão bacana de "Love song", do Cure, acompanhada pela turma jovem do Caê (Kassin, Moreno Veloso, Domenico e Pedro Sá). Tem também Vinny, que acompanhado de uma banda bacana, desafina direto em "Black dog" (Led Zeppelin).

No DVD, além dos clipes de cada música, dá pra curtir um pequeno documentário-entrevista com os artistas (que eles chamam de "making of", mas tem bem pouco disso). Como já era de se imaginar, o Skank chega na frente no quesito eloqüência, Chrissie Hynde quase não dá entrevista, Leela confessa a paixão pelos anos 90, Erika Martins manda bala na devoção à jovem guarda e vai por aí. Pra não esquecer: 1) Gabriel Thomaz (Autoramas) dançando "Blue suede shoes" com categoria de anos 50; 2) Um dos músicos do Biquini Cavadão sendo sacaneado pelos colegas ao confessar que ouvia Julio Iglesias na infância; 3) Moreno Veloso, ao ser perguntado sobre sua banda preferida, respondendo "pô, eu adorava Police... mas eu gostava mais de Paralamas...". Pano rápido!

Terça-feira, Janeiro 02, 2007

Soul Asylum


"THE SILVER LINING" - SOUL ASYLUM (Sony)

Só fui prestar atenção no Soul Asylum por influência de um antigo leitor do Discoteca Básica, o Walis Oliva, e por intermédio de um amigo meu do site Dying Days, o Alexandre Luzardo, que me mandou toda a discografia do grupo em mp3. O Soul Asylum, que já foi bem comparado aos seus conterrâneos do Husker Du, parece uma daquelas bandas que foram feitas para dar errado, mas que, por insistência, acabaram chegando lá. "Lá", não se sabe direito onde. Talvez no coração de vários fâs que não esquecem o grupo e que já estão com o CD-R de Silver lining gasto de tanto rodar no CD player. O sucesso avassalador sorriu pouco para eles nos anos 90: no momento em que a banda parecia galgar uma posição superior no pop mundial, a mídia toda voltava as costas para o Soul Asylum, como se fossem bobocas demais para serem alternativos - e olha que eles só conseguiram ser devidamente "vendidos" quando o termo passou a ser cuspido por aí - e "filhotes do Nirvana" demais para serem vendidos como banda de pop rock.

Em Silver lining, disco feito em condições adversas (o baixista Karl Mueller morreu de câncer durante as gravações - chegou a participar do disco, mas logo adoeceu), o sentimento de que "tem algo errado aí" continua. O disco novo do Soul Asylum é bom, aliás pode ser que conquiste até gente que nunca ouviu a banda. Mas com certeza vai atingir o público errado, com suas melodias cheirando a soft rock dos anos 70, seus vocais rouquinhos a la Bon Jovi e suas melodias entre o folk e o power pop - e tendendo mais para um lado do que para o outro, em belas faixas como "Stand up and be strong" (primeiro single, uma homenagem ao baixista falecido), "Oxygen", "The great exxagerator", a balada gospel-soturna "Good for you" e a distorcida "Slowly rising", que fecha o disco quase como um recado deles para eles mesmos (note o título).

Soa como se o grupo não conseguisse reproduzir o som que talvez esteja dentro de suas cabeças - já era uma sensação que rondava a audição dos melhores discos da banda, quando o som de Dave Pirner e seus amigos tendia entre punk e Bruce Springsteen, entre Cheap Trick e Nirvana, etc. Ou como se o mix de punk, pop songs e folk que o grupo sempre fez - desde o comecinho era o tipo de som que batia ponto em vários discos do SA - fosse algo que precisasse de um "trabalho" a mais. Não, peraí, não falo de centros de umbanda. Falo de algo que talvez demande uma outra visão de quem vende o som, ou quem sabe de uma forma do público se acertar com o som deles (algo que eles vinham consguindo na época de "Runaway train"). Algo que talvez se explique hoje, com bandas farofa como o Darkness sendo levadas a sério pela crítica, jornalistas musicais buscando entender o som de Roberto Carlos e até Bon Jovi sendo considerado um puta compositor pop por gente que, há anos, estaria cagando em sua cabeça.

O certo é que Silver lining, no que depender de boas canções e de uma banda nos cascos - apesar de todos os reveses (não foi o Soul Asylum que perdeu um disco praticamente pronto nos furacões da Flórida, em 2005?), está aí para alegrar corações. Do resto, só podem cuidar a boa vontade do grupo ou aquilo que Nelson Rodrigues costumava chamar de "Sobrenatural de Almeida" (em referência ao inexplicável no futebol - e só o inexplicável pode dar conta de um provável sucesso estrondoso do Soul Asylum nos dias de hoje).